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Após voltar dos EUA, equipe de robótica está em quarentena

CÂMPUS FLORIANÓPOLIS Data de Publicação: 24 mar 2020 15:15 Data de Atualização: 25 mar 2020 18:01

Parte da equipe de robótica do IFSC ficará duas semanas sem contato com outras pessoas. Ao todo, 14 alunos de cursos técnicos e superiores, do Câmpus Florianópolis, retornaram dos Estados Unidos, após uma competição de robôs. Desde o momento que chegaram, seguem o protocolo para aqueles que retornam de viagens internacionais após a pandemia do coronavírus.

Praticamente toda a equipe, chamada de FRC5800, chegou na sexta (20), mas um dos líderes do grupo teve seu voo cancelado e conseguiu desembarcar nesta segunda (24) em Florianópolis. O destino de todos foi o mesmo: quarentena. Sob orientação de profissionais de saúde, dez deles – que possuem familiares em grupos de risco de saúde – cumprem juntos o distanciamento em uma mesma casa, com todos os mantimentos necessários; e os outros três estão em outros espaços preparados pelos familiares.

Já Gabriel Ferreira Mees, aluno do tecnólogo em Eletrônica Industrial, chegou por último e cumpre o protocolo da quarentena totalmente sozinho, já que ficou nos Estados Unidos três dias a mais do que os colegas. Na entrevista abaixo, o estudante relata como foi a experiência da equipe no país norteamericano e o retorno para o Brasil.

Nesta terça (24), o mapa interativo da universidade John Hopkins – que acompanha os casos de coronavírus no mundo todo – mostrava que quase 50 mil infectados já haviam sido confirmados nos Estados Unidos. No Brasil, são quase 2 mil pessoas confirmadas com o vírus e, no mundo, são pouco mais de 407 mil confirmações e mais de 18 mil mortes.

IFSC: Quem é parte da equipe de robótica? Como a equipe trabalha?
Gabriel:
São alunos entre 16 e 26 anos de idade, que estudam em cursos como os integrados em Química, Edificações, Eletrotécnica e Saneamento, também nos superiores em Eletrônica Industrial e Engenharia Elétrica. Todos fazem parte da equipe de robótica FRC5800, criada em 2015 e instalada dentro do Câmpus Florianópolis do IFSC. Este é nosso quinto ano participando de competições de robôs pelo mundo, como esta em que estávamos nos Estados Unidos, e ao longo desses anos conquistamos seis prêmios.

IFSC: Quando a equipe foi para os Estados Unidos? Qual era o objetivo de vocês lá?
Gabriel:
Parte da equipe embarcou no dia 7 e outra parte no dia 8 de março. Ao todo, estávamos em 14 estudantes para uma competição de robôs organizada pela First, uma organização dos Estados Unidos que inspira jovens a serem líderes e inovadores na área da ciência e tecnologia. 

IFSC: A equipe chegou a competir?
Gabriel:
Então, a First organiza várias competições ao mesmo tempo. São regionais qualificadoras, exatamente iguais e qualificatórias para a final. Chegamos à cidade de Rochester, no estado de Nova Iorque, e começamos a montar o robô e organizar a apresentação. Cerca de duas horas depois da competição iniciada, o governo do estado solicitou aos organizadores que suspendessem a competição, pois estávamos em um evento com mais de 500 pessoas. A princípio, a competição foi adiada, mas acreditamos que o calendário de 2020 será cancelado e retomado em 2021. Estamos aguardando. 

IFSC: O que vocês fizeram após a suspensão da competição?
Gabriel:
Primeiro, voltamos para a casa que havíamos alugado, na cidade de Troy, também no Estado de Nova Iorque. Tentamos adiantar os voos de todos, porém não foi possível porque o contato com a empresa aérea estava congestionado e não era possível adiantar voos. Fizemos, então, reuniões entre os mentores todos os dias e mantivemos os alunos informados todos os dias. Conversávamos sobre a nossa situação, se tinha risco ou não de voltar ao Brasil, tentamos deixar eles informados, assim como os pais de todos no Brasil. Também precisamos adaptar todo o roteiro, em razão da aglomeração de pessoas e precisamos cancelar visitas, como em Harvard e Manhattan.

IFSC: E como era o clima por onde vocês passaram, até chegar na casa alugada?
Gabriel:
Passamos por duas cidades, Albany e Springfield. E foi espantoso passar por essas cidades enormes, com quatro ou cinco pistas para carros, prédios enormes, e estar tudo deserto. A sensação era de que eles haviam evacuado as cidades. Por onde passamos, as lanchonetes e restaurantes só podiam entregar comida, não podíamos comer dentro dos estabelecimentos. Os supermercados estavam abertos, em sua maioria, mas alguns estavam fechados também, como a maioria das lojas. Deu para perceber que estão fechando tudo, distanciando todas as pessoas para tentar lidar de forma bastante preventiva. 

IFSC: E as pessoas? Era possível ver pessoas na rua?
Gabriel:
Pouquíssimas, tanto que aconteceu algo curioso, que mostrou o quanto as pessoas lá estão realmente se cuidando e até com medo. Descemos para pegar comida em uma cidade, mas estávamos em 14 estudantes. Algumas pessoas passaram por nós e disseram que não poderíamos ficar aglomerados, teve uma delas que até se irritou com aquela cena. Claro que pegamos a comida e saímos de lá o quanto antes.

IFSC: Como vocês se preveniram enquanto estavam lá?
Gabriel:
Uma das mães dos alunos é enfermeira e fazia contato para nos orientar nesta questão de saúde. Recebemos orientações da Aidtec, associação a qual nosso projeto é vinculado, sobre saúde e segurança dos alunos, adaptação de roteiro, tentativa de adiantamento dos voos, cuidados em geral com a equipe. Também estávamos sempre informados sobre as determinações do governo para não ir contra o que estava sendo decidido no país. Nós assistimos e lemos várias instruções, sendo que uma delas, do médico Dráuzio Varela, falava que a melhor forma de prevenção era se considerar já infectado. Então, já no início da viagem tivemos uma conversa e definimos nossa conduta desta forma. Sempre consideramos que o grupo poderia estar infectado, porque passamos por aeroportos movimentados, mercados. Encaramos desta forma para cuidar do grupo e das outras pessoas que tínhamos contato. Usávamos máscara e álcool em gel o tempo todo. Mas é claro que foi só uma forma de nos portarmos para prevenção, não necessariamente que alguém estava ou está com o vírus.

IFSC: Como foi o retorno ao Brasil? E como está a quarentena?
Gabriel:
Enquanto estávamos lá ainda, os pais buscaram auxílio de profissionais de saúde e começaram a organizar uma casa para nossa quarentena. Por decisão das próprias famílias, 10 estudantes estão neste espaço, pois eles têm familiares de grupos de risco. E os outros três, assim como eu, estão isolados em outros espaços. Eu, por exemplo, estou totalmente sozinho, pois minha mãe é asmática e não poderia colocar minha família em risco, e também porque cheguei ao Brasil depois do restante da equipe. Então, optei por não fazer a quarentena junto aos demais para não colocá-los em risco. São duas experiências totalmente novas para mim: ir aos Estados Unidos competir e agora ficar duas semanas sozinho em quarentena. Competir em outro país é uma experiência que sempre quis ter, porém não desta forma, não nesse contexto. Então, estou mantendo a calma, me cuidando e buscando tornar esse tempo útil lendo livros, fazendo exercícios e colocando os estudos em dia, já que durante a viagem isso não foi possível.

 

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