ENSINO Data de Publicação: 18 jul 2026 11:50 Data de Atualização: 18 jul 2026 19:22
A formatura dos cursos de ensino médio técnico do Câmpus Jaraguá do Sul-Centro, realizada na última sexta-feira (10), contou com um elemento especial, testemunhado por todos que estiveram presentes na cerimônia: Camila Natália Nunes Rudeger, de 18 anos, e Vitória Maria da Silva Delmondes, de 20 anos, se tornaram as primeiras estudantes surdas a concluírem um curso técnico integrado no câmpus. A conquista ocorreu após três anos e meio de dedicação de ambas ao curso técnico em Modelagem do Vestuário, iniciado por elas em 2023.
Camila e Vitória se tornaram colegas no início do curso. Ao longo dos sete semestres de estudo, elas aprenderam não apenas a formação técnica e humana oferecida pelo IFSC, mas também conhecimentos sobre a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e a cultura da comunidade surda, graças ao acompanhamento das intérpretes de Libras que estiveram com as duas estudantes tanto dentro quanto fora de sala de aula.
Para a diretora-geral do câmpus, Daiane Heinzen, a formatura das estudantes surdas reafirma o compromisso institucional com uma educação pública e verdadeiramente inclusiva. “A presença e o sucesso dessas estudantes demonstraram que a inclusão vai muito além do acesso: concretiza-se quando garantimos condições de permanência, aprendizagem e desenvolvimento para todos”, destaca.
Vivência institucional
Para Camila e Vitória, estudar no IFSC representou a realização de um sonho e a descoberta de uma rede de apoio fundamental. No caso de Vitória, seu desejo de estudar na instituição nasceu da fama que o câmpus tem, na região, de oferecer estímulo, conhecimento e, principalmente, acessibilidade por meio de intérpretes. No entanto, seu ingresso no Instituto foi marcado por desafios burocráticos: devido a uma breve passagem com bolsa de estudos por uma escola particular, ela precisou de um mandado de segurança para garantir sua vaga, enfrentando incertezas antes de efetivar sua matrícula definitiva.
Já a experiência de Camila foi de uma transformação de identidade. Ao ingressar, ela não se identificava com a comunidade surda, pois utilizava aparelho auditivo e priorizava a leitura labial. O contato com Vitória e com a equipe de Tradutores e Intérpretes de Libras foi o que mudou sua perspectiva. “Eu cheguei aqui como ouvinte. Eu não sabia língua de sinais, não sabia nada”, recorda. Passou, então, a ver as intérpretes como suas “legendas” para o que ocorria em sala ou nos laboratórios, o que garantiu seu aprendizado, uma vez que não perdia mais informações sobre o que acontecia ao seu redor.
A existência dessa estrutura de apoio é um diferencial defendido pela intérprete Cristiane Albano, uma das profissionais que acompanharam as duas estudantes até a formatura. Ela explica que a presença de intérpretes concursados na instituição garante que a acessibilidade seja uma realidade, removendo barreiras e possibilitando uma integração cultural e linguística.
Realidade das pessoas surdas
A formatura das estudantes é também uma oportunidade de trazer à tona a necessidade de que as instituições compreendam a surdez para além da deficiência, respeitando as pessoas surdas como uma comunidade que precisa ser integrada à sociedade em geral. Camila lembra que, antes de entrar no IFSC e compreender sua identidade surda, pensava que sua dificuldade para entender as aulas era “normal” e que deveria aprender a “se virar” sozinha, lamentando a falta de empatia de alguns professores ao longo de sua trajetória escolar. “As pessoas têm que ter uma noção da cultura surda, precisam dessa visão ampla”, defende a estudante, mencionando que a paciência e o respeito à língua de sinais são fundamentais para a inclusão.
Vitória, por sua vez, espera que a conquista de ambas ao concluírem a formação técnica sirva de referência para outros surdos, incentivando o uso da Libras como ferramenta de acesso à educação. “Espero que os surdos saibam que no Instituto Federal existem pessoas que olham para eles, respeitando sua cultura e sua língua”, afirma.
Para a intérprete Cristiane, a luta por acessibilidade deve ser uma iniciativa presente em todos os espaços sociais. “Não se deve esperar o surdo chegar para buscar a acessibilidade; pelo contrário, o ambiente deve estar pronto para receber a pessoa surda em sua língua e especificidade”, destaca.
O papel da Libras
A Língua Brasileira de Sinais (Libras) foi o elemento central que permitiu que as duas estudantes concluíssem o ensino médio e a formação técnica no Câmpus Jaraguá do Sul-Centro. Camila conta que ingressou no IFSC sentindo-se insegura e, às vezes, um pouco desesperada com o ritmo exigente das aulas. Ao ter o contato com as intérpretes, ela passou a aprender Libras e, atualmente, comunica-se fluentemente na nova língua. “Hoje eu tenho dois mundos, duas perspectivas: a da comunidade ouvinte e a da comunidade surda”, afirma a agora técnica em Modelagem.
Antes de aprender Libras, Camila conta que enfrentava barreiras constantes no cotidiano escolar, especialmente quando a comunicação dependia apenas da sua visão direta do professor – pois se apoiava na leitura labial. Ela relata que o simples ato de um docente caminhar para trás na sala ou falar de costas interrompia a aprendizagem, fazendo com que ela perdesse conteúdos essenciais.
Cristiane observa que a evolução de Camila foi notável, passando de uma jovem com muitas dificuldades para uma mulher empoderada por meio da língua. Sobre Vitória, a intérprete destaca também seu esforço e fluência, lembrando que a adaptação curricular e os desafios linguísticos foram superados coletivamente por meio de um trabalho desenvolvido com professores e outros servidores do IFSC.
Futuro e representatividade
Com o diploma em mãos, as novas técnicas em Modelagem do Vestuário já planejam os próximos passos. Camila pretende buscar um trabalho na área em que se formou e também dar continuidade aos estudos numa graduação, possivelmente no próprio IFSC. Segundo ela, a ideia é continuar se aprimorando agora por meio do curso superior em Design de Moda. “Eu pretendo continuar já. Não quero ficar esperando”, destaca.
Já para Vitória, o momento é de reflexão, embora sua vontade também seja de continuar evoluindo. Seus planos ainda não estão traçados, portanto ela decidiu aguardar um pouco antes de definir o próximo passo. “Eu sei que eu vou continuar. No futuro eu vou adquirir outros conhecimentos”, projeta.
Clique aqui e assista, no Instagram, a um vídeo com trechos da formatura dos cursos de ensino médio técnico do Câmpus Jaraguá do Sul-Centro.