EVENTOS Data de Publicação: 04 nov 2025 09:29 Data de Atualização: 04 nov 2025 13:07
Servidores do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) participaram do 1º Congresso Brasileiro de Arte, Cultura e Saúde Mental e no XV Encontro Catarinense de Saúde Mental, realizados entre os dias 28 de outubro e 31 de outubro, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Cinco representantes da instituição integraram a mesa-redonda Saúde Mental na Escola, um dos destaques da programação do evento, promovendo um diálogo sobre desafios e práticas de promoção do cuidado no ambiente educacional.
A mesa, realizada no dia 30 de outubro, reuniu Vanessa Luiza Tuono (Câmpus Florianópolis), Cristina Folster Pereira (Câmpus Joinville), Letícia Helena Wiggers (Câmpus Florianópolis) e Raphael Henrique Travia (Câmpus Joinville), com moderação de Magali Inês Pessini (Câmpus Florianópolis-Continente).
O debate abordou temas como o papel da psicologia escolar, a importância da gestão de pessoas na saúde mental dos trabalhadores da educação e as ações de promoção e prevenção no contexto escolar. As falas dos representantes do IFSC reforçaram a trajetória institucional de valorização da saúde mental e da qualidade de vida, tanto entre servidores quanto entre estudantes. A gravação parcial está disponível no YouTube:
Uma política institucional de cuidado e prevenção
De acordo com a psicóloga Letícia Wiggers, o IFSC tem se destacado nacionalmente pela adoção de uma abordagem institucional integrada à promoção da saúde mental e da qualidade de vida no trabalho (QVT). “Uma das iniciativas pioneiras foi a revisão e ampliação do instrumento de pesquisa de QVT, que passou a contemplar dimensões mais amplas do bem-estar no contexto da nossa instituição”, explica.
A pesquisa, aplicada junto aos servidores em março de 2023, permitiu mapear fatores de risco psicossocial e identificar fatores protetivos, subsidiando políticas e programas institucionais de cuidado. Um aspecto inovador, segundo Letícia, foi o processo participativo de discussão dos resultados: “Outro aspecto inovador foi o processo participativo de discussão dos resultados, realizado por meio de Seminários Regionais envolvendo todos os câmpus e a Reitoria, promovendo a construção coletiva de planos de ação locais no segundo semestre de 2023”.
Na ocasião, Leticia apresentou como as ações realizadas na pesquisa consolidaram uma política institucional de QVT com foco preventivo, dialógico e sustentável, superando práticas assistencialistas e valorizando o protagonismo dos trabalhadores na formulação das estratégias de cuidado. Para a servidora, a participação do IFSC em uma mesa sobre saúde mental na escola tem grande importância simbólica e prática.
“Simbolicamente, representa o diálogo entre instituições públicas comprometidas com a formação humana e social, reconhecendo que a saúde mental na escola é uma responsabilidade compartilhada. Na prática, é uma oportunidade de trocar experiências, refletir coletivamente sobre desafios comuns e fortalecer redes de cuidado interinstitucionais”, avalia.
Cuidado como missão educativa
Letícia ressalta que, nos últimos anos, o IFSC passou a tratar a saúde mental como tema central e não periférico. “Na área de Gestão de Pessoas, houve uma evolução expressiva na compreensão de que o cuidado com o trabalhador é parte essencial da missão educativa. As políticas passaram a incorporar o conceito ampliado de saúde mental – que vai além do tratamento de adoecimentos – e a investir em estratégias de prevenção, escuta ativa, valorização profissional e melhoria das relações socioprofissionais.”, afirma.
Esse movimento também alcançou o campo pedagógico. “Esse movimento se refletiu em uma atenção maior aos fatores psicossociais que interferem no aprendizado e na permanência escolar, promovendo ações de escuta, apoio e cuidado integral. Assim, o IFSC tem buscado fortalecer uma cultura institucional de cuidado, na qual servidores e estudantes são vistos como sujeitos integrais”, salienta Letícia.
Para a psicóloga Cristina Folster Pereira, essa visão se concretiza em práticas interdisciplinares. “Somente em 2019, a Lei Federal 13.935 incluiu psicólogos e assistentes sociais na rede de educação básica. No entanto, o IFSC já realizava, em vários de seus câmpus, trabalhos interdisciplinares que envolviam esses e outros profissionais na promoção da saúde mental de toda a comunidade escolar ”.
Cristina apresentou na mesa dois exemplos entre as diversas iniciativas realizadas nos câmpus. A primeira é o projeto Promoção de Saúde Mental na Escola, desenvolvido no Câmpus Xanxerê, que reúne psicóloga, docentes, bibliotecária e estudantes. O segundo é o projeto Hábitos de Estudo, realizado no Câmpus Joinville desde o segundo semestre de 2022, que chegará à sua sexta edição no início do próximo ano. “Composto por oficinas organizadas pela pedagoga e pela psicóloga, ele vai muito além de hábitos de estudo, abordando também temas como atenção e memória, ansiedade de prova, medo da matemática e uso do celular, entre outros”, relata Cristina.
Desafios do cotidiano escolar
Entre os desafios vivenciados no dia a dia das escolas, a professora Vanessa Luiza Tuono destacou a necessidade de fortalecer a comunicação e os espaços de escuta. “No congresso, abordei a comunicação. As redes sociais têm tornado as relações rasas e há muita dificuldade em compartilhar o que se sente, especialmente em encontrar uma escuta empática e acolhedora. As relações do ambiente escolar extrapolam para as relações sociais, então este deveria ser um espaço seguro para compartilhamento”.
Para Vanessa, outro ponto que exige atenção é o encaminhamento adequado de situações de sofrimento psíquico. “Creio que outro desafio seja o que fazer com a informação. Para onde ou para quem a escola encaminha alguém em sofrimento psíquico? Estamos progredindo no IFSC, o que as experiências relatadas na mesa realmente revelaram”.
A docente ressaltou ainda o orgulho em representar o Instituto em um evento nacional dessa relevância. “Senti muito orgulho da nossa instituição, que é feita por pessoas incríveis, que dão de si, que compartilham, que acolhem, que se preocupam e se ocupam com essas sérias questões. Me senti entre amigos e pessoas que admiro!”, ressalta.
A mesa também contou com a participação de Raphael Henrique Travia, coordenador pedagógico do Câmpus Joinville, que compartilhou sua trajetória pessoal e profissional. “Relatei um pouco minha trajetória pessoal de aluno à coordenação. Enfatizei momentos em que precisei utilizar os serviços públicos de saúde mental, esperando, com isso, desfazer preconceitos e estigmas que são atribuídos a pessoas em sofrimento psíquico”, contou.
Raphael destacou ainda como o trabalho na Coordenadoria Pedagógica tem contribuído para transformar vivências pessoais em ações coletivas de cuidado, resultando em diversas ações promovidas nos últimos anos. “Temos promovido eventos como o Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola [7 de abril] e o Dia Mundial da Saúde Mental [10 de outubro], como exemplos de boas práticas em saúde mental na escola”.
Caminhos para fortalecer a promoção da saúde mental
Vanessa Tuono acredita que o fortalecimento da promoção da saúde mental no IFSC passa por três pilares: diálogo, acolhimento e visibilidade do tema. “É fundamental criar espaços e um clima institucional de respeito, reconhecimento e promoção à saúde”, diz. Letícia Wiggers complementa que os desafios para consolidar políticas de cuidado e prevenção são múltiplos:
“Um dos principais é superar a lógica assistencialista e individualizante, construindo políticas que atuem sobre os determinantes institucionais e organizacionais do adoecimento. Outro desafio é garantir a continuidade das ações, evitando que iniciativas de cuidado fiquem restritas a projetos pontuais. Há ainda o desafio da transformação da cultura organizacional, especialmente frente ao uso intensivo das tecnologias e à dificuldade de estabelecer limites entre vida pessoal e trabalho”.
Para a servidora, é necessária uma reconfiguração da cultura laboral. “O teletrabalho e a comunicação digital constante trouxeram novos riscos psicossociais, exigindo uma reconfiguração ética e saudável da cultura laboral. Por fim, há o desafio de sensibilizar gestores e equipes para o tema, assegurando recursos, espaços de escuta e políticas institucionais de prevenção que se mantenham vivas e eficazes no cotidiano”, conclui.