Professor do IFSC lança segunda edição de livro que propõe repensar a prática de ensinar

ENSINO Data de Publicação: 20 ago 2026 10:27 Data de Atualização: 20 ago 2026 12:05

A partir da compreensão sobre a prática do ensino construída ao longo de 25 anos de docência, o professor Marcelo da Silva, do Câmpus Xanxerê do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), desenvolveu as reflexões reunidas no livro Ensinar não precisa ser chato. Publicada originalmente em 2019, após uma palestra do professor no TEDx Rio do Sul, a obra acaba de ganhar uma segunda edição, revisada e ampliada a partir das experiências acumuladas pelo autor nos últimos anos. 

A nova edição incorpora revisões de capítulos e novas reflexões surgidas tanto da prática em sala de aula quanto das experiências do professor em diferentes contextos educacionais. Para Marcelo, revisitar o livro também significou rever algumas das próprias certezas construídas ao longo da carreira. 

“Em 2019, eu estava muito interessado em provocar uma discussão sobre a necessidade de transformar a maneira como ensinamos. A minha lógica partia da seguinte reflexão, é aqui, na sala de aula, que eu passarei a maior parte de meus dias, da minha semana, é aqui que eu tenho que me divertir, é aqui que eu tenho que ser feliz. Hoje continuo acreditando nisso, mas tenho muito mais perguntas e, talvez, mais humildade diante da complexidade da educação”, afirma. 

A trajetória que deu origem ao livro começou antes mesmo da publicação. Professor de Geografia e com experiência nos ensinos básico e superior, Marcelo conta que foram as situações concretas vividas em sala de aula que mais influenciaram sua reflexão sobre a docência – especialmente aquelas em que uma aula cuidadosamente planejada não produziu o resultado esperado. 

“Um professor aprende muito quando percebe que preparou uma aula tecnicamente correta, mas os estudantes simplesmente não se envolveram”, avalia. Para ele, esse tipo de situação pode levar o docente a responsabilizar exclusivamente os estudantes, sem refletir sobre a relação estabelecida entre eles, o conhecimento e o próprio professor. 

Ao longo de sua carreira, Marcelo passou por diferentes níveis de ensino e também por experiências internacionais. Desde 2019, desenvolve ações de cooperação na Guiné-Bissau, onde chegou a morar durante seis meses e acompanhou a realidade de escolas em áreas remotas. O contato com contextos tão distintos reforçou uma de suas principais ideias: não existe uma receita universal para ensinar. “Existem princípios, métodos, escolhas e, acima de tudo, a necessidade de conhecer os estudantes que estão diante de nós”, diz o docente. 

Aula boa não é sorte 

Uma das ideias centrais do livro é sintetizada pelo professor na frase “aula boa não é sorte. É método”. Para Marcelo, isso não significa transformar a prática docente em algo rígido, mas reconhecer que uma boa aula envolve planejamento e intencionalidade. 

“É possível planejar uma aula pensando em objetivos, estratégias, participação dos estudantes, diferentes formas de aprendizagem e avaliação. Isso não significa transformar a sala de aula em algo mecânico. Pelo contrário: ter método dá ao professor mais liberdade para ser criativo, porque ele sabe o que pretende alcançar”, explica. 

O professor, porém, faz uma ressalva à adoção indiscriminada de metodologias. Na avaliação dele, a estratégia pedagógica precisa considerar o conteúdo, o perfil da turma, os materiais e o tempo disponível. Uma metodologia que funciona bem em determinado contexto pode não produzir os mesmos resultados em outro. “Não existe uma receita universal para ensinar”, reforça. 

A mesma lógica se aplica ao uso de tecnologias e de recursos considerados inovadores. Para Marcelo, aproximar o ensino da realidade dos estudantes não significa transformar cada aula em um espetáculo ou utilizar uma ferramenta diferente a cada semana. “Às vezes, uma boa pergunta vale mais do que uma ferramenta sofisticada. (...) A novidade não está necessariamente na ferramenta; pode estar na maneira de olhar para um conteúdo que já conhecemos”, afirma. 

A experiência internacional na Guiné-Bissau também provocou mudanças na forma como Marcelo compreende a educação. Durante sua permanência no país, o professor conheceu docentes que percorrem quilômetros para chegar às escolas e trabalham em locais sem infraestrutura básica, em alguns casos sem energia elétrica. “Junto com os professores, pensamos em atividades e metodologias que impactaram aquela realidade”, conta. 

Para ele, vivenciar outro contexto cultural, histórico e social mostrou que muitas ideias apresentadas como universais são, na verdade, construídas a partir de determinadas realidades. “Isso me fez repensar questões relacionadas à formação docente, às práticas pedagógicas e, principalmente, à própria ideia de que existe um modelo de escola que possa simplesmente ser transferido de um lugar para outro”, destaca. 

A experiência no IFSC 

Professor do Câmpus Xanxerê, Marcelo destaca que a atuação na instituição ampliou sua compreensão sobre a educação ao colocá-lo em contato com estudantes, cursos e realidades diversas. A integração entre ensino, pesquisa e extensão também contribuiu para sua reflexão sobre o papel docente. 

“A instituição me permitiu experimentar muitas das ideias que aparecem no livro. Algumas funcionaram, outras precisaram ser modificadas e algumas foram abandonadas”, relata. Para ele, essa possibilidade de experimentar, observar os resultados e refletir sobre a própria prática é uma das riquezas da educação profissional e tecnológica. 

A obra é dirigida principalmente a professores, independentemente do tempo de carreira, mas também pode ser utilizada por estudantes de licenciatura. Segundo Marcelo, a intenção é estimular a reflexão sobre a docência antes mesmo de o futuro professor entrar pela primeira vez em uma sala de aula. “No fundo, é um livro para quem acredita que ensinar é uma atividade humana, criativa e intelectual”, define. 

Do TEDx ao livro  

A primeira edição de Ensinar não precisa ser chato foi publicada depois da participação de Marcelo no TEDx Rio do Sul, em 2019. Na palestra, que deu origem ao livro, o professor compartilhou experiências, dúvidas e dificuldades encontradas em sua trajetória docente. 

Passados sete anos, ele identifica uma mudança importante entre o professor que subiu ao palco naquele momento e o profissional que agora revisita a obra. “Mudou principalmente a minha certeza de que eu sabia algumas respostas”, resume. 

O doutorado em Educação Científica e Tecnológica, as experiências no IFSC e o contato com a realidade educacional da Guiné-Bissau ampliaram suas perguntas sobre a própria prática. Mais do que defender uma nova forma de ensinar, Marcelo passou a se preocupar em compreender por que determinadas práticas existem e quais concepções de educação estão por trás delas. 

“Não basta defender uma ‘nova educação’. É preciso compreender profundamente por que fazemos o que fazemos, de onde vêm determinadas práticas e quais concepções de educação estamos reproduzindo”, finaliza. 
 

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