Juventude trabalhadora é tema de palestra em Encontro Nacional EJA-EPT em Florianópolis

EVENTOS Data de Publicação: 05 nov 2025 17:46 Data de Atualização: 05 nov 2025 17:57

O auditório do Câmpus Florianópolis-Continente do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) reuniu educadores, estudantes e pesquisadores de diferentes regiões do país, na tarde desta quarta-feira, 5 de novembro, para discutir o tema Juventude Trabalhadora e EJA-EPT. A palestra e a apresentação de comunicações orais em múltiplas salas temáticas integraram a programação do Encontro Nacional da Educação de Jovens e Adultos integrada à Educação Profissional e Tecnológica (EJA-EPT) da Rede Federal. 

A apresentação foi conduzida pelo professor Paulo César Rodrigues Carrano, docente da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenador do curso de formação continuada Juventudes na EJA, da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação (Secadi/MEC). Com mediação da professora Suzana Maria Pozzer da Silveira, do Câmpus Santa Rosa do Sul do Instituto Federal Catarinense (IFC), o debate abordou o fenômeno da juvenilização da EJA – o crescente número de jovens e adolescentes que buscam nesta modalidade uma nova chance de formação.

Na abertura, Suzana destacou que compreender quem são esses novos estudantes é um dos grandes desafios da atualidade: "Todos nós temos presenciado esse fenômeno da juvenilização na EJA. O desafio é entender quem é esse aluno que chega. Seria a EJA uma segunda chance para esses jovens?", questionou.

"De modo geral, as propostas curriculares têm procurado superar os currículos rígidos e uniformizadores, buscando comunicar e fazer sentido para sujeitos de múltiplas necessidades e potencialidades. Mas como garantir que a intenção se traduza em prática real, de forma a tornar a escola de fato interessante para esses jovens trabalhadores estudantes?", complementou.

Carrano iniciou sua fala dialogando com o conceito de 'modernidade líquida', desenvolvido pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, para caracterizar a fluidez e a instabilidade das relações contemporâneas. "O que era sólido – empregos, carreiras – se dissolve. Nesse contexto, me pergunto: como se constrói uma ‘identidade profissional’ quando não há mais um porto seguro? É possível e desejável falarmos nisso para as juventudes trabalhadoras?", ressaltou.

Segundo o professor, trajetória juvenil se torna um "projeto biográfico" individual e arriscado, marcado por idas e vindas entre estudo, trabalho e informalidade. Para ele, a noção de carreira duradoura, tradicionalmente vinculada à formação profissional, está em crise: "Hoje, o que temos são fragmentos de ocupações ao longo do tempo. Isso representa um enorme desafio para a formação profissional e tecnológica", observou.

Jovens, trabalho e incerteza

Apresentando dados recentes, Carrano mostrou que a taxa de desemprego juvenil, em torno de 13,8%, é quase o triplo do índice entre adultos (4,9%). De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE), cerca de 50% dos jovens trabalhadores estão na informalidade, e mais de 1,5 milhão de brasileiros atuam em plataformas de entrega e transporte por aplicativos. 

Neste contexto, o Carrano propõe que educação de jovens e adultos seja fundamenta em quatro pilares para uma formação crítica e emancipatória. Primeiro, consolidando a EJA-EPT como um suporte crítico, isto é, um espaço de acolhimento que fortalece o jovem para o confronto com as estruturas e não para a submissão a elas. Em seguida, o desenvolvimento de um "projeto biográfico reflexivo", que ajude o jovem a conectar sua trajetória pessoal à de classe.

Outro pilar importante é a promoção de habilidades para a vida e para o fortalecimento de laços de solidariedade com outros jovens trabalhadores. "Estímulos ao desenvolvimento de capacidades de organização coletiva; a 'comunicação' como ferramenta para enfrentar injustiças e desnaturalizar desigualdades", descreve. E, por fim, educar para a imaginação criativa e não apenas treinar o uso de ferramentas, capacitando-o para o entendimento e controle do processo produtivo.

A palestra, transmitida ao vivo pelo canal do IFSC no YouTube, inspirou o debate entre os participantes, que compartilharam experiências de sala de aula e reflexões sobre os desafios neste campo.

Assiste à integra da palestra:

 

Comunicações orais evidenciam práticas de todo o país

Após a palestra, a programação seguiu com as comunicações orais, que reuniram dezenas de trabalhos distribuídos em diferentes áreas temáticas, como acesso, permanência e êxito na EJA-EPT, formação e trajetórias de trabalhadores, metodologias e materiais didáticos e projetos de ensino, pesquisa e extensão.

Encerrando o dia, o evento promoveu debates e rodas de conversa com estudantes, que trouxeram à tona suas vivências na EJA-EPT e refletiram sobre o papel da educação profissional na conquista de autonomia e reconhecimento.

Realizado em parceria entre o IFSC e o IFC, está edição do Encontro Nacional segue até 6 de novembro, com uma programação que inclui oficinas, grupos de trabalho e debates a apresentações sobre temáticas relacionadas à área.

Desde sua criação, em 2018, o Encontro tem se consolidado como um espaço de construção coletiva, reunindo docentes, técnicos e estudantes da Rede Federal para pensar os rumos da EJA-EPT no Brasil. 

Programação

Até quinta-feira, a programação do encontro conta com mesas de debate, apresentação de experiências, atividades formativas e espaços de articulação entre gestores, docentes, estudantes e movimentos sociais. Parte das atividades está sendo transmitida pelo canal do IFSC no YouTube.

Confira o que será transmitido ao vivo do encontro

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