IFSC VERIFICA Data de Publicação: 14 set 2026 22:07 Data de Atualização: 16 set 2026 17:30
A urna eletrônica é mesmo segura? Já tivemos alguma fraude confirmada no mecanismo de votação? Como e quando o atual sistema eleitoral brasileiro foi desenvolvido? Qual a importância das eleições para a manutenção da democracia no Brasil? Sempre fomos um país democrático?
No próximo mês, teremos o primeiro turno de mais uma eleição nacional, que escolherá o presidente da República, governadores, deputados e senadores. Neste dia 15 de setembro, Dia Internacional da Democracia, o IFSC Verifica traz uma reportagem com especialistas de várias áreas para falar sobre o sistema eleitoral brasileiro – desde o funcionamento da urna eletrônica e seus detalhes técnicos, passando pela história do seu surgimento, em Santa Catarina, até a importância das eleições para a consolidação da democracia no Brasil.
Os especialistas entrevistados são:
- Carlos Prudêncio, desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) e pioneiro da informatização do voto no Brasil;
- Samuel Fernandes Ribeiro, secretário de Tecnologia da Informação do Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina (TRE-SC);
- Marcelo Peregrino Ferreira, advogado e doutor em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC);
- Anderson dos Santos, mestre em História, professor do Câmpus Joinville do IFSC
O computador entra na eleição
Em 1982, o juiz eleitoral Carlos Prudêncio se lançou numa busca que hoje soa quase inacreditável: encontrar um computador em Joaçaba, no Oeste de Santa Catarina. Telefonou para fóruns, indústrias, escritórios. A resposta foi sempre a mesma – ninguém tinha, ninguém sabia exatamente o que era aquilo. Até que alguém lembrou de um jornalista da cidade, correspondente de um jornal gaúcho, que usava um equipamento para transmitir suas matérias. Prudêncio foi à casa dele e pediu o equipamento emprestado.
Aquele acabou sendo o primeiro computador a ser usado numa eleição brasileira. Anos depois, a mesma ideia, amadurecida e ampliada, faria de Brusque a primeira cidade do país a testar o voto por computador. Em 1996, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) adotou oficialmente a urna eletrônica, que se tornaria símbolo de modernização do processo eleitoral e da própria democracia brasileira, embora sua credibilidade também tenha sido colocada em xeque ao longo dos anos.
Para entender por que alguém sonharia com uma eleição sem papel, é preciso lembrar como era a votação em papel. “A história do voto impresso é a história da fraude do processo eleitoral e o detalhamento extremamente minucioso do Código Eleitoral não tem outra razão de ser senão a de impedir as muitas possibilidades de manietação da vontade do eleitor, fruto das experiências passadas”, conta o advogado e doutor em Direito pela UFSC, Marcelo Peregrino Ferreira.
Conforme ele explica, desde o Império até o Código Eleitoral, a composição da mesa eleitoral, responsável pela qualificação dos eleitores até a apuração de votos, teve um impacto extremamente relevante no resultado dos pleitos. Urnas chegavam às seções já com cédulas dentro, as chamadas "urnas grávidas". Mesários trocavam votos em branco por cédulas marcadas a favor de um candidato, prática batizada de "bico de pena". Havia o "voto de cabresto", em que o eleitor votava conforme a ordem de um chefe local, e episódios em que mortos apareciam nas listas de votantes. Atas eram reescritas depois da apuração. A cada novo tipo de fraude, um novo apelido.
Esse era o pano de fundo quando o juiz Carlos Prudêncio decidiu inovar o processo. Magistrado desde os 24 anos, ele testemunhou de perto a lentidão e as suspeitas que cercavam a contagem manual dos votos. "Eu não entendia por que demorar tanto para dar os resultados das eleições. Ficava indignado com a quantidade de horas que se levava para votar e se apurar os votos. Não me conformava. Tinha município de Santa Catarina que demorava uma, duas semanas nesse processo. Havia estado que levava até um mês”, recorda o desembargador aposentado.
Desse modo, o juiz começou a redesenhar, comarca por comarca, o próprio processo de apuração. Em São Francisco do Sul, depois em Mondaí e em Capinzal, Prudêncio passou a escolher a dedo os membros das juntas apuradoras (bancários, contadores, qualquer um "que lidasse com número") e a reorganizar os fluxos de apuração. Foi nesse contexto que a ideia de uma máquina apareceu como resposta às limitações do trabalho manual. "Humanamente, era impossível fazermos mais rápido do que já estávamos", lembra. A solução só podia vir de outro lugar.
Assim, em 1982, ainda sem projeto pronto, usou o computador emprestado do repórter de Joaçaba apenas para a totalização. Isto é, o eleitor continuava votando em papel; no entanto, a soma dos votos passava pela máquina. O êxito abriu um horizonte maior. No ano seguinte, Prudêncio foi transferido para Brusque, no Vale do Itajaí, e ali passou a desenvolver um sistema mais ambicioso: não apenas contar os votos por computador, mas colher o próprio voto eletronicamente.
OUÇA: Depois de liderar uma das contagens manuais de votos mais rápidas do país, o desembargador Carlos Prudêncio conta a história por trás da busca por aquele que seria o primeiro computador utilizado no processo de apuração de uma eleição brasileira.
Da experiência local a modelo nacional
O caminho não foi direto. Em 1988, com o software pronto, Prudêncio convidou centenas de moradores para testar as máquinas no fórum. "Por ofício, foram convidados presidentes de partidos, jornalistas, presidentes e diretores de empresas aqui da região de Brusque, presidentes de todos os sindicatos de trabalhadores, professores, lojistas, inclusive analfabetos. Isso porque a máquina precisava ser testada por aqueles que têm grande conhecimento, médio e zero conhecimento", explica o desembargador.
Em 15 de novembro de 1989, na primeira eleição direta para presidente desde o fim da ditadura, Brusque colocou em prática o teste que entraria para a história: na 90ª seção eleitoral, 373 eleitores votaram tanto na cédula tradicional quanto num terminal de computador, em caráter experimental e paralelo à votação oficial. Às 17h e um segundo, encerrada a votação, Prudêncio digitou sua senha e, quase que imediatamente, saiu o resultado impresso daquela seção, antes de qualquer junta apuradora manual do país ter sequer começado a trabalhar. A conferência entre os votos do papel e os da máquina bateu integralmente.
A repercussão foi imediata. Jornais de Santa Catarina e de todo o país estamparam manchetes sobre a "novidade catarinense". A Rede Globo chegou a anunciar o resultado ao vivo, na noite da eleição, atribuindo-o a "aquela cidade que vota por computador". No segundo turno, um mês depois, a experiência cresceu para duas seções e 790 eleitores, com computadores interligados em rede.
Ainda em território catarinense, em 1991, Cocal do Sul realizou uma consulta popular com microcomputadores adaptados pelo TRE-SC. Os equipamentos receberam teclados simplificados, com comandos específicos para a votação. Em 1994, cinco seções de Florianópolis participaram de uma experiência de voto eletrônico para governador. No ano seguinte, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) desenvolveu a primeira urna eletrônica destinada à implantação nacional.
Em 1996, a urna eletrônica estreou oficialmente em 57 municípios, alcançando mais de 32 milhões de eleitores. Dois anos mais tarde, já estava presente em 537 cidades e abrangia cerca de 75% do eleitorado. A substituição completa do processo manual ocorreu nas eleições municipais de 2000, quando a votação eletrônica passou a ser utilizada em todos os municípios brasileiros. O que a experiência catarinense deixou de legado ao modelo nacional foi demonstrar que era possível e seguro substituir o papel por uma máquina.
O que significa dizer que o sistema é seguro
Para Marcelo Peregrino Ferreira, a pergunta certa não é se "a urna é segura", mas se o processo de votação é seguro. Esse sistema foi construído em camadas, ao longo de décadas, começando pela informatização do cadastro eleitoral em 1985.
Antes e depois das eleições, são realizados testes em várias etapas, desde a auditoria do software até a segurança das próprias urnas, como as cerimônias públicas de lacração, sempre com a fiscalização de membros da Justiça Eleitoral, instituições da sociedade civil e partidos políticos.
O secretário de Tecnologia da Informação do TRE-SC, Samuel Fernandes Ribeiro, respondeu algumas perguntas sobre a segurança da urna e desmentiu boatos sobre a integridade do sistema. Veja o vídeo e mais informações no texto:
Uma urna é um computador que tem um hardware, tem memória, tem processamento, como um computador qualquer. Além disso, a urna eletrônica tem alguns processadores que são específicos para criptografia. Essas especificações são enviadas para os fabricantes, por meio de licitação. A urna não tem nenhuma placa de rede para fazer uma transmissão via wi-fi como um notebook tem, nem porta de bluetooth para fazer uma conexão.
Todo o software que vamos rodar na urna é feito pelos servidores concursados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O código fonte da urna não pode ser executado por nenhum outro hardware. Ele fica um ano disponível para mais de 14 instituições de fiscalização, como Tribunal de Contas, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), partidos políticos e universidades. Várias instituições podem enviar representantes para ler esse código fonte. Ele fica aberto e depois é fechado, para prepararmos para as eleições.
No caso de Santa Catarina, as urnas são guardadas no depósito da Justiça Eleitoral, em Biguaçu, e são enviadas às comarcas formatadas, sem dados dentro. Como as urnas não têm entrada para dados via internet, a inserção de dados (candidatos e votantes) é feita manualmente, por pen drives, urna a urna, em audiências públicas, com a participação da população, juiz eleitoral, promotor eleitoral e fiscais dos partidos. Após, a urna é lacrada com lacre da Casa da Moeda e só é aberta no dia da eleição.
Após ligar a urna, no início do horário de votação, e antes do voto do primeiro eleitor, o mesário emite a zerézima: uma lista com todos os candidatos registrados na urna e a confirmação de que não receberam nenhum voto. Os fiscais dos partidos podem conferir esse documento.
Como a urna não tem acesso à internet, os dados da urna são copiados para mídias (pen drives específicos para as urnas) de forma manual pelo mesário, que o coloca em um envelope e o encaminha ao Cartório Eleitoral, onde são transmitidos os dados para o TRE-SC e depois ao TSE, em Brasília.
A cada ano ímpar, quando não temos eleições, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) realiza o teste público da urna eletrônica, quando é aberto um edital para que qualquer instituição, qualquer empresa, grupo ou partido político que queiram averiguar mais de perto como funcionam todos os softwares eleitorais ou mesmo hardware da urna possam ir até o TSE ficar lá uma semana com acesso completo, para então poder comprovar uma hipótese de possível vulnerabilidade do sistema. Quando a vulnerabilidade é comprovada, são implementadas melhorias, e a equipe que descobriu a vulnerabilidade é convidada a repetir o teste. Isso acontece já há mais de 15 anos e a cada edição desse teste público são feitas melhorias. Então, isso é um processo contínuo.
Em Santa Catarina temos locais de votação que são próximos dos Cartórios Eleitorais, mas outros que são mais de 90 quilômetros em estrada de chão. Nesses casos, teremos uma novidade, que são os pontos intermediários de transmissão, em que o mesário leva o pen drive da urna e os dados são transmitidos, sem necessidade de ir até o Cartório Eleitoral. Esse processo já acontece há muito tempo em locais como no Amazonas e no Pará, com a transmissão via satélite. Aqui em Santa Catarina isso vai ser de certa forma uma novidade, vamos aprimorar o que já temos.
As urnas da Venezuela foram fabricadas pela empresa Smartmatic, que nunca fabricou urnas para o Brasil. Aqui as empresas que fabricam a urna eletrônica são a Positivo e a Diebold Procomp, a partir das especificações técnicas do TSE.
Muito se diz “eu queria sair com o papelzinho para garantir que o meu voto foi para o meu candidato”. Isso não é possível, porque nós estaríamos quebrando o sigilo do voto, que é uma cláusula pétrea da Constituição. Por isso não se tem um recibo eleitoral indicando em quem a pessoa votou, somente o comprovante de comparecimento. Durante a votação, esse pen drive, que fica conectado na urna, fica vazio. O resultado só vai ser copiado para esse pen drive a partir das 17 horas, quando o mesário dá o comando, é feita toda a apuração e a urna é lacrada. O que tem que bater é a quantidade de eleitores que votaram e a quantidade de votos que estão computados, em listas diferentes dentro da urna. Não é possível dizer que o eleitorado votou no candidato A ou B.
Além de salvar os dados no pen drive, a urna imprime também um relatório, chamado de Boletim de Urna (BU). Esse relatório tem todas as informações sobre a quantidade de votos recebidos por cada candidato. Esse relatório é público, é afixado na porta da seção eleitoral para que os mesários, os eleitores, os partidos e fiscais possam ver. Eles tiram fotos, mandam para os partidos, fazem uma contagem paralela. Em muitos casos, os partidos têm a informação final antes da Justiça Eleitoral, porque eles estão em vários locais, várias pessoas com o celular tirando foto e transmitindo para o seu diretório partidário. Enquanto isso, a Justiça Eleitoral está validando envelope, abrindo envelope, copiando os dados para a rede segura do TSE. Todos os dados são computados e publicados no site do TSE com o mesmo código de urna - o cidadão pode baixar o aplicativo Boletim na Mão para fazer essa conferência. Se houvesse uma “sala secreta” no TSE e esses dados fossem alterados, seria muito fácil verificar esse erro pelos partidos, comparando os dados da foto tirada do boletim de urna com os dados computados pelo TSE.
Os Tribunais Regionais Eleitorais de todos os Estados realizam uma auditoria paralela. Em Santa Catarina, no sábado anterior à eleição serão sorteadas 35 das 17 mil urnas preparadas para a eleição, por um processo de sorteio auditado. Essas urnas serão levadas até a sede do TRE-SC, em Florianópolis. Nesse local, haverá o processo de auditoria: será simulada uma votação em cédulas de papel, preenchidas aleatoriamente por estudantes. Essas cédulas serão digitadas na urna, em um processo inteiramente filmado. Ao final, haverá a contagem de votos da urna e das cédulas de papel, que terão de coincidir.
Sim, em Santa Catarina também. Há alguns anos vieram observadores da França para Florianópolis. O sistema brasileiro é muito bem pontuado como um sistema robusto e íntegro de eleições eletrônicas.
Aqui nós usamos a biometria (coleta das digitais) para evitar que alguém vote em lugar de outra pessoa. O cadastro eleitoral é encerrado em maio e a lista de eleitores é preparada urna por urna. Assim, evita-se que alguém vote no lugar de outra pessoa ou de alguém que já faleceu.
A urna foi preparada para receber votos de pessoas com deficiência. Ela tem dispositivos como fones de ouvido para pessoas cegas. Não usamos as telas touch screen porque o teclado é adaptado a pessoas cegas ou com dificuldades de enxergar, com indicação em braille, e pessoas com dificuldade de digitação. Além disso, durante o cadastro eleitoral, o eleitor pode avisar que tem alguma dificuldade, como por exemplo de locomoção, e a seção eleitoral será adaptada. Isso é feito para que todos os eleitores possam votar.
Após as eleições, as urnas vão para um depósito e ficam em quarentena por um prazo determinado por lei. Esse é o período em que elas podem ser auditadas e periciadas, caso haja algum recurso sobre o resultado das eleições. Depois disso elas são formatadas e reaproveitadas no próximo período eleitoral. Entre as eleições, elas passam por manutenção periódica e as urnas com defeito são substituídas.
Quando a urna deixa de funcionar, é acionado um processo de contingência. O mesário pode desligar e ligar novamente uma urna que travou, ou solicitar a sua troca. Isso é feito por técnicos especializados, que ficam de plantão durante a eleição, e com o acompanhamento dos mesários e fiscais dos partidos políticos. Em Santa Catarina, serão utilizadas 17 mil urnas nas próximas eleições, além de 1,7 mil urnas para contingência, 10% do total. Porém, nos últimos anos, o número de urnas que necessitaram ser substituídas não passou de 1%.
- O TSE está atento aos casos de desinformação sobre a urna eletrônica. Em caso de informações duvidosas, acesse a área de Fatos ou Boatos.
- Veja também como proceder no dia da eleição no Manual do Eleitor.
Um dos sistemas mais seguros do mundo, adaptado à realidade brasileira
Segundo o professor de Direito Marcelo Peregrino Ferreira, as alegações de que as urnas eletrônicas não são seguras se fundam em premissas erradas como a possibilidade de “hackear” os equipamentos via internet. Entretanto, as urnas nunca estiveram conectadas à rede durante a votação. "Seria como 'invadir' uma calculadora de mão ou um livro físico. Não faz sentido”, compara. O advogado ressalta ainda que não há registro documentado de fraude desde a implantação do sistema.
Mesmo assim, campanhas de desinformação sobre o processo eleitoral seguem encontrando público. Marcelo atribui o fenômeno a um movimento internacional de desconfiança nas instituições, alimentado por teorias conspiratórias que pouco têm a ver com evidência técnica. Quando uma parcela relevante do eleitorado deixa de confiar no resultado das urnas, mesmo sem provas de fraude, há risco: “Perdem todos os candidatos, porque a opção para os descrentes pode ser a violência e o caos social com a busca pelo poder por outros meios alheios ao Estado Democrático e de Direito”. Contudo, ele ressalta que o histórico das eleições com esse sistema fala por si. Seus resultados têm permitido alterações de candidaturas eleitas de polos opostos do horizonte ideológico, o que não ocorreria em um ambiente de fraude.
O professor de História Anderson dos Santos explica que grupos antidemocráticos tentam desqualificar o processo eleitoral e as urnas, sem provas, para enfraquecer o próprio regime democrático. O ataque à democracia não é algo novo, já aconteceu em vários momentos da nossa história, porém, com a amplificação trazida por algoritmos, redes sociais e inteligência artificial, os ataques à democracia ganham uma dimensão muito maior. “Nós professores somos formiguinhas. A gente faz um trabalho de conscientizar os nossos alunos contra forças muito poderosas, contra influências infinitamente maiores do que nós. Precisamos defender a democracia, e para isso precisamos dialogar sobre o que está acontecendo”, afirma.
Segundo Samuel Ribeiro, a automação da eleição já é uma realidade em vários países. Outros não adotam o sistema informatizado devido às próprias necessidades e legislação, e o sistema brasileiro atende à necessidade de um país continental.
Ao ser questionado se existe modelo estrangeiro mais seguro que o brasileiro, o professor Marcelo exemplifica que cada país resolve o problema que tem. A Alemanha, diz, nunca teve o mesmo histórico de fraude e manipulação humana que justificou a aposta brasileira em tecnologia. A Estônia, onde já atuou como observador internacional, foi ainda mais longe e permite votar pelo celular. Nos Estados Unidos, ao contrário, a fragmentação da competência eleitoral entre os estados gera "muita complexidade e alguma confusão" sobre regras distritais e elegibilidade. Já em países como México e Colômbia, há tensão entre organismos com atribuições diferentes sobre o processo eleitoral.
“Eu diria que o Brasil tem o mais seguro procedimento do mundo em uma estrutura muito adequada, de nível federal e centralizada, em que a organização e a decisão judicial sobre o processo eleitoral estão concentradas”, afirma. Isso não significa que a urna seja um ponto final. O advogado aposta na votação pelo celular em alguns anos e ainda reflete: “Temos que ter a humildade de reconhecer que a eleição, o modo de representação e a democracia são recentes. Quem sabe não surjam outras formas de transformação do poder popular em poder estatal?”.
Já o servidor do TRE-SC, Samuel Ribeiro, destaca que além da segurança da urna, o que garante a confiabilidade das eleições é toda estrutura montada para que elas aconteçam. A Justiça Eleitoral conta com uma legião de mesários que atuam no dia da eleição, e que representam o braço direito da Justiça Eleitoral. Em Santa Catarina são 70 mil mesários atuando no dia da eleição. No Brasil todo, são 563.910 urnas e quase 2 milhões de mesários (dados do TSE). “Contamos com esse exército de mesários para esta operação que não é uma operação de guerra, mas uma operação de paz”, finaliza.
Democracia e a participação dos jovens
No Brasil, o voto é facultativo para jovens de 16 e 17 anos, pessoas analfabetas e idosos acima de 70 anos. O professor de História Anderson dos Santos fala especialmente para os jovens sobre a importância do voto. Ele explica que, comparando com outros modelos de governo já adotados por diversas sociedades ao longo da história, a democracia ainda é o mais adequado. “Apesar da gente tentar encontrar problemas ou defeitos que possam ocorrer na democracia, ela ainda é o melhor modelo que o ser humano já inventou”, destaca, lembrando que o voto é o exercício da cidadania, essencial para a manutenção do estado democrático de direito.
O professor Anderson conta que desde a chegada dos portugueses, há 526 anos, o período efetivamente democrático no Brasil representa uma fração de menos de 10% da nossa história. Logo após a proclamação da República, em 1889, houve um período de democracia relativa: só tinham direito ao voto os homens, maiores de 21 anos e alfabetizados, excluindo as mulheres, os analfabetos, padres, soldados e mendigos. Além disso, o voto era aberto, o que propiciava o "voto de cabresto", controlado por coronéis mediante troca de favores, violência ou compra de votos.
As mulheres só adquiriram o direito ao voto em 1932, quando Getúlio Vargas promulgou o primeiro Código Eleitoral. Foi o mesmo Vargas que, em 1937, deu um golpe e instituiu uma ditadura até 1945. Em 1946, uma nova constituição restaurou o processo eleitoral, mas em 1964, ele foi suprimido pelo Governo Militar, que instituiu as eleições indiretas.
A democracia foi efetivada no Brasil a partir da Constituição de 1988, a Constituição Cidadã, quando foi instituído o voto universal e obrigatório para pessoas a partir dos 18 anos de idade. O professor Anderson explica que voto facultativo, para jovens de 16 a 18 anos, foi implementado em caráter pedagógico, como conscientização sobre o exercício da cidadania.
Já a obrigatoriedade do voto, explica o professor, foi entendida pelos parlamentares constituintes como uma forma de engajar a população nas práticas democráticas, pois o Brasil havia ficado muitos anos sem eleições diretas durante a Ditadura Militar. Assim, o voto obrigatório foi uma forma encontrada para que não houvesse retrocesso, garantindo que as pessoas fossem em massa às urnas.
O professor Anderson acredita que acabar com a obrigatoriedade do voto exige um processo longo de conscientização sobre o papel de cada um na manutenção da democracia. “Eu digo para os meus alunos que eu voto desde os 16 anos e tenho orgulho disso, tenho todos os tíquetes eleitorais guardados. Eu não defendo partido nem candidato, eu sou comprometido com os valores democráticos”, afirma o professor.
Referência: ADAMI, Saulo; DEUCHER, Celso. A revolução do voto: 20 anos do voto eletrônico no Brasil. Brusque: S&T Editores, 2010.
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