É possível prevenir o coronavírus por meio da alimentação?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 14 jul 2020 14:58 Data de Atualização: 20 jul 2020 15:38

Alho esmagado com água quente, pimenta, café, bebidas alcoólicas, alimentos alcalinos, vitaminas C e D, até chá de erva-doce: quando o primeiro caso de Covid-19 foi confirmado no Brasil, em 26 de fevereiro de 2020, já circulavam pelas mídias sociais informações falsas ou distorcidas sobre o uso de certos alimentos e nutrientes “milagrosos” que poderiam evitar ou curar a doença. Tanto que, um dia após a confirmação do primeiro caso, em 27 de fevereiro, a página “Saúde sem fake News” do Ministério da Saúde explicava ser falsa a afirmação de que o consumo de vitamina C, fígado bovino, suco de acerola, suco de laranja e chá de erva-doce seriam recomendados para prevenção do contágio.

A explicação é recorrente em todos os desmentidos relacionados a receitas milagrosas: “Até o momento, não há nenhum medicamento, substância, vitamina, alimento específico ou vacina que possa prevenir a infecção pelo coronavírus”. A nutricionista do IFSC Karine Andrea Albiero subscreve o veredito do Ministério da Saúde e complementa: “A gente não tem o alimento vilão, nem o alimento mocinho, e os milagrosos não existem nesse contexto”.

Quer dizer que não há alimentos que contribuam para alimentar a imunidade?

A relação alimentação x imunidade existe, mas é preciso abandonar a ilusão de que o consumo repentino e intenso de determinados alimentos vá provocar uma resposta imunológica suficiente para evitar ou combater o coronavírus – ou qualquer outro patógeno. De acordo com Karine, que é graduada e mestra em Nutrição pela UFSC e atua na Pró-Reitoria de Ensino do IFSC, alimentar-se de forma saudável deve ser uma prática rotineira, adotada ao longo do tempo, e não uma preocupação exclusiva do atual momento de pandemia.

Além disso, a alimentação definida como “promotora de saúde” envolve elementos como a manutenção da hidratação do corpo, com o consumo regular de água; a opção por alimentos in natura, em detrimento dos processados e ultraprocessados; e a redução do consumo diário de sal. Essas e outras recomendações estão no Guia Alimentar para a População Brasileira, material publicado pelo Ministério da Saúde e disponível em acesso livre.
 

 

O consumo de alimentos in natura, em especial de origem vegetal, deve sempre ser priorizado em função da quantidade de fibras e micronutrientes que eles contêm – vitaminas, minerais e antioxidantes – e que são importantes para a microbiota intestinal. Karine explica que esse conjunto de bactérias benéficas funcionam como uma barreira de defesa contra micro-organismos patógenos. Folhosos verde-escuros como rúcula e couve; frutas como laranja, maçã, goiaba, abacate; oleaginosas como as castanhas em geral; e leguminosas como o feijão e a lentilha são exemplos de alimentos extremamente protetores, segundo Karine.

Aliado a isso, o consumo excessivo de sal pode ser controlado com a substituição desse ingrediente por mais temperos naturais no preparo dos alimentos, como salsa, cebolinha, alecrim, coentro, gengibre, manjericão, louro. “É uma ótima escolha que a gente pode fazer diariamente. E esses temperos naturais são ricos em vitaminas, minerais e antioxidades naturais, então a gente qualifica também um pouco mais a nossa alimentação do dia a dia”, ressalta a nutricionista.
 

 

Não tem milagre

Embora haja práticas alimentares saudáveis e a adoção dessas práticas possa contribuir para um melhor funcionamento do sistema imunológico, é preciso ter claro que qualquer resultado de uma mudança na alimentação leva tempo. É muito comum, segundo Karine, que as pessoas esperem resultados rápidos demais. No caso de pacientes que precisam reverter um quadro de sobrepeso ou obesidade, por exemplo, a ansiedade por resultados rápidos costuma ser a regra. “Nós ganhamos peso numa sequência de inúmeros anos, na constância da manutenção de um hábito de vida e de um hábito alimentar ruim. A regressão disso não é algo que vá acontecer em uma semana de suplementação alimentar”, atesta.

E sempre é bom lembrar que, como doença crônica, a obesidade pode favorecer a ocorrência de muitas outras doenças, constituindo-se também fator de risco para o novo coronavírus. No cenário pandêmico, portanto, é preciso ter em mente que a adoção de uma alimentação promotora de saúde é especialmente importante para pessoas que apresentam as chamadas “comorbidades” ou condições clínicas especiais. 


E os chamados superalimentos? Eles têm mesmo alguma coisa especial?

Abacate, coco, aveia, batata-doce, todos esses alimentos “da moda” são saudáveis e devem ter o consumo recomendado, explica Karine – com exceção de casos específicos que devem ser sempre avaliados, criteriosamente, indivíduo por indivíduo, como a necessidade de alguma restrição alimentar associada a patologias, como diabetes, dislipidemias ou hipertensão arterial. Porém, o fato de serem saudáveis não quer dizer que eles sejam milagrosos, curativos ou “super”. Para a nutricionista, a supervalorização desses alimentos é um equívoco e considera-los “super” é uma visão extremamente simplista. 

“Fala-se do alho, da cebola, da pimenta, que tem uma função anti-inflamatória muito importante, açafrão, gengibre, linhaça, gergelim, azeite de oliva. Esses alimentos são ótimos. Mas isso não quer dizer que se eu tomar um litro de azeite de oliva por dia, vou ficar com meu HDL maravilhoso”, brinca Karine. Segundo ela, a lógica da alimentação saudável deve estar harmonizada com outros fatores, como a prática de atividade física e a manutenção da saúde mental.

Em contrapartida, há alimentos que podem ser “super”, mas em sentido negativo: aqueles com excesso de sal ou de açúcar, gorduras saturadas ou trans e pobres em nutrietes. Esses devem, sempre, ser evitados. Margarinas, nuggets, biscoitos recheados, congelados industrializados, sucos de caixinha e refrigerantes são pobres em nutrientes e seu consumo está ligado com o aparecimento de hipertensão arterial, obesidade e diabetes. E com as decorrências da pandemia, como falta de tempo, desmotivação para cozinhar ou stress, pode parecer difícil não recorrer a esse tipo de comida.

Existe alguma forma conhecida de contaminação por coronavírus por meio dos alimentos?

Para além do aspecto nutricional, os alimentos também são centro de atenção na atual pandemia em função da maior atenção que vem sendo dada à higienização dos produtos no momento em que eles entram em casa (há um post sobre esse assunto no Blog do IFSC, além de um episódio do podcast Ciência para Seus Ouvidos). Já está no repertório do “novo normal” a prática de limpar com bastante rigor as compras do supermercado – não só embalagens e invólucros, mas também os alimentos propriamente ditos – com álcool 70% ou solução de hipoclorito de sódio (água sanitária).

De acordo com a Fundação Oswaldo Cruz, é possível a ocorrência de contaminação por alimentos caso o produto tenha tido contato com pessoas doentes, sintomáticas ou não. Isso porque o vírus pode permanecer ativo por diferentes períodos de tempo em vários tipos de superfícies, o que inclui os alimentos. Por isso, é muito importante a adoção das medidas de higiene – que devem permanecer um hábito mesmo após a pandemia, na opinião de Karine Albiero.

“É um hábito que nós deveríamos ter. No supermercado, há manipulação, toque, eu não sei de onde veio esse alimento. Até chegar na prateleira do supermercado, ele passou por inúmeros atravessadores e processos. O coronavírus pode passar dias, horas, dependendo da superfície, e se manter no ambiente em uma determinada temperatura e umidade. Mas a gente sabe que, no processo de higienização e desinfeção, é possível combatê-lo”, considera. A nutricionista ressalta que essa higienização protege não apenas contra o novo coronavírus, mas também elimina outros micro-organismos perigosos, como outros vírus, bactérias e sujidades.

É preciso tomar cuidado especial com alimentos prontos, como os que chegam por delivery, por exemplo?

Karine explica que os alimentos que passaram por cocção têm potenciamente menos risco de contaminação, mas há cuidados que podem e devem ser tomados. “O serviço de delivery pode, sim, ser seguro, mas precisa ter um cuidado redobrado. Além da questão do cuidado do restaurante até chegar na nossa casa, a gente tem o cuidado da nossa casa em diante”, detalha.

Partindo do pressuposto de que, no local onde foi preparado, o alimento tenha recebido todos os devidos cuidados de segurança nutricional, ao receber pratos prontos por delivery é recomendável cuidar, principalmente, de dois aspectos: a embalagem e a temperatura da comida.

Karine recomenda descartar imediatamente a embalagem, de preferência num lugar diferente daquele onde o alimento será consumido. Caso a embalagem seja colocada numa superfície para que a pessoa se sirva, é importante, também, higienizar essa superfície depois.

A nutricionista também sugere que se faça um reaquecimento do alimento antes de consumi-lo, já que submeter o produto a alta temperatura pode minimizar os riscos de contaminação. “Muitos agentes de transmissão e doenças são sensíveis ao calor, e o processo de alta temperatura pode aumentar a segurança no consumo do alimento”, considera.

Aprenda mais sobre hábitos alimentares promotores de saúde

Consulte o Guia Alimentar para a População Brasileira, publicação gratuita do Ministério da Saúde.

Conheça fontes confiáveis de verificação de informações

Conheça a página “Saúde Sem Fake News”, do Ministério da Saúde. Veja os esclarecimentos sobre alho, café, chá de limão com bicarbonato, consumo de bebidas e alimentos quentes, alimentos alcalinos, água morna com sal, entre outros boatos.

Conheça também a página “Caçadores de mitos” da Organização Mundial da Saúde (OMS), na qual se desmente boatos sobre propriedades que teriam a pimenta, o alho e as bebidas alcoólicas na prevenção e tratamento do novo coronavírus (a página está em inglês).

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