A carne pode ser contaminada pelo novo coronavírus?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 18 ago 2020 14:23 Data de Atualização: 20 ago 2020 13:16

A notícia vinda da China no último dia 13 de que foram encontrados traços do novo coronavírus em embalagens de frango importado do Brasil, mais especificamente de Santa Catarina, levou rapidamente a Organização Mundial da Saúde, o governo brasileiro e o setor produtivo a garantirem que não há motivos para se ter medo de comida.

Desde o início da pandemia, esse foi um consenso entre as mais diversas áreas que atuam para evitar a proliferação do vírus: não há evidências de que os alimentos têm participação na transmissão da Covid-19 pelo mundo.

Mas essa não é a primeira vez que os frigoríficos são destaque quando o assunto é coronavírus. Eles já foram até apontados pelo Ministério Público do Trabalho como um dos responsáveis pela interiorização da doença no Brasil, pela quantidade de trabalhadores que foram infectados. Mas como ocorreu a proliferação da Covid-19 nessas indústrias? Existe alguma relação entre a contaminação dos funcionários e a produção de carne?

Por conta dessas e de muitas outras perguntas sobre os frigoríficos, o IFSC Verifica convidou professores dos câmpus Canoinhas e São Miguel do Oeste para uma conversa. Nesses dois câmpus existem cursos de Alimentos e Agroindústria. A médica veterinária Carolina de Castro Santos, a zootecnista Sandra Aparecida Tavares, o químico industrial de alimentos Luciano Heusser Malfatti e a farmacêutica bioquímica Roberta Garcia Barbosa respondem:

• A carne é um alimento seguro de ser consumido?

• Como ocorre a produção na indústria de carne e derivados?

• Quais são as normas sanitárias a que esse setor está submetido?

• Por que tantos trabalhadores de frigoríficos foram contaminados pelo novo coronavírus?

• O que determinam as portarias governamentais para evitar a proliferação da Covid-19 nesses ambientes?

Informações da China precisam ser mais precisas

A primeira avaliação dos professores é unânime: a China precisa esclarecer onde os traços do novo coronavírus foram encontrados. A informação é que estavam em uma embalagem com asas de frango congeladas. Para eles, essa informação não é precisa nem suficiente. Roberta Barbosa, doutora em Ciência dos Alimentos e professora do Câmpus São Miguel do Oeste, explica que os pedaços de frango são colocados em uma embalagem primária, como de polietileno (plástico). Isso ocorre num ambiente totalmente controlado. Depois essas embalagens vão para outro setor de de produção, onde são acondicionadas em embalagens secundárias, como caixas de papelão, que vão para caminhões e contêineres. "Será que a contaminação foi nessa embalagem secundária?", questiona.

Ela aponta que muitas pessoas acabam manipulando essas caixas tanto no carregamento no Brasil como no país importador. "Além disso, no caso de países como a China, uma carga dessas demora de 45 até 60 dias para chegar ao destino. Não há qualquer evidência científica de que o vírus permaneça tanto tempo vivo."

O professor Luciano Malfatti alerta ainda que a China anunciou ter encontrado traços de material genético do SARS-CoV-2: "Isso é completamente diferente do vírus ativo. É como se o vírus tivesse se desmanchado, deixando apenas traços do RNA. A cápsula lipoproteica (que o protege) não existe mais."

Carolina completa ao explicar que o vírus é um parasita intracelular obrigatório: "Ele não sobrevive e não consegue se multiplicar, ser ativo, fora de uma célula."

Declaração em destaque de Carolina de Castro Santos, médica veterinária e professora do Câmpus Canoinhas: "Encontrar traços do material genético não significa encontrar vírus com poder infectante. A gente precisa esperar esse posicionamento oficial. E a China não pode se abster da responsabilidade dessa contaminação ter ocorrido lá."

O lote identificado pela China é apontado como sendo da empresa Aurora, que em nota oficial também diz aguardar mais detalhes sobre a possível contaminação.

O processo de produção de carne é seguro?

Antes mesmo da pandemia de Covid-19, as indústrias de carne precisavam seguir uma série de normas para controle sanitário e que segundo os professores passam total segurança. "Por conhecer a realidade das plantas (frigoríficos), não me preocupo com a segurança dos alimentos. Os processos são rigorosamente controlados para minimizar risco de infecção", afirma Carolina. Luciano concorda: "A indústria vem se adaptando ano após ano. Os controles são muito rigorosos."

Entre os itens que garantem a segurança alimentar, a professora Roberta Barbosa destaca os equipamentos de proteção individual (EPIs): "Mesmo antes da pandemia, práticas rigorosas de controle de higiene e de qualidade eram empregadas nos frigoríficos. Podemos citar o uso de botas, macacão (ou calça e blusa), capacete, máscara, luvas e touca de proteção, que além da segurança do manipulador, impedem a presença de contaminantes físicos, químicos ou biológicos na carnes e seus produtos."

Os EPIs são fornecidos e higienizados pelas próprias indústrias. Nenhuma roupa ou material é levado pelo trabalhador para ser higienizado em casa. "Entrou na planta já se coloca o EPI e dependendo do setor em que a pessoa trabalha, ela realiza duas, três trocas de roupas", explica Carolina.

Outra questão abordada pelo professores é em relação à circulação do ar. Os ambientes são refrigerados e, por isso, não pode haver entrada de ar externo. "A maioria dos ambientes é refrigerado, a temperatura de 10 graus, onde o fluxo de ar é direcionado de dentro da indústria para fora", explica Roberta.

Ambientes e utensílios também são rigorosamente limpos com frequência, afirma o professor Luciano Malfatti. Químico industrial de alimentos e com atuação na higienização de ambientes durante a pandemia, ele explica no áudio a seguir como é feita a sanitização dos frigoríficos: a frequência e os produtos utilizados para limpeza:

 

 

As carnes passam por algum processo de higienização?

Ouça e tire essa dúvida!

 

Carolina destaca ainda que o sistema de inspeção para empresas exportadoras exige muito controle na indústrias: "É inclusive referência para outros países. Então acredito que a contaminação dos trabalhadores ocorreu principalmente em locais de aglomeração e convívio."

Por que tantos trabalhadores foram contaminados?

No início da pandemia os frigoríficos já eram apontados como locais propícios para disseminação do novo coronavírus, como consta em nota técnica do MPT: "em razão da elevada concentração de trabalhadores em ambientes fechados, com baixa taxa de renovação de ar, baixas temperaturas, umidade e com diversos postos de trabalho que não observam o distanciamento mínimo apto a viabilizar segurança durante a prestação de serviços, além da presença de diversos pontos que propiciam aglomerações de trabalhadores, tais como: transporte coletivo, refeitórios, salas de descansos, salas de pausas, vestiários, barreiras sanitárias, dentre outros."

Esses pontos também foram motivos de preocupação para os professores dos câmpus que formam profissionais para atuarem no setor. Segundo Roberta, na maioria das vezes os funcionários ficam o dia todo na indústria, se alimentam, fazem as pausas e convívio em ambiente fechados e aglomerados. "São locais em que os funcionários ficam muito próximos uns dos outros. São pontos em que o Ministério da Agricultura e Pecuária teve que atuar e legislar alterações de práticas para evitar o contágio.”

Ela também acredita que o transporte das indústrias tenha contribuído para a proliferação do vírus: "Muitos desses frigoríficos ficam em cidades pequenas, que não possuem mão de obra suficiente para atender a oferta de trabalho. As indústrias precisam trazer trabalhadores de outras cidades. Desta maneira, o transporte também se torna um vilão quando não se tomam as medidas necessárias de distanciamento, uso de máscaras, abertura das janelas e demais precauções para evitar a disseminação do vírus."

Apesar do grande número de trabalhadores contaminados, os professores não perceberam redução na produção em Santa Catarina. No áudio a seguir eles falam sobre o aumento dos turnos de trabalho:

 

 

Governos determinam mais cuidados para funcionamento de frigoríficos

Os casos de Covid-19 entre trabalhadores de frigoríficos levaram o Ministério Público do Trabalho a fechar temporariamente algumas unidades e a propor mais rigor no uso de EPIs.

Em Santa Catarina, o governo publicou portaria estadual em 12 de maio para "estabelecer medidas de prevenção para o funcionamento dos estabelecimentos de abatedouros frigoríficos de carnes em Santa Catarina". Os Ministérios da Economia, da Saúde e da Pecuária, Agricultura e Abastecimento emitiram portaria com medidas para todo o território nacional apenas em junho.

Entre as medidas estão capacitações para os funcionários, para que usem máscara, não compartilhem EPIs e consigam utilizar os equipamentos sem se contaminar ao colocá-los ou retirá-los. A professora Sandra Tavares afirma que em algumas linhas de produção em que o distanciamento mínimo não é possível, as indústrias que não conseguirem atender essa demanda deverão instalar barreiras, como divisórias de acrílico entre os postos de trabalho ou o uso de roupas e EPIs apropriados, como protetores faciais (face shield).

Os professores destacam que a portaria de Santa Catarina é mais rigorosa que a nacional. "Exige, por exemplo, distanciamento mínimo de 1,5 metro entre os trabalhadores na linha de produção, enquanto que a portaria nacional é de um metro, medida de ombro a ombro na linha de produção", exemplifica Sandra Tavares.

Outras medidas estabelecidas pela portaria da Secretaria da Saúde de Santa Catarina são: realizar a aferição de temperatura dos trabalhadores na entrada e na saída das unidades e programar a utilização dos refeitórios com apenas 1/3 (um terço) da sua capacidade, além de ficar proibida a modalidade de buffet de auto serviço (self service).

Veja as medidas para evitar contaminação pelo novo coronavírus nos frigoríficos nas portarias da Secretaria de Saúde de Santa Catarina e do governo federal.

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