ENSINO Data de Publicação: 05 out 2026 12:33 Data de Atualização: 05 out 2026 13:51
O 3º Encontro Estadual dos Cursos Técnicos Integrados ao Ensino Médio do IFSC foi encerrado na última quinta-feira, 1º de outubro, no Câmpus Canoinhas. Durante três dias, o evento reuniu estudantes, professores, pesquisadores, gestores e profissionais da educação em torno do tema Currículo: Articulação entre Formação Geral e Técnica. O encontro deu continuidade às discussões realizadas nas edições anteriores, em Chapecó, em 2022, e Criciúma, em 2024. Neste ano, o debate esteve diretamente relacionado à implementação das Diretrizes dos Cursos Técnicos Integrados ao Ensino Médio do IFSC, aprovadas pela Resolução Consup nº 142/2025. Os câmpus têm até março de 2028 para adequar seus Projetos Pedagógicos de Curso (PPCs) à norma.
Para o professor Anderson da Silva Honorato, chefe do Departamento de Educação Básica na EPT da Pró-Reitoria de Ensino (Proen), que mediou a apresentação da síntese das rodas de conversa, esse contexto deu um significado especial aos debates realizados durante o encontro. “Os três segmentos [estudantes, docentes e técnicos] chegaram a uma mesma pergunta: o quanto nossos cursos são realmente integrados?”, destaca.
A questão apareceu acompanhada de diferentes perspectivas sobre o cotidiano dos cursos. Os estudantes relataram, por exemplo, dificuldades relacionadas à extensa jornada, incluindo deslocamentos que ultrapassam três horas por dia e muitos dias de aula em período integral. Já os docentes ressaltaram currículos com mais de 3.200 horas e a falta de espaços para discussão pedagógica. Os técnicos-administrativos, por sua vez, apontaram a necessidade de maior participação das equipes pedagógicas na construção dos PPCs, desde o início do processo de reestruturação.
O currículo e a vida real dos estudantes
A síntese das rodas de conversa mostrou que a discussão sobre currículo não pode ser dissociada das condições concretas em que os estudantes vivenciam os cursos. Para Anderson, os relatos deram dimensão prática aos apontamentos levantados. “Eles trouxeram o olhar de quem vive o currículo no dia a dia. Deram rosto a questões que costumamos tratar de forma técnica: o aluno que passa horas no ônibus, que não consegue fazer estágio, que não tem tempo para estudar”.
A carga horária apareceu, nesse sentido, como uma dos aspectos que precisam ser aprofundados durante a revisão dos PPCs. Segundo o chefe do Departamento de Educação Básica na EPT, os estudantes questionaram uma organização curricular que pode dificultar a realização de estágios, enquanto os docentes discutiram quais conhecimentos são efetivamente essenciais na formação.
As novas diretrizes estabelecem cargas horárias mínimas entre 3.000 e 3.300 horas, com limite de até 10% acima desse parâmetro, além de reconhecerem a importância do estágio não obrigatório e remunerado. Para Anderson, a discussão sobre a carga horária precisa considerar não apenas aspectos institucionais, mas também a experiência dos estudantes. “São cursos de qualidade, que transformam vidas, mas que ainda precisam caber na vida real dos estudantes”, avalia.
A organização curricular também foi relacionada à necessidade de tornar mais efetiva a integração entre formação geral e técnica. Durante as rodas, surgiu a expressão “concomitância disfarçada de integração” para descrever situações em que os componentes das duas formações estão reunidos no mesmo curso, mas ainda funcionam de maneira pouco articulada. As diretrizes aprovadas pelo IFSC estabelecem mecanismos para enfrentar esse problema, como o Núcleo Politécnico Comum, os projetos integradores e as oficinas de integração, que devem envolver professores da formação geral e da formação técnica.
Experiências que podem orientar a revisão dos PPCs
Além dos problemas e desafios, o encontro também possibilitou o compartilhamento de experiências desenvolvidas em outros câmpus e instituições da Rede Federal. Para Anderson, essas iniciativas podem servir de referência para o processo que será realizado no IFSC. No Câmpus Diamantina do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), por exemplo, a reestruturação dos PPCs foi organizada a partir de uma metodologia com calendário, capacitação e reuniões entre as áreas de formação geral e técnica. Os encontros entre docentes também são contabilizados na carga horária de trabalho.
Já no Instituto Federal Fluminense (IFF), todos os currículos integrados foram reformulados em cerca de dois anos, com acompanhamento dos câmpus por um comitê e definição de fluxos para aprovação. Também foram compartilhadas experiências de unidades que utilizam projetos de ensino como espaços de integração entre diferentes áreas. Para Anderson, essas experiências ganham relevância justamente porque os câmpus do IFSC terão pela frente um processo semelhante de revisão dos seus projetos pedagógicos. “São referências muito úteis agora, porque todos os nossos câmpus vão passar por esse processo de reestruturação até março de 2028”.
A construção coletiva também foi destacada pela pró-reitora de Ensino do IFSC, Eliana Bär. Para ela, a participação de todos os setores da comunidade acadêmica ampliou a compreensão sobre os desafios e as possibilidades dos cursos técnicos integrados. “Estudantes, docentes, técnicos-administrativos e gestores vivenciam a instituição a partir de lugares diferentes e, por isso, também apresentam perspectivas distintas sobre questões que, muitas vezes, são comuns a todos”, afirma.
Segundo Eliana, essa escuta conjunta contribui para aproximar as propostas pedagógicas das necessidades dos estudantes e das condições de funcionamento dos câmpus. Para ela, a integração defendida nos currículos também precisa estar presente na maneira como os cursos são pensados e construídos coletivamente.
Um momento de expansão dos cursos integrados
O encontro também ocorreu em um momento de ampliação da oferta de cursos técnicos integrados no IFSC. Entre 2027 e 2028, está prevista a implantação de 11 novos cursos, levando essa oferta para 19 câmpus e criando mais de 1.200 novas vagas. Para a pró-reitora, a expansão vem acompanhada da necessidade de fortalecer as condições para a permanência e o êxito dos estudantes da educação básica. Entre as iniciativas destacadas estão a priorização da alimentação escolar, a ampliação da estrutura de refeitórios e o fortalecimento dos editais de Ensino, Pesquisa e Extensão (EPE).
A pró-reitora também cita a atualização dos Plano de Oferta de Cursos e Vagas (POCVs) dos câmpus e o amadurecimento das discussões sobre a implementação das novas diretrizes como parte dos avanços institucionais. Para ela, porém, ampliar a oferta não é suficiente. Um dos principais desafios está em construir currículos que articulem efetivamente os conhecimentos da formação geral e profissional, superando a simples reunião de componentes curriculares de diferentes áreas em uma mesma matriz. “Esse é um processo que exige reflexão coletiva e disposição para rever práticas já consolidadas”, ressalta.
O que fica depois do encontro
A síntese das rodas de conversa apresentada no último dia do evento reuniu propostas dos três segmentos e apontou caminhos que dialogam diretamente com as novas diretrizes. Os estudantes sugeriram, por exemplo, reorganizar e integrar componentes com conteúdos afins. Os docentes propuseram a curricularização de projetos de ensino e a criação de um núcleo integrador. Já os técnicos-administrativos defenderam a participação do setor pedagógico desde o início da elaboração e revisão dos PPCs.
Segundo Anderson, essas propostas podem ser incorporadas ao trabalho dos grupos responsáveis pela reestruturação dos projetos pedagógicos nos câmpus. "O caminho é usar essas contribuições como orientação concreta para os GTs que vão reestruturar os PPCs até março de 2028, e levar essas discussões aos demais servidores dos câmpus", afirma o professor. A participação dos estudantes também está prevista nas próprias diretrizes, que estabelecem a construção participativa dos projetos, incluindo as agremiações estudantis, e a participação dos alunos na avaliação dos cursos.
Para Eliana, a síntese construída durante as atividades deve subsidiar os próximos passos da instituição, especialmente nos câmpus e nas instâncias envolvidas com a revisão e o fortalecimento dos projetos pedagógicos. Entre as possibilidades apontadas no encontro está a construção de currículos mais flexíveis, que ofereçam espaços de escolha e considerem diferentes interesses e trajetórias formativas. De acordo com a pró-reitora, essa flexibilidade precisa estar articulada a uma concepção de formação integral, que contemple não apenas a preparação para o trabalho, mas também cultura, esporte, cidadania e desenvolvimento pleno dos estudantes.
A avaliação de Anderson segue na mesma direção. Para ele, os cursos técnicos integrados do IFSC têm qualidade e potencial de transformação, mas o momento atual exige que a instituição avance na aproximação entre aquilo que está previsto nos documentos e aquilo que é vivido nos câmpus. Ao mesmo tempo, ele considera que o IFSC vive um momento favorável para enfrentar esse desafio, com novas diretrizes institucionais, prazo definido para a revisão dos PPCs e diferentes segmentos apontando questões semelhantes.
O próprio Encontro Estadual, segundo Anderson, faz parte desse processo. Previsto nas diretrizes para ocorrer a cada dois anos, o evento tem entre seus objetivos avaliar e socializar práticas relacionadas aos cursos técnicos integrados. A terceira edição, realizada em Canoinhas, encerra uma etapa de discussão, mas abre outra, que deverá continuar nos câmpus durante o processo de revisão dos projetos pedagógicos.