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Agrotóxico: falso lucro que leva à incerteza de produção

PESQUISA Data de Publicação: 12 abr 2019 13:35 Data de Atualização: 17 abr 2019 13:49

“A mortalidade desses insetos ocasiona de imediato uma redução na produção e na qualidade do alimento, além de um impacto negativo na cadeia produtiva de mel, da qual muitos agricultores dependem”. A afirmação é do engenheiro agrônomo, doutor em Produção Vegetal e coordenador do curso superior de Tecnologia em Gestão do Agronegócio do Câmpus Lages, Fernando Zinger, sobre mortalidade de abelhas, registrada desde janeiro passado em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e atribuída ao uso de agrotóxicos. Assim, o uso desses produtos químicos pode, inicialmente parecer lucrativo, mas a longo prazo, passa a ser incerteza. Segundo dados revelados pela Secretaria de Estado de Agricultura e Pesca, foram perdidas cerca de 20 milhões de abelhas em 300 colmeias, nas cidades de Canoinhas, Monte Castelo, Rio Negrinho e Itaiópolis, todas no Planalto Norte.

Para Zinger, que atua também com fitoquímicos, manejo fitossanitário de pragas e doenças de importância agrícola, a mortandade crescente desses insetos gerará um efeito cascata para a agricultura e meio ambiente, que pode levar anos para que haja a recuperação total do processo de polinização. 

“As abelhas desempenham um papel importantíssimo para a sobrevivência das espécies vegetais e principalmente a humanidade. Através do seu trabalho diário de coleta de néctar e pólen faz-se a polinização de espécies vegetais agrícolas e nos diversos ecossistemas naturais. As abelhas polinizam a maioria das espécies cultivadas pelo homem, e o resultado desse processo, chega a nossas mesas diariamente”, ressalta Zinger. 

Canoinhas, no Norte do estado, registrou inicialmente a perda de cerca de 80 a 150 colmeias, o que equivale a aproximadamente 8 milhões de abelhas mortas. A coordenadora do curso Técnico em Agroecologia do Câmpus Canoinhas, Magali Regina, destaca que além do próprio mel que é um produto de destaque nas exportações de Santa Catarina, a morte das abelhas interfere também na produção de frutíferas, por exemplo, macieiras e ameixeiras, além de outras plantas nas quais elas são responsáveis pela polinização.

“Considerando a quantidade de colmeias e sua produção como mel, pólen e geleia real podemos estimar que cada produtor teve um prejuízo de cerca de R$ 20 a 40 mil. Além disso muitos produtores de mel alugam suas colmeias para os produtores de frutíferas o que gera uma renda extra”, conta ela. 

Conforme dados da Federação das Associações de Apicultores e Meliponicultores de Santa Catarina (Faasc), a média da produção de mel catarinense é de algo em torno de 6 mil toneladas por ano, já chegando a 8 mil toneladas na safra 2015/2016, um recorde que marcou SC com a melhor produtividade do país. A Federação salienta ainda que a apicultura está presente em 98% dos municípios catarinenses, com aproximadamente de 30 mil colmeias distribuídas entre mais de seis mil apicultores.

Água

Uma solicitação do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) também revelou que 22 cidades catarinenses, de uma amostra de 100 municípios da Grande Florianópolis, Oeste, Sul, Vale do Itajaí, Norte e Serra, estão recebendo água com resquícios de agrotóxicos. São elas: Balneário Camboriú, Balneário Gaivota, Balneário Piçarras, Balneário Rincão, Coronel Freitas, Gravatal, Ibirama, Ilhota, Itapema, Ituporanga, Jaguaruna, Joinville, Mafra, Massaranduba, Orleans, Porto União, Rio do Sul, Schroeder, Itaiópolis, Rio Negrinho, Taió e Tubarão. 

O professor e coordenador do curso superior de Tecnologia em Gestão Ambiental do Câmpus Garopaba, Juliano Gomes, adverte que a água possui rotas, conforme seu uso, e que  alteram sua qualidade em cada etapa desse percurso. Ou seja, a água dos rios recebe matéria orgânica em decomposição das matas e florestas, enquanto que nas cidades e nos campos, ela recebe despejos de efluentes industriais, de drenagem e de esgoto urbano, assim como de agrotóxicos e de fertilizantes da agricultura. 

Dessa forma, os agrotóxicos podem chegar aos rios pela chuva, pela pulverização aérea, ou pela absorção do solo, contaminando assim o lençol freático. O professor do Câmpus Lages também citou essa contaminação dos mananciais hídricos superficiais e subterrâneos, como consequência do uso de agrotóxicos.

“Os inseticidas podem se acumular nos tecidos da flora e da fauna do ecossistema e serem transportados ao longo da teia alimentar, eliminando tanto os organismos alvos quanto os não alvos. Da mesma forma que podem se acumular no solo, nas águas subterrâneas e superficiais, e nos sedimentos, sendo potencialmente transportados pela água e pelo ar para áreas locais, regionais e até para países vizinhos. Isso pode representar ameaças a outros ambientes, que estão longe do ponto de contaminação”, alerta Gomes, que já atuou em gestão de efluentes líquidos e atmosféricos, gestão de resíduos sólidos, licenciamento ambiental, e recuperação de áreas degradadas. 

Controle

Juliano destaca que dentre as medidas para amenizar os impactos decorrentes da aplicação de agrotóxicos estão a implementação de políticas públicas mais restritivas quanto ao uso, tendo como base aquelas realizadas em países desenvolvidos que já possuem o entendimento do prejuízo causado pelos agrotóxicos. Priorizar investimentos em pesquisa e produção de alimentos orgânicos e na agroecologia, visando uma mudança gradual de matriz produtiva; e recuperar, sob responsabilidade do poluidor, os ambientes afetados por agrotóxicos também estão entre ações de controle para atenuar a ação de agrotóxicos; da mesma maneira, como o  licenciamento ambiental obrigatório para todos os segmentos do agronegócio, incluindo o tratamento dos resíduos e efluentes gerados nos processos, e a penalização dos infratores de acordo com a legislação ambiental vigente. 

Prestar atenção à direção dos ventos, aplicar agrotóxicos no final do dia, quando a atividade das abelhas é menor e seguir o que estabelece as bulas dos inseticidas são cuidados a serem tomados na aplicação dos produtos. Zinger também relaciona utilizar equipamento de proteção individual (EPI), como macacão de PVC, luvas e botas de borracha, óculos protetores e máscara contra eventuais vapores, recomendando a substituição imediata da vestimenta em caso de contaminação. “Não trabalhar sozinho quando manusear produtos tóxicos e não permitir a presença de crianças e pessoas estranhas ao local de trabalho; preparar o produto em local fresco e ventilado, nunca ficando à frente do vento; evitar inalação, respingo e contato com os produtos; e não beber, comer ou fumar durante o manuseio e a aplicação dos tratamentos são orientações importantes”, afirma. 

Efeitos colaterais

Os exames realizados, tanto nas colônias de abelhas quanto na água dos municípios catarinenses, apontaram a presença de Fipronil, inseticida de uso veterinário e agrícola, aplicado em diversas culturas. Ele é um ativo de ação lenta, que quando misturado a uma isca, permite que ela retorne a sua colônia e infecte os demais membros com uma taxa de sucesso de cerca de 95% em 3 dias para formigas e baratas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o pesticida como moderadamente perigoso, pois o consumo pode afetar o sistema hepático, renal e a tireoide, além de causar vertigens, náuseas e vômitos.

Juliano esclarece que a exposição humana a inseticidas pode resultar em uma série de efeitos prejudiciais ao Homem, com a extensão do dano dependente do tipo de inseticida e/ou do nível de ingestão. Ele menciona a safra de 2017/2018 no Brasil, que produziu aproximadamente 228 milhões de toneladas de grãos e consumiu quase 500 mil toneladas de agrotóxicos. No período de 2007 e 2017, segundo suas citações, foram 40 mil casos de intoxicação aguda e cerca de 1900 mortes. 

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