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Que mudanças a tecnologia 5G pode trazer para a sociedade?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 29 mar 2022 14:59 Data de Atualização: 29 mar 2022 19:35

Nós, que passamos boa parte do nosso dia conectados à internet, vamos ouvir falar cada vez mais de um número e uma letra que prometem revolucionar a maneira como nos relacionamos com a rede: 5G. Essa nova tecnologia de redes móveis, que esteve no centro de uma disputa comercial entre as duas maiores economias do mundo, vai ampliar a velocidade das conexões, permitir mais dispositivos conectados em um mesmo espaço e diminuir o tempo de resposta no tráfego de informações

Isso, claro, terá impacto em nossas vidas, mas a mudança deve ser ainda maior no setor industrial. Já existente em aproximadamente 65 países, o 5G está em fase de implantação no Brasil e deve chegar às capitais de estado até o ano que vem. Para entender quais são os avanços que ele vai permitir, conversamos com dois professores e pesquisadores da área de telecomunicações do Câmpus São José do IFSC. Eles explicaram também o que é a tecnologia 5G, como ela surgiu, onde está mais avançada e como ela pode ajudar no avanço da educação no nosso país

O professor Mário de Noronha Neto tem graduação, mestrado e doutorado em Engenharia Elétrica. Tem experiência na área de comunicações e processamento de sinais, atuando em temas como comunicação digital, tecnologias de comunicação sem fio e aprendizagem de máquina aplicada a sistemas de comunicação

Rubem Toledo Bergamo também tem doutorado e graduação em Engenharia Elétrica, além de mestrado em Segurança do Trabalho, e sua área de pesquisa está focada em rede sem fio em geral, comunicações móveis, redes de acesso sem fio e IoT [sigla em inglês para “internet das coisas”]. Tem experiência nas áreas de comunicações móveis, tecnologias sem fio em geral e sistemas de comunicações ópticas

Mário e Rubem integram um grupo de professores do Câmpus São José que participou em 2021 de um programa de capacitação da empresa chinesa Huawei para ministrar cursos sobre o 5G.

O que é o 5G?

O 5G (sigla que vem de “quinta geração”) é uma evolução das gerações anteriores de tecnologias de redes móveis e telefonia celular, como o 3G e o 4G, com as quais estamos mais habituados. Além de funcionar como meio para conectar pessoas, essa nova geração traz a novidade de conectar “coisas”, segundo o professor Mário de Noronha. “As pessoas vão começar a sentir isso quando ele começar a ser implementado de fato aqui no país. O que esperamos com o 5G é ter novas aplicações e experiências, tanto em nível de usuário, de comunicação pessoal, quanto para a indústria”, diz.

 

Essa tecnologia está ainda na sua primeira etapa de implantação nos países em que já existe. Nela, os usuários têm a experiência de utilizar a rede com uma taxa de transmissão ampliada, ou seja, com mais velocidade. No Brasil, essa fase deve começar em 2023.

Quais são os principais avanços que o 5G vai trazer?

O professor Mário de Noronha destaca três pontos como os grandes avanços do 5G em relação às gerações anteriores: aumento da taxa de transmissão, comunicação de baixa latência e comunicação massiva. No vídeo abaixo, ele e Rubem Bergamo resumem como serão essas melhorias.


 

O acesso à internet será aprimorado pelo 5G com taxas de transmissão (a “velocidade de conexão à rede”) bem maiores que as do 4G. “Estamos falando de taxas de transmissão na casa dos gigabits por segundo. Hoje, em termos de acesso à internet, estamos acostumados a megabits por segundo [um gigabit é mil vezes o valor de um megabit]”, explica. Os tempos para download e upload de arquivos serão bem menores, por exemplo, e imagens em alta resolução ficarão mais acessíveis

O segundo ponto, que Noronha chama de “comunicação de baixa latência e ultraconfiável”, tem relação com o tempo necessário para ocorrer uma ação e uma reação dentro da rede. “Você vai acionar algum dispositivo, vai tatear a tela do seu computador, o tempo de resposta tem que ser muito pequeno para que você tenha uma boa experiência de interação com a internet”, exemplifica. No caso do 5G, o tempo de resposta está na casa de um milissegundo (um segundo dividido por mil), cerca de 50 vezes mais rápido que o 4G

A baixa latência (ou seja, um tempo mais rápido de resposta) do 5G vai permitir experiências com realidade aumentada (tecnologia que permite sobrepor elementos virtuais à nossa visão da realidade) e realidade virtual que hoje não são possíveis. Também abre possibilidades como a de avanços na chamada “internet tátil”, que permite a interação de sentidos humanos com máquinas, envolvendo contato audiovisual e tato. Essa tecnologia é usada, por exemplo, em cirurgias remotas. “São cenários mais futurísticos. É uma segunda etapa de implantação do 5G. Não vamos ver isso logo no começo, mas são inovações que estão previstas”, diz Noronha

O terceiro ponto que Noronha destaca, a comunicação massiva, significa que o 5G vai permitir conectar aproximadamente um milhão de dispositivos por quilômetro quadrado sem que haja prejuízo à taxa de transmissão - uma capacidade que é aproximadamente 100 vezes a do 4G. Esses aparelhos não são só telefones celulares, mas qualquer um que tenha conexão à rede, como câmeras, TVs e carros, entre outros

Há previsões de que, até 2024, cada ser humano vai estar conectado a aproximadamente oito dispositivos na sua casa, conforme conta o professor Rubem Bergamo. Somados a esses aparelhos domésticos, os dispositivos de empresas e das cidades podem fazer com que a marca de um milhão de conexões por quilômetro quadrado seja atingida. “O 4G não foi preparado para essa massificação. O 5G é realmente a rede que está preparada para lidar com essas conectividades massivas, principalmente do que a gente chama de ‘machine to machine’ [de máquina para máquina]”, destaca

Os três avanços trazidos pelo 5G devem ampliar a chamada “internet das coisas” (ou IoT, na sigla em inglês para “internet of things”), ou seja, a conexão de objetos à internet. Esse efeito vai ser sentido principalmente pelas corporações, na visão de Rubem. “Na indústria há a necessidade de monitoramento, muitos sensores, questões de segurança… Às vezes você precisa de uma comunicação com tempo de latência muito baixo. Então, eu vejo o 5G com um grande potencial dentro da indústria. Ele permite a capacidade de gerenciar muito mais dispositivos”, avalia. No uso pessoal da rede, a principal mudança observada deve ser mesmo com relação à velocidade da conexão, acredita o professor

 

Os segmentos da indústria que podem ser mais beneficiados no Brasil são o agronegócio, a telemedicina e as inovações para as chamadas “cidades inteligentes” (cidade que usa tipos diferentes de sensores eletrônicos para coletar dados e usá-los para gerenciar recursos e ativos eficientemente), acredita o professor Mário de Noronha.

A China criou o 5G?

A tecnologia 5G esteve no centro de uma disputa comercial entre China e Estados Unidos. O governo americano chegou a vetar a presença de empresas chinesas de telecomunicações em suas redes e pressionou parceiros comerciais a banirem os equipamentos da companhia Huawei, uma das mais avançadas na nova tecnologia. A alegação foi de que os equipamentos dessas corporações representariam um risco à segurança dos Estados Unidos, já que a China, de acordo com o governo americano, poderia utilizá-los para espionagem ou para interferir no funcionamento da infraestrutura de outros países

A China é, de fato, o país mais avançado na implantação do 5G, conforme o professor Rubem Bergamo, sendo o país com mais cidades já conectadas à nova tecnologia. Isso representa uma mudança em relação ao que ocorreu nas gerações anteriores, quando os Estados Unidos estavam mais avançados em termos de conhecimento e de cidades conectadas. “A China inverteu isso. Então, isso gerou um certo temor [nos EUA], pois antecipar significa que você está um passo à frente em termos tecnológicos. Essa questão de quem criou e quem domina [a tecnologia] também implica questões geopolíticas”, comenta Rubem

No entanto, segundo o professor do Câmpus São José, não é possível dizer onde exatamente surgiu o 5G, pois ele é resultado de diversos avanços tecnológicos originados de pesquisas em todo o mundo. “A tecnologia hoje está compartilhada globalmente”, ressalta. Rubem cita os próprios Estados Unidos, a Finlândia e a Coreia do Sul como outros países de destaque na implantação do 5G

Com relação a preocupações como “espionagem” por parte da China ou de qualquer país por causa do 5G, o professor lembra que hoje todas as informações sobre o que fazemos no mundo digital passam por redes e sistemas que têm proprietários. “Estamos cada vez mais vivendo um ‘Big Brother’. Não podemos deixar de imaginar que estamos sendo monitorados”, afirma

O estágio avançado da China com o 5G e o fato de a Covid-19 ter surgido naquele país acabaram criando um terreno fértil para uma das mais absurdas informações falsas que circularam durante a pandemia: a de que o vírus Sars-Cov-2 estaria sendo transmitido pelo sinal do 5G. Em alguns países da Europa e nos Estados Unidos, houve até depredação de antenas de transmissão do 5G por parte de pessoas assustadas com essa desinformação

No entanto, não há qualquer possibilidade de o vírus, um organismo biológico, ser espalhado por meio de uma tecnologia de comunicação móvel que usa ondas eletromagnéticas. Também não há nenhuma comprovação científica que sustente a alegação de que o 5G poderia prejudicar o sistema imunológico e, com isso, facilitar a infecção pela Covid-19. Trata-se de outra informação falsa

Quando teremos o 5G no Brasil?

O Brasil realizou em novembro de 2021 o leilão das faixas de frequência do 5G - o maior leilão de faixas de frequência de telefonia móvel da história do país, arrecadando quase R$ 47 bilhões. Foram leiloadas quatro faixas, indo de 700 megahertz a 26 gigahertz (sendo a de 3,5 gigahertz a mais usada pelo 5G no mundo). Houve empresas que adquiriram faixas para operação da tecnologia em todo o país e outras apenas para regiões geográficas específicas.

As frequências com que o 5G opera são mais altas que as do 4G, com maior capacidade de transferência de dados, mas alcance mais curto, o que vai exigir maior investimento em estrutura para difusão da nova tecnologia (antenas e outros transmissores) dentro da mesma área geográfica. A previsão é de que até 2023 as capitais de estado tenham acesso à tecnologia

No leilão, foi prevista também a ampliação do 4G, que hoje ainda não atinge cerca de 9% das localidades do território brasileiro, de acordo com dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). “O 4G é uma rede que ainda vai ficar muito tempo no Brasil. Entendo que vai ser a rede que vai ser mais utilizada pelo acesso da população à rede”, afirma Rubem

Uma característica do 5G que pode permitir sua maior penetração no território brasileiro é a de possibilitar a criação de redes privadas dentro de organizações, operadas por elas mesmas. Na visão do professor Mário de Noronha, isso vai permitir levar a tecnologia a locais no Brasil que hoje são de difícil cobertura por redes móveis

“Talvez seja uma saída para que essa tecnologia chegue a todos os cantos do país. Senão, pode acontecer o que hoje temos com o 4G, que está presente só nos grandes centros”, diz. No modelo de rede gerenciada apenas pelas grandes operadoras de telefonia móvel, áreas que são vistas por elas como economicamente inviáveis (demandam muito investimento em estrutura para levar o 5G, mas dão pouco retorno financeiro) podem ficar descobertas, alerta Noronha. Para poder acessar o 5G, o usuário precisará, além de ter a oferta da tecnologia no local onde vive, adquirir dispositivos compatíveis com a tecnologia

Na opinião de Rubem Bergamo, o leilão das faixas de frequência do 5G poderia ter avançado mais em relação a metas de aumento do acesso dos brasileiros à internet. Uma estratégia que poderia ter sido usada, diz, seria o compartilhamento de rede, permitindo que pequenos provedores operassem redes privadas em áreas geográficas específicas, em vez de a operação ficar com apenas grandes empresas.

O 5G vai ajudar a melhorar a educação?

Os professores do Câmpus São José consideram que o 5G pode ajudar a trazer avanços para a educação brasileira. Rubem Bergamo acredita que a melhoria do acesso à internet tem um impacto positivo no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de uma população. “Cada vez mais, a falta de acesso à internet faz com que a educação fique desamparada”, afirma. Ele destaca que esse acesso não pode ser precário, mas de boa qualidade

Para Mário de Noronha, com melhor acesso à internet, pode haver melhoria na educação a distância, com novas possibilidades de repassar o conteúdo para os estudantes. “Você pode dar acesso ao aluno a coisas que ele não tem hoje, como, por meio da realidade aumentada, entender como funciona uma máquina”, exemplifica

A educação foi lembrada no leilão das faixas de frequência. Nele, foi colocada a obrigação para as empresas que arremataram lotes na faixa de 26 megahertz de investir num programa de implantação de conexão à internet nas escolas públicas de educação básica

No entanto, a arrecadação para esse programa por meio do leilão foi inferior ao esperado inicialmente pelo governo federal, pois alguns lotes da faixa de frequência não tiveram interessados. “Isso acaba prejudicando porque, o que era uma meta de acesso às escolas de educação básica por essa faixa de frequência, já fica comprometida”, lamenta Rubem.

Para saber mais

- Live “5G e a conectividade com IoT” (parte da programação da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia no Câmpus São José em 2021)
- Live “5G, Cloud e IA: os próximos passos para um mundo mais conectado” (parte da programação da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia no Câmpus São José em 2021)
- Página do Ministério das Comunicações sobre o 5G
- Neste post, consultamos fontes do IFSC que atuam no curso técnico em Telecomunicações (integrado e subsequente) e no curso de graduação em Engenharia de Telecomunicações, ambos ofertados pelo Câmpus São José do IFSC. Conheça os projetos pedagógicos desses e de outros cursos no nosso Guia de Cursos.

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