BLOG DOS INTERCAMBISTAS Data de Publicação: 23 out 2025 09:28 Data de Atualização: 23 out 2025 09:28
Em setembro, uma nova turma de estudantes embarcou para a Europa para participar de mais uma edição do nosso programa de intercâmbio, o Propicie. E já começamos a receber os relatos sobre o que eles estão vivendo por lá.
Vamos começar com o depoimento da aluna Cecília Hoerbe Pippi, que está no 7º semestre do curso técnico integrado integrado em Informática do Câmpus Chapecó. Pois é, aqui no IFSC, já é possível fazer intercâmbio no Ensino Médio.
A Cecília está na Alemanha desde o início de setembro, onde realiza um projeto de pesquisa na Neubrandenburg University of Applied Sciences. O nome do seu projeto é “Analytic Software for Signalprocessing – FFT analysis”. Além de compartilhar conosco o relato abaixo super completo sobre suas primeiras percepções, ela tem produzido vídeos para o seu canal no YouTube:
Leiam o que ela escreveu:
Antes de vir para a Alemanha todos diziam que a comunicação em inglês (língua oficial do meu projeto) seria tranquila e que praticamente todos aqui no país falariam inglês, o que definitivamente não é verdade. Nem mesmo muitos professores da universidade falam inglês. No dia a dia da cidade, em mercados, padarias, farmácias, cantina etc, a comunicação é exclusivamente em alemão. Então, com certeza, ter uma noção básica de alemão foi e está sendo essencial. A Universidade também oferece curso de alemão, em diversos níveis, gratuitamente para alunos. Dessa forma, estou aproveitando a oportunidade para melhorar meu conhecimento da língua com o curso de alemão nível A2.
Fiz diversos amigos internacionais, de nacionalidades como Ucrânia, Jordânia, Palestina e meus preferidos: Latinos. Fazer amigos alemães é a parte mais difícil, porque naturalmente é mais confortável de se identificar com pessoas que falam sua língua e muitos já possuem seu círculo de amigos, mas também conheci pessoas muito legais que podem vir a se tornarem meus amigos. A universidade tem um grupo de conexão internacional bem grande e estruturado, em que quase toda semana acontecem atividades entre os intercambistas, como teatros, concertos, esportes, festas, etc. Há apenas um brasileiro estudando na universidade, de outra universidade, e somos amigos.
A convivência na universidade me lembra bastante o IFSC Chapecó. Apesar de a estrutura aqui ser consideravelmente melhor: os laboratórios são mais equipados, as salas de aula contam com mais recursos tecnológicos, há mais blocos, um refeitório enorme com diversas opções de cardápio. Os professores são acessíveis e amigos entre si, há um grêmio estudantil bastante ativo e as pessoas, em geral, são muito receptivas.
Algo que me chamou bastante atenção na universidade foram as aulas de línguas estrangeiras — além do alemão, eles oferecem espanhol, inglês, alemão baixo (Plattdeutsch), russo, entre outros. E, claro, a imensa variedade de clubes e grupos universitários. Além dos tradicionais clubes esportivos, há clubes de arte, coral, teatro, rádio, grupo de caminhadas no parque, grupo de caminhadas com cachorros, coletivo feminista, grupo de refugiados…
Outra curiosidade cultural que me chamou atenção foi em relação ao período da Oktoberfest, que está acontecendo agora em outubro. A festa é tradicional do sudeste da Alemanha, mais especificamente de Munique, na região da Baviera (Bayern). Já na região onde estou, no nordeste do país, a tradição da Oktoberfest não é tão forte. Inclusive, muitos alemães nem gostam ou não sentem orgulho da maior festa popular do mundo — que é a Oktoberfest — comparando-a ao carnaval no Brasil: atrai muitos turistas, os preços sobem bastante, há muito consumo de álcool e uma certa “bagunça” que nem todos apreciam, especialmente em regiões mais tranquilas ou menos turísticas.
Por causa do estereótipo de que os alemães são mais frios e muito literais, eu tinha receio de que meu orientador fosse muito rigoroso ou exigisse mais do que eu conseguiria entregar. Mas ele não poderia ter sido mais compreensivo. Ele se preocupa bastante com a minha experiência para além do projeto, sempre me incentivando a conhecer o país, participar das atividades da universidade e aproveitar as experiências culturais.
Como estou desenvolvendo o projeto sozinha, ele é bem flexível e me dá liberdade para trabalhar no meu próprio ritmo e espaço. Quando tenho resultados ou encontro dificuldades, compartilho com ele e com os outros professores. Normalmente, nos reunimos às quintas ou sextas-feiras de manhã para conversar sobre o que eu tenho feito e os próximos passos. À medida que o projeto for avançando, vou precisar cada vez mais do apoio dos professores para continuar o desenvolvimento.
Estou morando no complexo de dormitórios da faculdade, que conta com 4 prédios de dormitórios. Os dormitórios são muito bons, com quartos individuais, 1 banheiro para cada 2 pessoas, e uma cozinha para cada 7 – 10 pessoas. Os dormitórios da faculdade são uma opção barata e boa, tendo em vista que o preço do aluguel aqui na Alemanha é um dos mais caros da Europa. Nesses dormitórios também moram pessoas que não estudam na faculdade. Um dos requisitos da minha família para vir para o intercâmbio era ter definido uma moradia para mim durante os 3 meses, por isso tudo foi organizado e pago com antecedência.
Na minha primeira semana aqui, um dos professores me emprestou uma bicicleta para usar durante o período do intercâmbio. Ela tem me ajudado bastante a fazer compras, a andar pela cidade e conhecer lugares que normalmente seriam mais longes e desconfortáveis de ir a pé.
Uma das coisas que mais gosto aqui na Alemanha é a comida. A combinação de sabores e principalmente doce e salgado nos molhos, nas saladas, nos temperos em geral me agrada muito. Todos os dias almoço na cantina/ refeitório da universidade e o valor é em média 5¢ por refeição – que conta com carboidrato, proteína, legumes e salada – tendo opções de menu vegetariano e vegano. Todos os dias a refeição na cantina é uma experiência
cultural pra mim, porque já provei inúmeros pratos típicos (se não todos). As outras refeições como café da manhã e janta eu faço em casa, cozinhando para mim mesma.
Apesar de serem várias pessoas compartilhando a cozinha, os espaços de geladeira e armários de cada um são bem divididos e nem todos os colegas de apartamento de fato cozinham (muitos só comem lanches práticos como sanduíches, pizza ou iogurte). No dia a dia sinto falta da carne de gado, como bife, carne de panela, até mesmo carne moída, porque aqui as proteínas são 70% porco, 25% frango e 5% carne bovina.
Academicamente, tenho gostado muito da área que estou estudando e do projeto que estou desenvolvendo aqui na Alemanha, que envolve desenvolvimento de sistemas com aplicação mecatrônica e uso de hardware com microcontroladores. A experiência do intercâmbio tem me dado uma direção mais clara sobre a área que quero seguir quando voltar ao Brasil, especialmente em relação ao mercado de trabalho, salários e até mesmo a possibilidade de uma carreira internacional.
Ainda no âmbito acadêmico, fazer pesquisa é também aprender a lidar com erros e fracassos. É aceitar que você não vai conseguir fazer ou aprender tudo sozinha, nem mesmo se estudar o máximo possível. Além disso, durante o intercâmbio, é essencial saber separar a vida acadêmica da vida pessoal. Mesmo nos dias em que você está frustrada ou sobrecarregada, continua sendo a única responsável por você mesma, então precisa limpar a casa, cozinhar, lavar roupas e seguir com a rotina normalmente.
Teve momentos em que me senti tão cansada ou triste que nem queria falar com a minha família. É nesses momentos que a gente percebe o quanto é importante saber separar as coisas para conseguir aproveitar de forma saudável a experiência do intercâmbio. Na prática, os aprendizados da vida pessoal e acadêmica acabam se misturando muito. Mas, do ponto de vista pessoal, o que mais aprendi foi a lidar com os sentimentos de saudade e solidão. Às vezes, a saudade é tão intensa que se confunde com ansiedade ou uma espécie de "luto" pela vida que ficou no Brasil. Mesmo estando rodeada de pessoas, o tempo parece não passar, e você não consegue se enxergar voltando pra casa.
Algumas coisas que me ajudaram a lidar com a saudade foram: nunca deixar de falar com a minha família, mesmo quando não queria mostrar o quanto estava sendo difícil; escrever no meu diário de viagem sobre tudo o que eu estava vivendo e sentindo; e evitar ao máximo comparar a minha experiência ou meus sentimentos com os dos outros.
No fim das contas, aprendi que sou capaz de enfrentar qualquer desafio e que não é qualquer ventinho que vai me derrubar. Também percebi que essa ideia de que “a Europa é outro mundo” não verdade. Somos cidadãos do mundo. A gente se adapta a outras cidades, outras culturas, outras línguas… e segue em frente.
Dicas para intercâmbio na Alemanha
A Cecília destacou algumas dicas para quem pensa em fazer um intercâmbio na Alemanha:
- Não venha sem saber falar inglês, ou sem ter confiança no idioma (se o país não for Portugal). Mas também não deixe de vir só porque você não entende a língua local do país (como Alemão, francês, Dutch etc) porque é uma ótima oportunidade de aprender.
- Saiba que não vai ser tudo incrível, e nem do jeito que você imaginou, mas vai te mostrar um lado seu eu e uma força que você talvez nunca conheceria.
- Você vai amadurecer 5 anos em 3 meses.
- A saudade não passa, mas você se torna mais racional com ela, e quando você menos espera a agonia de querer voltar se transforma em um sentimento bom e de conforto.
- Viaje e conheça o país onde você está. Procure saber a história
- Uma dica um pouco mais delicada, mas importante: Uma vez que você está no intercâmbio, se possível não se prive das experiências, festas, viagens, comidas por causa de dinheiro. Esse é o momento que você tanto esperou e que não vai mais voltar. Tenha o apoio da sua família, se organize antes de vir para o intercâmbio para você poder viver, aproveitar, conhecer, experimentar o que você tiver vontade e curiosidade onde você está.
Intercâmbio no IFSC
Para mais informações sobre intercâmbio no IFSC, acesse a página de intercâmbio estudantil.