A inteligência artificial está nos deixando mais burros?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 31 out 2025 18:52 Data de Atualização: 14 nov 2025 23:22

Você já parou para pensar que a inteligência artificial (IA) tem resposta para tudo que você perguntar? Pergunte sobre o que quiser, peça para ela falar ou escrever em inglês, mandarim ou qualquer outro idioma, dê o comando para ela produzir uma imagem, criar uma planilha comparativa de preços ou escrever um texto sobre qualquer assunto. Ela fará a entrega que você precisa, rapidamente, 24 horas por dia, sete dias por semana.

Tentador, não? Principalmente quando o prazo de entrega aperta. Mas como fica o nosso cérebro diante dessa facilidade de obter respostas rápidas e acertar sempre? É possível que a IA esteja nos deixando menos inteligentes cognitivamente? E emocionalmente? Vamos nos tornar seres humanos menos reflexivos, menos tolerantes à frustração? Afinal, a IA gosta de tecer elogios e acertar sempre, né!

Para quem gosta de spoiler ou está imerso intensamente num mundo de dopamina barata, já adianto: diferente da inteligência artificial, eu como jornalista e os entrevistados não têm receio de afirmar “não sei” para todas as perguntas acima. Por outro lado, as plataformas de inteligência artificial, quando questionados sobre o assunto, óbvio que tiveram uma resposta mais assertiva (spoiler: e colocaram a culpa em nós, seres humanos).

Mas, e aí, quem está na vanguarda? Quem sabe criar um bom prompt (comando) para a inteligência artificial ou quem escreve/cria sem o auxílio dela? Em tempos de Inteligência Artificial,vale a máxima da Teoria da Evolução de Charles Darwin, quando ele estudou que não vence o mais forte e nem o mais esperto, mas o mais adaptável? Em outras palavras: quem utiliza IA é mais adaptável ou é mais esperto?

O grande objetivo aqui é reunir informações, refletir, e apontar possibilidades para cada um de nós tomar decisões para a própria vida. Então, prepare-se que - mesmo em tempos de IA - vem textão por aí, com auxílio de professores do IFSC: Bárbara Sabino, de Gestão e Negócios do Câmpus Gaspar; Jesué Graciliano da Silva, de Refrigeração e Ar-Condicionado e especialista em IA do Câmpus São José; e Ivelã Pereira, de Língua Portuguesa do Câmpus Chapecó.

 


O que a inteligência artificial diz sobre ela mesma?

Perguntei a duas plataformas. Em resumo: a responsabilidade é do usuário.

O ChatGPT respondeu: “o perigo não está na inteligência das máquinas, mas na preguiça das pessoas.” Indo além: a IA pode nos deixar mais burros se houver terceirização do pensamento, mas pode nos deixar mais inteligentes se for usada como prótese de pensamento, não substituto.

O grande problema, apontado pela própria IA, ocorre quando as pessoas deixam de questionar, de aprender e de se frustrar. Neste caso, o cérebro atrofia. “O intelecto é como músculo: sem resistência, amolece. Mas com treino — inclusive com ajuda da própria IA — ele se expande.”

O Gemini respondeu: “a dependência excessiva da IA pode reduzir o pensamento crítico e julgamento, diminuir a memória ativa e o engajamento neural e ainda comprometer a criatividade. Por outro lado, ela pode liberar o tempo dos humanos para se concentrarem em tarefas mais complexas, estratégicas, criativas ou que exigem maior inteligência emocional.”

Por que (e para que) queremos economizar tempo com IA?

Este é um dos grandes pontos trazidos pelo professor do Câmpus São José do IFSC, Jesué Graciliano da Silva: “A IA está dentro de um contexto de uso excessivo de telas. Então, a IA é mais uma ‘distração’, em um momento de instantaneidade, em que as pessoas querem respostas rápidas”, reflete.

Ivelã Pereira, professora de Língua Portuguesa do Câmpus Chapecó do IFSC, iniciou a condução de um projeto de pesquisa sobre o efeito das telas na vida dos adolescentes, com a participação de três estudantes. A inspiração e curiosidade da professora Ivelã surge diante das percepções em sala de aula.

Ela explica: “Os alunos atuais estão acostumados a uma realidade imediatista e a não quererem ‘gastar tempo’ na formulação/construção de ideias, ignorando que esse processo de construir, errar, refazer por conta própria é estritamente necessário para o aprimoramento cognitivo de qualquer ser humano, sobretudo na adolescência. E isso vai além do âmbito intelectual, perpassando o psicológico também, pois é no processo de pesquisa e erro que aprendemos a lidar com nossas limitações”, reflete.

Outro ponto é a questão do imediatismo e da ansiedade. “Há 30 anos, sabíamos lidar melhor com demoras nas respostas, sem ter crises de ansiedade, as quais são comuns hoje e se devem muito ao acesso imediato a informações. Isso é algo muito interessante de se perceber: as máquinas e a IA estão nos deixando mais ansiosos e imediatistas”, afirma a professora Ivelã.


Já existem uma série de pesquisas relacionando IA e educação. Algumas muito críticas, afirmando que “o uso indevido de IAs representa uma erosão que vai além do plágio: atinge a própria capacidade de aprender que estudantes e profissionais têm” (Shaw, 2025). Outros (Abbas, Jam & Khan, 2024), destacam que estudantes com alta carga de trabalho e forte pressão de tempo tendem a usar ChatGPT para suas tarefas — mas esse uso maior está ligado à procrastinação, relatos de perda de memória e desempenho acadêmico inferior.

Surge então uma das grandes questões desta discussão: utilizamos a inteligência artificial para poupar tempo — mas por quê e para quê?

  • Queremos desempenhar tarefas mais complexas e estratégicas como seres humanos (para desenvolvermos mais a cognição)?
  • Queremos economizar tempo para desacelerar (para desenvolver a saúde mental)? 
  • Queremos utilizar a IA para termos respostas rápidas e acertar?
  • Ou queremos, com o tempo que sobra, acelerar ainda mais a vida imergindo em dopamina barata (vídeos curtos, redes sociais etc)?

Como a IA pode auxiliar no processo de ensino-aprendizagem?

A professora Bárbara Sabino, da área de Gestão e Negócios do Câmpus Gaspar do IFSC, integrou a inteligência artificial em suas aulas como ferramenta para ampliar as possibilidades de ensino-aprendizagem. “Os próprios estudantes relatam que é mais fácil estudar por meio de games, de agente de IA e outras ferramentas”, relata ela, apontando alguns exemplos:

  • Game interativo com IA para revisão do conteúdo da aula (exemplo: kahoot) e games com IA aplicados de modo individual para revisão de conteúdo para as avaliações (exemplo: Genially para revisão sobre legislação trabalhista);
  • Agente de inteligência artificial em cada conteúdo para que os alunos em casa, realizando as atividades (tarefas ou aulas EaDs), possam tirar suas dúvidas, como neste exemplo.
  • Hall de ferramentas de IA que auxilia os estudos e a realização de atividades acadêmicas como: mapas conceituais; resumos de textos e vídeos; conversar com um PDF; converter PDF; apresentações; apresentações para vídeos; tradutor; gerar a partir de sua foto qualquer uma foto profissional; entre outros.

O professor Jesué oferece um curso de extensão EaD “Letramento em IA”, pela plataforma Moodle do IFSC.  A expectativa é atender cerca de 10 mil professores estaduais de Santa Catarina em 2026 e 2027 com o curso, por meio de uma parceria entre IFSC e Governo do Estado.

“Não é para endeusar, é para mostrar como foi criada, que é um artefato humano, e como fazer bom uso da IA como professor”, afirma.

Qual o impacto para as futuras gerações?

O professor Jesué inspira um certo otimismo em relação às mudanças da cognição humana: “Considerando toda a evolução da humanidade, isso que estamos vivendo é apenas um fragmento. As mudanças no cérebro foram moldadas ao longo de um milhão de anos. Então, é muita pretensão nossa achar que uma mudança que está ocorrendo há três anos - porque é este o tempo que o grande público tem acesso a IA - pode impactar tão rapidamente em como o cérebro funciona”, afirma.

Na mesma linha segue Bárbara Sabino, da área de Gestão e Negócios do Câmpus Gaspar do IFSC, que atua como professora há 25 anos. “A calculadora nos deixou menos inteligentes? O computador nos deixou menos capazes? A Internet nos fez parar de pensar? Na minha percepção, a IA nada mais é que a nova ferramenta de produtividade, com inúmeras possibilidades, como a calculadora, o computador e a Internet o foram. É algo novo, desconhecido da grande massa, talvez, por isso, a preocupação com situações inimagináveis a pouco tempo”, afirma.

A professora Bárbara exemplifica com o registro de atividades dos trabalhadores nas empresas. Primeiro, era feito com um cartão de papel (com todo controle e cálculo da folha de pagamento manual pela equipe de Recursos Humanos); depois o registro passou a ser por meio de um cartão magnético (com processos informatizados pelo RH); após surgiu um cartão em que o funcionário registra seu ponto pelo celular ou computador de qualquer lugar, inclusive no home office; e na sequência há o reconhecimento facial (ou outro) em que o ponto pode ser registrado a partir da entrada do funcionário por qualquer um dos acessos da empresa e sem que o funcionário perceba.

A professora Ivelã reconhece que a busca por informações em IA requer um tipo específico de inteligência, que, aliás, “muitos de nós (pessoas acima de 30 anos) não desenvolvemos tão bem quanto adolescentes de hoje. Em certa medida, eu reconheço que preciso desenvolver em mim esse tipo de inteligência (de busca de informações em IA)”, admite ela.

E o professor Jesué reflete que o cérebro humano pode se adaptar devido à neuroplasticidade e isso pode ser o novo normal. “Nesse novo normal talvez as habilidades antigas não sejam mais necessárias. É tudo muito recente”, conclui.

 

Como iniciou a inteligência artificial?

As discussões sobre Inteligência Artificial iniciaram em 1950, quando o matemático Alan Turing (dica: assista o filme O Jogo da Imitação) publicou um artigo que passou a ser considerado como o marco fundador da IA. No estudo, Turing questionou: “Máquinas podem pensar?”. E o problema não era questionar se o computador poderia ser “inteligente”, mas sim se poderia se passar por um ser inteligente (SOBREIRA, 2025). 

Em 1956, o norte-americano John McCarthy cunhou “artificial intelligence”: “artificial” no sentido de artefato (do latim artificium), uma construção técnica, não biológica.

O professor e neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis critica a expressão “inteligência artificial”, afirmando que não se trata propriamente de inteligência, já que as máquinas apenas reproduzem e reorganizam dados produzidos por seres humanos (veja aqui).

Mesmo a discussão tendo iniciado há cerca de 70 anos, a IA ficou acessível ao grande público apenas há cerca de três anos, quando plataformas como ChatGPT e Gemini ficaram disponíveis. Ou seja: “as pesquisas ainda são incipientes, é tudo muito recente, estamos no meio e não no final desse processo de descoberta”, reflete o professor Jesué.

O que é ser inteligente?

Até 40 anos atrás, ser inteligente significava ter um Quociente de Inteligência (QI) alto. O QI foi uma medida criada - pelo psicólogo francês Alfred Binet, em 1905 - para tentar quantificar a capacidade intelectual de uma pessoa, especialmente em termos de raciocínio lógico, memória, compreensão verbal e habilidade matemática. 

Nos anos 1980, no Brasil, Luiz Machado discutiu a integração cognição–emoção em aprendizagem (O cérebro do cérebro, 1984), defendendo que bases emocionais influenciam o desempenho intelectual. Machado disse que a inteligência depende das bases emocionais do ser humano. Ou seja, quanto melhor eu estou emocionalmente, mais inteligente eu fico. 

Essa relação ganhou projeção internacional com conceitos de “inteligência múltipla” (Howard Gardner, 1980), em que o cérebro humano é diversamente talentoso, ou seja, há muitos modos de ser inteligente; e com o conceito de inteligência emocional (Daniel Goleman, 1990), em que emoções e relacionamentos são parte fundamental da cognição, a partir de pesquisas de Peter Salovey e John Mayer.

No programa “Conversa com Bial”, de 29 de outubro de 2025, ao debater sobre IA, o linguista e professor aposentado de Língua Portuguesa (UFPR), Carlos Faraco, e o jornalista e escritor de “Escrever é humano” (2025), Sérgio Rodrigues, afirmam: “A poção mágica é a leitura”, fazendo uma referência aos quadrinhos de Asterix (1959), no qual uma aldeia de Gália, no ano 50 antes de Cristo, resiste à invasão romana com auxílio de uma poção mágica que dá força sobre-humana a quem a bebe. Na interpretação atual, Panoramix (que prepara a poção) representa o saber e a poção é a linguagem criativa e libertadora.

O professor Jesué também reflete nesta linha: “Para assimilar, é preciso ver, ouvir e explicar. Com seis cliques, a rede social traça o seu perfil e te insere em uma ‘bolha’. Ou seja, não consigo mais enxergar nada além da minha bolha. Vamos criando muros intransponíveis, mas se a gente conversar mais, perceberemos que nem eu estou tão correto e nem meu amigo está tão errado”, reflete.

Afinal, estamos ficando mais burros?

Depende de uma série de fatores:

  • De como cada um utiliza a Inteligência Artificial;
  • De como cada um utiliza o tempo economizado com as tarefas que a IA realiza;
  • As pesquisas ainda são bastante incipientes (em razão do pouco tempo de uso da IA pelo grande público);
  • A IA está embutida em um contexto de instantaneidade e imediatismo, em razão das redes sociais e vídeos curtos;
  • O cérebro humano pode se adaptar e isso pode ser o novo normal.

“Precisamos ter autocontrole, ética, usar com inteligência, precisamos questionar a resposta, forçar o cérebro a criar um raciocínio, ter uma expectativa da resposta para conseguir questionar, comparar uma resposta de uma IA com a outra”, sugere o professor Jesué.

Um dos maiores físicos de todos os tempos, Stephen Hawking (1942-2018), acreditava que a inteligência artificial (IA) poderia se tornar a maior bênção ou a maior ameaça para a humanidade. Ele afirmou, em um discurso feito em 2016, que os avanços da IA trariam benefícios em áreas como medicina, educação e exploração espacial, mas alertava para o risco de perda de controle.

Uma série de filmes ecoam esta perda de controle por parte da IA, como Blade Runner (1982, Ridley Scott), Matrix (1999, Wachowski), Her (2013, Spike Jonze), O Exterminador do Futuro (1984–2019).

E, em todos eles, a pergunta permanece: será possível em algum momento desligar a tomada da inteligência artificial?

 

 

Referências

Livros

  • “Rápido e Devagar”, Daniel kahneman (2012)
  • Inteligência Artificial, Kai-Fu Lee (2019)
  • Superinteligência: perigos, caminhos e estratégias para um novo mundo, Nick Bostrom (2018)
  • O cérebro do cérebro (Luiz Machado, 1997)
  • Geração Ansiosa (Jonathan Haidt, 2024)
  • Inteligência emocional: A teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente (Daniel Goleman, 1997)

Filmes:

  • Blade Runner - O caçador de Androides (1982)
  • O Jogo da Imitação (2014)
  • Matrix (1999)
  • Her (2013)
  • O Exterminador do Futuro (1984)

Entrevistas:

Artigos científicos

Reportagens e outros:

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