A ciência e seu tempo: por que as descobertas novas parecem demorar?

BLOG DO IFSC Data de Publicação: 02 dec 2020 09:29 Data de Atualização: 16 dec 2020 09:26

Era final do ano de 2019 e uma doença misteriosa, surgida numa província da China, revelou a existência de um novo micro-organismo com potencial de graves danos à saúde humana: o coronavírus batizado de Sars-Cov-2, causador da chamada Covid-19 – acrônimo de “coronavirus disease”, ou doença do coronavírus, em inglês, acrescido do número 19 em referência ao ano de seu registro no século XXI.

A identificação do vírus foi uma descoberta científica: por meio dos testes, realizados dentro de protocolos científicos rigorosos, os cientistas perceberam que se tratava de um patógeno parecido com outros vírus, porém com especificidades. Outros coronavírus já eram conhecidos desde os anos 1960, tendo sido responsáveis pela descoberta de infecções respiratórias como a chamada Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio). Com o novo micro-organismo, os estudos identificaram rapidamente que era um vírus diferente e, por consequência, também uma doença nova.

O que para os leigos pode parecer meio óbvio – olhar no microscópio e encontrar algo com as características de um vírus –, na verdade é mais um passo dentro de um grande caminho de construção de conhecimento sobre patologia. Para você ter uma ideia, na última pandemia pela qual o mundo passou – a da gripe espanhola, entre 1918 e 1920 – os estudos sobre a existência de micro-organismos menores que as bactérias eram muito incipientes. Somente em 1948 um vírus foi observado pela primeira vez.

Relógio mostrando os ponteiros passando

Como se constrói a Ciência?

Neste post, nós explicamos que a ciência é um tipo específico de conhecimento que se constrói por meio do método científico. Ela também tem como característica basilar o fato de ser sempre uma construção da coletividade dos cientistas. Ou seja, os pesquisadores, individualmente ou em grupos, desenvolvem seus estudos seguindo os rigores do método e submetem seus resultados à comunidade científica, que valida, ou não, esses resultados.

-> A ciência anda na defensiva. E o que todos nós temos a ver com isso?

É por isso que você ouve tanto falar em descobertas científicas publicadas em revistas renomadas como a Nature, a Science, a Lancet ou jornais específicos das diversas áreas do conhecimento. É por meio dessas publicações, cujos artigos com resultados relevantes são avaliados e validados por cientistas da mesma área (a chamada validação por pares), que o conhecimento científico se torna “oficial” e ganha o mundo, tendo seus benefícios revertidos em prol da coletividade.

-> Entenda neste post como funcionam os periódicos

A relevância do novo coronavírus fez com que a ciência mundial se voltasse para as várias perguntas a serem respondidas em torno desse patógeno, da doença, de suas consequências, da possibilidade de desenvolvimento de medicamentos e, claro, de vacinas. Em todo o mundo, já foram produzidas quase 170 mil publicações científicas sobre o novo coronavírus e a Covid-19. O Brasil é o 11º colocado entre os países com maior produção, com 4.029 trabalhos. Os dados são da Agência de Gestão da Informação Acadêmica da Universidade de São Paulo (USP) e se referem aos estudos publicados até 17 de outubro.

Um exemplo: por que é tão demorado produzir uma vacina?

Muitos desses estudos estão focados na vacina. De acordo com os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), há no momento 212 candidatas a vacinas em desenvolvimento. Das 48 que já estão em estudos clínicos, ou seja, são testadas em seres humanos, 11 se encontram na fase mais avançada e, a depender dos resultados de eficácia, deverão ser disponibilizadas à população. As fases específicas, que cumprem protocolos bastante rigorosos, são necessárias para garantir a segurança das pessoas que irão, futuramente, receber as doses. Ou seja, primeiro são feitos estudos em laboratório, com células produzidas especialmente para isso; conforme os resultados vão avançando, os testes passam para animais de laboratório e, finalmente, para os seres humanos.

Charge sobre a demora da vacina

Para quem está com sua rotina alterada há dez meses, pode parecer que esse tempo de espera por uma vacina é muito longo. Que a ciência demora demais. Afinal, se o novo coronavírus é parecido com outros vírus, por que tanto tempo é necessário para desenvolver a imunização? No projeto IFSC Verifica, explicamos por que é tão demorado produzir uma vacina.

Fique sabendo que, caso seja disponibilizada mesmo no primeiro semestre de 2021, a vacina contra o Sars-Cov-2 será um grande feito da ciência em tempo recorde. Até hoje, a vacina que teve menor tempo entre a identificação do patógeno causador da doença e a disponibilização das doses foi a da caxumba – desenvolvida pelo médico norte-americano Maurice Hilleman e disponibilizada em 1967.

Neste post também do IFSC Verifica, pesquisadores da área de imunologia que atuam no IFSC comentam a questão do tempo em que se está trabalhando na vacina contra o novo coronavírus: para apenas dez meses de pesquisa, já se sabe bastante sobre ele, a ponto de estarmos, sim, muito perto da vacina.

-> Quando tivermos vacina, não teremos mais pandemia?

Em busca das respostas

Porém, nossos pesquisadores também alertam para o fato de que, mesmo após o início da vacinação, ainda haverá muitas perguntas a serem respondidas. Não está claro, ainda, quanto tempo a imunização deverá durar, e também há outras questões em torno da própria doença a que a comunidade científica busca respostas.

Como o incrível filósofo francês Gaston Bachelard (1884-1962) observava na primeira metade do século XX, o conhecimento é algo que está sempre em movimento, revisando, atualizando e construindo-se a partir de conhecimentos anteriores. Novos conhecimentos não são jamais considerados prontos e acabados, mas na lógica do pensamento científico eles levam a novas questões e a novas pesquisas - é o que ele chamou de “conhecimento aproximado”. Nunca chegaremos ao ponto de saber tudo. Mas é exatamente esse o motor que impulsiona a busca por conhecer o máximo possível, para que a ciência avance e construa conhecimento. Não de um dia para o outro, mas tijolo a tijolo, respondendo perguntas e formulando muitas outras que surgem após cada nova descoberta.

Gostou deste post? Ficou com alguma dúvida? Escreve pra gente no e-mail blog@ifsc.edu.br.

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