IFSC VERIFICA Data de Publicação: 30 abr 2026 10:38 Data de Atualização: 30 abr 2026 11:40
Quem não lembra da icônica frase “Um pequeno passo para [um] homem, um grande salto para a humanidade”? Ou ainda de “Houston, temos um problema”? As duas marcaram a história das missões de exploração lunar Apollo — a primeira frase em 1969, quando a Apollo 11 levou os primeiros humanos à Lua; e a segunda, em 1970, durante a Apollo 13. Ambas ganharam mais notoriedade após serem retratadas em produções de cinema, como Apollo 13 (1995) e First Man (2018).
Tripulação da missão Apollo 13 após o retorno à Terra, em abril de 1970. Da esquerda para a direita: James A. Lovell, John L. “Jack” Swigert e Fred W. Haise. Crédito: Nasa
Mais de 50 anos depois, a humanidade retoma sua jornada rumo à Lua. A missão Artemis II (Nasa, EUA) levou os astronautas Reid Wiseman, Victor Glover e Christina Koch, da Nasa (EUA), e Jeremy Hansen, da Agência Espacial Canadense (CSA), a sobrevoar a Lua de 1º a 11 de abril deste ano. Desta vez, uma das frases marcantes foi dita pela primeira mulher a viajar ao redor da Lua: "Embora seja difícil de acreditar, os olhos humanos são um dos melhores instrumentos científicos que temos", disse Christina Koch.
Tripulação da missão Artemis II, que sobrevoou a Lua em abril de 2026: Jeremy Hansen, Victor Glover, Reid Wiseman e Christina Koch. Crédito da foto: Nasa
Neste abril de 2026, não houve pouso e bandeira fincada no terreno lunar, como em 1969, mas sim sobrevoo a uma área oculta da Lua e, com isso, a concretização de um planejamento a longo prazo. O programa Artemis prevê mais três missões — até a Artemis V —, com o objetivo de estabelecer uma presença humana mais duradoura no satélite natural da Terra.
Com a retomada das missões tripuladas, a exploração lunar voltou ao centro do debate científico, tecnológico, econômico e geopolítico. A missão Artemis II marca um novo capítulo dessa jornada, mas levanta uma pergunta essencial: afinal, o que a Lua tem a oferecer para a humanidade?
Dez utilidades da exploração lunar
O IFSC Verifica conversou com três professores de Física do IFSC para compreender esse cenário e reunir 10 razões que tornam a exploração lunar indispensável: Fabio de Souza Alves, do Câmpus Xanxerê; Fernando Cláudio Guesser, do Câmpus Joinville; e Marcelo Girardi Schappo, do Câmpus São José. A partir dessas contribuições, foi possível organizar os impactos da exploração lunar em cinco grandes áreas: 1. Ciência; 2. Tecnologia; 3. Infraestrutura; 4. Economia; 5. Sociedade.
Ao destrinchar cada uma delas, chegamos a 10 utilidades da exploração lunar: 1. Avanço da ciência e do conhecimento; 2. Observação do universo e proteção da Terra; 3. Desenvolvimento de novas tecnologias; 4. Base para exploração espacial; 5. Produção de combustível e suporte à vida; 6. Produção de energia limpa; 7. Interesses econômicos e novas indústrias; 8. Geopolítica e soberania tecnológica; 9. Inspiração, educação e formação de profissionais; e 10. Turismo espacial.
Nenhum país pode ser o dono da Lua, no entanto, “quem chegar primeiro poderá explorar os recursos naturais como, por exemplo, a água disponível no satélite. Ao mesmo tempo, a exploração obriga a necessidade de avanço na ciência e tecnologia, gerando um ciclo de investimentos”, acredita Fabio.
“Em um futuro próximo, passaremos a ver a Lua como o oitavo continente da Terra. Essa mudança de perspectiva é um passo fundamental para a evolução da nossa espécie e para a sustentabilidade do nosso planeta”, resume Fernando.
A exploração da Lua, então, não é apenas uma empreitada “poética” associada ao desejo humano de expandir seus limites pelo espaço e seu conhecimento sobre o Universo. “A nova corrida espacial pretende marcar o início da permanência humana em um astro fora da Terra, e só o futuro dirá até onde teremos capacidade e interesse de chegar”, afirma Marcelo.
1. Avanço da ciência e do conhecimento
Os seres humanos são curiosos por natureza, e muita dessa curiosidade está atrelada ao desenvolvimento científico que se experimentou ao longo do tempo.
“De que são feitas as coisas? O que encontramos no fundo do oceano? O que são os pontos brilhantes no céu? Como nosso corpo funciona? Perguntas desse tipo motivam os estudos que tentam desvendar o funcionamento da natureza. Assim, ter a possibilidade de explorar a Lua – seja isso feito de forma tripulada ou não, como com sondas robóticas, por exemplo – é sempre uma forma de avançar nossa compreensão sobre a natureza, em geral, sobre o nosso satélite natural (a Lua), em particular”, destaca o professor Marcelo, que tem dois livros escritos para o público geral (“Astronomia: os astros, a ciência, a vida cotidiana” e “Armadilhas camufladas de ciência: mitos e pseudociências em nossas vidas”).
De forma ainda mais específica, o professor Fabio conta que o ambiente com menor gravidade, como o da Lua, contribui para cristalização de proteínas e produção de tecidos mais complexos, ou seja, “a exploração pode contribuir para a produção de remédios e vacinas sendo um campo de testes essencial para a vida humana.”
2. Observação do universo e proteção da Terra
O professor Fernando conta que o lado oculto da Lua oferece um "silêncio radioelétrico" único, protegido das interferências das transmissões terrestres e da atmosfera. “É o local ideal para radiotelescópios de última geração que observarão o universo profundo. Além disso, a Lua é uma sentinela privilegiada para monitorar asteroides em rota de colisão com a Terra e um laboratório para testar escudos contra radiação cósmica”, afirma.
Já o professor Fábio relata que, como a Lua não possui atmosfera nem poluição luminosa, a observação com telescópios desse local poderá permitir a observação de objetos celestes, como estrelas, buracos negros e outros planetas com maior precisão nas imagens. “Já está em curso o desenvolvimento de ferramentas que permitam a navegação e a localização na Lua mesmo a enormes distâncias. Consequentemente, novas ferramentas contribuirão para o aperfeiçoamento do GPS aqui na Terra”, continua.
3. Desenvolvimento de novas tecnologias
Algumas pessoas acreditam que é um desperdício gastar grandes somas de recursos para exploração espacial ou para investigação de problemas fundamentais da natureza, como a estrutura da matéria, por exemplo. Mas, para o professor Marcelo, uma das maneiras de se contra-argumentar isso é apontar o fato de que o desenvolvimento tecnológico necessário para suportar essas empreitadas científicas não raramente se converte em novos produtos e novas tecnologias que, com o tempo, vão se tornando mais acessíveis ao público.
Geração de energia solar e atômica confiável, gerenciamento de recursos para obtenção de água e oxigênio, robótica e construção autônoma, navegação e comunicação, produção de alimentos e medicina são algumas das áreas que devem ser impulsionadas, segundo o professor Fabio.
O professor Fernando cita também áreas como inteligência artificial, impressão 3D com regolito (poeira lunar) para construção civil e sistemas de reciclagem total de recursos, essenciais para a economia circular na Terra.
“A Lua abriga depósitos de titânio, platina, alumínio e elementos de terras raras, vitais para a fabricação de semicondutores, baterias de carros elétricos e smartphones. À medida que esses recursos se tornam escassos ou geopoliticamente sensíveis na Terra, a mineração lunar surge como uma reserva estratégica para a indústria tecnológica”, afirma Fernando.
4. Base para exploração espacial
Outra razão para a exploração lunar é o fato de que a Lua pode se tornar um trampolim para Marte e outros locais desconhecidos. Isso porque, com apenas 1/6 da gravidade terrestre, lançar missões a partir da Lua é mais eficiente que a partir da Terra. “Além da economia de energia, a Lua funciona como o campo de testes perfeito para tecnologias de suporte à vida e habitats, validando sistemas antes de enviarmos humanos em jornadas de longa duração rumo ao Planeta Vermelho”, relata Fernando.
Marcelo contribui explicando que, quanto maior a gravidade no local, mais combustível e mais velocidade uma espaçonave precisa ter para se lançar para o espaço. “A exploração da Lua, nesse sentido, permitirá que desenvolvam novas missões espaciais cujo ponto de partida não seja mais a Terra.”
5. Produção de combustível e suporte à vida
Fernando conta que a descoberta de depósitos de gelo nos polos lunares mudou o paradigma da exploração espacial. Como transportar água da Terra é extremamente caro, o gelo local pode ser processado via eletrólise para gerar oxigênio e também hidrogênio (combustível para foguetes). “Isso transforma a Lua em um ‘posto de gasolina’ estratégico, permitindo que naves partam para o espaço profundo sem carregar todo o peso do combustível necessário para vencer a gravidade da Terra.”
Fabio reforça: “Nos polos lunares, já se constatou a presença de gelo. A exploração desse local permitirá derreter [o gelo], separar em oxigênio (para respiração) e aproveitar o hidrogênio para propulsão de foguetes, além de, claro, servir para beber”.
6. Produção de energia limpa
Há locais na Lua onde o Sol brilha sem nenhuma interrupção e são conhecidos como "Picos de Luz Eterna". Então, painéis solares instalados nesses locais poderão gerar energia 24 horas por dia e sete dias da semana. “E para os locais nos quais não há essa condição, serão instaladas usinas nucleares para geração de energia”, acredita Fabio.
Fernando cita outra forma de produção de energia mais limpa, por meio do hélio-3 (uma forma rara do gás hélio), raro na Terra, mas abundante no solo lunar, depositado por bilhões de anos pelo vento solar (já que a Lua, diferentemente da Terra, não possui um campo magnético para desviá-lo).
“Ele é considerado o combustível ideal para a fusão nuclear — uma fonte de energia muito mais limpa e potente que a fissão atual. Poucos gramas poderiam substituir toneladas de combustíveis fósseis, promovendo uma revolução definitiva na matriz energética global e resolvendo a crise climática por séculos”, afirma Fernando.
7. Interesses econômicos e novas indústrias
Quando se fala de indústria e interesse econômico, Marcelo lembra que as missões espaciais nos últimos tempos proporcionaram o surgimento de empresas privadas no setor, como a Blue Origin e a SpaceX. “Como não são instituições filantrópicas, existe um evidente interesse por possíveis explorações comerciais que nosso satélite pode oferecer”, afirma.
Em relação a novas indústrias, a baixa gravidade permite processos industriais impossíveis na Terra. A fabricação de fibras ópticas de pureza extrema, ligas metálicas ultra-resistentes e a bioimpressão de órgãos humanos (onde os tecidos não colapsam sob o próprio peso durante o crescimento) podem tornar a Lua o primeiro polo industrial extraplanetário, comenta o professor Fernando.
Além disso, na superfície lunar há a presença de uma poeira, conhecida como regolito, que serve para construção de tijolos, vidro e placas solares. Desse material podem ser extraídos elementos químicos para produção de fertilizantes, afirma Fabio.
8. Geopolítica e soberania tecnológica
O Tratado do Espaço Sideral, assinado em 1967, é o principal acordo internacional que define as regras para o uso do espaço. Desde então, nenhum país pode ser o dono da Lua. Porém, quem chegar primeiro poderá explorar melhor os recursos naturais, como, por exemplo, a água disponível no satélite.
“Hoje há uma intensa disputa pelo local entre a China e os Estados Unidos. Durante a missão Artemis II, os astronautas ficaram pouco mais de 40 minutos sem comunicação com a Terra. Já os chineses possuem dois satélites no lado oculto da Lua que permitem comunicação com a Terra. Há uma corrida entre os dois países para a instalação de uma base na Lua nos próximos anos”, relata Fabio.
“Quem estabelecer as primeiras bases e ajudar a redigir as leis de exploração comercial ditará as normas de segurança e comércio espacial do próximo século. É uma questão de soberania e liderança tecnológica”, confirma Fernando.
9. Inspiração, educação e formação de profissionais
Fernando acredita que estudar a Lua é, literalmente, ler o diário da infância do nosso próprio planeta. “Diferente da Terra, a Lua não possui erosão atmosférica ou atividade tectônica significativa. Sua superfície preserva registros intactos da formação do Sistema Solar e dos impactos primordiais que também atingiram a Terra.”
A exploração do "oitavo continente", como define Fabio, expande nossa visão como espécie multiplanetária e une nações em prol de grandes objetivos. E esse entusiasmo motiva jovens a buscarem carreiras em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, na sigla em inglês), fortalecendo instituições de ensino como o IFSC, que formam a mão de obra qualificada necessária para sustentar essa nova era da humanidade.
10. Turismo espacial
Por fim, o turismo espacial também é um dos pontos a ser explorado pelos países. “Haverá a possibilidade de pessoas comuns visitarem a Lua, transformando o local em um museu no espaço”, afirma o professor Fabio, do Câmpus Xanxerê.
Marcelo contribui lembrando que voos suborbitais já são feitos, como o da cantora Katy Perry recentemente. Ele acredita que as pessoas, no futuro, poderão pagar para um vislumbre espacial, poderão subir em espaçonaves impulsionadas por foguetes para fazer uma volta ao redor da Terra, ou, quem sabe, dar uma passada na Lua.
Quando isso pode ocorrer? Está prevista para 2027 (Artemis III) a demonstração de módulos de pouso comerciais. E, em 2028 (Missão IV), existe a previsão do primeiro pouso lunar da missão Artemis. Depois, lançar missões uma vez ao ano, a partir da Artemis V.
Fontes e referências desta reportagem
IFSC
Professores de Física Fabio de Souza Alves, do Câmpus Xanxerê; Fernando Cláudio Guesser, do Câmpus Joinville; e Marcelo Girardi Schappo, do Câmpus São José.
Notícia "O retorno à Lua: missão Artemis II e a nova era da exploração espacial"
Site oficial da Nasa
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BBC News Brasil
Missão Artemis II: o que se sabe sobre a nova viagem tripulada à Lua
Superinteressante
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