IFSC VERIFICA Data de Publicação: 19 jun 2026 12:35 Data de Atualização: 30 jun 2026 11:00
A pergunta pode parecer estranha para quem só se lembra do ferrão ou da doçura do mel, mas as abelhas são muito importantes para todo o planeta. Elas são as principais polinizadoras das plantas, que é o processo de transferência do pólen da parte masculina de uma flor para a parte feminina. Isso permite a fecundação da planta e resulta em sementes e frutos, ou seja, alimento.
Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), em torno de 75% das plantas agricultáveis do mundo dependem, em algum grau, da polinização por animais.
O IFSC Verifica conversou com o professor de Biologia do Câmpus Florianópolis do IFSC, Mário César Sedrez, e com o chefe da divisão de estudos apícolas da Epagri, Rodrigo Durieux da Cunha para saber mais sobre o assunto.
No vídeo abaixo, eles explicam o tamanho desta preocupação:
A seguir, os dois especialistas explicam também os motivos que levam à diminuição das populações de abelhas e se é possível substituí-las nas lavouras, além de falarem sobre a grande variedade de abelhas e a importância delas para o meio ambiente e a economia.
Antes de mais nada, é importante saber:
Aquela abelha listrada de preto e amarelo, famosa pela picada bem dolorida, é a Apis mellifera, mais conhecida como abelha africanizada, fruto do cruzamento de duas espécies de abelha - uma da Europa e outra da África. Apesar de não ser brasileira, é a principal abelha criada comercialmente e produz a maior parte do mel consumido e exportado pelo Brasil.
As abelhas estão mesmo desaparecendo?
Pelo mundo todo, pesquisadores e produtores de mel relatam situações em que aparecem muitas abelhas mortas ou em que as colmeias ficam vazias de repente. Existe até um fenômeno chamado Distúrbio do Colapso das Colônias (em inglês Colony Collapse Disorder), observado principalmente em locais de produção de mel e que ganhou atenção mundial a partir de 2006, quando apicultores dos Estados Unidos relataram perdas súbitas e incomuns de colônias: as abelhas operárias sumiram e deixaram para trás o mel e a rainha.
No Brasil não há comprovação de ocorrência deste fenômeno específico, como relatado em artigo publicado pela Embrapa. No entanto, o professor Mário lembra de uma situação também grave que ocorreu entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019, quando foram encontradas mortas cerca de 500 milhões de abelhas nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul, além das abelhas silvestres que não são contabilizadas.
Duas entidades internacionais que realizam e reúnem pesquisas sobre biodiversidade - a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e a Infraestrutura Global de Informação sobre Biodiversidade (GBIF) também trazem dados preocupantes em relação às populações de abelhas.
Em um estudo feito na Europa em 2025, estimou-se que 10% das abelhas selvagens européias estejam em risco de extinção. Já uma análise a partir de dados de museus e universidades do mundo todo aponta que, após a década de 1990, “o número de espécies de abelhas coletadas diminuiu acentuadamente, de modo que aproximadamente 25% menos espécies foram relatadas entre 2006 e 2015 do que antes da década de 1990".
Por que elas estão morrendo?
As abelhas são bioindicadoras da qualidade ambiental. “Onde tem abelhas podemos dizer que é um ambiente saudável", afirma Rodrigo Durieux da Cunha, da Epagri. Por isso, desmatamentos, queimadas, mudanças climáticas, manejos inadequados, parasitas e agrotóxicos podem afetar as populações de abelhas.
“Lembrando que abelhas são insetos, os inseticidas das lavouras matam abelhas. E não só inseticidas, mas fungicidas, por exemplo, também. Então a utilização de agrotóxicos de forma indiscriminada, sem cuidados na dosagem, sem cuidados do princípio ativo correto, afeta a população de abelhas naquele ambiente”, afirma Rodrigo.
O professor Mário traz ainda outro fator preocupante. “O veneno usado na lavoura pode contaminar a abelha, que vai para a colmeia e contamina os produtos, por exemplo, o mel, a cera, o pólen, o próprio própolis.”
A pesquisa de Márcia Regina Faita, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) mostra que o glifosato, o herbicida mais usado no mundo, foi encontrado nos produtos apícolas. “E a gente está comendo esse veneno.”
O professor Mário lembra ainda que pesticidas, como o malathion, utilizados no fumacê no combate ao mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, também têm promovido perdas de enxames de abelhas por apicultores e meliponicultores.
É possível substituir as abelhas?
As abelhas surgiram há muito tempo na história evolutiva da Terra, há cerca de 100 milhões de anos. Segundo o professor Mário, acredita-se que elas derivaram de um grupo de vespas carnívoras, mas, com o surgimento das plantas com flores, as chamadas angiospermas, as abelhas passaram a coevoluir. “Quer dizer, uma passou a depender da outra na sua sobrevivência. As plantas fornecem o pólen, o néctar, resinas, abrigo. E as abelhas fazem a polinização cruzada, a reprodução. Então uma não vive sem a outra.”
É uma relação tão antiga que, para Rodrigo, é muito difícil de ser substituída: “É muito difícil o ser humano e suas tecnologias alcançarem tanta eficiência, não se conseguiria fazer o trabalho que as abelhas fazem e de graça para nós.”
Mas há tentativas. A polinização artificial é usada em algumas lavouras de forma manual ou por drones e robôs, principalmente na China, em áreas onde o uso excessivo de agrotóxicos dizimou as populações de abelhas, como em plantações de maçãs e peras.
É possível inverter a ameaça de extinção?
Sim, é possível, com os cuidados de sempre com o meio ambiente. Mas há uma forma que já está trazendo resultados e tirando muitas espécies da lista de ameaçadas, que é a atividade de criação de abelhas, explica Rodrigo: “Quem cria tem o objetivo de deixar as abelhas saudáveis, porque quando se faz uma criação de abelhas a gente quer ter um retorno seja de mel, pólen, colônia ou outros produtos. Então o apicultor, o meliponicultor, ele quer ter as abelhas saudáveis. Ele cuida das abelhas, fortalece, multiplica. E parte dessas populações pode voltar para os seus ambientes naturais”.
O que as abelhas representam para a economia de Santa Catarina?
Santa Catarina é referência na produção de mel, sendo o segundo estado em produtividade: 45 quilos de mel por quilômetro quadrado, enquanto a média nacional é 7,5 quilos. “Somos destaque também na exportação e na qualidade do mel", afirma Rodrigo.
Segundo ele, em torno de 14 mil famílias catarinenses trabalham com apicultura, mas a meliponicultura também tem se destacado. “A meliponicultura (abelhas sem ferrão) tem crescido. Isso tem despertado o interesse do público consumidor por ser um mel diferenciado e bastante utilizado na Gastronomia.”
Além da produção para venda, uma peculiaridade da abelha sem ferrão é que ela pode ser criada em ambientes urbanos ou periurbanos, porque ela não causa riscos para as pessoas. “Então ela tem se desenvolvido também como atividade de lazer. As pessoas querem ter abelhas na varanda de casa, no jardim, no quintal, como se fosse um pet.”
Saiba que é preciso fazer o registro da colmeia
Mas criar abelhas exige responsabilidade, porque é um animal - e silvestre. “Falando da abelha sem ferrão, ela requer conhecimento. Nós da Epagri trabalhamos levando conhecimento técnico aos produtores, aos interessados", explica Rodrigo.
São animais que requerem também um controle. É necessário um cadastro na Cidasc para ter um controle de doenças e também um cadastro no Ibama por ser um animal nativo. Neste documento da Epagri estão todas as orientações.
É hora de ampliar o conhecimento
O professor Mário atua para ampliar o conhecimento sobre as abelhas. E começa em sala de aula: “É interessante. Quando a gente pergunta para os alunos sobre abelhas, é unanimidade na sala. Eles conhecem a Apis. Eles têm medo de abelha, já levaram uma picada. Então trazer o estudo das abelhas sem ferrão para a sala de aula, a chamada meliponicultura, é vital para preservar a biodiversidade.”
No Câmpus Florianópolis e em eventos de pesquisa, é comum o professor levar colmeias de abelhas jataí, a lambe olhos e a mandaçaia para a comunidade conhecer.
"Para mostrar a importância das abelhas, a importância da polinização, mas não só a polinização. O pólen, a cera, uma série de coisas que as abelhas propiciam para as pessoas, e desconstruir esse temor da picada de abelha para uma coisa que todo mundo pode ter em casa.
As abelhas também motivam uma série de projetos no IFSC:
- Câmpus Florianópolis: projeto leva a meliponicultura até a sala de aula, para os estudantes conhecerem o universo das abelhas sem ferrão, fortalecendo os processos de ensino e de aprendizagem através da Educação Ambiental e contribuindo para a formação integra.
- Câmpus Lages: está em desenvolvimento o projeto de um meliponário inteligente com participação do curso de Automação Industrial do IFSC. A iniciativa combina preservação de abelhas nativas sem ferrão, monitoramento e inovação tecnológica.
- Câmpus São Miguel do Oeste: em 2025 foi lançado o roteiro da sustentabilidade, que inclui um meliponário didático para criação e manejo de abelhas nativas sem ferrão, aberto a visitas de estudantes e comunidade externa.
- Câmpus Araranguá: um projeto de pesquisa desenvolve um sistema de monitoramento de bebedouros para abelhas, com sensores para analisar condições ambientais e climáticas.
- Câmpus Jaraguá do Sul-Rau: a Eco Trilha Mata Atlântica passa por um meliponário instalado ao longo do percurso e recebe visita de estudantes da cidade.
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