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Dez anos do Câmpus Itajaí pelo relato de servidoras aposentadas

CÂMPUS ITAJAÍ Data de Publicação: 08 dez 2020 22:00 Data de Atualização: 09 dez 2020 14:37

Há 10 anos, nós começávamos uma história, a do IFSC em Itajaí, quando foi assinada a portaria para o funcionamento do Câmpus na cidade em 08 de dezembro de 2010. Os trabalhos começaram na antiga sede da Fundação de Educação Profissional e Administração Pública de Itajaí (Feapi), entidade ligada à prefeitura, e ainda em 2010, o IFSC alugou um prédio na Rua Tijucas. Só em 2015 é que fomos para a sede própria localizada na Avenida Contorno Sul.  Para contar um pouco desta história, convidamos três servidoras que se aposentaram recentemente, a professora Osmarilda de Borba, a administradora Mara Zaffelon e a pedagoga Sueli Lima.

A professora Osmarilda foi uma das primeiras servidoras, ela veio redistribuída do IFC de Camboriú, onde atuava desde 2006. Ela é de Itajaí e desde muito pequena sonhava que a cidade tivesse uma escola técnica federal. “Eu devia ter uns 5 anos, quando eu vi o meu pai conversar com o Antônio Carlos Konder Reis, que na época era candidato a governador, dizendo que Itajaí deveria ter uma escola federal para que os filhos dos agricultores tivessem uma formação diferente, já que ele considerava que Itajaí não tinha característica de cidade agrícola e sim industrial e turística. Eu lembro que ele chegou até a oferecer um terreno para que fosse construída essa escola profissionalizante. Eu lembro que a minha mãe ficava muito preocupada porque ele queria doar um terreno que tinha um valor significativo.”

Osmarilda conta que quando ela e o marido, o também professor do Câmpus Itajaí Carlos Alberto de Souza, souberam que Itajaí receberia um câmpus do IFSC, logo se prontificaram a ajudar mesmo quando ainda estavam vinculados ao IFC de Camboriú. “Nós somos de Itajaí e a gente queria não só fazer parte desta história, mas ajudar a construi-la. O fato de sermos de Itajaí fazia com que tivéssemos contato com diversos setores da cidade e isso foi abrindo portas que aproximaram o IFSC do setor público, cultural e do setor privado.”

A professora conta que no início o Câmpus funcionava de forma muito improvisada. “Nossa primeira sede foi em um depósito, onde tinham apenas três bancos, a gente precisava se revezar para sentar e trabalhar e inclusive muitas vezes a gente trabalhava dentro do carro. Parte das aulas acontecia na sede da Marinha, do porto, do Sindicato dos Armadores e da Indústria da Pesca de Itajaí e Região (Sindipi) e na casa de Cultura Dide Brandão. Era muito bonito ver a receptividade que os órgãos públicos tinham para nos ajudar. Quando fomos para a Rua Tijucas não tínhamos dinheiro para a mudança nem para a limpeza e assim nós nos dividimos, uma parte carregou os móveis nos próprios carros e a outra foi limpar o prédio. Nós todos ficamos muito cansados, mas muito felizes porque a gente sabia que estava conquistando o nosso primeiro espaço e que isso iria potencializar o IFSC na cidade.”

Na sede da Rua Tijucas, o Câmpus conseguiu ampliar a oferta de cursos e intensificou os trabalhos de qualificação profissional. “Nós ajudávamos a organizar oficinas de primeiro emprego, ensinando as pessoas a fazerem currículo, mostrando como funcionava uma entrevista de emprego. Eu lembro que nós identificamos neste período que havia uma parcela significativa de pessoas analfabetas e na hora do intervalo do almoço, eu e o professor Carlos começamos a fazer um trabalho de alfabetização de adultos. Eu lembro de um aluno que me marcou muito nesta época. Ele fazia o curso de operador de computador e tinha sofrido muita discriminação. Eu lembro que eu trabalhei com ele o projeto de vida e foi nesse momento que ele se deu conta de que poderia mudar a vida dele. Ele veio me contar todo animado que havia colocado no teto do quarto o projeto de vida e ele veio muito impactado para as aulas seguintes, fez seu currículo e participou de entrevistas de emprego. Hoje ele atua na área da saúde, as vezes ele me liga e é muito bonito ver aquele brilho no olhar dele que ele conquistou naquele projeto. É muito gratificante ver essa transformação. Eu tenho muito orgulho de ser professora, uma carreira que começou aos 16 anos com o magistério, a minha motivação sempre foram os meus alunos, essa relação aluno e professor em sala de aula.”

Osmarilda conta que de 2013 a 2015, os servidores do Câmpus viviam na expectativa de ampliar o trabalho com a nova sede que estavam construindo, mas que foi preciso travar uma luta porque a obra chegou a ficar parada por um ano. “A inauguração do Câmpus em 2015 foi um momento muito rico, ver o Câmpus crescer e tomar forma. Eu lembro que no dia da inauguração o professor Carlos, que já era o diretor, veio e me deu um abraço e aquele foi um abraço que tem muito significado porque são lutas que se abraçam.”

Uma das primeiras servidoras técnico-administrativas do Câmpus

A administradora Mara Zaffelon também foi uma das primeiras servidoras do Câmpus. Ela  veio redistribuída do câmpus Pelotas do Instituto Federal Sul-rio-grandense (Ifsul). “Eu era servidora desde 1992 e lá em Pelotas a escola técnica era uma referência porque existe desde 1943. Quando eu cheguei em Itajaí, poucos conheciam o IFSC, não sabiam o que era, não acreditavam que era federal, que era uma escola pública e de qualidade. Para mim, esta vinda para Itajaí foi muito marcante, porque eu mudei de estado, de cidade e de instituição.”

No IFSC, Mara coordenou a gestão de pessoas e o almoxarifado, foi chefe administrativa e fiscal de contrato. “No começo tudo estava muito centrado na reitoria e inclusive os materiais de expediente vinham de lá, depois eu lembro quando começou uma intensa contratação de servidores, inclusive lembro quando os primeiros servidores vieram entregar a documentação para começar a trabalhar. Com o aumento de pessoal e a demora na entrega da obra do Câmpus precisamos alugar mais um prédio na Rua Tijucas e eu lembro das dificuldades que nós tínhamos porque, por exemplo, eram dois contratos de limpeza e dois de vigilância.”

Mara também auxiliou em todo o processo para a compra do barco-escola “Aprendendo com o mar” do Câmpus Itajaí. “Foi algo muito novo, nós tínhamos que pensar em uma série de processos que nós não estávamos acostumados inclusive em como licitar o transporte do barco que veio do Paraná.”

Assim como muitos servidores do Câmpus, Mara não mora em Itajaí e ao longo dos anos em que trabalhou na cidade, estar na estrada sempre fez parte da sua rotina. “Foram 10 anos de estrada, a época da temporada era a mais complicada, já aconteceu de eu sair de Itapema às 7h e não ter chego no Câmpus até às 10h30. Isso acontecia muito com quem vinha de Florianópolis e a gente sempre tinha histórias para contar desse período da estrada.”

Em 2019, Mara foi a primeira servidora do Câmpus a se aposentar. “Com a reforma administrativa, nos últimos meses de trabalho eu tinha receio que ainda teria que trabalhar mais para conseguir me aposentar, mas no final deu certo.”

Mudança de vida após 27 anos de trabalho no estado

A pedagoga Sueli Lima já estava há 27 anos atuando na rede estadual de ensino quando foi chamada para trabalhar no Câmpus Itajaí. “Eu havia feito um curso de qualificação profissional do IFSC e assim que terminou eu coloquei na cabeça que queria ser tutora daquele curso. Depois eu fiquei sabendo que teria concurso e resolvi tentar. Foi quando passei em primeiro lugar.”

Sueli conta que foi um desafio para ela mudar sua trajetória profissional. “Eu atuava como orientadora educacional no estado e quando eu fui para o IFSC eu era a pedagoga, foi um desafio. No começo, eu vejo que o nosso trabalho era muito de divulgação também, às vezes, eu me sentia como a mulher que entrega panfletos e isso era muito importante. Eu lembro de uma vez de um rapaz que veio se matricular no curso de Aquicultura e que quando foi perguntado como ficou sabendo do curso disse que um dia alguém entregou para ele um panfleto do IFSC.”

Sueli lembra que no início ao falar do IFSC, muitas pessoas da cidade o confundiam com outras instituições. “A gente falava de IFSC e as pessoas associavam ao Ifes ou ao antigo colégio agrícola hoje câmpus Camboriú do IFC. Mas aos poucos a gente foi mudando isso, nós participávamos de muitas feiras, visitávamos as escolas para entregar panfletos e falar do IFSC. As pessoas não acreditavam que existia na cidade uma instituição pública e federal de ensino.”

Sueli lembra também da intensa mobilização dos servidores para a conclusão das obras da sede própria, que chegaram a ficar embargadas por cerca de um ano. “Nós organizamos carreata, fomos para a câmara de vereadores com nariz de palhaço para chamar a atenção do poder público e quando de fato a obra ficou pronta para nós foi o auge do nosso trabalho. Eu lembro de todos os servidores pegando junto para fazer a mudança e de nós nos organizando para a cerimônia de inauguração.”

Dos alunos que passaram pelo Câmpus, Sueli lembra de um deles que foi seu colega de escola. “O Valentim estudou comigo e depois veio fazer o técnico em Eletroeletrônica. Eu lembro que ele estava afastado da escola há muitos anos e que foi um desafio para ele o IFSC, porque o nível de ensino era muito alto. Ele demorou a concluir o curso, batalhou bastante, mas se formou e é da primeira turma do curso.”

Foi na sede própria que foi ampliada a oferta de cursos técnicos integrados e é a vinda desses estudantes que vêm fazer o Ensino Médio e o técnico no IFSC que fazem com que Sueli tenha mais uma virada em sua trajetória profissional. “Os cursos integrados deram uma outra cara para o instituto, trazem uma nova visão de estudante, de comunidade e de família. Foi bem marcante, porque foi um desafio grande, muitos professores tiverem que se reinventar. Eu me vi de novo como orientadora educacional, redescobrindo práticas que já estavam consolidadas para mim no período em que eu atuava no estado.”

Durante esse período, Sueli também passou pela experiência de ser mãe de aluna do IFSC, quando sua filha decidiu fazer o técnico em Mecânica. “Ela dizia que queria estudar no IFSC desde os 11 anos e para mim foi bastante desafiador. Eu como orientadora educacional sempre busquei esse vínculo com os pais dos alunos, porque a educação não se desenvolve se não há uma relação entre a escola e os pais, é uma parceria. Essa relação que eu conquistei com os pais enquanto pedagoga ao longo desses anos de trabalho é tão forte que mesmo aposentada muitos deles ainda me procuram. Eu vejo que quem trabalha com educação, planta sementes e as colhe um tempo depois. Quando eu entrei no IFSC foi uma renovação de vida e espero que as pessoas continuem essa história e que reconheçam o nosso trabalho de formiguinha.”

CÂMPUS ITAJAÍ