Como higienizar corretamente mãos, objetos e ambientes para eliminar o novo coronavírus?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 08 dec 2020 14:06 Data de Atualização: 17 fev 2021 15:20

Lave bem as mãos com água e sabão. O conselho básico de higiene que nos acompanha desde a infância é um dos hits do ano pandêmico de 2020. Órgãos oficiais de saúde, profissionais da área, educadores, meios de comunicação social e os mais variados agentes repetiram à exaustão esse importante conselho desde as primeiras notificações de pessoas infectadas pelo Sars-Cov-2, o coronavírus específico que provoca a Covid-19.

Assim como água e sabonete aplicados com uma fricção vigorosa nas mãos podem inativar o coronavírus e evitar o contágio veiculado pelas mãos, também o uso de álcool, em gel ou líquido, na concentração de 70% de etanol, é um higienizante muito eficaz contra o patógeno. Com isso, o álcool também entrou para a nossa rotina de maneira rápida e muito intensiva: ele está presente em dispensers estrategicamente posicionados nas entradas de locais públicos, virou item obrigatório nas nécessaires femininas, habita consoles de carros, mochilas de adolescentes, mesas de restaurantes.

Ao lado do uso de máscaras faciais e do distanciamento físico, a higiene das mãos é, comprovadamente, um dos itens mais importantes do pacote de atitudes que devemos adotar para a prevenção da Covid-19. “São as principais ferramentas que temos, hoje, para mudar o rumo dessa pandemia”, salientou a epidemiologista Maria Van Kerkhove, líder técnica de resposta à Covid-19 na Organização Mundial da Saúde, numa das sessões de perguntas e respostas transmitidas pela entidade para atender dúvidas do público. Em sua análise, o controle da pandemia está, em grande parte e literalmente, em nossas mãos.

Neste post, vamos abordar com um pouco mais de detalhes a importância da higiene correta das mãos, de objetos e de ambientes para prevenir a Covid-19. É mesmo necessário retirar os calçados antes de entrar em casa? Preciso realmente “dar banho” de cloro ou de álcool nas minhas compras de supermercado? Em que objetos o vírus “pega carona” para infectar os humanos? Vamos te ajudar a entender melhor esse processo e a necessidade de atenção a algumas práticas.

Sim, as mãos precisam ser constantemente higienizadas

O novo coronavírus é um patógeno que entra no organismo humano pelas vias respiratórias – ou seja, seu acesso se dá por meio da boca e do nariz, ou ainda pela mucosa dos olhos. Por isso, a higienização das mãos é muito importante, já que as pessoas tendem a tocar inadvertidamente a face pelo menos 23 vezes por hora (o estudo de pesquisadores australianos foi publicado em 2015 no American Journal of Infection Control). “A base de tudo é a lavagem correta das mãos”, salienta a enfermeira Rosane Aparecida do Prado, professora do Câmpus Florianópolis. 

E atenção, porque lavar as mãos e “passar uma aguinha” são coisas bem diferentes. De acordo com Rosane, órgãos como o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) dos Estados Unidos e a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendam que um processo correto de higienização das mãos com água e sabão deve demorar, no mínimo, 20 segundos. “O ideal seria até de 40 a 60 segundos”, considera a professora, que descreve o exercício feito com alunos do curso de Enfermagem para praticar a higienização correta. Ela conta que as mãos dos alunos são sujas com tinta, para que a “sujeira” fique bem visível e eles percebam o processo de eliminação das impurezas conforme a lavagem é feita de forma rigorosa. “Deve-se lavar o dorso das mãos, palmas, entre os dedos, das unhas para o dorso, polegar e pulsos, prestar atenção também nas unhas e pontas dos dedos”, descreve Rosane.

Água e sabão são uma mistura eficaz para eliminar impurezas – entre elas, não só o vírus causador da Covid-19, mas também vários outros patógenos -, porém nem sempre há disponibilidade de pia com sabonete e água para essa assepsia, em especial em locais públicos. Aí é que entra o álcool gel. “O álcool glicerinado não provoca ressecamento da pele como as formulações líquidas, então o ideal é optar por ele em relação ao álcool líquido quando o objetivo for higiene das mãos”, explica Rosane, que acrescenta que o ressecamento da pele pode levar a dermatites ou outras reações. Da mesma forma que na lavagem com água e sabão, a aplicação do álcool deve envolver dedos, palmas e pulsos, em quantidade suficiente para garantir a assepsia.

Preciso mesmo higienizar as compras do supermercado, calçados ou outros objetos que venham da rua?

O hábito de higienizar os mantimentos, em especial alimentos in natura e embalagens, teve sua importância muito propagandeada com a pandemia de Covid-19, mas, na verdade, trata-se de uma prática recomendável em quaisquer circunstâncias. “Não se trata apenas do coronavírus. Um alimento que tenha passado por uma cadeia de produção, foi manipulado por várias pessoas, foi transportado em caixas, ele precisa ser higienizado para eliminar as sujidades”, observa Rosane. 

Quanto aos calçados, este é outro hábito recomendável não apenas na pandemia: ao chegar em casa, deve-se tirar imediatamente os calçados que foram usados na rua, deixando-os do lado de fora ou em uma “área suja” na entrada. “Muita gente acha que é exagero, mas é importante, sim, deixar os calçados fora de casa ou numa área separada. O CDC já identificou que os sapatos podem trazer micro-organismos para dentro de casa, não só o coronavírus, mas também outros”, afirma a professora.

Por mais que as pessoas estejam cansadas do isolamento, do confinamento em casa, ainda não é hora de relaxar. Os cuidados precisam seguir muito fortes, muito severos, principalmente a higienização das mãos, que eu acho que é a base de tudo. Frase da professora Rosane Aparecida do Prado, enfermeira, professora do Câmpus Florianópolis.

Que produtos têm a capacidade de inativar o vírus?

A lista de produtos eficientes para eliminar vírus, bactérias e outras impurezas das superfícies e objetos é variada. Além do sabão ou detergente misturados à água, também têm efeitos higienizantes o já mencionado álcool – de preferência 70% -, a água sanitária (hipoclorito de sódio), a água oxigenada (peróxido de hidrogênio) e os desinfetantes de uso geral. Basicamente, o processo de inativação do vírus (e de outros patógenos) consiste na dissolução de suas camadas lipídicas ou de seus componentes proteicos, o que impede com que eles se “grudem” nas células humanas e provoquem infecção.

A farmacêutica-bioquímica Renata Pietsch Ribeiro, professora do curso técnico em Química do Câmpus Florianópolis, valida a indicação do álcool em gel para higienização das mãos e recomenda que, na hora da compra, sejam observadas características como a transparência do produto e as informações do rótulo. Segundo explica, os géis menos transparentes são produzidos com uma matéria-prima que aumenta a viscosidade do produto – o que não significa que não sejam eficazes, mas seu uso pode ser menos confortável. Além disso, existem no mercado produtos que se apresentam como higienizantes para as mãos, mas não têm a concentração recomendada, que é de 70% de etanol – daí a importância da leitura do rótulo.

A embalagem do produto deve ter também, no rótulo, informação sobre a autorização de comercialização pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “A Anvisa é o órgão que regula os produtos saneantes no Brasil e a autorização para comercialização precisa estar indicada na embalagem”, afirma Renata. Em função do aumento na procura quando a pandemia teve início, a Anvisa chegou a dispensar a autorização prévia para a comercialização desses produtos, assim como a produção e venda por farmácias de manipulação. Para saber se o álcool que você adquiriu está dentro dos conformes, é possível consultar o site da Anvisa.

Para limpeza de superfícies, como mesas, maçanetas de portas, móveis e utensílios, o mais indicado é o álcool 70% na apresentação líquida. “O ideal é que se borrife o álcool na superfície, espalhando bem, e que se deixe secar naturalmente, para que ele tenha sua ação”, explica Renata. Ela observa que o álcool líquido em concentrações superiores a 46% esteve proibido no Brasil, por questão de segurança – é um produto altamente inflamável -, porém com a pandemia ele voltou às prateleiras do comércio. “Mas sempre é preciso ter cuidado na manipulação”, lembra Renata. No site da Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Proteste) há uma lista de informações e cuidados a serem observados na aquisição e uso do álcool 70%.

A concentração do álcool a 70% deve ser observada com atenção, porque a formulação desse tipo de produto também tem uma proporção de água, característica decisiva na inativação do vírus. “A proporção do álcool 70 é muito eficiente. Ele entra e desestabiliza a conformação das proteínas dos micro-organismos, inativando o vírus. Já o álcool 96 não é tão eficiente porque ele evapora muito rápido e tem menos água, que é importante na desnaturação das proteínas”, explica a professora.

A água sanitária é mais indicada para a higiene de alimentos in natura, numa diluição de 1 colher de sopa para cada litro de água (este post do Blog do IFSC aborda a segurança alimentar na pandemia e tem um vídeo explicando o processo de higienização de alimentos). Também é indicada para higienizar as máscaras faciais de tecido, porém, como esse produto pode causar manchas, a professora Renata recomenda a utilização de outro produto anti-oxidante: o peróxido de hidrogênio, que é encontrado, geralmente, nos alvejantes sem cloro. Esses produtos também oxidam as proteínas dos micro-organismos, o que os inativa. “É um mecanismo diferente do álcool, mas também muito eficiente”, considera. 

Se eu misturar todos esses produtos, terei uma limpeza mais eficiente?

A resposta para essa pergunta é não: além de não garantir uma melhor assepsia dos ambientes, a mistura indiscriminada de diferentes produtos saneantes pode resultar em toxicidade e risco à saúde. De acordo com a professora Renata Ribeiro, os produtos devem ser usados sempre para a finalidade a que se destinam, na forma recomendada nas instruções contidas no rótulo – forma de aplicação, dissolução e outros cuidados. Tampouco se deve aproveitar as embalagens de um tipo de produto para o armazenamento de outro. “A mistura de produtos ou a troca de embalagens pode tanto inativar as substâncias quanto produzir misturas tóxicas. Ou seja, isso pode primeiro não ser eficiente, e segundo produzir uma substância que represente risco à saúde”, enfatiza. “É melhor optar por um produto, fazer a diluição corretamente quanto for o caso e usar apenas aquele, sem misturar com outros.”

Recebi um vídeo que ensina a fazer álcool gel em casa. Não parece difícil.

No início da pandemia, com a escassez do produto nas prateleiras, disseminaram-se na internet receitas para produção caseira de álcool gel. Mas atenção: a formulação desse produto é muito técnica e não deve ser experimentada em casa. “Em casa nós não temos os equipamentos adequados, como temos no laboratório. Somente o profissional de Química tem a formação adequada para produzir e controlar a qualidade desse tipo de produto. Então o ideal é confiar no que a gente compra, e não tentar fazer em casa, que pode ser perigoso”, recomenda a professora Renata Ribeiro.

O álcool gel não é uma formulação difícil de fazer, mas é uma formulação técnica. Para que se tenha garantia da eficácia na inativação viral, ele deve ser produzido por profissionais habilitados. Frase de Renata Ribeiro, farmacêutica-bioquímica, professora do Câmpus Florianópolis

Resumindo: principais recomendações e cuidados para a higiene das mãos e ambientes

- Existem vários produtos químicos capazes de inativar o novo coronavírus (assim como outros micro-organismos): água e sabão, álcool, água sanitária, água oxigenada, desinfetantes.

- Para a assepsia das mãos, o mais recomendado é o uso de água e sabão, lavando-se as mãos de forma rigorosa por 1 minuto. Caso não haja disponibilidade de água e sabão (como em ambientes externos ou locais públicos), deve-se fazer a assepsia com álcool gel 70%.

- A concentração de 70% de etanol é a mais eficiente para a eliminação do novo coronavírus. Álcool com percentual inferior (como o 46%, também disponível no mercado) tem eficácia menor. Já aqueles com percentual superior (como o 96%) têm evaporação muito rápida, e por isso também não têm a eficácia desejada. 

- Para assepsia de equipamentos eletrônicos, como telefone celular, tablets e notebooks, o mais indicado é o álcool isopropílico, que também garante a eliminação dos micro-organismos. Suas características químicas fazem com que ele não danifique as telas.

- Tudo o que vem da rua para dentro de casa deve, preferencialmente, ser higienizado com os produtos químicos recomendados para cada caso: cloro no caso de alimentos; álcool ou água e sabão para embalagens e calçados.

- O cuidado com objetos e superfícies não substitui a higienização constante e correta das mãos: elas são um veículo preferencial do novo coronavírus para infectar os seres humanos, já que estes – os humanos – têm o hábito de tocar o rosto pelo menos 23 vezes por hora, transportando o patógeno para olhos, nariz e boca, suas portas de entrada para as vias aéreas.

- Quando precisar sair de casa, leve sempre consigo seu próprio frasco de álcool gel e aplique-o nas mãos diversas vezes. Os dispensers de álcool disponibilizados nos locais públicos – em especial aqueles de acionamento manual – também são possíveis focos de disseminação do vírus. Caso precise recorrer a um dispenser de uso coletivo, certifique-se de envolver muito bem as mãos no álcool após acionar o dosador.

- Não tente fazer álcool gel em casa, tampouco compre o produto de fornecedores não confiáveis. Observe as informações da embalagem para se certificar do que está comprando e, se necessário, consulte a Anvisa.

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