PESQUISA Data de Publicação: 15 set 2026 17:12 Data de Atualização: 15 set 2026 17:22
Uma pesquisa realizada no Câmpus Florianópolis do IFSC avaliou o papel e a efetividade da monitoria acadêmica na graduação, trazendo apontamentos para subsidiar políticas institucionais de permanência e combate à evasão escolar. O estudo resultou no artigo científico intitulado Percepções discentes sobre o programa de monitoria acadêmica, de autoria de Laura Carolina Marques da Rocha Roesler, estudante de Engenharia Mecatrônica do Câmpus Florianópolis, e da professora Fernanda Cristina da Silva, e foi publicado na edição mais recente da Revista de Ensino de Engenharia da Associação Brasileira de Educação em Engenharia (ABENGE).
A investigação científica analisou o alcance das atividades extraclasse voltadas ao apoio pedagógico, com ênfase nas graduações de engenharia — áreas tradicionalmente afetadas por retenção nas fases iniciais. A proposta investigativa surgiu a partir da experiência direta de Laura como monitora e dos questionamentos levantados durante a capacitação do programa no câmpus. O trabalho ganhou contornos metodológicos na disciplina curricular de Estatística e Probabilidade, ministrada na época pela professora Fernanda Cristina da Silva.
A estudante recorda a provocação inicial que direcionou o levantamento: "A professora perguntou pra gente quem era nosso público-alvo. E eu lembro que eu até fiquei pensando ‘ah, pergunta para eles, né?’. E daí eu disse, então vamos perguntar, vamos descobrir", comenta. O estudo aplicou técnicas de estatística descritiva e inferencial sobre respostas de 109 graduandos, sendo 80% matriculados em cursos de Engenharia.
A professora Fernanda destaca que a intenção sempre foi levar a teoria para além da sala de aula. "Todos os estudantes no IFSC que tiveram a oportunidade de realizar essa disciplina comigo têm a oportunidade de desenvolver um estudo estatístico passando por todas as etapas da pesquisa.", comenta a professora. O processo demandou orientações extraclasse para o refinamento da redação científica e submissão aos pareceristas da ABENGE.
Segundo a docente, a experiência gerou maturidade acadêmica para a aluna logo em sua primeira publicação. "Ela passou por todo esse processo de validação, de avaliação, de melhorias, de receber os feedbacks, de ver que esse é o processo mesmo e do cuidado que a gente tem que ter ao divulgar alguma informação', complementa.
Barreiras de acesso e permanência estudantil
Os dados revelaram uma discrepância entre os estudantes que utilizam o suporte pedagógico e aqueles que mais necessitam dele. A frequência presencial concentra-se em alunos de tempo integral e com menor volume de compromissos externos. Em contrapartida, estudantes trabalhadores, estagiários ou com encargos familiares encontram dificuldades de conciliar horários, o que reduz a procura pelo auxílio.
Laura enfatiza a conexão direta entre o atendimento extraclasse e a redução do abandono dos cursos. "A monitoria é um dos principais meios para os alunos continuarem no curso e reduzir a evasão. E o curso de engenharia é um curso tradicionalmente que as pessoas evadem muito dele. Os alunos que tinham muitas ocupações, os alunos que, por exemplo, eram mães, pais e etc., eles não costumavam frequentar a monitoria, ou então pessoas que tinham que trabalhar e tudo mais. E é geralmente esse público que se evade do curso com mais frequência.", adiciona a aluna.
Além do recorte de disponibilidade, a pesquisa identificou visões limitadas sobre o serviço. Embora 58,3% dos frequentadores assíduos que já pensaram em desistir afirmem que a monitoria foi decisiva para continuarem matriculados, muitos estudantes que não frequentam o espaço encaram o serviço de forma restrita, associando-o apenas a um plantão emergencial de dúvidas pré-provas ou a aulas extras para quem acumula grande defasagem de conteúdos.
Para a professora Fernanda, o formato histórico da monitoria, calcado em modelos síncronos e presenciais oriundos da legislação universitária da década de 1960, demanda atualização frente ao perfil contemporâneo dos alunos. A pesquisadora defende alternativas que flexibilizem o atendimento. "Será que com tantas ferramentas que a gente tem de comunicação à nossa disposição, que são ferramentas muito comuns de serem utilizadas pelo público estudantil, a gente não poderia pensar em alternativas de intervenção aos estudantes que precisam da ajuda da monitoria para além da presencialidade?", questiona a docente.
Fernanda também sugere que os monitores atuem de maneira ativa nos períodos de menor movimento nos laboratórios. Novamente ela questiona: "Que tipo de ação proativa essa monitoria podia ter para além de estar à disposição, que é certamente algo muito valioso, mas buscar ativamente os estudantes que têm dificuldade a partir de uma indicação às vezes dos próprios professores?". São algumas das questões que foram abordadas na pesquisa e constantes no artigo.
A relevância do diagnóstico gerado pela comunidade acadêmica foi endossada pela gestão do Câmpus Florianópolis. A Diretora de Ensino do Câmpus Florianópolis, Michely Pellizzaro, aponta que o diagnóstico direto da ponta fornece insumos estratégicos para o aprimoramento dos próximos editais e fluxos pedagógicos. "É muito interessante a gente ter esse resultado, principalmente vindo de estudantes. Porque hoje a gente tem a percepção muito da questão do edital, do acompanhamento que a gente faz pela Direção de Ensino, das atividades de monitoria. Mas quando a gente chega com o estudo que vem lá da ponta, que é o estudante quem está levantando essas questões, trazendo para a gente, isso é bastante importante, traz um outro olhar enquanto gestão.", comemora a diretora.
Ao aliar rigor acadêmico com a escuta da rotina discente, o trabalho de Laura e Fernanda abre espaço para que o IFSC repense a comunicação, a abrangência de horários e a formação de seus monitores, fortalecendo a permanência e o êxito educacional.
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