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Congresso do Contestado: é preciso superar o processo de exclusão

CÂMPUS CAÇADOR Data de Publicação: 13 jun 2019 17:59 Data de Atualização: 18 jun 2019 10:13

Está sendo realizado em Caçador o primeiro Congresso Nacional do Contestado, evento científico sobre um dos maiores conflitos civis brasileiros. De 12 a 15 de junho, reunem-se pesquisadores, estudantes, professores, escritores e demais interessados nesse capítulo histórico que teve o Oeste de Santa Catarina como palco.

Muito mais que relembrar os fatos, o Congresso do Contestado é uma oportunidade para se entender a natureza do conflito e suas implicações no presente. Segundo o conferencista de abertura, professor doutor Donaldo Schüler, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o Brasil ainda não superou o processo de exclusão que deu origem à Guerra do Contestado, o que se constata nos altos índices de pobreza e baixa escolarização. “A estrada de ferro que ligou o centro ao sul do País provocou o desmatamento e a desapropriação de pessoas que estavam morando há milênios na floresta. Eles ficaram sem alimentação, sem abrigo, sem emprego, sem a possibilidade de serem absorvidos pela nova sociedade que estava se formando”.

Segundo o professor, o grande número de pessoas analfabetas e com baixo grau de instrução representa a exclusão na atualidade, por isso a sociedade e, especialmente, o poder público, precisa atuar para que esta população não fique “à margem” do mercado de trabalho. “Incluir essas pessoas é muito difícil, pois não tiveram escolaridade suficiente para desempenhar as funções exigidas atualmente. Mesmo em Santa Catarina, um dos estados mais ricos, ainda há um alto índice de pobreza e de fome. Então, coisas que provocaram o conflito do Contestado continuam existindo”, ressalta. “Evoluímos, mas ainda estamos longe da meta que devemos atingir”.

Natural de Videira, Schüler é autor do romance “Império Caboclo”, que escreveu a partir de memórias de contatos com caboclos que frequentavam a bodega de seu pai e por meio de pesquisas em livros e conversas com conhecidos. Ele afirma que a Guerra do Contestado, apesar de ser um dos maiores conflitos civis brasileiros, maior que a Guerra de Canudos, ainda não tem seu lugar devido na história, por isso a importância da pesquisa acadêmica e a realização de congressos sobre o tema.

O professor alerta que, o mais importante, porém, é abordar a questão humana, o combate à concentração de capital e à marginalização de grande parte da população. “Em um paralelo com o Contestado, o problema da sociedade atual não é policial, mas um problema social. Naquela época, não se deu atenção às necessidades das pessoas que foram afetadas por esse processo civilizatório que beneficiou uns e prejudicou outros, com as consequências que teve. Então, o erro está se repetindo: está se considerando um problema policial aquilo que é um problema social”.

Quase mil inscritos

O evento, organizado pelo IFSC Câmpus Caçador, IFC Câmpus Videira, Udesc e Prefeitura Municipal de Caçador, conta com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) de cerca de R$ 100 mil. Assim, foi possível fazer um evento totalmente gratuito para os participantes. Os recursos estão sendo utilizados para a promoção de atividades iniciadas em outubro de 2018 e se estenderão por um ano. Também conta com o apoio da UFSC, UEL, Unespar, Unoesc e Museu do Contestado.

O organizador-geral William Douglas Gomes Peres conta que eram esperadas cerca de 200 inscrições. Porém, o primeiro dia do evento iniciou-se com quase mil inscritos, o que fez com que a coordenação mudasse o local do Câmpus do IFSC para o espaço de eventos da CDL Caçador no Parque das Araucárias.

O evento conta com 23 palestrantes e participantes de mesas-redondas de todo o Brasil e apresentação de 80 trabalhos científicos em sete eixos temáticos, um número expressivo por se tratar do primeiro evento científico exclusivamente sobre o tema. “Pela primeira vez é realizado um evento desse porte aqui, na casa do Contestado”, destaca William. A intenção é tornar o Congresso um evento anual e itinerante, sendo a próxima edição em Videira.

A cerimônia de abertura no dia 12 contou com a presença de autoridades locais e representantes das entidades parceiras, além da conferência do professor Donaldo Schüler e uma apresentação musical. O diretor do IFSC Câmpus Caçador, Eduardo Nascimento Pires, destacou as parcerias para a realização do evento e os legados do Congresso, como aumentar o número de publicações científicas sobre o tema, analisar as consequências de como a guerra afetou as relações sociais na região e, principalmente, fomentar o debate sobre a melhoria de vida dos excluídos.

Veja a programação completa no site do evento.

A dor traduzida em cor

A professora do IFC e coordenadora do Núcleo de Estudos do Contestado do Câmpus Videira, Márcia Schüler, também é artista plástica. Suas aquarelas estão expostas no hall de entrada do Congresso, no Parque das Araucárias. Também é de sua autoria o retrato de Maria Rosa, que foi transformado em identidade visual do evento.

Natural de Videira e prima de Donaldo Schüler, inspirou suas obras no livro “Império Caboclo”, que a estimulou a conhecer mais sobre a história da região e também a pintar. Assim, foi descobrindo histórias de muito sofrimento, que acabou traduzindo em cor, nas suas aquarelas. “A gente pisa em sangue caboclo e eu não tinha noção disso. Então, cada aquarela representa uma dor minha, uma dor colorida, agora”, conta.

Segundo Márcia, muito dessa história foi esquecida, não houve interesse em que se perpetuassem. Agora, as pesquisas estão resgatando essa história de dor do povo caboclo. “A ideia das aquarelas é trazer um colorido, uma nova esperança, para que possamos transcender e criar uma nova história, fazer novos dias, a partir de eventos como esse. Precisamos fazer aflorar essa nossa identidade, afinal, todos somos caboclos do Contestado. Quem tem na sua identidade a nacionalidade brasileira não é alemão, não é italiano, é caboclo, que o povo originário da região”.

Associações contribuem com a preservação histórica

Além da pesquisa científica, a própria comunidade regional preocupa-se com a preservação da história do Contestado. Um dos exemplos é a Associação Cultural Coração do Contestado, de Lebon Regis. O presidente, Carlos Nedir Veiga da Silva, explica que alguns amigos reuniram-se para preservar a história do município, onde encontram-se alguns dos maiores sítios históricos do conflito.

Assim, alguns locais estão recuperados e preservados, objetos históricos preservados e registro de depoimentos de pessoas da região. A maior conquista, segundo Neri, é a criação da logomarca “Coração do Contestado” e criação da Lei Estadual que nomeia Lebon Régis como o “Município Coração do Contestado”.

A Associação realiza ainda várias atividades culturais, como a Semana do Contestado, especialmente em parceria com escolas. Algumas delas vão se apresentar durante o Congresso do Contestado.

A intenção agora é criar um museu em Lebon Régis. Segundo Neri, ainda há muita coisa a se descobrir sobre o Contestado, o que precisa do envolvimento de todos. “A partir da Semana do Contestado que realizamos, o povo de Lebon Régis ganhou uma autoestima, não tem mais vergonha de se sentir caboclo e de se vestir como caboclo”.

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