O novo coronavírus pode ser transmitido pela água ou pela rede de esgoto?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 16 jun 2020 15:02 Data de Atualização: 18 fev 2021 17:50

Qual o impacto da falta de condições sanitárias adequadas na pandemia de Covid-19 no Brasil? Há muitos aspectos a serem considerados. O primeiro deles é a falta de água em muitas localidades do país até para lavar as mãos. São quase 35 milhões de brasileiros sem acesso a água tratada, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS 2018). Essa é uma das principais preocupações dos epidemiologistas, já que a forma mais segura de evitar a contaminação é utilizando água e sabão para a higienização.

Além da falta de abastecimento, tem-se questionado muito se o novo coronavírus pode ser transmitido pelo esgoto, já que vivemos num país em que quase metade da população não tem acesso a sistema de esgotamento sanitário adequado e muitas comunidades convivem com esgoto a céu aberto. Para essa pergunta nem a Organização Mundial de Saúde (OMS) tem uma resposta conclusiva.

Os estudos ainda são recentes e não há comprovação de que o SARS-CoV-2 mantém sua forma ativa na água ou no esgoto, ou seja, na forma que pode contaminar as pessoas.

Pesquisas indicam presença de SARS-CoV-2 em água, urina e fezes

A questão se o novo coronavírus pode ser transmitido pela água ou pelo esgoto é diferente do fato dele ser identificado nesses ambientes. Quem explica essa diferença é a engenheira sanitarista Andreza Thiesen Laureano, professora do curso técnico em Saneamento do Câmpus Florianópolis do IFSC: "Ao entrar em contato com a água, ele sobrevive e o RNA viral pode ser detectado através de exames específicos. No entanto, não se sabe ainda se, na água, ele se mantém na forma ativa/viável." O RNA pode ser entendido como material genético do vírus.

Em documento publicado em abril com orientações para a gestão da água e do saneamento durante a pandemia, a OMS afirma que, como o vírus da Covid-19 é encapsulado, ele é menos estável no ambiente hídrico em comparação com vírus humanos que têm transmissão conhecida pela água, como os rotavírus e a hepatite A: "Um dos estudos observou que outros coronavírus humanos sobreviveram apenas dois dias em água da torneira sem cloro e nas águas residuais hospitalares a 20°C." Uma das conclusões do documento é a de que métodos de tratamento da água que utilizam a filtração e a desinfecção devem inativar o novo coronavírus.

Já a presença do SARS-CoV-2 em fezes foi confirmada. Pesquisadores da cidade  de Zhuhai, na China, examinaram 98 pacientes com Covid-19 entre janeiro e março deste ano. Os resultados da pesquisa estão publicados na revista científica The Lancet: "Observamos que em mais da metade dos pacientes, suas amostras fecais permaneceram positivas para o RNA da SARS-CoV-2 por uma média de 11,2 dias após as amostras do trato respiratório se tornarem negativas para o RNA da SARS-CoV-2, implicando que o vírus se replica ativamente no trato gastrointestinal do paciente e que a transmissão fecal-oral pode ocorrer após a liberação viral no trato respiratório."

Pesquisa da UFSC identifica novo coronavírus em amostra de agosto de novembro de 2019

Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), da Universidade de Burgos (Espanha) e da startup BiomeHub identificaram partículas do novo coronavírus em duas amostras do esgoto de Florianópolis colhidas em 27 de novembro de 2019, dois meses antes do primeiro caso clínico ser relatado no Brasil. A descoberta, divulgada em 2 de julho de 2020, só foi possível porque havia amostras de esgoto congeladas para outros estudos. Segundo os pesquisadores, é o relato da primeira presença confirmada do vírus nas Américas. (texto atualizado em 29 de julho de 2020).

No decorrer de 2020, outra pesquisa brasileira - coordenada pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em ETEs Sustentáveis (INCT ETEs Sustentáveis) - identificou a presença do novo coronavírus no esgoto da região de Belo Horizonte (MG). Realizado desde abril, o estudo analisa a Bacia do Onça, onde há duas estações para tratamento do esgoto coletado em boa parte da capital mineira e da cidade de Contagem. As coletas para análise são feitas semanalmente. Os boletins indicam aumento no número de amostras com SARS-CoV-2: "Para as regiões/bairros localizados na bacia do Onça, houve um aumento expressivo de amostras que testaram positivo (64% nas semanas um e dois, 69% nas semanas três e quatro para 88% na semana cinco)."

Pesquisas como estas têm sido feitas ao redor do mundo. Os relatos mais antigos da presença do novo coronavírus no esgoto são de Wuhan, na China, em outubro de 2019.

A professora Andreza reforça que, mesmo não havendo comprovação científica da transmissão hídrica da Covid-19, esta hipótese não está descartada. Por isso, em locais sem sistemas públicos ou individuais de coleta e tratamento de esgoto adequados, onde as pessoas têm contato físico com o esgoto líquido ou aerossóis do esgoto, a transmissão de doenças de veiculação hídrica é maior. Segundo ela, como ainda não há resultados conclusivos sobre a possibilidade de transmissão de Covid-19 a partir do sistema de esgoto, os especialistas têm utilizado pesquisas de outro tipo de coronavírus, o SARS-CoV-1 - similar ao SARS-CoV-2.

"Para o SARS-CoV-1 houve comprovação de contaminação por aerossóis provenientes de esgoto num prédio em um país asiático. O esgoto produz aerossóis quando é submetido à turbulência. Portanto, para operadores de estações de tratamento de esgoto, o risco é aumentado, a exemplo de outras doenças."

A Organização Mundial de Saúde reforça a importância do uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), como máscaras e óculos, pelos trabalhadores dos serviços de saneamento.

Higiene é vital para se enfrentar a pandemia

Como já se detectou o novo coronavírus nas fezes, existe uma preocupação muito grande para outras formas de transmissão feco-oral além da que poderia ocorrer pelas redes de esgoto e de água, como no contato direto de uma pessoa com as fezes de outra, no manuseio do lixo doméstico ou por meio de vetores como baratas, moscas ou superfícies contaminadas. Tudo isso ainda está sendo pesquisado. Lavar as mãos e as superfícies com água e sabão continua sendo o mais recomendado, já que o coronavírus possui um revestimento lipídico, que é facilmente destruído pelos sabões.

Se ele sobrevive no esgoto, pode ser perigoso tomar banho de mar?

Mesmo não havendo comprovação científica da transmissão hídrica da Covid-19 em ambientes aquáticos, tanto em rios, quanto no mar, Andreza afirma que "pelo princípio da precaução, neste momento é importante evitar entrar em contato com essas águas, pois as mesmas são passíveis de estarem contaminadas e a hipótese de transmissão hídrica não está descartada." O mesmo vale para piscinas públicas. O cloro, usado em dosagem correta, provavelmente eliminará o vírus, mas não é recomendável o contato com outras pessoas. Mesmo porque há outros ambientes comuns, como banheiros, mesas e cadeiras. Por isso, valem as mesmas recomendações: fique em casa e lave as mãos com água e sabão.

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