SNCT Data de Publicação: 17 nov 2025 19:33 Data de Atualização: 17 nov 2025 20:27
Enquanto líderes mundiais, cientistas e ativistas discutem estratégias e políticas de grande escala para as mudanças climáticas, na 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), em Belém (PA), é importante ressaltar a força dos eventos e ações locais de sustentabilidade. Com o tema “Planeta Água: a cultura oceânica para enfrentar as mudanças climáticas no meu território”, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) deste ano foi um exemplo de como transformar o diálogo global em realidade local.
No Câmpus Joinville, a programação da SNCT abordou a proteção das águas, a partir do uso consciente e gestão de resíduos. Na palestra “Caminho da água do rio ao rio”, a bióloga e líder de projetos da Companhia Águas de Joinville, Aline de Oliveira, falou sobre o ciclo completo do abastecimento de água na cidade. O processo inclui captação, tratamento e distribuição de água tratada e coleta e tratamento de esgoto, para lançamento do efluente líquido de volta à natureza.
Ela destacou a importância dos investimentos constantes nas estações de tratamento de água (ETA) e estações de tratamento de efluentes (ETE) de Joinville. Neste ano, por exemplo, a ETA Cubatão recebeu mais de R$ 50 milhões para obras de modernização e R$ 11 milhões para o sistema de filtração. Na outra ponta, a ETE Jarivatuba é considerada uma das mais modernas do Brasil.
Segundo Aline, toda esta infraestrutura é essencial, mas também é preciso mudança de comportamento coletivo para garantir resultados efetivos para a saúde pública e o meio ambiente. Entre as boas práticas para a sustentabilidade, ela citou o uso consciente da água para evitar desperdício de água tratada, descarte correto de resíduos (com atenção especial ao óleo de cozinha que não pode ir para o ralo) e conexão correta à rede de esgoto.
Sustentabilidade na aquicultura
Sendo a aquicultura o cultivo de organismos aquáticos mediante intervenção humana, cabe a quem produz escolher práticas mais, ou menos, sustentáveis. A afirmação é do professor e pesquisador Adolfo Jatobá, do Instituto Federal Catarinense (IFC) em Araquari, na palestra “Aquicultura: de problema a solução”.
Ele explicou que, embora não pareça, a aquicultura tem grande impacto ambiental, na poluição da água, uso intensivo de recursos naturais e escape de organismos cultivados no ambiente natural. É aí que entram as medidas de mitigação para produzir sem poluir. Professor Jatobá destaca o reuso da água, melhoria da dieta dos animais, tratamento de efluentes antes do descarte, uso de espécies nativas, integração com outras atividades (hortaliças, por exemplo), produção perto do polo consumidor e investimento em economia circular.
“Por que a aquicultura não pode parar? A pesca extrativista tem alto custo, e a aquicultura tem aumentado o consumo de pescados no mundo. O peixe é o animal mais eficiente para transformar proteína de origem vegetal (ração) em proteína animal comestível”, explica o professor do IFC e pós-doutor em Aquicultura.
Saúde e meio ambiente
O tema saneamento básico, meio ambiente e saúde voltou à tona na palestra “Análise da presença de bactérias resistentes em efluentes de Joinville”, com a farmacêutica bioquímica Ana Júlia Corrêa, mestra e doutora em Saúde e Meio Ambiente. Desta vez, o foco foi no uso indiscriminado de antibióticos e como isso afeta a todos.
Em sua tese de doutorado, ela fez um estudo de efluentes hospitalares em Joinville e constatou a existência de genes de resistência a antibióticos no meio ambiente, o que é um problema para a saúde pública, porque podem se espalhar para bactérias patogênicas, que se disseminam pela água, solo e até mesmo pelo ar, tornando infecções mais difíceis de tratar e aumentando a mortalidade.
“As pesquisas desenvolvem antibióticos novos, e as bactérias vão desenvolvendo resistência. Estamos ficando sem opções de tratamento. Se nada for feito, até 2050, haverá 300 milhões de mortes por resistência aos antibióticos”, resume Ana Júlia. “O problema precisa ser resolvido na prevenção, com o uso consciente de antibióticos.”
Com base na abordagem integrada de saúde única (One Health), que inclui saúde humana, animal e ambiental, Ana Júlia ressalta que é preciso desenvolver estratégias para frear o uso de antibióticos não só em humanos, mas também em animais. Neste caso, é essencial a combinação de políticas públicas, pesquisas científicas, educação profissional e conscientização da população.
Gestão de resíduos
“Se tudo vai pro mar, o que estamos mandando para o mar?” A provocação das analistas ambientais do Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA), Carolina de Andrade e Marta Beatriz Maccarini, abriu a apresentação do Programa Penso, Logo Destino (PLD).
Lançado em dezembro de 2019, o PLD estrutura a gestão de resíduos em três frentes principais: logística reversa (especialmente de pneus, pilhas e baterias, equipamentos eletrônicos e embalagens de agrotóxicos), coleta seletiva e resíduos orgânicos. Só no primeiro semestre deste ano, o programa contribuiu para o recolhimento de mais de 83 mil pneus e cerca de 100 toneladas de eletroeletrônicos em Santa Catarina.
Mas, segundo as analistas ambientais, a separação dos resíduos e destinação adequada não são suficientes para resolver o problema. “É preciso fazer uma reflexão sobre o consumo consciente. Consumir com consciência significa refletir sobre a real necessidade de um item antes da compra, e escolher produtos que utilizaram menos recursos em sua produção.”
Economia solidária
Na busca pela mudança de hábitos de consumo para diminuir o impacto ambiental, existe outra frente de mobilização: a economia solidária e reaproveitamento de materiais. O tema foi abordado pela vice-presidente do Espaço de Comércio Justo e Solidário de Joinville, Viviane Schumacher Bail, e pela agente cultural Regina Marcis.
Atualmente, o Espaço de Comércio Justo e Solidário de Joinville reúne 35 artesãos independentes para comercializar produtos feitos à mão e apoiar causas sociais. O espaço também inclui os Serviços Organizados de Inclusão Social (Sois) e aldeias indígenas. Além disso, a associação promove cursos e oficinas de artesania, com foco no reaproveitamento de materiais.
Conforme Viviane e Regina, preservação cultural e sustentabilidade ambiental precisam andar junto com o fortalecimento social e econômico local. “A economia solidária precisa gerar renda para quem produz. Tem que ter a questão econômica envolvida.”