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IFSC promove evento sobre consumo consciente de alimentos

CÂMPUS LAGES Data de Publicação: 13 jun 2018 16:59 Data de Atualização: 13 jun 2018 17:18

O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com o consumo de alimentos saudáveis, que foi um dos temas discutidos durante o evento “O reencontro da cidade com o campo: discutindo o papel do consumidor no consumo consciente de alimentos”, realizado no Câmpus Lages do IFSC. O evento aconteceu no sábado, 9, e teve a participação de aproximadamente 100 pessoas.

Atualmente fala-se sobre aumento da expectativa de vida, mas, segundo a agrônoma Claudia Petry, que ministrou palestra no evento, o que existe é um aumento de sobrevida. “Olha quantos remédios as pessoas estão tomando. Se eu realmente estou me alimentando corretamente, eu não preciso de remédio”, disse. A agroecologia pode colaborar para essa mudança, segundo ela, junto ao consumo consciente dos alimentos.

Na visão da agrônoma, consumo consciente é saber o que está sendo ingerido, de onde veio e a situação social da produção. “É importante estar de bem com o alimento que você está consumindo, porque você tem certeza que ele vai estar o mínimo contaminado possível e que veio de uma produção justa”, comentou.

O preço e a falta do conhecimento correto ainda aparecem como “vilões” na hora da escolha dos alimentos. A dica de Cláudia é saber onde está o agricultor e comprar diretamente com ele ou em cooperativas de agricultura familiar para ter o preço justo. A busca pela informação, segundo a agrônoma, é limitada porque as pessoas “terceirizam” o raciocínio - deixam para outra pessoa decidir por si. “É assim que  surge a dieta da moda. Orgânico não é dieta da moda. Para uma agricultura ecológica dar certo o mercado precisa de consumidores conscientes”, afirmou. Ela explicou que o diálogo da universidade com a comunidade é fundamental para o acesso à informação e a escolha por alimentos da região desenvolve o mercado local.

Circuitos curtos de comercialização

Em países como a Itália, o frescor do alimento é muito valorizado. Nesse país existe o movimento “km zero”. A ideia é reduzir o tempo da colheita até a cozinha, buscando outra qualidade. O agrônomo Oscar Rover tratou dessa aproximação entre produção e consumo de alimentos saudáveis e citou um trabalho científico de duas pesquisadoras espanholas, que mostra que, nos dias atuais, a palavra que melhor caracteriza os sistemas agroalimentares e sua relação com o consumo é a desconfiança. Isso está ligado ao comportamento dos consumidores na decisão em relação aos alimentos: o que fazer, o que comprar e como comprar. “A confiança gera uma aproximação comercial que colabora para a estabilidade de mercado”, comentou Oscar.

Atualmente acontece a “virada para a qualidade”, fase de resgate à centralidade do alimento, que deixa de ser uma mercadoria qualquer. O movimento vai contra o processo da excessiva industrialização e produção das mercadorias em massa. Existem noções de qualidade que estão em conflito, segundo Oscar, pois quem consome produtos industrializados pensa em qualidade sanitária, que existe um controle nos alimentos, mas essa virada valoriza outros componentes também. “Não basta não ter organismos contaminantes. O frescor é uma das características valorizadas”, explicou.

Oscar comentou que os consumidores procuram: produção de determinado alimento durante todo o ano, diversidade, preço acessível e características próximas da sua natureza. “Criar um ponto de entrega, onde muitos tenham acesso, facilita o comprador e o produtor não gasta um dia inteiro entregando de casa em casa”, finalizou.

A dinâmica de aproximação entre produção e consumo, surge pelo interesse dos consumidores, redes agroalimentares alternativas e grandes corporações desse mercado. No Brasil, um circuito curto é de aproximadamente 200 quilômetros.

Acesso aos produtos

O Centro Vianei de Educação Popular é uma entidade sem fins lucrativos que desenvolve desde 2016 o projeto “Consumidores e agricultores em rede”, cujo objetivo é gerar consciência sobre o alimento que as pessoas estão consumindo, segurança, soberania alimentar e nutricional e promoção da agroecologia. O projeto foi tema de uma das palestras do evento.

Para comercialização de cestas agroecológicas, o Vianei fez uma  parceria com a  cooperativa Ecoserra.  As cestas agroecológicas possuem produtos de agricultura familiar, orgânicos e certificados. Uma lista de produtos é disponibilizada semanalmente, e o pedido é feito até as 17h da segunda-feira. As cestas são distribuídas conforme os pedidos, na residência de cada consumidor.

A cooperativa tem 432 cooperados de 18 municípios da região serrana,  que trabalham na construção de uma alimentação saudável. Inicialmente eram 16 consumidores, cinco fornecedores certificados e 30 produtos ofertados. Atualmente são 169 consumidores, 20 fornecedores certificados e 100 produtos disponibilizados.

Confira mais informações no site da Ecoserra.

Núcleo de Estudos em Agroecologia (NEA)

O Câmpus Lages do IFSC tem o Núcleo de Estudo em Agroecologia e Agrobiodiversidade do Planalto Catarinense (Neaaplac), que busca construir a agroecologia e valorizar, conservar e manejar a agrobiodiversidade. O núcleo é formado por professores, pesquisadores, estudantes, agricultores e colaboradores e conta com ações de extensão, palestras e eventos. A missão do NEA do Câmpus Lages é melhorar os aspectos produtivos agrícolas, com foco sustentável, e a qualidade de vida da população.

O coordenador do NEA do Câmpus Lages, Fernando Domingo Zinger, comentou que toda produção do câmpus é sem o uso de agrotóxicos. “Aqui no câmpus, através do NEA e dos cursos ofertados, procuramos mostrar que em um pequeno espaço as pessoas podem produzir variedades de plantas, respeitando o ciclo de crescimento e comercializando produtos de qualidade”, explicou. As  hortas do câmpus são objeto de estudo para artigos científicos, que analisam a qualidade nutricional e comprovam a vantagem dos produtos orgânicos.

A palestrante Cláudia Petry abordou a importância de existir o Núcleo de Estudos em Agroecologia (NEA) nas instituições de ensino superior. “É assim que se legitima a agroecologia no espaço acadêmico. É o lugar para o estudante encontrar-se com o tema”, explicou.

O NEA trabalha do consumidor ao agricultor. “O papel do NEA também é esclarecer que primeiramente a pessoa é usuária. Por que eu não posso vender a mesma horta que eu consumo?”, concluiu.

O Reencontro da Cidade com o Campo foi organizado dentro da disciplina de extensão rural do curso técnico em Agronegócio e apoiado pelo Núcleo de Estudos em Agroecologia (NEA) do Câmpus Lages. “É preciso um olhar mais voltado para a agricultura familiar e orgânica. É assim que se posiciona nosso câmpus”, disse o diretor-geral do Câmpus Lages, Thiago Meneghel. No intervalo o público pode ter acesso aos produtos em uma feira agroecológica disponibilizada no hall de entrada. 

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