Como cuidar de um paciente com Covid-19 em casa e evitar o contágio da família?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 29 set 2020 07:59 Data de Atualização: 17 fev 2021 15:18

A disponibilização de leitos na rede hospitalar, em especial de unidades de terapia intensiva (UTI), para dar conta do atendimento dos pacientes infectados pelo novo coronavírus é assunto que mobilizou o sistema de saúde ao longo deste ano, com a disseminação da pandemia.

Porém, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a necessidade de internação hospitalar em decorrência da doença seja restrita a cerca de 20% dos infectados. Isso quer dizer que a maioria dos pacientes de Covid-19 não precisa de internação e, portanto, pode se recuperar da doença em casa.

Neste post, nós vamos explicar que cuidados devem ser tomados pelas famílias, ou quaisquer grupos de pessoas que dividam uma mesma moradia, quando há, em casa, alguém com diagnóstico positivo de Covid-19. Vamos abordar o seguinte:

- Que sinais clínicos são levados em conta para que o paciente seja tratado sem internação hospitalar, e a que sintomas prestar atenção para identificar uma eventual piora no quadro;
- Como proceder quando o paciente está debilitado e precisa de auxílio;
- A importância de organizar e intensificar a rotina de higienização da casa, levando em conta uma eventual propagação do vírus;
- A necessidade de que a família mantenha contato constante com o serviço de saúde.

Quando a pandemia expõe a desigualdade social

A primeira orientação dos serviços e profissionais de saúde quando se trata dos cuidados domiciliares a pacientes com Covid-19 sempre é que essa pessoa fique isolada por no mínimo 14 dias. Isso significa sugerir que, se possível, o doente seja mantido sozinho em um cômodo separado, isolando-o dos demais moradores da casa. De preferência, que também seja destinado um banheiro para uso exclusivo dessa pessoa.

O problema é que essa possibilidade está muito distante de grande quantidade de lares brasileiros, já que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 12,8% da população tem condições inadequadas de moradia. Isso quer dizer que elas moram em domicílios que têm uma ou mais das seguintes inadequações: falta de banheiro exclusivo da casa (ou seja, o banheiro é compartilhado com outras residências); uso de materiais não duráveis nas paredes externas (como sobras de madeiras ou taipa não revestida); adensamento excessivo (mais de três pessoas para cada dormitório) e ônus excessivo com aluguel.

5,6% dos brasileiros vivem em condição de adensamento domiciliar excessivo (domicílios em que há mais de 3 pessoas para cada dormitório).

“A primeira coisa que as pessoas precisam saber é que a gente está tratando de uma doença com transmissão respiratória. É um vírus presente no ar. Então a facilidade de adquirir a doença é muito grande. E se a gente mora com uma pessoa que testou positivo, você tem uma chance muito maior de se contaminar ou de já estar contaminado”, analisa a professora Kristiane de Castro Dias Duque, que é enfermeira, tem doutorado em Saúde e atua na área de Saúde Coletiva no Câmpus Joinville.

Quando se confirma um diagnóstico de Covid-19, a providência mais imediata deve ser avaliar o restante da família. Todos devem manter distanciamento social durante pelo menos 14 dias, independentemente de testarem positivo ou não. Ouça as explicações da professora Kristiane a esse respeito:

 

 

Qual deve ser a condição do paciente para que ele possa ser cuidado em casa, sem necessidade de internação hospitalar?

De acordo com Kristiane Duque, podem ser tratados em casa os pacientes que desenvolvem os sintomas leves: apresentam tosse, febre e dor de garganta, por exemplo, num quadro parecido com o de uma gripe. Uma parte menor dos doentes são os chamados casos moderados, em que há necessidade de acompanhamento no hospital, e um índice ainda menor demanda internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

-> Como funciona uma Unidade de Terapia Intensiva?

Quando há presença de fatores de risco, como diabetes, problemas cardíacos ou gravidez, os doentes são avaliados mais atentamente, mas muitas vezes a decisão pode ser de que eles se tratem em casa. E, em todos os casos, é imprescindível que a evolução do quadro seja observada, para que o serviço de saúde possa ser buscado no caso de qualquer agravamento, como enfatiza Kristiane. Ouça abaixo:


-> Entenda o que são os fatores de risco para Covid-19

-> Gravidez na pandemia: leia nosso post sobre os cuidados para gestantes e puérperas

Que sintomas podem indicar um quadro de agravamento da doença?

De acordo com a professora Kristiane Duque, a dificuldade respiratória é o sinal mais importante que pode representar um agravamento do quadro clínico do paciente. Por isso, o próprio doente e também as pessoas que convivem com ele devem ficar atentos a esse aspecto. “Se a pessoa percebeu que começou um incômodo respiratório, esse é o principal fator de alerta”, enfatiza. “Mas qualquer coisa em que ela perceba piora no quadro, vale a pena voltar ao serviço de saúde”, acrescenta.

A percepção relatada pelos pacientes sobre a dificuldade respiratória, em geral, corresponde a uma sensação de que o ar respirado não é suficiente. Também há relatos de aperto no peito e sensação de angústia, de acordo com a professora. No áudio abaixo, ela comenta a importância de se prestar atenção à dificuldade respiratória:

Sabemos que ainda não há remédio que combata diretamente o novo coronavírus. Como é, então, o tratamento do paciente?

O protocolo de atendimento recomenda apenas tratamento dos sintomas, ou seja, o médico prescreve medicamentos específicos para combater a febre, a dor no corpo e os demais sintomas relatados pelo paciente. A professora Kristiane Duque também ressalta que o paciente deve ser orientado a hidratar-se bastante, com ingestão de água, e fazer repouso. 

“Devido à grande possibilidade de complicação da Covid-19, essas pessoas precisam ter um monitoramento muito próximo”, lembra a professora. Pacientes leves, em tratamento domiciliar, que não apresentam fator de risco devem ser monitorados a cada 48 horas. Já aqueles que também têm sintomas amenos, mas que têm algum fator de risco, precisam ser monitorados diariamente. Isso por, pelo menos, 14 dias, até o desaparecimento dos sintomas. Ouça a professora Kristiane Duque sobre esse protocolo:


Tenho um familiar com Covid-19 em casa e ele precisa de auxílio. O que devo fazer?

Mesmo num quadro considerado leve, o paciente pode ficar debilitado e precisar de auxílio para se alimentar e manter higienizado o ambiente em que se encontra, por exemplo. A professora Kristiane Duque recomenda que, numa situação em que haja possibilidade de o doente ficar em um quarto fechado, deve-se definir uma única pessoa da casa para entrar no cômodo sempre que for preciso prestar auxílio. “Esse cuidador não vai ficar direto dentro do quarto, mas vai entrar para fazer o auxílio necessário, levar as refeições, ajudar na higiene, dependendo do que cada quadro específico exigir”, exemplifica.

O uso da máscara facial é imprescindível, tanto para o cuidador quanto para o doente, quando houver essas interações. O quarto deve ficar o mais arejado possível, com janelas abertas, porém com a porta fechada. Kristiane também recomenda que dentro do quarto o paciente tenha uma lixeira, com tampa, de uso exclusivo – na qual ele vai depositar, por exemplo, lenços de papel ou papel higiênico para assoar o nariz, material potencialmente contaminante. Sempre que sair do quarto, o cuidador precisa remover a máscara (lavando-a ou descartando-a, quando for o caso) e higienizar muito bem as mãos. Caso tenha tido proximidade física com o paciente, o ideal é que o cuidador troque de roupas e tome um banho.

Nas moradias em que há apenas uma peça usada como quarto, o recomendado é que esse cômodo seja ocupado exclusivamente pelo paciente, com o restante da família ficando na sala, por exemplo. “E existem também aquelas situações em que não vai ter nem isso, com todos os moradores no mesmo cômodo. Então é preciso manter um distanciamento de dois metros entre o paciente positivo e o resto das pessoas da casa. O que torna a contaminação mais fácil de acontecer, porque vai estar todo mundo no mesmo ambiente”, pondera Kristiane.

Em qualquer caso, tanto em quarto individual quanto em ambiente compartilhado, é imprescindível que a pessoa doente faça uso exclusivo de itens como pratos, talheres, copos, travesseiro, roupas de cama, toalhas e produtos de higiene (como escova e creme dental, sabonete, xampu). Quando não for possível que o paciente fique em um cômodo exclusivo, o cuidado deve ser redobrado para que os familiares ou coabitantes não compartilhem cadeiras, lugar no sofá, almofadas ou outros itens que envolvam contato físico.


2,8% da população brasileira não dispõe de banheiros dentro das residências

Como fazer uso compartilhado do banheiro de forma segura?

Higienizar rigorosamente o banheiro após cada uso é a atitude chave. De acordo com Kristiane Duque, quando o paciente estiver num quadro que lhe permita condições, ele deve assumir essa responsabilidade sozinho após cada uso: passar água sanitária ou desinfetante no vaso sanitário, na pia e em todos os pontos que tiver tocado, como torneira, interruptor, maçaneta da porta. Sua escova de dentes deve ser separada das do restante dos moradores, assim como o tubo de pasta de dentes. “O ideal é que a outra pessoa, quando for entrar, também faça essa higiene completa com o mesmo cuidado. Daí tem uma dupla via de segurança”, observa a professora.

Na convivência em casa, para todos os moradores, a regra de manter as mãos sempre limpas, lavando-as frequentemente com água e sabão ou utilizando o álcool em gel, deve ser seguida à risca. As máscaras faciais também precisam ser usadas corretamente, em especial no contato com o paciente, e higienizadas com água sanitária, água e sabão.


O monitoramento das condições do paciente é responsabilidade dele mesmo, e dos familiares também. A qualquer sinal de piora, o serviço de saúde deve ser procurado sem demora. Kristiane Duque, professora da área de Saúde Coletiva no Câmpus Joinville


O que muda na rotina doméstica quando há alguém com Covid-19 em casa?

A professora Kristiane Duque diz que, em linhas gerais, a manutenção da casa merece alguns cuidados extras, como a preferência por limpezas a úmido ao invés de simplesmente varrer ou espanar – o que pode provocar uma movimentação do vírus com o ar e a poeira. 

Nos casos em que a pessoa doente é também a responsável pela alimentação da família – em geral, a mãe – e não há possibilidade de que outro morador assuma essa tarefa, é preciso que haja o máximo de cuidado para que as mãos de quem manipular a comida estejam sempre higienizadas. “Ela vai ter que tomar muito mais cuidado, usar máscara, muita higiene das mãos, cabelos presos”, ressalta a professora. 

A embalagem e destinação correta do lixo é outro ponto a observar com atenção. Todo o lixo que tenha sido descartado pelo paciente deve ser muito bem ensacado e encaminhado para coleta comum. De preferência, diz Kristiane, o próprio doente deve tomar o cuidado de trocar o saco plástico da lixeira mantida para seu uso, higienizando o recipiente com álcool ou desinfetante. O lixo reciclável da casa pode ser encaminhado para a coleta específica, desde que ele não tenha sido manuseado pela pessoa doente.

Dicas importantes: cuidado domiciliar para pacientes com Covid-19

A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou em agosto um documento com orientações para o tratamento domiciliar de pessoas diagnosticadas ou suspeitas de Covid-19. Veja algumas delas:

- Limitar a circulação do paciente pela casa e evitar compartilhamento de espaços. Quando houver esse compartilhamento, os ambientes devem estar bem ventilados.

- Os demais moradores devem evitar entrar no ambiente onde o paciente está em repouso. Caso precisem entrar, devem manter distância de 2 metros e usar máscara facial.

- Máscaras e luvas descartáveis jamais devem ser reutilizadas. Elas devem ser descartadas no lixo comum.

- O número de cuidadores deve ser limitado – preferencialmente, uma única pessoa da família deve ser escolhida para assumir o cuidado do doente. O cuidador deve estar saudável e não apresentar fator de risco para a Covid-19. Nos casos em que a pessoa doente morar sozinha, é importante ter alguém de referência que faça contato constante e ofereça suporte.

- Não receber visitas enquanto o doente estiver em tratamento.

- Todos os moradores da casa onde há um paciente de Covid-19 devem ter rigor na higiene das mãos, lavando-as muito bem antes e depois de preparar alimentos, antes de comer, após o uso do banheiro e sempre que as mãos aparentarem estar sujas. Quando há sujeira aparente nas mãos, a OMS recomenda a lavação intensiva com água e sabão. Quando as mãos não necessariamente parecem sujas, elas podem ser higienizadas com álcool em gel. 

- O paciente deve sempre usar máscara facial. 

- Roupas de cama, toalhas, louças, talheres e itens de higiene devem ser separados para uso exclusivo do paciente. A louça usada pelo doente deve ser lavada com esponja exclusiva para esse fim.

- O lixo doméstico deve ser embalado em sacos resistentes, totalmente fechados. Isso é importante para garantir a segurança dos profissionais do serviço de coleta.

Depois que a pessoa se recuperou da Covid-19, todos já podem relaxar? 

Já abordamos em posts anteriores que mesmo quem já teve Covid-19 precisa continuar se cuidando. Leia aqui o que os estudos apontam sobre a resposta imunológica de quem já teve a doença.

Além disso, mesmo considerando uma imunidade temporária de quem já teve a Covid-19, a pessoa pode transmitir o vírus por meio de contato com superfície contaminada - como a professora Ângela Kirchner, do curso de Enfermagem do Câmpus Florianópolis, explicou neste vídeo no post que já fizemos sobre doentes assintomáticos, pré-sintomáticos e sintomáticos.

Quer saber mais sobre o que abordamos neste post?

-> Conheça o guia da OMS para cuidados domiciliares de pessoas diagnosticadas ou com suspeita de Covid-19 (em inglês)

-> Consulte o relatório “Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira – 2019”, do IBGE

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