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Semana de eventos no Câmpus São José debate a presença da mulher na ciência

CÂMPUS SÃO JOSÉ Data de Publicação: 06 mar 2020 14:48 Data de Atualização: 02 set 2020 12:01

As mulheres são a maioria dos estudantes de cursos de graduação no Brasil (57%), segundo o Censo da Educação Superior, e são quase metade no IFSC (45%), considerando todos os tipos de cursos, mas esses números globais escondem o fato de que ainda há áreas de conhecimento onde a presença da mulher é pequena. O próprio IFSC é um exemplo, já que em cursos do eixo tecnológico Controle e Processos Industriais (no qual estão as áreas de Automação, Elétrica e Mecânica), apenas 16% das matrículas em 2019 foram de alunas, de acordo com a Plataforma Nilo Peçanha. 

Um trabalho de conclusão de curso (TCC) desenvolvido no curso de licenciatura em Química do Câmpus São José, abordou esse tema. A agora licenciada Bruna Savedra Santana tentou entender por que as mulheres interessam-se menos pelas ciências de terra exatas (que reúne as áreas de física, matemática e química). A pesquisa foi apresentada durante a programação da Semana da Mulher no câmpus, realizada de 3 a 6 de março.

O trabalho, defendido e aprovado pela banca em julho do ano passado, foi realizado com alunas do terceiro ano do ensino médio da escola estadual Irmã Maria Teresa, no bairro Ponte do Imaruim, em Palhoça, onde ela fez estágio e já havia realizado projetos de pesquisa e extensão. Bruna mapeou quantas manifestaram intenção de ingressar em um curso de graduação ligado às ciências exatas e da terra e identificou quais os principais elementos que influenciaram as escolhas das alunas. Por fim, fez apontamentos sobre como a escola e professores podem contribuir para despertar o interesse das estudantes pela área.

No total, 13 estudantes com idades entre 16 e 18 anos participaram da pesquisa. Ao responder um questionário elaborado por Bruna, apenas três manifestaram interesse pela área de ciências exatas e engenharias, enquanto as outras 10 optaram por cursos das áreas de educação e saúde. Com base nessas respostas, elas foram divididas em três grupos de discussão, formados de acordo com as preferências apontadas (as 10 que optaram por cursos de educação e saúde foram subdivididas em dois grupos de cinco), para a segunda etapa da pesquisa, que buscou entender as influências que levaram às escolhas das alunas.

Nos grupos de discussão, 12 estudantes apontaram ter escolhido o curso de acordo com sua afinidade pessoal com a aŕea e uma por ter se inspirado em uma professora. “Ao que parece, para as adolescentes, a identificação com a área está muito mais relacionada com disciplinas escolares que elas gostam de estudar ou com atividades que elas gostam de fazer do que propriamente com a atividade profissional em si”, indica Bruna no TCC.

Com relação a quem as influenciou nas escolhas, as estudantes dos grupos que optaram por cursos de educação e saúde foram as que mais apontaram a família, um indicativo, segundo a ex-aluna do IFSC, de que o núcleo familiar tem um papel relevante na manutenção da visão da mulher como cuidadora (ligada aos papéis de mãe e esposa, que são reforçados desde a infância, como se observa nas brincadeiras vistas como “de menina”). “[Elas] Também mencionam mulheres da família, as quais podem ter servido como modelos de referência”, relata Bruna no texto.

Já as alunas que escolheram cursos de ciências exatas e engenharia não destacaram família, escola ou professor como influência, mas sim fatores psicológicos, os quais, argumenta a autora do TCC, talvez “estejam relacionados, dentre outros aspectos, a uma desconstrução de estereótipos de gênero”.

Nas conclusões de seu trabalho, Bruna destaca dois pontos nos quais a escola pode atuar para tentar aumentar o interesse das meninas pelas ciências exatas e da terra. Trabalhar pedagogicamente questões sobre os papéis de gênero e realizar atividades em que mulheres falem sobre suas profissões e desafios, para que sirvam de referência e estímulo para as estudantes.


Bruna comenta os resultados encontrados no trabalho e ações que podem ser feitas para incentivar as meninas a buscar as ciências exatas e da terra

Por que a mulher tem que participar das ciências exatas?

A apresentação do TCC fez parte da aula magna do curso de licenciatura em Química, inserida numa semana com programação no Câmpus São José dedicada a debater a participação da mulher na ciência, especialmente nas ciências vistas como “masculinas”. O tema “Mulher na Ciência” foi o escolhido para a aula magna, que teve também apresentações de trabalhos desenvolvidos em estágios e uma palestra com a professora Marinês Domingues Cordeiro, do Departamento de Física da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que desenvolve pesquisas em história, filosofia e sociologia da ciência na educação científica. Falando sobre “Mulheres na Física e na Ciência”, Marinês abordou o contexto histórico de exclusão das mulheres na ciência (em especial, na física, sua área) e trouxe discussões atuais.

Uma das reflexões que a professora da UFSC trouxe foi sobre o impacto que visões diferentes têm sobre a ciência, uma vez que o conhecimento gerado por pesquisadores está sempre sendo avaliado e criticado por seus pares. “A maneira como alguns filósofos entendem é que a ideia de estar na ciência faz com que novos olhares possam ser jogados sobre o conhecimento científico. Então, a entrada das mulheres na ciência mudou muita coisa. Mudou perspectivas biológicas, na física”, comenta.

Marinês usou como uma de suas referências a filósofa de ciência americana Helen Longino, para a ciência como conhecimento social precisa ter crítica e que um grupo heterogêneo (com pouca diversidade) tende a gerar pouca crítica sobre o que é produzido.

Para a professora da UFSC, no entanto, não basta apenas a mulher estar inserida na ciência - é preciso que seja dada a ela a mesma autoridade intelectual que o homem, ou seja, o trabalho desenvolvido por ambos tem que ser considerado e avaliado do mesmo modo. “Tendo mulheres na ciência, as mulheres vão ganhando mais voz, mas é necessário que exista um clima de igualdade dentro da ciência e isso só se conhece se ela for bastante heterogênea”, afirma.


Marinês Domingues Cordeiro aborda a importância de haver mais mulheres na ciência

A história da inserção da mulher na ciência, trazida por Marinês, aponta vários casos em que o trabalho de mulheres recebeu menos valor. A física franco-polonesa Marie Curie, por exemplo, só foi laureada com o Prêmio Nobel de Física em 1903 junto com o marido, Pierre Curie, e com Henri Becquerel (ambos físicos franceses), após a intervenção de um membro da Real Academia de Ciências da Suécia, que concede a premiação.

Inicialmente, apenas Pierre e Henri receberiam o prêmio, por um trabalho que, diz a professora da UFSC, foi desenvolvido como resultado do doutorado de Marie. “Nem nesse momento ela foi protagonista de sua própria história”, lamenta. 

Marie Curie, que foi a primeira mulher a receber o Nobel (voltou a receber outro, de Química, em 1911), foi um dos exemplos de cientistas mulheres apresentados por Marinês que tiveram trabalhos relevantes subavaliados em suas épocas ou, ainda, que não tiveram oportunidades na vida acadêmica condizente com a grande qualidade de suas pesquisas. “São histórias semelhantes às que ainda ocorrem hoje em dia”, diz. Um caso dos que mais chamam a atenção é o da física austríaca Lise Meitner, indicada 29 vezes para o Nobel de Física, mas nunca premiada - muitos consideram que ela deveria ter dividido o prêmio de 1944 com o alemão Otto Hahn, que acabou sendo o único laureado.

Houve crescimento, mas ainda há bloqueios

Apesar de ainda longe do ideal, Marinês Cordeiro considera que atualmente o quadro é bem melhor com relação à inserção da mulher na ciência. Alguns números, trazidos pela estudante Bruna Savedra Santana em seu TCC, apontam para isso. No referencial teórico Bruna aponta, com dados do censo do grupo de pesquisas de 2016 do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que 50% dos pesquisadores no Brasil são mulheres e 46% dos cargos de liderança de grupos de pesquisa são ocupados por pesquisadoras, percentuais maiores que os de 1995 (39% e 34%, respectivamente).

Mais uma vez, porém, os dados globais escondem as realidades próprias de cada área, já que as mulheres são minoria entre as pesquisadoras da área de ciências exatas e da terra (32%), assim como nas áreas agrícola (36%) e de engenharia (39%). No IFSC, o panorama é parecido, mas com participação ainda menor de mulheres. Em 2019, pelos dados da Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação (Proppi), elas foram 27,8% dos pesquisadores da instituição, percentual que cai 10% nas engenharias e 15,4% nas ciências exatas e da terra.

Outra realidade trazida por Bruna em seu TCC, usando dados de uma notícia publicada no site da Universidade Federal Fluminense (UFF), é a diminuição da participação feminina na pesquisa científica brasileira ao longo da trajetória dos pesquisadores. Enquanto 59% das bolsas de iniciação científica são concedidas a mulheres na graduação, as pesquisadoras recebem apenas 24,6% das bolsas de produtividade em pesquisa 1A do CNPq, destinada a quem tem título de doutorado há pelo menos 8 anos e é referência em seu campo de atuação. Entre os motivos para essa disparidade, está o fato de as mulheres desistirem mais cedo a pesquisa por não conciliar essa atividade com a maternidade.

“No atual modelo de universidade ainda se crê que a profissão de cientista demanda dedicação absoluta, onde se abre mão de si mesma e da família. Desta forma, mulheres talentosas desistem de continuar na carreira ou optam por não terem filhos”, afirma a ex-aluna do IFSC no trabalho.

Na aula magna do curso de Química, Marinês Cordeiro, da UFSC, também abordou esse ponto, chamado “efeito tesoura”, ou “teto de vidro”. Entre os pontos que ela elencou e que contribuem para essa realidade, estão a dupla ou tripla jornada de trabalho (já que as mulheres assumem mais tarefas domésticas que os homens. Uma pesquisa no Canadá, informou a professora, indicou que as pesquisadoras se dedicam, em média, cinco semanas a mais por ano ao cuidado com os filhos que os pesquisadores), assédio moral e sexual, desigualdade de autoridade intelectual e a omissão da figura feminina na ciência - o cientista, ou o “gênio”, é quase sempre retratado como um homem.

“Existem pesquisas que mostram que lá no comecinho, com cinco, seis anos, as meninas demonstram as mesmas aptidões que os meninos - elas querem ser presidente, elas querem ir pra lua, não diferencia muito. Mas, conforme a idade vai aumentando, a gente vai tendo uma propaganda da masculinidade e da feminilidade que faz esses caminhos irem divergindo”, explica Marinês.


Marinês fala sobre barreiras no acesso de meninas e mulheres à ciência

Exemplos

“A importância do modelo profissional está em a mulher se ver dentro daquela profissão. O que acontece é que muitas garotas precisam fazer a tradução - o termo é esse mesmo: tradução - de um comportamento masculino, de uma carreira masculina, para si. Não tendo [o modelo profissional], elas não conseguem se ver dentro dessa área.” Assim Bruna Savedra Santana define a importância de haver mulheres que sirvam de inspiração e incentivo - os modelos profissionais - para inserção das meninas na ciência.

A Semana da Mulher do Câmpus São José teve iniciativas nesse sentido, com a realização de palestras e debates com mulheres que construíram uma carreira em áreas da ciência e tecnologia ainda predominantemente masculinas. No última dia da programação, sexta-feira, 6 de março, aconteceu uma mesa-redonda com três delas: as professoras do câmpus Elen Macedo Lobato e Maria Cláudia de Almeida Castro e a ex-aluna Claudinice Carla Bertotti, que é analista de sistemas de telecomunicações na empresa Oi.

Claudinice, Elen e Maria Cláudia contaram suas trajetórias acadêmica e profissional para um auditório com público formado principalmente por estudantes do câmpus - meninas e meninos. A paranaense Claudinice ingressou na área de telecomunicações por acaso, ao optar pelo único curso técnico integrado noturno do então Cefet do Paraná (hoje Universidade Tecnológica Federal, a UTF-PR) em Curitiba em 1986, já que queria trabalhar durante o dia. Era o curso de Telecomunicações e, desde então, ela desenvolveu uma carreira nesse setor na área privada, inclusive com experiência de quatro anos na Alemanha.

Nesse período, conciliou a vida profissional com a maternidade (tem três filhos), deixando de trabalhar por curtos períodos e de estudar por quase 15 anos, até ingressar no curso de Sistemas de Telecomunicações do Câmpus São José em 2007. “É bastante pesada para a mulher a segunda jornada”, destacou, mas também afirmando que isso não a impediu de continuar a carreira.

Ao longo de sua trajetória profissional nas telecomunicações, Claudinice acostumou-se a sempre estar em ambientes com maioria de homens, mas conta que não teve problemas com seus colegas de trabalho. As maiores dificuldades ocorreram nos períodos em que buscou emprego - o fato de ter filhos algumas vezes foi visto pelas empresas como empecilho - e também com relação à remuneração. Segundo ela, no mundo corporativo, as mulheres ainda precisam “brigar” mais para obter salários iguais aos dos homens que desempenham as mesmas funções e entregam os mesmos resultado.

As professoras Elen e Maria Cláudia construíram uma carreira na área acadêmica. Elen, que é paraense, tinha o desejo de ser cientista desde criança. Incentivada pela família, principalmente pelo pai e pelo irmão, tomou gosto pela matemática e foi destaque no ensino médio, quando optou por fazer um percurso formativo voltado para a área de ciências exatas e naturais. “Mas eu também era estimulada em casa a cuidar de questões domésticas”, comentou.

Ela passou no vestibular para Engenharia Elétrica na Universidade Federal do Pará (UFPA) em 1991 e, depois, fez mestrado (onde era a única mulher) e doutorado na mesma área na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Foi professora de Engenharia Elétrica na Universidade Estadual do Piauí (Uespi) de 2005 a 2007 e, no mesmo ano, ingressou no IFSC (na época, CEFET-SC).

Apesar de trabalhar numa área predominantemente masculina, Elen afirmou nunca ter sofrido preconceito por ser uma das poucas mulheres ou, se teve, não deu importância a eles. Já a pernambucana Maria Cláudia comenta que, no mestrado, era comum colegas homens não confiarem nos resultados aos quais ela chegava em cálculos e provas. “Eles sempre achavam que era o meu exercício que estava errado”, lembrou.

Maria Cláudia é graduada em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) em 1994 e fez mestrado e doutorado na mesma área na UFSC. Entrou na engenharia por afinidade e facilidade em lidar com as ciências exatas e porque a mãe não queria que ela fizesse Educação Física, o curso para o qual pensava em prestar vestibular inicialmente.

Durante sua carreira, Maria Cláudia trabalhou principalmente em instituições de ensino, com uma passagem pela Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) no início dos anos 2000 e duas pelo atual IFSC: uma como professora substituta entre 1998 e 2000 e, a partir de 2003, como professora concursada na área de Telecomunicações do Câmpus São José. Entre o fim do mestrado (1997) e o ingresso como concursada no IFSC, buscou emprego em empresas privadas, mas o fato de estar grávida e, posteriormente, por ter dois filhos, foi sempre visto como empecilho pelos contratantes.

No IFSC, Maria Cláudia ocupou diversos cargos de gestão, tanto no câmpus quanto na Reitoria. Chegou a ser pró-reitora de Extensão e Relações Externas entre 2016 e 2018 e decidiu sair do cargo no meio do mandato (que se encerraria em abril de 2020) para se dedicar à família e às aulas. “Senti que precisava mais da figura materna em casa, já que o cargo de pró-reitor exige muitas viagens, e já estava há um tempo sem dar aula, algo que gosto bastante”, explicou.

 
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