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Psicólogos debatem cinema, jogos, música e poesia para conseguir conversar sobre o distanciamento social com estudantes

ENSINO Data de Publicação: 04 jun 2020 13:15 Data de Atualização: 04 jun 2020 19:19

Em dias “normais”, muitas vezes já é difícil conversar e tentar compreender o turbilhão de pensamentos e emoções que habitam em nós normalmente, imagina conseguir lidar com o momento atual dentro de nós, de distanciamento social e incertezas, em razão do coronavírus e da vida. Aquela “luz” de compreensão e calmaria costuma surgir com o auxílio de profissionais como os psicólogos, que dentro do IFSC, têm acompanhado os estudantes dos câmpus.

De forma geral, os psicólogos têm criado grupos online para conversar com os estudantes e, em alguns, os profissionais das coordenadorias pedagógicas também colaboram. Como conversar sobre saúde mental nem sempre é confortável, os servidores do IFSC têm inovado nesses espaços, especialmente com a utilização de recursos lúdicos. Em Chapecó, o principal recurso para iniciar as conversas é o cinema; em São Miguel do Oeste são os jogos online; e em Xanxerê, a música e a poesia. 

SMO: psicóloga decide participar de jogos online 

No Câmpus São Miguel do Oeste, a psicóloga Aline Pickler iniciou o acompanhamento online dos estudantes no início do distanciamento social. Conforme os encontros foram ocorrendo, a psicóloga percebeu que os alunos interagiam pouco, então, ela aceitou um convite, começou a participar de jogos online e utilizá-los como recursos lúdicos para os estudantes se expressarem.

A história começou quando chegaram os primeiros pedidos de auxílio: “muitos estudantes estavam angustiados, com dificuldades em acompanhar as atividades enviadas pelos professores, dificuldade na convivência com os familiares, dentre outros problemas”, relata a psicóloga. A partir desses e outros assuntos, Aline decidiu realizar webconferências com as turmas dos cursos integrados ao ensino médio. 

Porém, conforme as reuniões online foram ocorrendo, a psicóloga percebeu que a interação dos estudantes era tímida. Foi aí que ela teve a ideia de deixar livre o assunto em uma das reuniões. “A partir desse momento a interação e o vínculo com eles foi aumentando. Foi então que fui convidada para participar de jogos online (Gartic e Minecraft)”, conta.

Aline, então, aproveitou a oportunidade como um recurso lúdico. “Percebi que no momento das partidas, eles conseguiam falar de suas angústias sem perceberem. Terminavam o encontro mais alegres e empolgados. Em certa medida, essa atividade auxilia na diminuição do estresse, fortalecimento do vínculo entre eles – principalmente entre os alunos dos primeiros anos”, conta. 

Após mais de dois meses que as aulas presenciais foram suspensas, os encontros entre os alunos e a psicóloga se mantêm, geralmente a cada duas semanas. “A média de participação é de 40 a 50% dos alunos e utilizo o recurso dos jogos quando percebo que eles estão com dificuldades em se expressar verbalmente”, afirma a psicóloga.

Chapecó escolhe filmes e séries para guiar conversas

Que tal utilizar o filme Alice no País das Maravilhas para debater sobre a importância dos sonhos e a série Sex Education para falar sobre sexualidade, medo e isolamento social? Estas são algumas das criativas ideias do psicólogo Alan Panizzi, no Câmpus Chapecó, utilizadas para o acolhimento psicológico online, a cada 15 dias. “É difícil a gente dar conta sozinho. A ideia é termos um espaço de fortalecimento coletivo”, afirma Alan.

E, em tempos de transformação digital, Alan também inovou e agregou o recurso lúdico aos grupos. “A ideia de usar o lúdico começou com o desejo de antecipação, de criarmos um espaço para promover saúde, para conversar sobre algum tema, mas antes que ele se torne um agravante”, relata. 

Alan tem se utilizado do cinema, da música e de histórias, e percebeu que, de uma maneira especial, o cinema acalma o estudante, porque permite realizar um grupo que não é de autoexposição. Transforma o grupo em um espaço mais confortável e acolhedor. “Então, o lúdico, o personagem do cinema auxilia como exemplo. Mas é importante dizer que nós não terminamos no lúdico, na fantasia. Conforme falamos do personagem, falamos de nós, de uma forma mais confortável”, explica.

Xanxerê aposta na música e na poesia

Os estudantes do Câmpus Xanxerê têm a disposição o “Plantão Pedagógico”, realizado online três vezes por semana. Aqui, além da psicóloga, também participam do espaço outros profissionais do setor de ensino e ainda ex-professores e convidados, como intercambistas. 

Professora em Xanxerê até ano passado, Aline Guerios foi convidada para participar de um encontro e trabalhou com “A pequena casa na floresta (2007)”, de Clarissa Pinkola Estés. “Após a leitura do conto, pedi aos participantes que refletissem e expusessem sobre o seu conceito de liberdade no contexto da pandemia. Afirmei que para mim ‘o ISO-lar hoje é liberdade’ e, a partir dessa afirmação, cada um fez a sua fala”, conta Aline. Depois disso, os estudantes ainda criaram uma narrativa, onde cada um continuava a história iniciada pelo colega, desenvolvendo a trama no “dia pós-isolamento social”.

A experiência como psicóloga de Cristina Folster, que acompanha os estudantes em Xanxerê, mostra que um dos principais benefícios às pessoas que estão passando por momentos difíceis é saber que podem contar com alguém. “Para adolescentes, isso fica mais evidente. Então, neste momento de pandemia e tantos temores, o plantão pedagógico surge como apoio”. Cristina ainda frisa que, de forma geral, o distanciamento social não faz bem para a saúde mental de ninguém. “Então, já que não podemos estar juntos presencialmente, ao menos conseguimos por meio destas tecnologias”.

Participação de alunos

Alunos de Xanxerê, como Ariel Donadello e Vinícius Marques, do Integrado em Mecânica, são exemplos de quem tem utilizado o momento para tirar dúvidas e também para contribuir com a saúde mental dos colegas. “Sempre que eu posso, participo. Estou levando, por exemplo, minha opinião sobre as aulas online que estão ocorrendo agora, como é um método novo nas disciplinas. E os servidores da coordenadoria pedagógica são nossa comunicação entre nós e os professores”, conta Vinícius.

O estudante também aproveitou uma das videoconferências para tocar violão e cantar. “Quando estamos no câmpus, ficamos muito tempo todos os dias lá, então tocamos violão e gaita no almoço, por exemplo. Agora que estamos nos reunindo por vídeo, decidimos repetir esse momento de lazer e foi muito divertido para todos”, relata Vinícius.

 

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