Como funciona uma Unidade de Terapia Intensiva?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 11 ago 2020 13:49 Data de Atualização: 11 ago 2020 20:12

A cada momento, a imprensa divulga informações sobre lotação de hospitais e Unidades de Terapia Intensiva (UTI). São dados importantes, levados em conta pelas autoridades públicas na decisão pelo relaxamento ou reforço das medidas de distanciamento social, pois como não há um tratamento específico e eficaz contra a Covid-19, manter ações de monitoramento e suporte dos pacientes mais graves se tornou imprescindível para salvar vidas.

A Associação Médica Intensivista Brasileira (Amib) estima que no início da pandemia, o Brasil tinha cerca de 2,2 leitos de UTI a cada 10 mil habitantes, o que estava dentro da média preconizada pelo Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde (OMS), de um a três leitos de UTI para cada 10 mil habitantes. No entanto, a distribuição desses leitos é desigual, sendo 1,4 no SUS e 4,9 na rede privada. A diferença também se dá por regiões, sendo o Sudeste e Centro-Oeste a regiões com melhor estatística e as regiões Nordeste e Norte com a pior. O Sul estava dentro da média nacional, com 2,2 leitos por 10 mil, porém, com a diferença de 1,8 leitos no SUS e 3,5 na rede privada.

Desde o início da pandemia no Brasil, em março, o Sistema Único de Saúde (SUS) habilitou 11.777 leitos de UTI (informações do site do Ministério da Saúde). Também se fala na importância dos equipamentos utilizados nessas unidades, principalmente os ventiladores pulmonares (respiradores), que suscitaram uma “corrida” pela compra e importação. 

Assim, o IFSC Verifica consultou especialistas do IFSC para saber:

- Como funciona uma UTI e porque ela é tão importante no tratamento da Covid-19

- O que é um ventilador pulmonar e quem precisa utilizar esse tipo de aparelho

- Quais os riscos para os pacientes que utilizam esses ventiladores

- Qual a diferença entre os diversos tipos de aparelhos que auxiliam na respiração do paciente

Conheça também o projeto em colaboração do IFSC e da UFSC para produzir ventiladores pulmonares e Ambus automatizados de baixo custo.

Por que a UTI é importante no tratamento da Covid-19?

Segundo a coordenadora do curso técnico em Enfermagem do Câmpus Florianópolis, Marciele Misiak Caldas, apenas cerca de 10% das pessoas contaminadas pelo novo coronavírus precisam de internação em Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Ela cita nota da Amib, que esclarece: “a Covid-19 é uma infecção com potencial de causar alterações significativas na capacidade ventilatória, levando a comprometimento pulmonar difuso e piorando as trocas gasosas. A internação em UTI geralmente ocorre com paciente que apresenta alterações pulmonares gravíssimas causadas pela infecção, em que a capacidade de ventilar os pulmões ou realizar a troca gasosa desses pacientes é reduzida, o que pode resultar em um quadro de insuficiência respiratória e a necessidade de uma monitorização contínua e uso dos ventiladores pulmonares”. 

Mas, como funciona uma UTI? A professora do curso de Engenharia Elétrica do Câmpus Itajaí, Fernanda Isabel Marques Argoud, especialista em Engenharia Biomédica, esclarece que uma UTI é composta por vários tipos de equipamentos, sendo alguns fixos e outros móveis, como o ventilador mecânico.

Entre os equipamentos fixos em uma UTI, o principal é o Monitor Cardíaco Multiparâmetros, que tem como função verificar vários sinais vitais, como frequência cardíaca, eletrocardiograma, pressão arterial, quantidade de oxigênio no sangue, entre outros.

Os respiradores (também chamados de ventiladores pulmonares) são utilizados apenas quando a pessoa não consegue respirar sozinha, apresente queda da saturação de oxigênio no sangue, dificuldade de respirar, alterações nos exames de imagens como raio X e tomografia, alterações metabólicas, além da falência de outros órgãos. 

Nesse caso, o equipamento é inserido pela boca ou pela traqueia e faz a função do pulmão da pessoa. Há outros tipos de respiradores mais simples, como o Ambu, utilizado principalmente em situações de emergência, e o cateter nasal, que auxiliam a respirar melhor, porém, não substituem a função pulmonar (veja abaixo a diferença entre esses equipamentos).

A professora Marciele alerta, porém, que ter leitos de UTI ou respiradores disponíveis em determinada região não significa que é possível relaxar as medidas de prevenção à Covid-19. Como não há um tratamento específico e comprovadamente eficaz, as medidas tomadas em UTIs podem melhorar o prognóstico da doença, mas não são sinônimo de cura. “A UTI vai proporcionar uma qualidade melhor, um suporte melhor para o paciente, mas não quer dizer que ele está fora de risco. Então, com certeza as medidas de prevenção são o melhor caminho”.

No vídeo, a professora Marciele explica melhor como funciona uma UTI no caso do tratamento para o coronavírus:

Cuidados extras na segurança de profissionais e pacientes

Além dos equipamentos, o funcionamento de uma UTI exige uma equipe capacitada para este tipo de atendimento, focada nos cuidados do paciente. O enfermeiro é o profissional que faz o monitoramento e ajuste de equipamentos, sob coordenação da equipe médica e em conjunto com outros profissionais, como fisioterapeutas, nutricionistas, farmacêuticos, psicólogos, odontólogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais.

A coordenadora do curso técnico em Enfermagem destaca que, com o coronavírus, reforçaram-se os cuidados com os próprios profissionais da saúde em UTI no que diz respeito aos equipamentos de proteção individuais (EPIs). Além dos usuais, enfermeiros e demais profissionais precisam utilizar equipamentos adicionais, como faceshield, aventais, luvas, entre outros, durante todo o período de trabalho na UTI.

Também há a questão da alta rotatividade dos profissionais e deslocamento de trabalhadores da saúde de outras áreas para a UTI, o que exige capacitação desses profissionais em pouco espaço de tempo.

A pesquisa realizada pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) sobre a situação das equipes de UTIs no Brasil traz mais detalhes sobre os desafios enfrentados pelos profissionais de saúde na linha de frente da pandemia.

Os riscos de se utilizar um ventilador pulmonar

Segundo as professoras Marciele e Fernanda, o ventilador pulmonar é um equipamento para se usar em última instância e por pouco tempo, pois pode causar vários danos à saúde do paciente. A pneumonia por ventilação mecânica é um dos efeitos mais comuns. 

Fernanda explica que o respirador é basicamente uma bomba em que são misturados gases, que são insuflados por meio de tubos, de difícil esterilização. “Como a tubulação não pode ser metálica, tem que ser flexível e confortável, a probabilidade de ficar uma bactéria dentro é muito alta, pois não é possível esterilizá-la em uma autoclave. Além disso, o ar do respirador precisa ser umidificado, e não tem fonte maior de infecção do que umidade”, completa.

Marciele lembra também que o uso do respirador por muito tempo pode comprometer a musculatura respiratória e dos membros do paciente, ocasionando perda de força, o que pode dificultar a retirada do tubo e exigir tratamento fisioterápico após a internação.

O risco de uso inadequado também é grande. O respirador precisa ser utilizado por profissionais treinados, pois erros de regulagem da saída de ar, por exemplo, podem causar danos graves aos pulmões. O fisioterapeuta é o profissional indicado para auxiliar médicos e enfermeiros na definição dos parâmetros de uso dos ventiladores pulmonares em UTIs.

Assim, a taxa de mortalidade por Covid-19 com o uso de respiradores é alta. Segundo estudo UTIs Brasileiras, em torno de 9% dos pacientes em UTI e que não utilizaram ventilação mecânica foram a óbito, enquanto entre os que receberam ventilação, a média de mortalidade foi de 65%, sendo 62% na rede privada e 70% na pública.

Porém, em casos graves, a chance de óbito é de 100% caso o respirador não seja usado. Por isso cabe à equipe médica avaliar com precisão quem necessita desse cuidado mais intensivo.

A Agência Brasileira de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu nota técnica específica sobre os ventiladores pulmonares, em que aponta riscos e benefícios desses aparelhos e cita normas para sua fabricação de forma segura.

No vídeo, a professora Fernanda explica melhor quais os riscos dos ventiladores pulmonares.

Por que precisamos importar esses equipamentos? É muito caro produzi-los?

Segundo o site do Ministério da Saúde (MS), desde o início da pandemia foram adquiridas 9.672 unidades de ventiladores pulmonares, sendo 4.995 equipamentos de UTI e 4.677 de transporte (Ambus). Além disso, há contratos para a produção de 16.252 ventiladores pulmonares em empresas nacionais.

Fernanda lembra que há muitos anos se alerta para a falta de respiradores em hospitais. “O coronavírus é um vírus que ataca principalmente o pulmão. Então, quando a humanidade ficou sabendo que estávamos em risco de pandemia, isso gerou uma preocupação ainda maior. Se falta respirador hoje, o que vai acontecer em caso de coronavírus?”

Existem várias iniciativas para a produção desses equipamentos por instituições brasileiras. Uma parceria entre a UFSC e o IFSC está desenvolvendo equipamentos médicos para combate à Covid-19, sendo dois Ambus automatizados e um modelo de ventilador pulmonar. O protótipo de ventilador já está em fase de testes clínicos, ou seja, em humanos.

Segundo o professor do Departamento Acadêmico de Metal Mecânica do Câmpus Florianópolis Luiz Fernando Segalin de Andrade, o equipamento está passando por algumas adequações na interface com o usuário, detectadas a partir dos testes pré-clínicos (com animais) realizados no Hospital das Clínicas, em Porto Alegre, e no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

A intenção é produzir quatro a cinco protótipos para testes e depois conseguir parceria com empresas para a produção em larga escala, a um custo bem mais baixo que o dos equipamentos oferecidos pelo mercado atualmente. Os equipamentos são produzidos nos laboratórios da UFSC que fazem parte do grupo de Equipamentos Médicos de Emergência (EME), sendo que algumas peças também são produzidas nas instalações do IFSC.

Os Ambus automatizados estão em fase de protótipo. O projeto foi paralisado por um tempo por falta de recursos e por limitações na aquisição de peças e ferramentas. Agora, com recursos do Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif), a produção foi retomada e em breve devem ser iniciados os testes.

Para saber mais sobre o projeto, veja matéria publicada no Portal do IFSC

Tipos de equipamentos

Conheça os diferentes tipos de equipamentos que dão suporte à respiração do paciente (fotos: Banco de Imagens):

 

Cateter nasal: o paciente recebe oxigênio pelo nariz, mas mantém os movimentos próprios de respiração.

 

 

 

 

 

 

 

Ambu: é utilizado em casos de emergência até chegar ao ventilador mecânico. A ventilação pode ser manual ou automatizada.

 

 

 

 

Ventilador mecânico (respirador): há o respirador com máscara, que não é invasivo, e o ventilador de intubação, que utiliza cânulas (o circuito).

 

 

 

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