Consequência e reflexões sobre a Guerra do Contestado são tema de evento

 

O ano de 2016 marca o centenário do término da Guerra do Contestado, conflito armado que ocorreu na região Sul do Brasil, entre outubro de 1912 e agosto de 1916, e que por muito tempo foi subestimado pelos pesquisadores, negligenciado nos livros escolares e discriminado pela própria população. Para reverter o processo, o Câmpus Canoinhas tem investido na discussão do tema em várias vertentes. Neste mês, foi a vez da arte conduzir as discussões e humanizar o debate.

No último dia 9 de dezembro, o evento “Guerra do Contestado: consequências e reflexões” usou literatura, teatro, dança, folclore e gastronomia para contar os bastidores da história e revelar a força dos sertanejos. “Por muitas décadas, acreditou-se que a Guerra do Contestado representava apenas uma luta armada entre jagunços fanáticos e as forças militares”, explica o servidor Ricardo de Campos, que coordenou o projeto.

Conforme Ricardo, pesquisas mais recentes revelam que o conflito não teve apenas um cunho religioso. “Foi também a resistência do caboclo sertanejo contra um projeto capitalista de desenvolvimento apoiado pelo jovem governo republicano, que não respeitou os direitos, costumes e crenças dos moradores da região”, complementa.

Cotidiano e rimas

A história em prosa e verso foi contada por meio da apresentação de textos premiados no concurso “O Contestado com todas as letras”, realizado pela Academia de Letras do Brasil – Seccional Canoinhas junto às escolas do município e da região. A representante da Academia, Maria de Lourdes Bremer, a professora da rede municipal, Lilian Friedrich, e a professora de Artes do Câmpus Canoinhas, Micheline Raquel de Barros, apresentaram os trabalhos “Memórias do Contestado”, de Danielli Silveira de Lima, da Escola Irmã Maria Felícitas; “Poesia em meio à guerra”, de Fabiane Gomes de Camargo, da Escola Júlia Baleoli Zaniollo; e “Relato de guerra, memórias da terra”, de Maiara de Fátima Machado, da Escola de Educação Básica Tempo Feliz.

O aluno do ensino médio da Escola Básica Almirante Barroso, Flávio José de Castro, apresentou seu próprio trabalho: “Os trilhos da vida”, conto escrito a partir de uma intensa pesquisa histórica. “Sempre gostei da história do Contestado e gostei mais ainda de escrever sobre o tema”, conta o jovem de 16 anos.

Durante o evento, ele teve a companhia do pai, José Lourival Ferreira de Castro, de 60 anos, que faz questão de estar junto do filho para estimulá-lo. “Eu entendo assim: toda história é uma raiz que traz marcas para o futuro. Conhecer a história de Canoinhas nos dá mais forças para avançar”, ressalta seu José, de quem o filho herdou o gosto pelos fatos históricos e o “jeito” com as palavras.

Durante o sarau literário, a professora de Inglês do Câmpus, Márcia Kawamoto, apresentou a crônica “Minha Araucária”, do aluno Ernani Antonio Wolter Junior, do 1º ano do curso técnico integrado em Alimentos do Câmpus Canoinhas, que ficou entre os alunos selecionados para a etapa estadual da 5ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro.

Já a perspectiva religiosa da Guerra do Contestado foi levada ao palco pelo artista regional Agostinho Kryszyszyn, que interpretou o monge João Maria, um dos mais importantes líderes espirituais da época. Na interpretação, o ator apresentou parte dos ensinamentos e profecias deixados pelos monges peregrinos aos moradores da região do Contestado, com base nos discursos humanitário, ambientalista e anticapitalismo que deram origem aos movimentos sociais.

A parte cultural contou ainda com a apresentação dos músicos Marcelo Tokarski e Pablo Zucco e de uma dança folclórica chamada “Bailes populares”, realizada por alunos do Grupo Escolar Municipal Reinaldo Kruger, coordenados pela professora Ana Claudia de Barros e pela pedagoga Liliane Knop Machado.

Dedo de prosa

A tradicional roda de conversa também foi um dos atrativos usados pela organização do evento para entender a Guerra do Contestado em diferentes perspectivas. Entre um chimarrão e outro, o servidor Ricardo de Campos mediou o bate-papo entre o professor da Universidade do Contestado (UnC), Alexandre Assis Tomporoski, que é mestre e doutor em História do Contestado; o professor Eloi Giovani Muchalovski, mestrando em História e Regiões; o diretor de Turismo da Prefeitura de Canoinhas e membro da Associação Canoinhense de Turismo Rural, Marcelo Tokarski; e o professor de Filosofia do Câmpus Canoinhas, Mauro Antônio do Nascimento.

Dentre os temas debatidos pelos historiadores, destaque para a necessidade de se reverenciar a história a partir dos verdadeiros heróis, os caboclos, e não pelos coronéis que causaram a guerra, e de se trabalhar pela valorização da identidade cultural dos descendentes dos sertanejos e da população local.

Neste sentido, a contribuição da diretora do Câmpus Canoinhas, Maria Bertília Oss Giacomelli, foi muito proveitosa. “A maior riqueza de Canoinhas está no seu povo, mas ele não se valoriza. É mais fácil para quem vem de fora enxergar toda esta riqueza do que para quem mora aqui.” A afirmação teve a concordância dos demais. “Precisamos trabalhar o sentimento de pertencimento”, destaca Tomporoski.

Para isso, um dos primeiros aspectos a serem compreendidos, conforme professor Mauro, é a visão positiva da resistência dos sertanejos. “O povo tem direito à revolução quando o Estado não atende a seus direitos”, enfatiza. Segundo o professor, este entendimento ajudaria a diminuir o preconceito contra os caboclos.

O processo de resgate da identidade também ajudaria no estímulo ao desenvolvimento local. “A região do Contestado sofre até hoje os reflexos do conflito. Não é à toa que temos os índices de desenvolvimento humano (IDH) mais baixos de Santa Catarina”, comenta professor Eloi. O investimento em turismo pode ser uma das alternativas para o desenvolvimento econômico e social da região. “Temos uma região rica e bonita, com grande potencial turístico. Mas, primeiro, é preciso que o povo acredite nisso. Se acreditarmos, nós poderemos fazer”, destaca o diretor de Turismo de Canoinhas.

O aposentado Alceu Tomporoski, de 73 anos, aprovou a discussão. “Estudei na escola durante 17 anos e nunca ouvi falar do Contestado.” O que ele aprendeu sobre o conflito durante a infância foi pelos avós, que tinham uma visão preconceituosa do movimento. “Eles falavam sempre dos jagunços fanáticos. Mas, com o tempo, vi que isso não é a verdade. Temos que resgatar nossa verdadeira história.”

 

Reflexão contínua

 

A instalação de um câmpus do IFSC em Canoinhas é considerada pelos pesquisadores como um dos mais importantes estímulos ao desenvolvimento regional dos últimos anos, tanto por proporcionar educação e qualificação profissional quanto por incentivar o debate. “A educação promove a interpretação do presente a partir do contexto histórico, para que as novas gerações entendam e tenham orgulho de sua história”, salienta Ricardo.

 

Sua paixão pela história e pela literatura tiveram como fruto a publicação do livro “Caboclos rebeldes: uma aventura pela Guerra do Contestado”, lançado de forma impressa durante o evento. A versão on-line, para ser baixada gratuitamente, está disponível desde o primeiro semestre. O enredo apresenta pitadas de ação, suspense e romance junto com informações e dados históricos sobre o movimento.

 

Para escrever o livro, o autor dedicou quatro anos em leituras e pesquisas bibliográficas. “O principal objetivo do livro é oferecer uma alternativa para todos aqueles interessados em conhecer melhor este acontecimento que marcou a história não somente de Santa Catarina, mas também do Brasil e da América Latina”, explica.

 

Durante o encerramento, foi servido um prato típico da região, a quirera tropeira, enaltecendo mais uma vez o aspecto cultural do projeto, contemplado pelo Edital 11/2016 – Mostra de Arte e Cultura Didascálico, lançado pela Pró-Reitoria de Extensão do IFSC.

 

Por Liane Dani | Jornalista IFSC

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