Projeto do IFSC Garopaba reúne lendas, contos e causos do Sul de Santa Catarina em acervo digital

EXTENSÃO Data de Publicação: 26 ago 2026 11:04 Data de Atualização: 26 ago 2026 11:06

Histórias de assombrações, crenças, bruxas, lobisomens e outros personagens do imaginário popular fazem parte da memória de comunidades do Sul de Santa Catarina. Muitas dessas narrativas foram transmitidas oralmente ao longo de gerações e correm o risco de desaparecer com o tempo. Para contribuir com a preservação desse patrimônio cultural, o Câmpus Garopaba do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) desenvolve o projeto de pesquisa Lendas, contos e causos como marcas identitárias do Sul de Santa Catarina, que reúne e sistematiza narrativas populares da região em um acervo digital.  

Acesse o acervo digital  

Em sua primeira edição, realizada entre 2023 e 2024, a pesquisa mapeou histórias de Garopaba, Imbituba e Paulo Lopes. Na segunda etapa, desenvolvida entre 2025 e 2026, o levantamento foi ampliado para Laguna, Pescaria Brava e Imaruí. A iniciativa também passou a contar com um repositório hospedado em domínio próprio, com melhor organização dos materiais e conteúdos audiovisuais produzidos por estudantes do Câmpus Garopaba.  

O projeto foi criado pela docente Luana de Gusmão Silveira, professora de Língua Portuguesa e Literatura. Já a construção e manutenção do acervo digital é de responsabilidade do professor Thiago Waltrik, da área de Informática. “Um dos principais objetivos do projeto é preservar essas narrativas populares (os causos, contos e lendas) que, geralmente, possuem apenas tradição oral e, assim, são passadas de geração em geração, mas isso vem se perdendo com o passar do tempo”, afirma Thiago.

Histórias que revelam a identidade das comunidades   

As narrativas reunidas pela pesquisa mostram que o imaginário popular está relacionado às características e à história dos locais onde essas histórias são contadas. Entre os temas encontrados estão relatos de assombrações, bruxaria, lobisomens e demônios, além de elementos associados ao passado histórico da região.  

“Entre os achados nesta segunda etapa, encontramos uma grande recorrência do caráter regional de cada conto, associando-se ao sobrenatural, especialmente as assombrações, e se misturando ao passado histórico e escravocrata da região”, relata Thiago.   

O levantamento combina pesquisa bibliográfica, pesquisa de campo com moradores e a sistematização das narrativas coletadas. O contato com os moradores é realizado pelos estudantes bolsistas, geralmente por meio de indicações e do chamado “boca a boca”, buscando pessoas que conhecem e preservam essas histórias. Depois, os relatos são transcritos, revisados e preparados para publicação.

Estudantes transformam pesquisa em acervo digital  

Além da pesquisa, o projeto envolve estudantes dos cursos técnicos integrados do Câmpus Garopaba em atividades de investigação, produção audiovisual e organização do repositório digital. A iniciativa está articulada ao projeto de ensino “Nossos contos, nossas lendas: um diálogo entre cinema e literatura”, desenvolvido no câmpus desde 2024, que trabalha leitura, escrita e produção audiovisual a partir das narrativas populares da região.  

Nesta segunda etapa, uma das frentes de trabalho dos estudantes foi justamente transformar o material já produzido em uma nova plataforma digital. Bolsistas do projeto, os estudantes do curso técnico integrado de Informática, Petrus Silva e Beatriz da Rosa, participaram da reconstrução do site. Para construir o acervo, os estudantes trabalharam com as histórias já pesquisadas e publicadas na primeira versão do projeto, reorganizando os conteúdos para a nova plataforma.   

Para Petrus, conhecer essas histórias modificou sua percepção sobre a relação entre cultura e comunidade. “Uma atividade como essa preserva uma parte importante da história. São histórias que fazem parte nossa cultura, fazem parte de quem nós somos. A parte das benzedeiras, das bruxas, dos espíritos, das crenças, tudo isso faz parte da nossa crença. Pra mim, foi muito bom contribuir com a preservação dessas histórias porque é algo que vai ficar para as próximas gerações. É importante que não se perca”, avalia.  

A experiência também contribuiu para o desenvolvimento de habilidades de trabalho em equipe. O estudante relata que, no início, essa foi uma dificuldade, mas que a organização das tarefas permitiu que os integrantes aproveitassem as diferentes habilidades de cada um.  

A estudante Beatriz da Rosa também passou a integrar a equipe em 2026, a convite do professor Thiago Waltrik. Para ela, participar da iniciativa representou uma oportunidade de conhecer uma dimensão da cultura regional que até então não fazia parte de sua experiência. “Por eu ser nativa do estado, eu achei muito interessante o objetivo da pesquisa”, conta.  

Sua principal atividade foi reunir as narrativas e os materiais produzidos a partir delas – como fotografias, curtas-metragens e ilustrações – e organizá-los no novo repositório digital. Para isso, os estudantes utilizaram conhecimentos de HTML, CSS e JavaScript.  

Mais do que as histórias em si, porém, a experiência levou a estudante a perceber a dimensão da cultura oral presente na região onde cresceu. “Apesar de eu morar e estudar a vida toda na região, eu não conhecia essa parte oral que compõe nossa cultura e as visões de vida da nossa comunidade”, afirma.  

Para Beatriz, a participação no projeto também contribuiu para desenvolver responsabilidade, autonomia e organização, especialmente por ter sido sua primeira experiência trabalhando com orientação e prazos em uma atividade desse tipo.

Preservação para as próximas gerações  

Para o professor Thiago, transformar as narrativas orais em um acervo digital é também uma forma de valorizar manifestações culturais que podem perder espaço diante de outras referências culturais.

“Essa é uma das formas de valorizar a cultura popular, disseminando os contos, causos, e lendas da região Sul de Santa Catarina, evitando o apagamento histórico daquilo que é popular, servindo como uma forma de resistência à cultura hegemônica”, destaca.  

A importância dessa preservação também é percebida pelos estudantes que participam da iniciativa. Para Petrus, contribuir para que essas histórias permaneçam acessíveis significa ajudar a preservar elementos que fazem parte da identidade das comunidades.  

O projeto pretende dar continuidade ao mapeamento e ampliar a pesquisa para outros municípios. Também estão previstas ações formativas a partir dos materiais coletados. A professora Luana de Gusmão Silveira pretende desenvolver oficinas com professores das redes municipal e estadual de ensino utilizando o acervo produzido pela pesquisa.  

Confira o perfil do projeto em @nossos_contos_nossas_lendas.

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