Animais de estimação podem contrair o novo coronavírus?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 01 set 2020 10:42 Data de Atualização: 01 set 2020 18:18

As incertezas com a pandemia do novo coronavírus atingem também os animais de estimação. Há vários relatos pelo mundo de pets que testaram positivo para o SARS-CoV-2. No entanto, não há nenhuma evidência científica de que eles possam transmitir a doença para humanos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). 

As médicas veterinárias do IFSC Carolina de Castro Santos e Aline Mello explicam neste post:

- O que as pesquisas científicas revelam sobre a Covid-19 em animais de estimação. Eles adoecem da mesma forma que humanos?

- Se há alguma evidência de que um animal doente possa transmitir o vírus para humanos.

- Os cuidados que devem ser tomados com os pets durante os passeios ou em casa, caso alguma pessoa esteja infectada pelo novo coronavírus.

- E alertam sobre o risco de pessoas utilizarem medicamentos veterinários.

A médica veterinária Carolina de Castro Santos, professora de Produção Animal do Câmpus Canoinhas do IFSC, afirma que assim que a epidemia começou, acreditava-se que os animais de companhia não corriam risco de contrair Covid-19 dos seus tutores. No entanto, logo nas primeiras semanas surgiram relatos de transmissão de zoonose reversa para animais. "A zoonose é uma doença transmitida do animal para o homem. A zoonose reversa é o processo contrário, transmitida do homem para o animal".

As notificações de animais com a Covid-19 e as pesquisas feitas em laboratórios estão sendo reunidas pela Organização Internacional para a Saúde Animal (OIE) e podem ser acompanhadas na página "Eventos em animais". O objetivo é reunir relatos para tentar entender quais animais são mais suscetíveis ao vírus, como adoecem, quais são mais resistentes e como ocorre a transmissão entre humanos e animais.

O que se sabe até agora é que há resultados positivos para o novo coronavírus em cães, gatos, animais de zoológico e de criação, segundo o levantamento da OIE. Todos os casos estão sendo monitorados. Entre cães domésticos há relatos na China e nos Estados Unidos. Já entre gatos, foram confirmados casos de contaminação em vários países, como China, Bélgica, França, Espanha, Alemanha, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos. Em um zoológico de Nova York também houve diagnóstico em leões e tigres.

Além disso, segundo Carolina, estudos experimentais recentes demonstraram que gatos e furões podem ser infectados pelo vírus SARS-CoV-2 e transmitir a infecção para outros gatos ou furões. "A pesquisa indica que os animais infectados podem ser assintomáticos ou apresentar febre, sinais respiratórios leves ou sinais gastrointestinais. Mas essa informação deve ser analisada com cautela, visto que o estudo publicado não passou por revisão científica por pares e não apresentou dados de saúde e nem o status imunológico dos gatos para as principais viroses felinas, que poderiam interferir nos resultados do experimento. Não há, portanto, nenhuma comprovação científica que algum animal tenha ficado doente pelo SARS-CoV-2", completa.

Já os cães, suínos, galinhas e patos parecem ser menos suscetíveis à Covid-19, de acordo com os estudos reunidos pela OIE.

Como os pets são infectados?

Os casos de pets com Covid-19 têm em comum o fato de os animais viverem em famílias com casos de humanos suspeitos ou confirmados da doença, segundo os relatos reunidos pela OIE.

A médica veterinária do Câmpus Florianópolis-Continente do IFSC, Aline Mello, lembra que a convivência das pessoas com seus pets muitas vezes é bem próxima. "Eu também tenho gato em casa e sei como é, quando a gente adoece eles querem ficar junto, vêm pra cima da cama. A chance maior é da gente transmitir pra eles. Não há nenhum relato no mundo do animal ter servido de fômite."

O fômite a que ela se refere é qualquer objeto ou substância capaz de absorver e transportar o vírus. Poderia se pensar, por exemplo, que as patas dos cães ou gatos pudessem levar o vírus da rua para casa e contaminar as pessoas. "No entanto não há nenhuma evidência científica de que isso tenha ocorrido", afirma. 

Mas como ainda há muitas incertezas em relação à Covid-19, organizações internacionais como o Centro Pan-Americano de Febre Aftosa e Saúde Pública Veterinária da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (PANAFTOSA-OPAS/OMS) e a Organização Internacional de Proteção Animal Mundial (World Animal Protection) sugerem alguns cuidados com os pets, principalmente na hora de passear na rua. 

Entre esses cuidados, Carolina reforça que o uso de álcool em gel é contraindicado para animais: "Ao retornar do passeio, o tutor deve lavar as patas dos cães com shampoo específico."

Já em relação aos gatos, a orientação é mantê-los dentro das residências, independentemente da pandemia. "Gatos que frequentam a rua têm sua expectativa de vida muito reduzida, por atropelamento, envenenamento e doenças infecciosas adquiridas com o contato com outros gatos de rua", afirma Carolina.

E quem tiver Covid-19, como pode proteger seu animal?

Como os relatos indicam que os animais podem ser afetados pelo novo coronavírus, a OIE recomenda que pessoas com suspeita ou confirmação de infecção pelo SARS-CoV-2 limitem o contato com seus animais.  Práticas de higiene, como lavar as mãos, são fundamentais e não devem ser esquecidas antes e depois das interações com animais. 

"O ideal é que os cuidados com o pet sejam realizados por pessoas que não estejam com suspeitas da doença. Se a pessoa morar sozinha com o animal, ela deve sempre usar máscara quando estiver lidando com o pet e o compartilhamento de alimentos não deve ser realizado. O tutor também não pode permitir que o animal lhe dê lambidas", orienta Carolina.

A vacina contra coronavírus para cães imuniza para Covid-19? 

Antes de mais nada, vale lembrar que o coronavírus ficou mundialmente falado com a pandemia de Covid-19, mas na verdade é um antigo conhecido.

Os coronavírus fazem parte de uma grande família de vírus, a Coronaviridae, que pode acometer tanto animais quanto seres humanos. A veterinária Carolina explica que existem quatro gêneros pertencentes à família Coronaviridae, os Alphacoronavirus, Betacoronavirus, Gammacoronavirus e os Deltacoronavirus. "Cães e gatos podem ser acometidos pelos coronavírus do gênero Alphacoronavirus. As vacinas múltiplas (V8 ou V10), utilizadas em cães para prevenir diversos tipos de doenças, realmente inclui cepas de coronavírus, que são espécies específicas. No caso dos cães, ela protege contra o coronavírus entérico canino (CCoV), que causa gastroenterite, infectando as células intestinais. Já o coronavírus felino (FCoV) causa nos gatos a peritonite infecciosa felina, para qual não há vacina no Brasil.

A veterinária Aline completa ao afirmar que a vacina para cães, por exemplo, imuniza o animal apenas para o coronavírus canino e não o protege da Covid-19. Ela também faz um alerta para as pessoas que pensam em tomar a vacina para coronavírus canino. Veja no vídeo:

 

Medicamentos veterinários não podem ser usados por humanos

Além da vacina para cães, na ansiedade para se proteger do novo coronavírus tem muita gente que também está apelando a receitas caseiras e uso de medicamentos sem comprovação científica para a Covid-19. É o caso da Ivermectina, um remédio bastante usado para piolho e sarna. 

A procura por este e outros produtos em clínicas veterinárias levou o Conselho Federal de Medicina Veterinária a fazer um alerta sobre os perigos de se utilizar medicamentos veterinários em humanos, "uma vez que não foram desenvolvidos e testados em pessoas, ou seja, não existem dados que atestem a segurança e a eficácia do uso dessas formulações em humanos”:

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