A imunidade coletiva pode acabar com a pandemia?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 22 set 2020 09:46 Data de Atualização: 23 set 2020 09:45

Enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) sempre recomendou o distanciamento social como forma de conter a pandemia do coronavírus até que se tenha uma vacina, alguns países cogitaram o uso da estratégia popularmente conhecida como imunidade de rebanho. O assunto gera controvérsia entre especialistas. Seria possível aguardar até que uma parte da população fosse contaminada para que a situação passasse a ser naturalmente mais segura para todos?

No post desta semana, vamos abordar as seguintes questões:

- O que é imunidade de rebanho?
- A estratégia de imunidade coletiva pode ajudar no controle da pandemia?
- O que é a taxa de transmissão?
- Quem já teve a Covid-19 fica imune?

Imunidade coletiva e imunidade de rebanho são a mesma coisa?

Sim, mas o termo científico correto é imunidade coletiva ou imunidade natural, que representa o processo em que um grande número de pessoas numa população já adquiriu anticorpos contra uma doença. “Se muitas pessoas da população possuem anticorpos contra a doença, elas param de transmitir para outras e, então, essa cadeia de transmissão é diminuída”, explica a professora do curso de Enfermagem do Câmpus Florianópolis Suelen dos Santos Saraiva, enfermeira e mestra em Saúde Pública. “Quanto mais pessoas imunes eu tiver na população, menor vai ser a transmissão dessa doença”, enfatiza.

Quando o nosso corpo entra em contato com uma doença, ele cria anticorpos. “Os anticorpos de memória fazem com que nosso corpo saiba como lidar com aquela doença e nos proteja daquilo”, afirma Suelen. Em algumas doenças, essa imunidade é vitalícia, ou seja, quem teve uma vez não contrai novamente. Mas, em outras, os anticorpos criados têm um prazo dentro do nosso organismo até pela modificação do vírus, o que faz com que a gente tenha que tomar vacinas periodicamente - como é o caso do vírus H1N1, cuja campanha de vacinação ocorre todo ano.

Imunidade natural X Imunidade pela vacina

A imunidade coletiva pode ocorrer naturalmente, quando se contrai a doença, ou por meio de vacinação. A professora do IFSC ressalta que a vacina é feita de uma forma controlada. “Mesmo que a vacina utilizada seja feita com vírus vivo, ela nunca vai ter a mesma força se eu pegasse a doença realmente”, pondera.

O que indica a necessidade de uma vacina é o potencial de contaminação da doença. “Temos que considerar como esse vírus circula e o quão rápido ele circula na população”, fala Suelen. No caso da Covid-19, esse potencial de transmissão é muito grande, como os números de novos casos e de óbitos comprovam. “É isso que vai me dizer que a população sozinha não vai conseguir se proteger contra esse agente infeccioso e a gente precisa de uma vacina para proteger a população”, afirma.

Como já explicamos neste post, o processo de fabricação de uma vacina é demorado. Enquanto o mundo inteiro espera esse momento que deve marcar o fim da pandemia do coronavírus, por que não deixar o vírus circular livremente entre as pessoas para que possamos nos tornar imunes e a transmissão possa definhar naturalmente?

Este debate vem sendo travado desde o início da pandemia. O Reino Unido chegou a cogitar essa estratégia de imunidade coletiva, mas recuou. A Suécia foi na contramão dos vizinhos europeus e apostou na “imunidade de rebanho”, não restringindo a circulação de pessoas. Resultado: em junho, era o segundo país da Europa com mais casos de contaminação por habitante.

Quem critica a adoção dessa estratégia aponta justamente o risco ao qual a população é exposta. A professora do IFSC é uma das que não concorda com a ideia de deixar as pessoas criarem naturalmente esta imunidade coletiva para conter a pandemia. “No momento em que você não toma medidas restritivas para uma doença que tem uma grande propagação, uma grande probabilidade de contaminação, você está deixando a população inteira suscetível a essa doença e a chance dela adoecer e dela morrer por isso é muito grande”, alerta.


Quantos infectados são suficientes numa população para que os imunes impeçam a circulação do vírus?

Cada doença tem uma taxa de transmissão chamada de R que é calculada usando modelos matemáticos. A professora de matemática do Câmpus Gaspar Vanessa Oechsler explica que o chamado R zero(R0) seria a taxa inicial, ou seja, quantas pessoas alguém que está contaminado pode infectar sem qualquer medida de combate. “Pesquisadores indicam que o R0 da Covid é de 2,4 a 3,3 - o que isso significa que uma pessoa passa o vírus a outras 2 ou 3”, afirma.

No livro “As regras do contágio: Por que as coisas se espalham — e porque param”, o epidemiologista Adam Kucharski define quatro parâmetros que são utilizados para a elaboração da taxa de contágio: 1) Duração da infecciosidade, 2) Oportunidade: com quantas pessoas o infectado teve contato, 3) Probabilidade de transmissão: quando duas pessoas de encontram, qual a probabilidade do vírus ser transmitido de um para o outro, e 4) Suscetibilidade: quão provável é que a pessoa contraia o vírus. “Esses parâmetros são traduzidos em números que são multiplicados e geram a taxa de transmissão”, explica Vanessa.

No Brasil, essa taxa tem variado. De acordo com o monitoramento feito pelo Imperial College London, que se tornou uma referência internacional em pesquisas sobre a Covid-19, a taxa em abril no nosso país chegou ao seu maior patamar de 2,81 e, em agosto, caiu para 0,94 - o menor índice até então desde o início do monitoramento. No entanto, o número de reprodução do novo coronavírus no Brasil voltou a subir para o patamar 1 na semana iniciada em 23 de agosto. “O ideal é que a taxa seja menor do que 1, o que indica que cada vez menos indivíduos se infectam e o número dos contágios retrocede”, aponta a professora de matemática.

Segundo o painel de dados da Fiocruz, dados de 20 de setembro - os mais recentes até a publicação deste post - apontam que a taxa de transmissão no Brasil e em Santa Catarina estava em 0,7.

Gráfico da Fiocruz mostrando a evolução de RT no Brasil e em SC

“É a partir dessa taxa que se estima o percentual de pessoas que deveriam estar imunizadas na população para que a gente possa ter a imunidade coletiva”, explica Suelen. Cada doença tem um valor diferente. Segundo a professora do curso de Enfermagem, de acordo com os estudos que se tem hoje, no caso da Covid-19, entre 60% e 75% da população deveria ter anticorpos contra o vírus para se pensar na imunidade de rebanho.

No entanto, ela menciona também um estudo publicado em julho na plataforma medRxiv que estimou que o limiar de imunidade coletiva ao novo coronavírus pode ser alcançado em uma determinada região se algo entre 10% e 20% da população for infectada. “Mesmo se for se pensar em 20%, é muita gente com risco de ficar doente e morrer”, diz Suelen. “É tudo muito novo, então a certeza só vai vir com a vacina, com uma imunidade garantida de uma forma não prejudicial à população”, afirma.

Na ilustração abaixo, adaptada de um estudo internacional publicado na Immunity, é possível entender melhor visualmente como funcionaria a imunidade coletiva:

 

Infográfico mostrando como funciona a imunidade de rebanho na população

A professora destaca que, conforme os estudos da doença têm apontado, cerca de 80% das pessoas infectadas têm sintomas leves - isso sem contabilizar o grande número de pessoas assintomáticas, ou seja, que possuem o vírus e nem sabem.

-> Qual a diferença entre doentes assintomáticos, pré-sintomáticos e sintomáticos?

Outros 20% da população que pegam o coronavírus precisam de algum tipo de auxílio médico e 5% dessas pessoas vão precisar de um leito de UTI. “Parece que é pouco, mas dentro do número de pessoas que estão ficando doentes, acaba sendo muito”, alerta Suelen.

-> Como funciona uma Unidade de Terapia Intensiva?

A lógica de uma imunidade adquirida por vacina é diferente. “Na vacina, você coloca esse patógeno na pessoa para que ela adquira os anticorpos, mas você coloca isso de uma forma enfraquecida, então a pessoa não vai ter a doença realmente, não vai sofrer com todas as consequências assim como as pessoas que ficariam aguardando a imunidade de rebanho que poderiam sim ter formas grave da doença e acabar tendo complicações e até mesmo óbito”, analisa a professora. “Não tem como neste momento a gente pensar em imunidade de rebanho justamente pela gravidade da doença e pela história que ela está apresentando na população”, reforça Suelen.

Outro ponto a se considerar é a taxa de letalidade da doença. Segundo dados do Ministério da Saúde, esse índice no Brasil, no dia 21 de setembro, foi de 3%. Em Santa Catarina, de acordo com boletim divulgado pelo Governo do Estado também em 21 de setembro, o índice ficou em 1,29%. Este número indica qual a proporção dos doentes que acabou morrendo em decorrência da doença. “A taxa de letalidade parece ser pequena, mas ela é alta dentro das características da doença, justamente porque a Covid-19 ainda está muito permeável na população e se disseminando com muita facilidade, o que faz com que as chances de muitas pessoas irem a óbito aumentem”, explica a professora.

Já peguei Covid-19. Estou imune?

Enquanto mais de 137 mil pessoas já foram a óbito por causa da Covid-19 no Brasil, o Ministério da Saúde contabiliza cerca de 3,8 milhões de casos recuperados na data de publicação deste post. Algumas pessoas que já tiveram a doença respiram aliviadas achando que estão imunes ao vírus e não poderão contraí-lo novamente. No entanto, a situação ainda não pode ser encarada desta forma.

“No caso da Covid-19, não se tem nenhum estudo ainda que consiga dizer realmente que existe uma imunidade adquirida e por quanto tempo essa imunidade é adquirida”, alerta Suelen. Segundo a professora, pesquisas têm buscado comparar o SARS-CoV-2 com outros tipos de coronavírus que apontam imunidade de 40 dias até três meses. Casos recentes - embora ainda raros - de reinfecção pelo coronavírus colocam essa imunidade adquirida ainda mais em xeque. “Não se tem noção de por quanto tempo essa imunidade vai ser adquirida”, ressalta Suelen.

Além disso, mesmo considerando uma imunidade temporária de quem já teve a Covid-19, a pessoa pode transmitir o vírus por meio de contato com superfície contaminada - como a professora Ângela Kirchner, também do curso de Enfermagem do Câmpus Florianópolis, explicou neste vídeo no post que já fizemos sobre doentes assintomáticos, pré-sintomáticos e sintomáticos.

A incerteza em relação a essa imunidade adquirida por quem já teve a doença fragiliza ainda mais a estratégia de imunidade coletiva. “Ao seguir a linha da imunidade de rebanho, você está deixando uma população suscetível a uma doença, deixando que aquele vírus circule sem ter uma garantia de sucesso lá no final”, destaca a professora Suelen. “Os pesquisadores têm estudado pra ver como tudo isso pode se dar, mas não se tem exatamente uma informação 100% fidedigna, uma evidência científica forte que fale quanto tempo tudo aquilo vai durar, então é muito difícil você apostar nesse tipo de ação para essa doença”, afirma.

Suelen reforça que os cuidados para evitar a transmissão devem ser mantidos inclusive por quem já testou positivo para a doença. ”Nesse tipo de doença, você tem que pensar em si e no outro, porque você pode estar se cuidando, mas precisa cuidar do outro”, avisa. 


O que pode acabar com a pandemia?

O que deve acabar com a pandemia é a imunidade coletiva da população, mas adquirida por meio da vacinação em massa. “Essa imunidade é que dá segurança para a população porque temos controle do que vai acontecer”, afirma Suelen.

Citação da professora Suelen: "Com o que se tem posto hoje, a imunidade coletiva só vai se dar por meio da vacinação."

> Existe uma previsão para o fim da pandemia?

Até lá, as recomendações para diminuir a proliferação do vírus seguem sendo o distanciamento social, o uso de máscaras e a higienização frequente das mãos. “O ideal realmente seria manter o isolamento enquanto a gente não tiver uma vacina eficaz para esse vírus porque realmente ele é muito agressivo e você ainda não tem uma garantia de por quanto tempo essa imunidade vai durar”, orienta Suelen.

Quer saber mais sobre o que abordamos neste post?

- A busca por um modelo matemático para descrever a dinâmica da Covid-19
- Entrevista da epidemiologista Maria Van Kerkhove da OMS em 19 de agosto comentando que os estudos sobre a resposta imunológica de quem contrai Covid-19 ainda não estão claros (veja no trecho a partir da marcação de tempo 47’15”)
- Live da Associação Brasileira de Saúde Coletiva sobre a imunidade coletiva
- Painel de dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em que é possível acompanhar a taxa de transmissão a nível nacional 

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Qual a melhor forma de medir a temperatura do corpo?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 04 ago 2020 14:33 Data de Atualização: 21 set 2020 09:36

A medição da temperatura corporal das pessoas que circulam em espaços públicos, como estabelecimentos comerciais, clínicas, transporte coletivo ou mesmo em barreiras sanitárias, é uma das medidas preventivas adotadas em todo o mundo para evitar a propagação do novo coronavírus. Em Santa Catarina, cada município detalha as regras para esse procedimento. No caso de Florianópolis, por exemplo, as pessoas que estejam com temperatura acima de 37,8 graus devem ser impedidas de entrar nos estabelecimentos e encaminhadas ao serviço Alô Saúde (conheça essa e outras normas no Decreto Municipal 21.459).

O equipamento mais utilizado nesses contextos é o termômetro digital de infravermelho, que permite a aferição da temperatura sem que haja contato físico entre a pessoa examinada e quem opera o aparelho. Há, contudo, diferentes tipos de termômetros. Além do infravermelho, em evidência neste momento de pandemia, há também os termômetros digitais e os de mercúrio – estes últimos, em processo de obsolescência. Independentemente do tipo de termômetro que se utiliza para aferir a temperatura do corpo e identificar se há ou não um processo febril, é importante saber a forma correta de utilizar o equipamento e também os contextos em que é necessário verificar a febre.

Nós conversamos com dois pesquisadores do IFSC para este post e vamos abordar as seguintes questões:

- Entender o que é febre, o que ela pode indicar e como proceder para baixá-la;
- Identificar os diferentes tipos de termômetros e como utilizá-los corretamente para fazer a aferição da temperatura corporal.

O que é a febre? O que ela indica?

O professor Inácio Alberto Pereira Costa, que atua na área de Saúde no Câmpus Florianópolis, explica que a febre geralmente indica uma reação do organismo a algum tipo de infecção. A temperatura média corporal costuma variar entre 36 e 37,3 graus Celsius. Mais do que isso caracteriza a febrícola (até 37,8 graus), a febre (acima de 37,8 até 39 graus) e a febre alta (mais de 39 graus). 

Ao se constatar a ocorrência de febre com uso de um termômetro, deve-se observar se há outros sintomas associados a ela – no caso da Covid-19, os mais comuns são tosse, falta de ar, falta de paladar e cansaço, de acordo com o professor, que é doutor em Enfermagem. Ele enfatiza também que é importante sempre procurar orientação médica em caso de febre, evitando, principalmente, a automedicação. “Muitas vezes a febre é um dos sintomas de alguma condição clínica que demanda um tipo específico de medicamento, e não outro. Por isso o recomendado é só tomar medicamentos para baixar a febre com orientação médica, respeitando a dose e a frequência”, explica.

Outro alerta que o professor faz é que nem sempre um aumento da temperatura do corpo significa febre. Há alterações de temperatura que são aceitáveis em condições normais. Após a prática de atividades físicas, por exemplo, é comum que haja uma oscilação. Mulheres em período fértil também costumam ter a temperatura corporal elevada. 

Como medir corretamente a temperatura corporal?

Identificar se há febre apenas pelo contato da mão ou do pulso com o rosto da pessoa examinada pode ser válido apenas como uma primeira “impressão empírica” do problema, mas não é recomendável, de acordo com o professor Inácio Costa. “Numa primeira impressão empírica, você pode sentir alguma alteração na temperatura da pessoa. Mas é preciso fazer a aferição com uso de um termômetro para mensurar a temperatura, identificar se há febre, se é alta ou não, e proceder dependendo do caso”, recomenda.

O indicado para situações em que há suspeita de febre é fazer a aferição com uso de um termômetro digital, que é encontrado facilmente nas farmácias e tem preço acessível. Basta seguir as instruções do fabricante, “zerando” o termômetro e colocando o aparelho sob a axila da pessoa examinada. Após o tempo necessário para a aferição, o termômetro emite um sinal sonoro e mostra, no visor digital, a temperatura do paciente. O professor Inácio Costa salienta que, antes e após o uso, é importante higienizar o aparelho com álcool.

Outro ponto a observar é que a medição será mais precisa com o paciente examinado em repouso há pelo menos cinco minutos, num ambiente confortável. A oscilação da temperatura do ambiente pode causar imprecisões nas leituras – inclusive indicando temperatura menor que 36 graus.

Sempre é preciso fazer algo para baixar a febre?

A febre indica que o organismo está reagindo a algum agente infeccioso, mas tomar providências para baixá-la não implica que isso force o organismo a deixar de reagir. “Pelo contrário, baixar a febre ajuda o organismo a atuar nesse processo de defesa, a trabalhar para combater a infecção”, esclarece. Além de medicamentos específicos com função antitérmica, com orientação médica, é possível também adotar procedimentos como banho morno ou compressas de água fria no corpo para baixar a temperatura.

Controlar a febre é essencial principalmente nos casos de temperaturas acima de 39 graus, que caracterizam a febre alta. Nesse tipo de situação é preciso necessariamente de acompanhamento médico numa unidade de saúde. 

Quais os tipos de termômetros existentes no mercado, hoje? Existe algum mais recomendado?

São três tipos de termômetros utilizados para medir a temperatura do corpo. Os digitais de infravermelho, que se popularizaram com a pandemia do novo coronavírus, são o modelo mais caro, mas tem algumas vantagens. “Uma delas é que o termômetro infravermelho permite que se faça a aferição da temperatura sem contato físico. Além disso, a medição leva apenas alguns segundos”, esclarece Inácio Costa. Os termômetros digitais são os mais recomendados para uso doméstico: são acessíveis e de simples operação, além de serem também precisos. “O termômetro digital exige contato. Ele é posicionado na axila do paciente e manuseado por quem vai fazer a leitura, então é preciso mantê-lo higienizado após cada uso”, observa o professor. Os termômetros líquidos, que geralmente têm mercúrio na sua estrutura, estão cada vez mais em desuso. “Eles têm a vantagem de não precisar de bateria, mas como têm mercúrio, que é um metal tóxico que pode causar danos à saúde e ao ambiente, isso pode ser perigoso caso ele venha a se quebrar”, ressalta Inácio Costa. Outro aspecto negativo do termômetro de mercúrio é seu manuseio pouco prático, pois para que o filete de mercúrio se posicione no lugar correto antes da medição, é preciso “sacudir” o aparelho, e isso pode provocar quedas ou acidentes.

O mais recomendado para uso doméstico, portanto, é o termômetro digital, que tem manuseio fácil e permite uma leitura precisa e objetiva. O infravermelho, por conta de sua relação custo-benefício, pode ser um investimento desnecessário para quem só faz uso ocasional do aparelho. Já o de mercúrio é o menos recomendado.

Têm circulado nas redes sociais boatos sobre possíveis riscos do uso de termômetros infravermelhos. Porém, como o professor Inácio Costa enfatiza, esse é o modelo de equipamento mais recomendado, no momento pandêmico, para fazer a aferição de temperatura em locais públicos. Várias agências de checagem já desmentiram o conteúdo malicioso divulgado pelas redes de que esses termômetros trariam danos à saúde (como a AFP Checamos, a Lupa e a Aos Fatos). (texto atualizado em 10/09/2020)

E como os termômetros funcionam? Qual a ciência por trás desses aparelhos?

Cada tipo de termômetro tem uma especificidade técnica que permite a aferição da temperatura de um sistema ou objeto, como explica o professor Marcelo Schappo, que atua no Câmpus São José e é doutor em Física. “Eles medem o que chamamos de ‘grandezas termométricas’, ou seja, eles medem algo que varia com a temperatura de uma forma controlada, através de diferentes fenômenos físicos, a depender do tipo de termômetro”, detalha.

No caso dos termômetros líquidos – que em geral usam mercúrio –, o fenômeno que permite seu funcionamento é a dilatação térmica: quando a temperatura de um corpo varia, isso altera a agitação das partículas que o formam, modificando a dimensão desse corpo. Se a temperatura aumenta, as partículas se agitam mais, e, no geral, o corpo se expande; e se a temperatura diminui, ocorre o contrário. Isso explica por que o mercúrio existente dentro do termômetro ganha volume conforme a temperatura que ele está medindo. Já os termômetros digitais eletrônicos funcionam com o princípio da resistência elétrica. “Os metais são bons condutores de corrente elétrica, mas essa facilidade de condução elétrica depende da temperatura do metal: quanto maior a temperatura, mais difícil ocorrer a condução de corrente através dele. Dizemos, assim, que sua resistência elétrica aumenta com a temperatura. Colocando a ponteira metálica em contato com o corpo, o sensor terá sua resistência elétrica modificada, o que pode ser medido pelo termômetro para identificar a temperatura do sujeito”, explica o professor.

Por fim, os termômetros infravermelhos funcionam com o princípio chamado “radiação de corpo negro”. O professor Marcelo Schappo explica que todos os objetos emitem ondas eletromagnéticas de uma forma relacionada à sua temperatura. O corpo humano emite radiação na faixa conhecida por “infravermelho”, que é menos energética que a luz visível. Os termômetros captam as ondas emitidas pelo corpo através de um sensor que, por sua vez, converte isso para um sinal de corrente elétrica. A partir desse sinal elétrico gerado, o termômetro identifica a temperatura.

Schappo também enfatiza que os boatos em torno de possíveis males provocados pelos termômetros infravermelhos são pura bobagem. "A ideia de que o termômetro infravermelho causa danos ao cérebro é absurda por vários motivos. O primeiro é que, para determinar a temperatura, ele recebe radiação emitida pelo nosso corpo, e não o contrário. E o segundo é que o laser que o aparelho emite serve apenas para auxiliar na mira do operador, fazendo com que ele aponte o sensor para o local correto do nosso corpo. Esse laser vermelho não tem energia suficiente para causar danos à pele e muito menos para atravessar todos os tecidos e atingir o cérebro", esclarece. (texto atualizado em 18/09/2020)

Como o termômetro identifica a temperatura que está sendo medida?

Isso ocorre por meio de um processo de calibração feito pelo fabricante, explica o professor Marcelo Schappo. Isso quer dizer que o aparelho é submetido a pelo menos dois sistemas controlados onde a temperatura é conhecida, para que, no processo de medida, o termômetro use esses números como referência. A partir daí, ele pode medir outras temperaturas através de comparação.

Estamos atravessando uma pandemia. Devo aferir minha temperatura diariamente, por precaução?

O professor Inácio Costa diz que essa não é uma prática recomendável. “É preciso tomar cuidado com o excesso de preocupação porque isso pode levar ao stress. O recomendado é medir a temperatura quando você percebe alguma alteração, já que a febre sempre desencadeia, com ela, algum tipo de mal estar, como calafrios”, orienta. Preocupar-se em registrar a temperatura corporal todos os dias pode causar uma ansiedade indesejável.

Tenho um termômetro em casa, mas uso-o pouco. Como fazer para garantir o bom funcionamento desse aparelho, quando eu precisar?

É importante, em primeiro lugar, guardar o termômetro adequadamente, conforme as instruções do fabricante. Isso vale em especial para os eletrônicos e os de infravermelho, que podem oxidar, pegar umidade ou “vazar” as baterias. No caso dos termômetros de mercúrio, devem ficar bem guardados, dentro da embalagem apropriada, em lugar não suscetível a batidas. E longe das crianças!

O professor Marcelo Schappo recomenda também que se sigam as instruções do fabricante ao utilizar o termômetro. “Medidas incorretas levarão a dados incorretos obtidos”, alerta. No caso do eletrônico, é preciso verificar se a ponteira está desobstruída e em contato adequado com a pele da pessoa examinada. Já com o infravermelho é preciso identificar a distância recomendada e manter o aparelho posicionado pelo tempo adequado de captação de sinal. Conheça o guia elaborado pelo Instituto Nacional de Metrologia (Inmetro) para orientar o uso correto dos termômetros de infravermelho.

Caso você faça uma medição e desconfie do resultado, é melhor procurar outro aparelho para fazer a comparação.

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Você tem um ou mais fatores de risco para a Covid-19?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 15 set 2020 14:10 Data de Atualização: 15 set 2020 15:09

Para algumas pessoas, o vírus Sars-Cov-2 causa apenas sintomas leves e semelhantes aos da gripe. Porém, para outras, pode ocasionar a forma grave da Covid-19. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), 40% dos casos parecem ter doença leve; 40%, doença moderada; 15% parecem progredir para doença grave; e 5% ficam em estado crítico. Pessoas idosas e com condições de saúde preexistentes (como pressão alta, doenças cardíacas, doenças pulmonares, câncer ou diabetes) parecem desenvolver doenças graves com mais frequência do que as outras. 

O IFSC Verifica foi pesquisar o que são fatores de risco para o desenvolvimento da forma grave da Covid-19. Veja no post de hoje:

- O que são fatores de risco

- Estatísticas sobre os fatores de risco em relação aos óbitos

- Hábitos que minimizam os fatores de risco

- Cuidados que todos devemos tomar

- Por que é tão difícil controlar os fatores de risco no Brasil

O que são fatores de risco?

Segundo a professora de Enfermagem Juliana Fernandes da Nóbrega, do Câmpus Florianópolis, a expressão “fatores de risco” é mais correta que “grupos de risco”. Ela explica que fatores de risco são uma série de condições e comorbidades, ou seja, doenças prévias que fazem com que a pessoa tenha maior probabilidade de desenvolver a forma grave da doença, de necessitar de hospitalização ou ter mais chances de morrer em comparação a quem não tem nenhum fator. 

Porém, a professora alerta que isso não quer dizer que a pessoa que não tenha fatores de risco não possa desenvolver a forma grave da doença, pois há muitos casos de pessoas jovens e saudáveis com sintomas graves ou mesmo indo a óbito.

Além disso, ter um fator de risco não significa que a pessoa tem mais chances de se contaminar pelo Sars-Cov-2, apenas que, se contaminada, tem maior possibilidade de desenvolver a forma grave de Covid-19, que em termos técnicos também pode ser chamada de Síndrome Aguda Respiratória Grave (SRAG).

Quais os principais fatores de risco?

O Boletim Epidemiológico 30, do Ministério da Saúde, aponta que de 16 de fevereiro a 5 de setembro de 2020, o Brasil registrou 122.772 mortes por SRAG ocasionada pela Covid-19. Destes, 78.037 (63,6%) apresentavam pelo menos uma comorbidade ou fator de risco para a doença.  

Segundo a professora de Enfermagem, os principais fatores de risco são a idade avançada (acima de 65 anos) e doenças crônicas não transmissíveis, como cardiopatias (entre elas a hipertensão arterial sistêmica, a “pressão alta”), diabetes tipo 2 e obesidade/sobrepeso. Quanto mais fatores de risco a pessoa tiver, mais risco ela corre de desenvolver sintomas graves.

São doenças muito relacionadas à idade, pois quanto mais velha for a pessoa, mais chance ela tem de desenvolver doenças crônicas. Porém, este não é o único fator: “por exemplo, no Brasil e nas Américas, há uma grande incidência de crianças obesas, que é um fator de risco”, alerta a professora Juliana, lembrando ainda que muitas crianças com comorbidades também desenvolveram os sintomas graves da Covid-19.

Veja a explicação mais detalhada no vídeo:

 

Quais outros fatores de risco para desenvolver a forma grave da Covid-19?

Além dos já citados, há vários outros fatores de risco e comorbidades que podem agravar quadros de Covid-19. O gráfico abaixo, do Ministério da Saúde, demonstra quais os mais prevalentes entre as pessoas que morreram da doença no Brasil no período de 16 de fevereiro a 7 de setembro de 2020:

Gráfico mostra comorbidades e fatores de risco dos óbitos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) por Covid-19

Para pessoas com 60 anos ou mais, cardiopatias, diabetes, doenças neurológicas e renais foram os principais fatores apresentados. Já entre as pessoas com menos idade, a obesidade está em terceiro lugar em número de óbitos. 

Outros fatores também podem ser destacados, como doenças relacionadas ao pulmão (pneumopatias como Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica, asma, entre outras), visto que a Covid-19 compromete significativamente as vias respiratórias. É importante lembrar que o hábito de fumar é fator de risco para doenças respiratórias, o que torna o fumante ainda mais vulnerável às complicações da Covid-19. Veja no site Saúde Brasil, do Ministério da Saúde, quais os bons motivos para deixar de fumar durante a pandemia e dicas de como fazê-lo.

Pessoas imunodeprimidas também estão entre as que apresentam fatores de risco, como portadores de HIV, doenças autoimunes (artrite reumatoide, lúpus, entre outras), ou qualquer situação que necessite do uso de imunossupressores, como transplante de órgãos. Porém, segundo a professora, nem todos os medicamentos imunossupressores tornam a pessoa mais vulnerável para desenvolver a forma grave da Covid-19. Nesse caso, o importante é o paciente conversar com seu médico.

O gráfico acima destaca ainda outras doenças, como neurológicas, hepáticas, renais e hematológicas como fatores de risco. Em todos os casos, segundo a professora Juliana, o alerta maior é para os pacientes que não estão realizando o tratamento adequado, pois o desequilíbrio das doenças preexistentes torna esses pacientes mais vulneráveis à forma grave da Covid-19.

Sobre pacientes com câncer, um estudo do Instituto Nacional do Câncer (Inca) detectou que esses indivíduos têm mais chances de desenvolver a forma grave da Covid-19. Entre os principais fatores do agravamento estão a idade, o câncer em estado avançado, a metástase, o paciente em cuidado paliativo e a Proteína C Reativa (que é detectada no sangue). Veja mais detalhes sobre o estudo na página do movimento Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC), que também traz dicas para esses pacientes.

- Veja mais sobre os riscos durante a gravidez e puerpério.

- Saiba mais sobre a relação entre obesidade e Covid-19.

- Veja no estudo do CDC (em inglês) informações mais detalhadas sobre riscos e tratamentos para doenças crônicas específicas.

Manter o fator de risco sob controle

Para quem tem um fator de risco, é importante manter a doença de base estabilizada. De acordo com a professora Juliana, se a pessoa já sabe que tem uma doença de base, o que ela deve fazer nesse momento é manter o tratamento e adotar hábitos de vida saudáveis. “O CDC, que é o Centro de Prevenção e Controle de Doenças, trouxe um documento sobre a pandemia ressaltando a importância do controle adequado dessas doenças crônicas. Uma pessoa que tenha uma doença crônica que esteja muito controlada, ela zera o fator de risco, fica no mesmo patamar que aquela que não tem”, destaca Juliana. 

Por exemplo, caso um diabético que está com a glicemia controlada e praticando exercício físico contraia a Covid-19, o organismo dele vai responder melhor à doença do que um diabético sem esses cuidados. O mesmo vale para pessoas com imunossupressão, doenças autoimunes, pacientes renais, entre outras.

Como aumentar os fatores de proteção contra a forma mais grave da Covid-19

- Manter o uso de medicamentos prescritos pelo médico e a agenda de consultas de rotina;

- Manter uma alimentação saudável (veja dicas sobre como se alimentar com qualidade durante a pandemia);

- Evitar o sedentarismo (veja dicas para realizar exercícios físicos com segurança durante a pandemia);

- Manter uma rede de contatos, com familiares e amigos, evitando o isolamento e cuidando da saúde mental (veja dicas sobre como cuidar da saúde mental durante o distanciamento social);

- Filtrar o tipo de informação recebida, evitando orientações erradas sobre tomar ou não medicações. Em caso de dúvida, consultar o médico de confiança.

No vídeo, a professora Juliana explica como a saúde em equilíbrio é fator de proteção contra a Covid-19 e outras doenças:

Evitar a contaminação é para todos

Pessoas com ou sem fatores de risco têm a mesma chance de se contaminar com o novo coronavírus. Por isso, as recomendações de prevenção valem para todos.  “Os cuidados, a prevenção, precisam ser para todos nós, mesmo para quem não tem fatores de risco. Até porque ao me cuidar, eu cuido do outro. Então a gente reforça essa fala, que é uma ação comunitária, muito para além do individual”, destaca a professora Juliana.

Para as pessoas com fatores de risco, o importante é minimizar a exposição ao vírus segundo Juliana, adotando medidas como distanciamento social, uso de máscaras, lavagem das mãos, entre outros. Como estamos há seis meses de distanciamento social, é difícil se manter em casa. Assim, quando for necessário sair, tomar todos os cuidados possíveis, como manter distanciamento, usar máscara e preferir locais abertos.

Por que é tão difícil controlar os fatores de risco no Brasil

As doenças crônicas não transmissíveis (cardiopatias, diabetes e obesidade) são as responsáveis pelas principais causas de morte no mundo e no Brasil. “Podemos citar o infarto agudo do miocárdio e as doenças cérebro-vasculares, o acidente vascular cerebral, o famoso derrame, que são resultado dessas doenças crônicas, quando não bem acompanhadas e tratadas”, aponta a professora Juliana. 

Segundo ela, o quadro dessas doenças é mais preocupante no Brasil devido a uma particularidade: muitas pessoas descobrem que têm doenças crônicas apenas quando têm um problema grave, como um infarto ou derrame. Além disso, a pandemia do novo coronavírus agravou esse cenário: muitas pessoas descobrem que têm uma doença crônica apenas quando estão sendo internadas nas UTIs com Covid-19. “Quando a gente pensa nas mazelas socioeconômicas, que o serviço de saúde não chega a todos, ou chega de forma insuficiente, sabemos que essas pessoas estão muito mais vulneráveis a desenvolver a forma grave da doença”, alerta Juliana. 

Para a professora, “a pandemia escancara o retrato de saúde do Brasil. É também característica de países que não investem com força em ações de promoção da saúde, eles têm alta prevalência e incidência de doenças crônicas não transmissíveis, e por consequência uma alta incidência de crianças, jovens, adultos e idosos que estão desamparados e mais expostos aos agravos desta pandemia”. Dessa forma, “mudar o foco” da atenção da saúde para a prevenção é a melhor maneira de evitar complicações pela Covid-19 e outras doenças.

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Preciso ir ao dentista. É seguro?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 08 set 2020 15:55 Data de Atualização: 08 set 2020 16:11

Gostar, ninguém gosta. Mas as visitas regulares ao dentista são um cuidado que deve integrar a rotina de todas as pessoas desde a infância, com foco na saúde bucal e também no bem-estar integral.

Porém, com a pandemia do novo coronavírus – um patógeno transmitido pela saliva – vários cuidados devem ser tomados quando é hora de consultar um profissional da área. Além do reforço nas medidas de biossegurança dos consultórios, normas dos órgãos de saúde preveem também critérios para definir que tipos de atendimentos devem ser priorizados e quais podem esperar.

Neste post, você vai entender:

-Por que os atendimentos odontológicos são motivo de atenção dos órgãos de saúde durante a pandemia;
-Que atendimentos devem ser priorizados e quais podem ser deixados para depois;
-A diferença entre urgência e emergência odontológica;
-Como proceder caso você precise de atendimento odontológico.

Quais os riscos do atendimento odontológico com a pandemia?

De acordo com a dentista do Câmpus São José do IFSC, Patrícia Rocha Kawase, a especificidade do atendimento odontológico deixa suscetíveis tanto o paciente quanto o profissional, em função, principalmente, da proximidade física obrigatória entre ambos.

Além disso, o atendimento também envolve o contato com fluidos corporais, em especial a saliva. Na realização dos procedimentos, o uso de equipamentos que geram aerossol – “sprays” com gotículas de saliva e fluidos, em geral imperceptíveis, mas potenciais transmissores do coronavírus – é outro fator de atenção. No vídeo, a profissional explica essas peculiaridades.
 

 

Então o que muda no atendimento odontológico com a Covid-19?

Patrícia Kawase explica que a principal recomendação no momento atual é adiar todos os atendimentos que podem esperar (os chamados procedimentos eletivos), dando prioridade apenas a casos de urgência ou emergência. Segundo ela, embora a nota técnica da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) detalhe o que pode ser enquadrado como urgência e como emergência, a decisão por fazer o atendimento ou não deve ser baseada em casa caso. “O critério e a decisão final são sempre resolvidos na relação entre o paciente e o profissional de saúde”, ressalta.

Além da nota da Anvisa, que serve de base a recomendações específicas feitas pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO), as orientações para os atendimentos odontológicos no contexto da pandemia também são assunto de uma publicação da Organização Mundial da Saúde (OMS). O documento recomenda que visitas de rotina ao dentista que visem apenas check-ups, limpeza e cuidados preventivos devem ser adiadas por enquanto, assim como as consultas para procedimentos estéticos. 

O que pode ser considerado urgência ou emergência odontológica?

Pode-se resumir da seguinte forma: as urgências são os atendimentos que devem ser priorizados, mas não representam risco maior para o paciente; já as emergências podem envolver risco à vida. Os casos urgentes são os que envolvem dor, como a fratura de um dente, por exemplo. Os de emergência abrangem sangramentos não controlados, infecções, celulite facial (doença bacteriana) e traumatismos. A Secretaria da Saúde de Santa Catarina emitiu, em abril deste ano, nota técnica que detalha os quadros que podem ser considerados urgência ou emergência odontológica. A dentista Patrícia Rocha Kawase explica no vídeo esses critérios.
 

 

Estou com dor e inchaço na gengiva. Devo ir ao dentista ou esperar?

Tanto a OMS quanto os órgãos de saúde locais recomendam que, neste momento de pandemia, seja adotado um sistema de atendimento remoto para a avaliação prévia dos pacientes a distância. Essa primeira triagem visa garantir que somente os pacientes que se enquadrem em casos de urgência ou de emergência desloquem-se até o espaço de atendimento, seja ele clínica particular ou posto de saúde.

Em Florianópolis, por exemplo, o paciente odontológico pode fazer esse contato prévio por meio do Whatsapp do seu centro de saúde de referência (veja a lista). Na conversa com o profissional de atendimento, ele dá o máximo possível de detalhes sobre o caso e, a depender da gravidade, pode ser apenas orientado sobre cuidados básicos, receber prescrição de medicação ou ser encaminhado para consulta de urgência ou emergência. Nesse atendimento remoto, o paciente também é questionado sobre possíveis sintomas de Covid-19 e, caso necessário, é feito o devido encaminhamento.

Neste momento, portanto, o recomendável é buscar uma avaliação prévia do seu caso antes de ir ao consultório. Informe-se em sua cidade sobre o funcionamento dos serviços odontológicos na rede pública ou, caso prefira atendimento particular, converse com seu dentista.

-> Conheça o protocolo de atendimento remoto dos postos de saúde de Florianópolis.

E no consultório, o que mudou?

Profissionais de odontologia e equipes de suporte que atuam nos ambientes de atendimento devem obedecer a uma série de regras em função da pandemia. A recomendação de que se evitem procedimentos eletivos resulta na diminuição da circulação de pessoas nos ambientes, o que reduz os riscos de transmissão.

Porém, para urgências e emergências o comparecimento presencial é compulsório, assim como a interação do paciente com os profissionais em atendimento. Por isso, novos protocolos de biossegurança foram implementados.

Esses cuidados abrangem basicamente o reforço na higienização dos ambientes e equipamentos, o maior rigor no potencial de proteção da indumentária dos profissionais – tanto dentistas quanto equipe auxiliar – e a diminuição no número de atendimentos, possibilitando maior intervalo de tempo entre um paciente e outro e evitando a presença de muitas pessoas na sala de espera.

Os pacientes, por sua vez, são solicitados a higienizar as mãos na entrada da clínica ou consultório, utilizar proteção nos cabelos (touca), pés (sapatilhas) e rosto (máscara facial) – esta última, claro, enquanto não estiver em atendimento.

Meu dentista parece um astronauta :D

Antes da pandemia, a indumentária dos dentistas já previa uso obrigatório de jaleco, luvas, óculos e máscaras faciais, no intuito de reduzir o potencial de contágio por quaisquer micro-organismos. Com a Covid-19 e seu risco de transmissão por meio da saliva, esses profissionais passaram a adotar, também, avental impermeável por cima do jaleco e protetor facial tipo “face shield”. A especificação das máscaras faciais também ficou mais rigorosa.

“A contaminação por partículas aéreas é uma situação que já é esperada na área de saúde, e especificamente na odontologia. Para esse vírus, o que mudou foi a especificação da máscara, que agora deve ter uma capacidade maior de proteção. O protetor facial, que não fazia parte da nossa indumentária, agora também é necessário, assim como o uso de avental impermeável”, descreve a dentista Patrícia Kawase. Outra recomendação que ela destaca é a troca do sugador convencional por uma bomba de vácuo, que ajuda a diminuir a formação de aerossóis e reduz, também, a necessidade de o paciente cuspir durante o procedimento.

Os protocolos de segurança envolvem também a manutenção de janelas abertas e o não uso de ar-condicionado, para favorecer a troca constante de ar do ambiente.

-> Consulte o documento da OMS sobre atendimentos odontológicos durante a pandemia de Covid-19 (em inglês)

-> Leia as normativas da Anvisa, do CFO e da Secretaria de Estado da Saúde sobre atendimentos odontológicos na pandemia

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Animais de estimação podem contrair o novo coronavírus?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 01 set 2020 10:42 Data de Atualização: 01 set 2020 18:18

As incertezas com a pandemia do novo coronavírus atingem também os animais de estimação. Há vários relatos pelo mundo de pets que testaram positivo para o SARS-CoV-2. No entanto, não há nenhuma evidência científica de que eles possam transmitir a doença para humanos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). 

As médicas veterinárias do IFSC Carolina de Castro Santos e Aline Mello explicam neste post:

- O que as pesquisas científicas revelam sobre a Covid-19 em animais de estimação. Eles adoecem da mesma forma que humanos?

- Se há alguma evidência de que um animal doente possa transmitir o vírus para humanos.

- Os cuidados que devem ser tomados com os pets durante os passeios ou em casa, caso alguma pessoa esteja infectada pelo novo coronavírus.

- E alertam sobre o risco de pessoas utilizarem medicamentos veterinários.

A médica veterinária Carolina de Castro Santos, professora de Produção Animal do Câmpus Canoinhas do IFSC, afirma que assim que a epidemia começou, acreditava-se que os animais de companhia não corriam risco de contrair Covid-19 dos seus tutores. No entanto, logo nas primeiras semanas surgiram relatos de transmissão de zoonose reversa para animais. "A zoonose é uma doença transmitida do animal para o homem. A zoonose reversa é o processo contrário, transmitida do homem para o animal".

As notificações de animais com a Covid-19 e as pesquisas feitas em laboratórios estão sendo reunidas pela Organização Internacional para a Saúde Animal (OIE) e podem ser acompanhadas na página "Eventos em animais". O objetivo é reunir relatos para tentar entender quais animais são mais suscetíveis ao vírus, como adoecem, quais são mais resistentes e como ocorre a transmissão entre humanos e animais.

O que se sabe até agora é que há resultados positivos para o novo coronavírus em cães, gatos, animais de zoológico e de criação, segundo o levantamento da OIE. Todos os casos estão sendo monitorados. Entre cães domésticos há relatos na China e nos Estados Unidos. Já entre gatos, foram confirmados casos de contaminação em vários países, como China, Bélgica, França, Espanha, Alemanha, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos. Em um zoológico de Nova York também houve diagnóstico em leões e tigres.

Além disso, segundo Carolina, estudos experimentais recentes demonstraram que gatos e furões podem ser infectados pelo vírus SARS-CoV-2 e transmitir a infecção para outros gatos ou furões. "A pesquisa indica que os animais infectados podem ser assintomáticos ou apresentar febre, sinais respiratórios leves ou sinais gastrointestinais. Mas essa informação deve ser analisada com cautela, visto que o estudo publicado não passou por revisão científica por pares e não apresentou dados de saúde e nem o status imunológico dos gatos para as principais viroses felinas, que poderiam interferir nos resultados do experimento. Não há, portanto, nenhuma comprovação científica que algum animal tenha ficado doente pelo SARS-CoV-2", completa.

Já os cães, suínos, galinhas e patos parecem ser menos suscetíveis à Covid-19, de acordo com os estudos reunidos pela OIE.

Como os pets são infectados?

Os casos de pets com Covid-19 têm em comum o fato de os animais viverem em famílias com casos de humanos suspeitos ou confirmados da doença, segundo os relatos reunidos pela OIE.

A médica veterinária do Câmpus Florianópolis-Continente do IFSC, Aline Mello, lembra que a convivência das pessoas com seus pets muitas vezes é bem próxima. "Eu também tenho gato em casa e sei como é, quando a gente adoece eles querem ficar junto, vêm pra cima da cama. A chance maior é da gente transmitir pra eles. Não há nenhum relato no mundo do animal ter servido de fômite."

O fômite a que ela se refere é qualquer objeto ou substância capaz de absorver e transportar o vírus. Poderia se pensar, por exemplo, que as patas dos cães ou gatos pudessem levar o vírus da rua para casa e contaminar as pessoas. "No entanto não há nenhuma evidência científica de que isso tenha ocorrido", afirma. 

Mas como ainda há muitas incertezas em relação à Covid-19, organizações internacionais como o Centro Pan-Americano de Febre Aftosa e Saúde Pública Veterinária da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (PANAFTOSA-OPAS/OMS) e a Organização Internacional de Proteção Animal Mundial (World Animal Protection) sugerem alguns cuidados com os pets, principalmente na hora de passear na rua. 

Entre esses cuidados, Carolina reforça que o uso de álcool em gel é contraindicado para animais: "Ao retornar do passeio, o tutor deve lavar as patas dos cães com shampoo específico."

Já em relação aos gatos, a orientação é mantê-los dentro das residências, independentemente da pandemia. "Gatos que frequentam a rua têm sua expectativa de vida muito reduzida, por atropelamento, envenenamento e doenças infecciosas adquiridas com o contato com outros gatos de rua", afirma Carolina.

E quem tiver Covid-19, como pode proteger seu animal?

Como os relatos indicam que os animais podem ser afetados pelo novo coronavírus, a OIE recomenda que pessoas com suspeita ou confirmação de infecção pelo SARS-CoV-2 limitem o contato com seus animais.  Práticas de higiene, como lavar as mãos, são fundamentais e não devem ser esquecidas antes e depois das interações com animais. 

"O ideal é que os cuidados com o pet sejam realizados por pessoas que não estejam com suspeitas da doença. Se a pessoa morar sozinha com o animal, ela deve sempre usar máscara quando estiver lidando com o pet e o compartilhamento de alimentos não deve ser realizado. O tutor também não pode permitir que o animal lhe dê lambidas", orienta Carolina.

A vacina contra coronavírus para cães imuniza para Covid-19? 

Antes de mais nada, vale lembrar que o coronavírus ficou mundialmente falado com a pandemia de Covid-19, mas na verdade é um antigo conhecido.

Os coronavírus fazem parte de uma grande família de vírus, a Coronaviridae, que pode acometer tanto animais quanto seres humanos. A veterinária Carolina explica que existem quatro gêneros pertencentes à família Coronaviridae, os Alphacoronavirus, Betacoronavirus, Gammacoronavirus e os Deltacoronavirus. "Cães e gatos podem ser acometidos pelos coronavírus do gênero Alphacoronavirus. As vacinas múltiplas (V8 ou V10), utilizadas em cães para prevenir diversos tipos de doenças, realmente inclui cepas de coronavírus, que são espécies específicas. No caso dos cães, ela protege contra o coronavírus entérico canino (CCoV), que causa gastroenterite, infectando as células intestinais. Já o coronavírus felino (FCoV) causa nos gatos a peritonite infecciosa felina, para qual não há vacina no Brasil.

A veterinária Aline completa ao afirmar que a vacina para cães, por exemplo, imuniza o animal apenas para o coronavírus canino e não o protege da Covid-19. Ela também faz um alerta para as pessoas que pensam em tomar a vacina para coronavírus canino. Veja no vídeo:

 

Medicamentos veterinários não podem ser usados por humanos

Além da vacina para cães, na ansiedade para se proteger do novo coronavírus tem muita gente que também está apelando a receitas caseiras e uso de medicamentos sem comprovação científica para a Covid-19. É o caso da Ivermectina, um remédio bastante usado para piolho e sarna. 

A procura por este e outros produtos em clínicas veterinárias levou o Conselho Federal de Medicina Veterinária a fazer um alerta sobre os perigos de se utilizar medicamentos veterinários em humanos, "uma vez que não foram desenvolvidos e testados em pessoas, ou seja, não existem dados que atestem a segurança e a eficácia do uso dessas formulações em humanos”:

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É arriscado engravidar na pandemia?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 25 ago 2020 15:55 Data de Atualização: 25 ago 2020 16:31

Todos nós tivemos planos afetados por causa da pandemia de Covid-19. Mas, para algumas mulheres, o impacto bateu em cheio com o projeto da maternidade. Quem já estava grávida antes de tudo isso começar, ou engravidou durante esse período, se viu em situação delicada quando o Ministério da Saúde anunciou em abril que grávidas e puérperas (até duas semanas após o parto) fazem parte do grupo de risco, ou seja, têm maior risco de sofrer complicações da Covid-19. 

Neste post, vamos abordar as seguintes questões:

- Quais os riscos de engravidar na pandemia?
- Por que o Brasil teve mais mortes de gestantes com Covid-19?
- É preciso ter algum cuidado especial por estar grávida?
- Há algum tipo de parto mais indicado para quem está com a doença?
- As mulheres com coronavírus podem amamentar?
- Como lidar com o puerpério em plena pandemia?

A gravidez durante a pandemia traz riscos específicos?

Sim. A consideração é da enfermeira obstétrica e professora do Câmpus Florianópolis do IFSC Juliana Monguilhott, atual presidente da Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiras Obstetras em Santa Catarina (Abenfo-SC). O risco não é pelo fato de a mulher grávida ter mais chance de se contaminar pelo coronavírus, mas sim porque a gestação acarreta alterações fisiológicas que podem dificultar a resposta do corpo da gestante ao vírus. “A própria gestação já traz algumas consequências fisiológicas para o corpo da mulher e a gente sabe que muitas delas estão relacionadas ao sistema cardiovascular e respiratório, que são justamente dois dos sistemas mais atingidos pelo coronavírus”, explica Juliana. 

 

Existe alguma orientação para evitar gravidez neste momento?

Não, não há nenhuma normativa contraindicando a gestação neste momento. No entanto, em abril, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu uma nota técnica recomendando a suspensão temporária de procedimentos de reprodução humana assistida. 

"É uma situação bem complexa, porque o planejamento familiar para cada mulher e para cada família engloba diversos fatores”, afirma Juliana. Segundo a professora, é preciso considerar, por exemplo, a situação de uma mulher com mais de 35 anos, que já tem uma reserva ovariana menor e que tem pressa em engravidar; e a de outra mais jovem que pode se planejar e decidir não engravidar no meio dessa pandemia. “Para essa mulher que pode se planejar, eu diria que sim, é arriscado engravidar. Então se ela pode esperar, é melhor”, diz.

-> OMS esclarece dúvidas sobre planejamento familiar e métodos contraceptivos na pandemia

Estou grávida. E agora?

É importante que as mulheres grávidas tenham rigor nos cuidados para evitar o contágio com o vírus - que são os mesmos para todos, como o uso de máscara, a higienização frequente das mãos e o distanciamento social. Além disso, devem fazer o acompanhamento pré-natal com bastante atenção.


Tão logo apresente qualquer sintoma, a gestante deve procurar atendimento médico para evitar agravamento do quadro, orienta a professora do IFSC. Também não se deve tomar nenhuma medicação por conta própria: caberá ao médico indicar o tratamento de acordo com cada situação. “A gente vê sendo divulgado o uso de ivermectina, de cloroquina, de várias medicações que não têm evidência científica e que, no caso da gestante, pode ter efeito colateral para ela e para o bebê”, alerta.

-> Cloroquina e hidroxicloroquina: esses medicamentos têm eficácia contra a Covid-19?

“O que tem que se pensar é no isolamento social, na ingestão de líquido, numa alimentação saudável com frutas e minerais para aumentar a imunidade e reduzir as chances da gestante ser infectada com o vírus”, orienta a professora. 

-> Leia o post: É possível prevenir o coronavírus por meio da alimentação?

O que tem que se pensar é no isolamento social, na ingestão de líquido, numa alimentação saudável com frutas e minerais para aumentar a imunidade e reduzir as chances da gestante ser infectada com o vírus

Existe um momento mais crítico durante a gestação?

A professora do IFSC informa que, no final da gestação, contrair o vírus pode levar a um parto prematuro. “Muitas vezes, essa mulher que contraiu o vírus apresenta uma dificuldade respiratória e acaba sendo indicada a indução do trabalho de parto ou a própria cesariana”, diz. 

Segundo Juliana, ainda não há evidências científicas das consequências quando o coronavírus é identificado no primeiro e no segundo trimestre da gestação. “O que a gente tem é que, no fim da gestação e, principalmente, no puerpério, algumas mulheres que estão tendo esse diagnóstico estão ficando mais graves e muitas delas estão indo a óbito por falta de assistência adequada no tempo oportuno”, afirma.  

É mais perigoso ser gestante no Brasil neste momento?

Em julho, um estudo publicado no periódico médico International Journal of Gynecology and Obstetrics chamou a atenção para o risco de ser gestante no Brasil neste momento. A pesquisa apontou que 124 mulheres gestantes ou que estavam no período do puerpério haviam morrido de Covid-19 no Brasil até a conclusão do estudo. Esse número representou 77% das mortes registradas no mundo no período, ou seja, morreram mais mulheres grávidas ou no pós-parto no Brasil do que em todos os outros países somados. O estudo foi feito por um grupo de enfermeiras e obstetras brasileiras ligadas à Unesp, UFSCAR, Fiocruz, IMIP e UFSC.


Um estudo do Grupo Brasileiro para Estudos de Covid-19 e Gestação, publicado no periódico BJOG, uma publicação internacional de Obstetrícia e Ginecologia, em 16 de agosto, apontou que, até agora, os principais fatores de risco para morte materna por Covid-19 foram: ser puérpera no momento da notificação da Covid, obesidade, diabetes e doença cardiovascular. Ser branca mostrou-se fator de proteção.

Segundo Juliana, não existem dados confiáveis do número de gestantes contaminadas por Covid-19 no Brasil e nem de óbitos desse grupo. Nos boletins que o Ministério da Saúde divulga, essa informação não está disponível. 

Para a professora, qualquer número que se apresente hoje em relação a gestantes e Covid-19 deve estar subestimado. Um estudo publicado pela Escola Nacional de Saúde Pública em junho deste ano apontou que o número de gestantes assintomáticas pode variar de 66% até 100%.

-> Entenda a diferença entre doentes assintomáticos, pré-sintomáticos e sintomáticos

“Além do número de assintomáticas, deve ter um número bem maior de gestantes contaminadas porque nem todas são testadas e, no número que os municípios enviam para o Ministério da Saúde, não tem como informar a fase da gestação e nem se a mulher é puérpera ou está amamentando”, conta. “E a gente sabe que em muitas mortes maternas pelo coronavírus, as mulheres foram diagnosticadas no puerpério”, completa.

No início de agosto, em reunião com deputados da comissão externa que acompanha ações de combate ao coronavírus da Câmara de Deputados, o Ministério da Saúde informou que gestantes serão submetidas a protocolos específicos de atendimento e que todas serão testadas para Covid-19 no final da gestação. O secretário de atenção primária do Ministério da Saúde, Raphael Parente, reconheceu que a mortalidade materna no Brasil ainda é alta e informou que até o dia 1º de agosto tinham sido registrados 199 óbitos de mulheres grávidas no Brasil, 135 por Covid-19. Segundo dados apresentados pela pasta no evento, as gestantes têm risco 1,5 maior de internação em UTI com necessidade de ventilação mecânica em relação ao restante da população.

Diante desse contexto de pandemia, a professora do IFSC destaca a necessidade de se pensar em um modelo de atendimento que exponha menos as gestantes, como é a proposta dos centros de parto normal (CPN). Em Santa Catarina, ainda não há estrutura desse tipo que possa acolher as gestantes de risco obstétrico habitual, evitando colocá-las em risco em uma maternidade de grande porte com vários casos de Covid-19, por exemplo. “A gente precisa sim de uma atenção que priorize a fisiologia do parto e nascimento, como são os centros de parto normal, permitindo que as maternidades e hospitais de grande porte fiquem para as mulheres que realmente precisam, para quem tem gestação de alto risco ou tem alguma interferência”, defende Juliana, que está envolvida no projeto que busca implantar um CPN em Florianópolis - do qual o IFSC é parceiro.

Algum tipo de parto é mais indicado para quem tem Covid-19?

O fato de uma gestante ter Covid-19 não representa uma indicação para determinado tipo de parto. “A gente já sabe dos inúmeros benefícios do parto normal para a mãe e para o bebê, então se ela tem um quadro bom, a ausculta cardíaca fetal se mantém boa durante o trabalho de parto, a gestante pode seguir para um parto normal”, explica a professora. Caberá ao obstetra avaliar cada caso, como já ocorre normalmente.

Já o parto na água está contraindicado para parturientes com Covid-19 - sejam casos suspeitos ou já confirmados - pelo risco de contaminação pela água, conforme nota técnica do Ministério da Saúde.

-> Leia o post sobre a transmissão do coronavírus pela água 

O diagnóstico de Covid-19 também confere à gestação um grau de alto risco, o que inviabiliza, por exemplo, a realização de um parto domiciliar - que hoje é uma opção só feita por equipes particulares em gestações que não sejam de risco. Esse tipo de parto não faz parte da rede de atenção à saúde e não é feito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Portanto, a gestante com Covid-19 deve ser encaminhada a um hospital ou maternidade para ter o bebê.

Por causa da pandemia, as maternidades mudaram seus protocolos de atendimento limitando o número de acompanhantes com a gestante e proibindo as visitas. O indicado é que cada gestante entre em contato com a instituição onde pretende fazer seu parto para conferir as novas regras de cada lugar.

-> Veja nota do Ministério da Saúde com recomendações para o trabalho de parto, parto e puerpério durante a pandemia

A mãe com Covid-19 passa o vírus para o bebê?

Segundo a Organização Mundial da Saúde, ainda não se sabe se mulheres grávidas com Covid-19 podem passar o vírus para o bebê durante a gravidez ou no trabalho de parto. Mas a professora do IFSC cita um estudo publicado no periódico Women’s Health em julho em que foram relatados, em uma mesma instituição do Brasil, cinco óbitos fetais de mulheres com coronavírus e em que o vírus foi identificado no líquido amniótico de um bebê e na placenta de dois bebês. “Isso traz muita sugestão de que a transmissão vertical é uma possibilidade, de que o vírus pode ser transmitido através da placenta pro bebê”, afirma Juliana. 

Até então, quando um bebê era diagnosticado com Covid-19, a transmissão era associada ao parto ou até ao pós-parto, num momento de amamentação, por exemplo, por uma mãe com a doença. “Mas essa série de casos mostrou pra gente que não, que nos óbitos fetais intra útero já tinha presença do vírus”, explica a professora.

Juliana esclarece que o compilado dos estudos está demonstrando que existe essa possibilidade, mas parece ser rara. “Pelo acúmulo de conhecimento até o momento sobre Covid nas gestantes, parece ser um evento raro, mas seria possível sim”, explica. 

Segundo ela, muitos profissionais têm observado um aumento de óbitos fetais no Brasil após o início da pandemia. “Entretanto, sem um estudo adequado incluindo testagem de todas as gestantes, é difícil avaliar se essa observação é real ou se existe uma relação de causa e efeito entre Covid-19 e óbito fetal”, pondera.

Como tudo ainda é muito novo, ainda não existem estudos que tratem de sequelas para bebês que sejam diagnosticados com coronavírus.

Como fica a amamentação?

A professora do IFSC destaca que não há evidência científica que mostre contaminação por meio do leite materno. “Por enquanto, considerando os benefícios da amamentação, o indicado é que as mulheres - mesmo aquelas positivas para Covid - possam amamentar os bebês”, reforça.

-> Leia a Nota técnica do Ministério da Saúde sobre amamentação

Inclusive, o contato pele a pele é incentivado também para mães testadas positivas para Covid-19, mas não de forma imediata. “Então o bebê nasce, o clampeamento ainda é oportuno do cordão e, enquanto se aguarda para clampear o cordão umbilical, é trocada a camisola da mãe, a mulher é seca, troca-se sua a máscara e aí o bebê vai para o contato pele a pele com ela para amamentação”, explica Juliana. A OMS recomenda o clampeamento tardio do cordão umbilical quando possível, que é quando se interrompe o fluxo sanguíneo entre a mãe e o bebê.

De acordo com a professora, no caso de bebês que desenvolveram a doença depois do parto, o que se acredita é que a transmissão tenha ocorrido durante a amamentação por gotícula ou aerossol, mas não pelo leite materno. “No caso de a mulher estar com Covid, o ideal é que ela use máscara durante a amamentação”, recomenda.   

-> Sociedade Brasileira de Pediatria defende a manutenção da amamentação em mães portadoras da Covid-19

Puerpério em plena pandemia

Se não bastasse toda a preocupação com a gestação durante a pandemia, após ter o bebê, a mulher pode se ver solitária no chamado puerpério, que é o período que se estende de 45 a 60 dias após o nascimento da criança. A enfermeira obstétrica Juliana alerta para a importância de haver uma rede de apoio para a puérpera, ainda que adaptada ao atual contexto de distanciamento social:

-> Assista à live Puerpério em Tempos de Pandemia feita por professoras do curso de Enfermagem do IFSC

Veja também:

-> Orientações do Ministério da Saúde sobre gestantes e lactantes

-> Nota técnica do Ministério da Saúde sobre a atenção à saúde do recém-nascido no contexto da infecção pelo novo coronavírus

-> Organização Mundial de Saúde responde dúvidas sobre amamentação e Covid-19 (em inglês)

-> Fluxo de manejo clínico de gestantes na Atenção Especializada conforme o Ministério da Saúde


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A carne pode ser contaminada pelo novo coronavírus?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 18 ago 2020 14:23 Data de Atualização: 20 ago 2020 13:16

A notícia vinda da China no último dia 13 de que foram encontrados traços do novo coronavírus em embalagens de frango importado do Brasil, mais especificamente de Santa Catarina, levou rapidamente a Organização Mundial da Saúde, o governo brasileiro e o setor produtivo a garantirem que não há motivos para se ter medo de comida.

Desde o início da pandemia, esse foi um consenso entre as mais diversas áreas que atuam para evitar a proliferação do vírus: não há evidências de que os alimentos têm participação na transmissão da Covid-19 pelo mundo.

Mas essa não é a primeira vez que os frigoríficos são destaque quando o assunto é coronavírus. Eles já foram até apontados pelo Ministério Público do Trabalho como um dos responsáveis pela interiorização da doença no Brasil, pela quantidade de trabalhadores que foram infectados. Mas como ocorreu a proliferação da Covid-19 nessas indústrias? Existe alguma relação entre a contaminação dos funcionários e a produção de carne?

Por conta dessas e de muitas outras perguntas sobre os frigoríficos, o IFSC Verifica convidou professores dos câmpus Canoinhas e São Miguel do Oeste para uma conversa. Nesses dois câmpus existem cursos de Alimentos e Agroindústria. A médica veterinária Carolina de Castro Santos, a zootecnista Sandra Aparecida Tavares, o químico industrial de alimentos Luciano Heusser Malfatti e a farmacêutica bioquímica Roberta Garcia Barbosa respondem:

• A carne é um alimento seguro de ser consumido?

• Como ocorre a produção na indústria de carne e derivados?

• Quais são as normas sanitárias a que esse setor está submetido?

• Por que tantos trabalhadores de frigoríficos foram contaminados pelo novo coronavírus?

• O que determinam as portarias governamentais para evitar a proliferação da Covid-19 nesses ambientes?

Informações da China precisam ser mais precisas

A primeira avaliação dos professores é unânime: a China precisa esclarecer onde os traços do novo coronavírus foram encontrados. A informação é que estavam em uma embalagem com asas de frango congeladas. Para eles, essa informação não é precisa nem suficiente. Roberta Barbosa, doutora em Ciência dos Alimentos e professora do Câmpus São Miguel do Oeste, explica que os pedaços de frango são colocados em uma embalagem primária, como de polietileno (plástico). Isso ocorre num ambiente totalmente controlado. Depois essas embalagens vão para outro setor de de produção, onde são acondicionadas em embalagens secundárias, como caixas de papelão, que vão para caminhões e contêineres. "Será que a contaminação foi nessa embalagem secundária?", questiona.

Ela aponta que muitas pessoas acabam manipulando essas caixas tanto no carregamento no Brasil como no país importador. "Além disso, no caso de países como a China, uma carga dessas demora de 45 até 60 dias para chegar ao destino. Não há qualquer evidência científica de que o vírus permaneça tanto tempo vivo."

O professor Luciano Malfatti alerta ainda que a China anunciou ter encontrado traços de material genético do SARS-CoV-2: "Isso é completamente diferente do vírus ativo. É como se o vírus tivesse se desmanchado, deixando apenas traços do RNA. A cápsula lipoproteica (que o protege) não existe mais."

Carolina completa ao explicar que o vírus é um parasita intracelular obrigatório: "Ele não sobrevive e não consegue se multiplicar, ser ativo, fora de uma célula."

Declaração em destaque de Carolina de Castro Santos, médica veterinária e professora do Câmpus Canoinhas: "Encontrar traços do material genético não significa encontrar vírus com poder infectante. A gente precisa esperar esse posicionamento oficial. E a China não pode se abster da responsabilidade dessa contaminação ter ocorrido lá."

O lote identificado pela China é apontado como sendo da empresa Aurora, que em nota oficial também diz aguardar mais detalhes sobre a possível contaminação.

O processo de produção de carne é seguro?

Antes mesmo da pandemia de Covid-19, as indústrias de carne precisavam seguir uma série de normas para controle sanitário e que segundo os professores passam total segurança. "Por conhecer a realidade das plantas (frigoríficos), não me preocupo com a segurança dos alimentos. Os processos são rigorosamente controlados para minimizar risco de infecção", afirma Carolina. Luciano concorda: "A indústria vem se adaptando ano após ano. Os controles são muito rigorosos."

Entre os itens que garantem a segurança alimentar, a professora Roberta Barbosa destaca os equipamentos de proteção individual (EPIs): "Mesmo antes da pandemia, práticas rigorosas de controle de higiene e de qualidade eram empregadas nos frigoríficos. Podemos citar o uso de botas, macacão (ou calça e blusa), capacete, máscara, luvas e touca de proteção, que além da segurança do manipulador, impedem a presença de contaminantes físicos, químicos ou biológicos na carnes e seus produtos."

Os EPIs são fornecidos e higienizados pelas próprias indústrias. Nenhuma roupa ou material é levado pelo trabalhador para ser higienizado em casa. "Entrou na planta já se coloca o EPI e dependendo do setor em que a pessoa trabalha, ela realiza duas, três trocas de roupas", explica Carolina.

Outra questão abordada pelo professores é em relação à circulação do ar. Os ambientes são refrigerados e, por isso, não pode haver entrada de ar externo. "A maioria dos ambientes é refrigerado, a temperatura de 10 graus, onde o fluxo de ar é direcionado de dentro da indústria para fora", explica Roberta.

Ambientes e utensílios também são rigorosamente limpos com frequência, afirma o professor Luciano Malfatti. Químico industrial de alimentos e com atuação na higienização de ambientes durante a pandemia, ele explica no áudio a seguir como é feita a sanitização dos frigoríficos: a frequência e os produtos utilizados para limpeza:

 

 

As carnes passam por algum processo de higienização?

Ouça e tire essa dúvida!

 

Carolina destaca ainda que o sistema de inspeção para empresas exportadoras exige muito controle na indústrias: "É inclusive referência para outros países. Então acredito que a contaminação dos trabalhadores ocorreu principalmente em locais de aglomeração e convívio."

Por que tantos trabalhadores foram contaminados?

No início da pandemia os frigoríficos já eram apontados como locais propícios para disseminação do novo coronavírus, como consta em nota técnica do MPT: "em razão da elevada concentração de trabalhadores em ambientes fechados, com baixa taxa de renovação de ar, baixas temperaturas, umidade e com diversos postos de trabalho que não observam o distanciamento mínimo apto a viabilizar segurança durante a prestação de serviços, além da presença de diversos pontos que propiciam aglomerações de trabalhadores, tais como: transporte coletivo, refeitórios, salas de descansos, salas de pausas, vestiários, barreiras sanitárias, dentre outros."

Esses pontos também foram motivos de preocupação para os professores dos câmpus que formam profissionais para atuarem no setor. Segundo Roberta, na maioria das vezes os funcionários ficam o dia todo na indústria, se alimentam, fazem as pausas e convívio em ambiente fechados e aglomerados. "São locais em que os funcionários ficam muito próximos uns dos outros. São pontos em que o Ministério da Agricultura e Pecuária teve que atuar e legislar alterações de práticas para evitar o contágio.”

Ela também acredita que o transporte das indústrias tenha contribuído para a proliferação do vírus: "Muitos desses frigoríficos ficam em cidades pequenas, que não possuem mão de obra suficiente para atender a oferta de trabalho. As indústrias precisam trazer trabalhadores de outras cidades. Desta maneira, o transporte também se torna um vilão quando não se tomam as medidas necessárias de distanciamento, uso de máscaras, abertura das janelas e demais precauções para evitar a disseminação do vírus."

Apesar do grande número de trabalhadores contaminados, os professores não perceberam redução na produção em Santa Catarina. No áudio a seguir eles falam sobre o aumento dos turnos de trabalho:

 

 

Governos determinam mais cuidados para funcionamento de frigoríficos

Os casos de Covid-19 entre trabalhadores de frigoríficos levaram o Ministério Público do Trabalho a fechar temporariamente algumas unidades e a propor mais rigor no uso de EPIs.

Em Santa Catarina, o governo publicou portaria estadual em 12 de maio para "estabelecer medidas de prevenção para o funcionamento dos estabelecimentos de abatedouros frigoríficos de carnes em Santa Catarina". Os Ministérios da Economia, da Saúde e da Pecuária, Agricultura e Abastecimento emitiram portaria com medidas para todo o território nacional apenas em junho.

Entre as medidas estão capacitações para os funcionários, para que usem máscara, não compartilhem EPIs e consigam utilizar os equipamentos sem se contaminar ao colocá-los ou retirá-los. A professora Sandra Tavares afirma que em algumas linhas de produção em que o distanciamento mínimo não é possível, as indústrias que não conseguirem atender essa demanda deverão instalar barreiras, como divisórias de acrílico entre os postos de trabalho ou o uso de roupas e EPIs apropriados, como protetores faciais (face shield).

Os professores destacam que a portaria de Santa Catarina é mais rigorosa que a nacional. "Exige, por exemplo, distanciamento mínimo de 1,5 metro entre os trabalhadores na linha de produção, enquanto que a portaria nacional é de um metro, medida de ombro a ombro na linha de produção", exemplifica Sandra Tavares.

Outras medidas estabelecidas pela portaria da Secretaria da Saúde de Santa Catarina são: realizar a aferição de temperatura dos trabalhadores na entrada e na saída das unidades e programar a utilização dos refeitórios com apenas 1/3 (um terço) da sua capacidade, além de ficar proibida a modalidade de buffet de auto serviço (self service).

Veja as medidas para evitar contaminação pelo novo coronavírus nos frigoríficos nas portarias da Secretaria de Saúde de Santa Catarina e do governo federal.

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Como funciona uma Unidade de Terapia Intensiva?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 11 ago 2020 13:49 Data de Atualização: 11 ago 2020 20:12

A cada momento, a imprensa divulga informações sobre lotação de hospitais e Unidades de Terapia Intensiva (UTI). São dados importantes, levados em conta pelas autoridades públicas na decisão pelo relaxamento ou reforço das medidas de distanciamento social, pois como não há um tratamento específico e eficaz contra a Covid-19, manter ações de monitoramento e suporte dos pacientes mais graves se tornou imprescindível para salvar vidas.

A Associação Médica Intensivista Brasileira (Amib) estima que no início da pandemia, o Brasil tinha cerca de 2,2 leitos de UTI a cada 10 mil habitantes, o que estava dentro da média preconizada pelo Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde (OMS), de um a três leitos de UTI para cada 10 mil habitantes. No entanto, a distribuição desses leitos é desigual, sendo 1,4 no SUS e 4,9 na rede privada. A diferença também se dá por regiões, sendo o Sudeste e Centro-Oeste a regiões com melhor estatística e as regiões Nordeste e Norte com a pior. O Sul estava dentro da média nacional, com 2,2 leitos por 10 mil, porém, com a diferença de 1,8 leitos no SUS e 3,5 na rede privada.

Desde o início da pandemia no Brasil, em março, o Sistema Único de Saúde (SUS) habilitou 11.777 leitos de UTI (informações do site do Ministério da Saúde). Também se fala na importância dos equipamentos utilizados nessas unidades, principalmente os ventiladores pulmonares (respiradores), que suscitaram uma “corrida” pela compra e importação. 

Assim, o IFSC Verifica consultou especialistas do IFSC para saber:

- Como funciona uma UTI e porque ela é tão importante no tratamento da Covid-19

- O que é um ventilador pulmonar e quem precisa utilizar esse tipo de aparelho

- Quais os riscos para os pacientes que utilizam esses ventiladores

- Qual a diferença entre os diversos tipos de aparelhos que auxiliam na respiração do paciente

Conheça também o projeto em colaboração do IFSC e da UFSC para produzir ventiladores pulmonares e Ambus automatizados de baixo custo.

Por que a UTI é importante no tratamento da Covid-19?

Segundo a coordenadora do curso técnico em Enfermagem do Câmpus Florianópolis, Marciele Misiak Caldas, apenas cerca de 10% das pessoas contaminadas pelo novo coronavírus precisam de internação em Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Ela cita nota da Amib, que esclarece: “a Covid-19 é uma infecção com potencial de causar alterações significativas na capacidade ventilatória, levando a comprometimento pulmonar difuso e piorando as trocas gasosas. A internação em UTI geralmente ocorre com paciente que apresenta alterações pulmonares gravíssimas causadas pela infecção, em que a capacidade de ventilar os pulmões ou realizar a troca gasosa desses pacientes é reduzida, o que pode resultar em um quadro de insuficiência respiratória e a necessidade de uma monitorização contínua e uso dos ventiladores pulmonares”. 

Mas, como funciona uma UTI? A professora do curso de Engenharia Elétrica do Câmpus Itajaí, Fernanda Isabel Marques Argoud, especialista em Engenharia Biomédica, esclarece que uma UTI é composta por vários tipos de equipamentos, sendo alguns fixos e outros móveis, como o ventilador mecânico.

Entre os equipamentos fixos em uma UTI, o principal é o Monitor Cardíaco Multiparâmetros, que tem como função verificar vários sinais vitais, como frequência cardíaca, eletrocardiograma, pressão arterial, quantidade de oxigênio no sangue, entre outros.

Os respiradores (também chamados de ventiladores pulmonares) são utilizados apenas quando a pessoa não consegue respirar sozinha, apresente queda da saturação de oxigênio no sangue, dificuldade de respirar, alterações nos exames de imagens como raio X e tomografia, alterações metabólicas, além da falência de outros órgãos. 

Nesse caso, o equipamento é inserido pela boca ou pela traqueia e faz a função do pulmão da pessoa. Há outros tipos de respiradores mais simples, como o Ambu, utilizado principalmente em situações de emergência, e o cateter nasal, que auxiliam a respirar melhor, porém, não substituem a função pulmonar (veja abaixo a diferença entre esses equipamentos).

A professora Marciele alerta, porém, que ter leitos de UTI ou respiradores disponíveis em determinada região não significa que é possível relaxar as medidas de prevenção à Covid-19. Como não há um tratamento específico e comprovadamente eficaz, as medidas tomadas em UTIs podem melhorar o prognóstico da doença, mas não são sinônimo de cura. “A UTI vai proporcionar uma qualidade melhor, um suporte melhor para o paciente, mas não quer dizer que ele está fora de risco. Então, com certeza as medidas de prevenção são o melhor caminho”.

No vídeo, a professora Marciele explica melhor como funciona uma UTI no caso do tratamento para o coronavírus:

Cuidados extras na segurança de profissionais e pacientes

Além dos equipamentos, o funcionamento de uma UTI exige uma equipe capacitada para este tipo de atendimento, focada nos cuidados do paciente. O enfermeiro é o profissional que faz o monitoramento e ajuste de equipamentos, sob coordenação da equipe médica e em conjunto com outros profissionais, como fisioterapeutas, nutricionistas, farmacêuticos, psicólogos, odontólogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais.

A coordenadora do curso técnico em Enfermagem destaca que, com o coronavírus, reforçaram-se os cuidados com os próprios profissionais da saúde em UTI no que diz respeito aos equipamentos de proteção individuais (EPIs). Além dos usuais, enfermeiros e demais profissionais precisam utilizar equipamentos adicionais, como faceshield, aventais, luvas, entre outros, durante todo o período de trabalho na UTI.

Também há a questão da alta rotatividade dos profissionais e deslocamento de trabalhadores da saúde de outras áreas para a UTI, o que exige capacitação desses profissionais em pouco espaço de tempo.

A pesquisa realizada pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) sobre a situação das equipes de UTIs no Brasil traz mais detalhes sobre os desafios enfrentados pelos profissionais de saúde na linha de frente da pandemia.

Os riscos de se utilizar um ventilador pulmonar

Segundo as professoras Marciele e Fernanda, o ventilador pulmonar é um equipamento para se usar em última instância e por pouco tempo, pois pode causar vários danos à saúde do paciente. A pneumonia por ventilação mecânica é um dos efeitos mais comuns. 

Fernanda explica que o respirador é basicamente uma bomba em que são misturados gases, que são insuflados por meio de tubos, de difícil esterilização. “Como a tubulação não pode ser metálica, tem que ser flexível e confortável, a probabilidade de ficar uma bactéria dentro é muito alta, pois não é possível esterilizá-la em uma autoclave. Além disso, o ar do respirador precisa ser umidificado, e não tem fonte maior de infecção do que umidade”, completa.

Marciele lembra também que o uso do respirador por muito tempo pode comprometer a musculatura respiratória e dos membros do paciente, ocasionando perda de força, o que pode dificultar a retirada do tubo e exigir tratamento fisioterápico após a internação.

O risco de uso inadequado também é grande. O respirador precisa ser utilizado por profissionais treinados, pois erros de regulagem da saída de ar, por exemplo, podem causar danos graves aos pulmões. O fisioterapeuta é o profissional indicado para auxiliar médicos e enfermeiros na definição dos parâmetros de uso dos ventiladores pulmonares em UTIs.

Assim, a taxa de mortalidade por Covid-19 com o uso de respiradores é alta. Segundo estudo UTIs Brasileiras, em torno de 9% dos pacientes em UTI e que não utilizaram ventilação mecânica foram a óbito, enquanto entre os que receberam ventilação, a média de mortalidade foi de 65%, sendo 62% na rede privada e 70% na pública.

Porém, em casos graves, a chance de óbito é de 100% caso o respirador não seja usado. Por isso cabe à equipe médica avaliar com precisão quem necessita desse cuidado mais intensivo.

A Agência Brasileira de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu nota técnica específica sobre os ventiladores pulmonares, em que aponta riscos e benefícios desses aparelhos e cita normas para sua fabricação de forma segura.

No vídeo, a professora Fernanda explica melhor quais os riscos dos ventiladores pulmonares.

Por que precisamos importar esses equipamentos? É muito caro produzi-los?

Segundo o site do Ministério da Saúde (MS), desde o início da pandemia foram adquiridas 9.672 unidades de ventiladores pulmonares, sendo 4.995 equipamentos de UTI e 4.677 de transporte (Ambus). Além disso, há contratos para a produção de 16.252 ventiladores pulmonares em empresas nacionais.

Fernanda lembra que há muitos anos se alerta para a falta de respiradores em hospitais. “O coronavírus é um vírus que ataca principalmente o pulmão. Então, quando a humanidade ficou sabendo que estávamos em risco de pandemia, isso gerou uma preocupação ainda maior. Se falta respirador hoje, o que vai acontecer em caso de coronavírus?”

Existem várias iniciativas para a produção desses equipamentos por instituições brasileiras. Uma parceria entre a UFSC e o IFSC está desenvolvendo equipamentos médicos para combate à Covid-19, sendo dois Ambus automatizados e um modelo de ventilador pulmonar. O protótipo de ventilador já está em fase de testes clínicos, ou seja, em humanos.

Segundo o professor do Departamento Acadêmico de Metal Mecânica do Câmpus Florianópolis Luiz Fernando Segalin de Andrade, o equipamento está passando por algumas adequações na interface com o usuário, detectadas a partir dos testes pré-clínicos (com animais) realizados no Hospital das Clínicas, em Porto Alegre, e no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

A intenção é produzir quatro a cinco protótipos para testes e depois conseguir parceria com empresas para a produção em larga escala, a um custo bem mais baixo que o dos equipamentos oferecidos pelo mercado atualmente. Os equipamentos são produzidos nos laboratórios da UFSC que fazem parte do grupo de Equipamentos Médicos de Emergência (EME), sendo que algumas peças também são produzidas nas instalações do IFSC.

Os Ambus automatizados estão em fase de protótipo. O projeto foi paralisado por um tempo por falta de recursos e por limitações na aquisição de peças e ferramentas. Agora, com recursos do Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif), a produção foi retomada e em breve devem ser iniciados os testes.

Para saber mais sobre o projeto, veja matéria publicada no Portal do IFSC

Tipos de equipamentos

Conheça os diferentes tipos de equipamentos que dão suporte à respiração do paciente (fotos: Banco de Imagens):

 

Cateter nasal: o paciente recebe oxigênio pelo nariz, mas mantém os movimentos próprios de respiração.

 

 

 

 

 

 

 

Ambu: é utilizado em casos de emergência até chegar ao ventilador mecânico. A ventilação pode ser manual ou automatizada.

 

 

 

 

Ventilador mecânico (respirador): há o respirador com máscara, que não é invasivo, e o ventilador de intubação, que utiliza cânulas (o circuito).

 

 

 

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O novo coronavírus pode ser transmitido pela água ou pela rede de esgoto?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 16 jun 2020 15:02 Data de Atualização: 29 jul 2020 14:06

Qual o impacto da falta de condições sanitárias adequadas na pandemia de Covid-19 no Brasil? Há muitos aspectos a serem considerados. O primeiro deles é a falta de água em muitas localidades do país até para lavar as mãos. São quase 35 milhões de brasileiros sem acesso a água tratada, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS 2018). Essa é uma das principais preocupações dos epidemiologistas, já que a forma mais segura de evitar a contaminação é utilizando água e sabão para a higienização.

Além da falta de abastecimento, tem-se questionado muito se o novo coronavírus pode ser transmitido pelo esgoto, já que vivemos num país em que quase metade da população não tem acesso a sistema de esgotamento sanitário adequado e muitas comunidades convivem com esgoto a céu aberto. Para essa pergunta nem a Organização Mundial de Saúde (OMS) tem uma resposta conclusiva.

Os estudos ainda são recentes e não há comprovação de que o SARS-CoV-2 mantém sua forma ativa na água ou no esgoto, ou seja, na forma que pode contaminar as pessoas.

Pesquisas indicam presença de SARS-CoV-2 em água, urina e fezes

A questão se o novo coronavírus pode ser transmitido pela água ou pelo esgoto é diferente do fato dele ser identificado nesses ambientes. Quem explica essa diferença é a engenheira sanitarista Andreza Thiesen Laureano, professora do curso técnico em Saneamento do Câmpus Florianópolis do IFSC: "Ao entrar em contato com a água, ele sobrevive e o RNA viral pode ser detectado através de exames específicos. No entanto, não se sabe ainda se, na água, ele se mantém na forma ativa/viável." O RNA pode ser entendido como material genético do vírus.

Em documento publicado em abril com orientações para a gestão da água e do saneamento durante a pandemia, a OMS afirma que, como o vírus da Covid-19 é encapsulado, ele é menos estável no ambiente hídrico em comparação com vírus humanos que têm transmissão conhecida pela água, como os rotavírus e a hepatite A: "Um dos estudos observou que outros coronavírus humanos sobreviveram apenas dois dias em água da torneira sem cloro e nas águas residuais hospitalares a 20°C." Uma das conclusões do documento é a de que métodos de tratamento da água que utilizam a filtração e a desinfecção devem inativar o novo coronavírus.

Já a presença do SARS-CoV-2 em fezes foi confirmada. Pesquisadores da cidade  de Zhuhai, na China, examinaram 98 pacientes com Covid-19 entre janeiro e março deste ano. Os resultados da pesquisa estão publicados na revista científica The Lancet: "Observamos que em mais da metade dos pacientes, suas amostras fecais permaneceram positivas para o RNA da SARS-CoV-2 por uma média de 11,2 dias após as amostras do trato respiratório se tornarem negativas para o RNA da SARS-CoV-2, implicando que o vírus se replica ativamente no trato gastrointestinal do paciente e que a transmissão fecal-oral pode ocorrer após a liberação viral no trato respiratório."

Pesquisa da UFSC identifica novo coronavírus em amostra de agosto de novembro de 2019

Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), da Universidade de Burgos (Espanha) e da startup BiomeHub identificaram partículas do novo coronavírus em duas amostras do esgoto de Florianópolis colhidas em 27 de novembro de 2019, dois meses antes do primeiro caso clínico ser relatado no Brasil. A descoberta, divulgada em 2 de julho de 2020, só foi possível porque havia amostras de esgoto congeladas para outros estudos. Segundo os pesquisadores, é o relato da primeira presença confirmada do vírus nas Américas. (texto atualizado em 29 de julho de 2020).

No decorrer de 2020, outra pesquisa brasileira - coordenada pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em ETEs Sustentáveis (INCT ETEs Sustentáveis) - identificou a presença do novo coronavírus no esgoto da região de Belo Horizonte (MG). Realizado desde abril, o estudo analisa a Bacia do Onça, onde há duas estações para tratamento do esgoto coletado em boa parte da capital mineira e da cidade de Contagem. As coletas para análise são feitas semanalmente. Os boletins indicam aumento no número de amostras com SARS-CoV-2: "Para as regiões/bairros localizados na bacia do Onça, houve um aumento expressivo de amostras que testaram positivo (64% nas semanas um e dois, 69% nas semanas três e quatro para 88% na semana cinco)."

Pesquisas como estas têm sido feitas ao redor do mundo. Os relatos mais antigos da presença do novo coronavírus no esgoto são de Wuhan, na China, em outubro de 2019.

A professora Andreza reforça que, mesmo não havendo comprovação científica da transmissão hídrica da Covid-19, esta hipótese não está descartada. Por isso, em locais sem sistemas públicos ou individuais de coleta e tratamento de esgoto adequados, onde as pessoas têm contato físico com o esgoto líquido ou aerossóis do esgoto, a transmissão de doenças de veiculação hídrica é maior. Segundo ela, como ainda não há resultados conclusivos sobre a possibilidade de transmissão de Covid-19 a partir do sistema de esgoto, os especialistas têm utilizado pesquisas de outro tipo de coronavírus, o SARS-CoV-1 - similar ao SARS-CoV-2.

"Para o SARS-CoV-1 houve comprovação de contaminação por aerossóis provenientes de esgoto num prédio em um país asiático. O esgoto produz aerossóis quando é submetido à turbulência. Portanto, para operadores de estações de tratamento de esgoto, o risco é aumentado, a exemplo de outras doenças."

A Organização Mundial de Saúde reforça a importância do uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), como máscaras e óculos, pelos trabalhadores dos serviços de saneamento.

Higiene é vital para se enfrentar a pandemia

Como já se detectou o novo coronavírus nas fezes, existe uma preocupação muito grande para outras formas de transmissão feco-oral além da que poderia ocorrer pelas redes de esgoto e de água, como no contato direto de uma pessoa com as fezes de outra, no manuseio do lixo doméstico ou por meio de vetores como baratas, moscas ou superfícies contaminadas. Tudo isso ainda está sendo pesquisado. Lavar as mãos e as superfícies com água e sabão continua sendo o mais recomendado, já que o coronavírus possui um revestimento lipídico, que é facilmente destruído pelos sabões.

Se ele sobrevive no esgoto, pode ser perigoso tomar banho de mar?

Mesmo não havendo comprovação científica da transmissão hídrica da Covid-19 em ambientes aquáticos, tanto em rios, quanto no mar, Andreza afirma que "pelo princípio da precaução, neste momento é importante evitar entrar em contato com essas águas, pois as mesmas são passíveis de estarem contaminadas e a hipótese de transmissão hídrica não está descartada." O mesmo vale para piscinas públicas. O cloro, usado em dosagem correta, provavelmente eliminará o vírus, mas não é recomendável o contato com outras pessoas. Mesmo porque há outros ambientes comuns, como banheiros, mesas e cadeiras. Por isso, valem as mesmas recomendações: fique em casa e lave as mãos com água e sabão.

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Como não desistir de praticar atividades físicas em função da máscara facial?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 28 jul 2020 15:27 Data de Atualização: 28 jul 2020 16:19

Elas entraram para o figurino em todos os contextos, por mais que sejam, por vezes, incômodas. Com a liberação da prática de atividades físicas, seja em ambientes ao ar livre ou em academias, as máscaras faciais também são item essencial nas novas normas de convívio social impostas pela pandemia. O problema é que, na prática de corrida, caminhada, ciclismo ou mesmo em atividades anaeróbicas, como a musculação, o desconforto respiratório que elas causam é inevitável.

Neste post, vamos te mostrar que, mesmo com a certa dificuldade que as máscaras podem provocar na prática de atividades físicas, vale a pena persistir e incorporar esse acessório ao kit esportivo: os benefícios de se exercitar neste momento pandêmico são muito importantes para manter lá em cima a almejada imunidade do organismo. Vamos abordar na sequência algumas questões como:

- Por que é importante manter a atividade física regular no cenário de pandemia;
- Como contornar o incômodo provocado pela máscara durante a atividade física;
- A diferença entre atividade física e exercício físico – e por que é importante saber até onde ir com cada um deles;
- Práticas bem simples a serem adotadas para voltar a malhar e manter regularidade.

Máscara: usar ou não usar durante a malhação?

Desde o início da pandemia, diferentes orientações foram passadas pelos órgãos de saúde sobre o uso da máscara facial. No início da situação de emergência sanitária, recomendava-se que não se adotasse o uso de máscaras descartáveis como forma de prevenção ao contágio, mas a lógica, naquele momento, era garantir o suprimento desse item de segurança aos profissionais de saúde. 

Com o avanço da pandemia, o prolongamento da necessidade de medidas preventivas e o desenvolvimento de novos estudos, o uso de máscaras “caseiras” – ou seja, de uso não profissional – passou a ser recomendado e tornou-se, em muitos casos, obrigatório nos espaços públicos. Essa obrigatoriedade foi estendida aos ambientes coletivos onde as pessoas praticam exercícios, seja ao ar livre ou em academias.

A professora Andresa Silveira Soares, que atua na área de Educação Física no Câmpus Florianópolis, afirma que utilizar a máscara facial durante a prática de exercícios é extremamente importante, já que ela evita a propagação de gotículas que podem transmitir o novo coronavírus (e também outros patógenos). “Mesmo que ela incomode, é extremamente importante que sempre se utilize a máscara”, enfatiza. Andresa sustenta a recomendação mesmo com a posição da Organização Mundial da Saúde (OMS) – que, levando em conta o fato de as máscaras ficarem úmidas mais rápido durante a prática de atividades físicas, em função da respiração intensa e transpiração, orienta que esse uso seja evitado. “Mas exigem normas municipais e estaduais para que o uso seja unificado, portanto isso deve ser observado e as pessoas precisam se acostumar”, pondera. A Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte também defende a importância do uso das máscaras faciais, neste comunicado.

De fato, a máscara facial, seja ela de tecido ou de outro material, tende a umedecer mas rápido durante a atividade, e isso anula seu potencial de proteção. O recomendado, portanto, é que o esportista sempre tenha à disposição mais uma ou duas máscaras, para garantir o uso correto e seguro durante todo o treino. Além disso, diminuir a intensidade do treino pode favorecer a adaptação à máscara e também prolongar a vida útil do acessório. No vídeo abaixo, a professora Andresa Soares explica melhor essas recomendações e fala, também, sobre como a adaptação aos diferentes tipos de máscaras é algo individual.

 

Por que é importante manter atividade física regular neste momento de pandemia?

Lá em março, quando ainda não se tinha a real noção do que representaria a emergência de saúde pública provocada pelo novo coronavírus, muita gente deixou de lado atividades que exigissem sair de casa. Isso incluiu a prática de atividades físicas ao ar livre ou em estúdios e academias. Só que as pessoas provavelmente não imaginavam que a imposição do distanciamento social se estenderia por tanto tempo. 

Movimentar o corpo é um hábito muito importante para a manutenção da saúde de forma integral, de acordo com a professora Andresa Soares, e isso engloba não apenas a parte física, mas também a saúde mental e o bem estar de forma mais ampla. Ela menciona que a recomendação da OMS é de que se pratique atividades físicas por cerca de 30 minutos diários, que podem ser, inclusive, fracionados nos diversos períodos do dia.

Essa atividade física mínima recomendada não é, necessariamente, exercício físico: enquanto as atividades físicas são, conceitualmente, os movimentos que tiram o corpo do estado de repouso, exercícios físicos são atividades programadas e sistematizadas. “Pode-se dizer que nem toda atividade física é um exercício físico, mas todo exercício físico, ou prática corporal, é uma atividade física”, detalha. Práticas cotidianas como varrer a casa, caminhar até o ponto do ônibus, passear com o cachorro, brincar com as crianças ou estender roupa no varal podem ser consideradas atividades físicas.

Na realidade do trabalho ou estudo remoto em home office, a rotina de muitas pessoas tornou-se mais sedentária. Por isso, Andresa reforça que é importante ter prestar atenção nos sinais que o corpo dá em reação à falta de atividade física. “É importante que as pessoas tenham consciência corporal, conheçam o seu corpo. Estamos num momento especial para as pessoas conhecerem as possibilidades e especialmente os limites do seu corpo, que dá respostas. Se você está há muito tempo sentada numa posição, trabalhando em home office, você vai sentir uma dor nas costas”, exemplifica. A melhor resposta a esse sinal específico seria parar um pouco, levantar-se, alongar, sair do estado de inércia.

Parei de malhar no começo da pandemia e o sedentarismo está me incomodando. Como voltar de forma segura?

A professora Andresa Soares recomenda que o retorno ou início de prática de exercícios físicos, no atual momento, seja feito de forma gradual. Não adianta querer recuperar muito rápido o tempo perdido e igualar a performance de antes da pandemia: a quebra na rotina e o próprio uso da máscara facial vão comprometer o desempenho. Mas é importante não se abalar ou desistir. “Neste momento, você não tem que estar preocupado com seu desempenho, e sim com o condicionamento físico”, recomenda Andresa. No vídeo, ela explica que a queda de performance é natural e salienta que o uso da máscara facial, além de ser importante para a proteção, não prejudica a saúde. Segundo ela, embora tenha havido boatos de que usar a máscara durante a atividade intensa pudesse comprometer a inalação de oxigênio, isso não é verdade. 

Com a atividade física em locais abertos e em academias liberadas em muitos municípios, a tentação de recorrer a esses espaços é grande. Porém, Andresa enfatiza que, no momento pandêmico, o mais seguro é, ainda, recorrer à atividade física em casa. Se for inevitável sair ou ir à academia, é recomendável tomar várias precauções:

- Sempre utilizar a máscara facial, tanto em atividades ao ar livre quanto em ambientes fechados. Escolher aquela que melhor se adaptar ao rosto e, caso a opção sejam as de tecido, que o material não seja muito fino;
- Trocar a máscara facial sempre que ela ficar úmida. Ao sair para treinar, portanto, não se deve esquecer de levar máscaras limpas para reposição;
- Manusear a máscara adequadamente, apenas pelas alças ou tiras. Não se deve tocar com as mãos a parte da frente do acessório;
- Ao ar livre, deve-se seguir as recomendações dos órgãos públicos e manter a distância recomendada das outras pessoas. Caso haja alguma dúvida, a professora Andresa explica que essa distância segura pode variar, dependendo do tipo de prática e da velocidade que o esportista atinge: 4 metros para caminhada, 10 metros para corrida e 20 metros para ciclismo;
- Para manter a hidratação, beber água antes do treino e, se for preciso hidratar-se durante a atividade, retirar a máscara de forma segura, sem mantê-la no queixo ou em contato com outras superfícies;
- Se possível, priorizar as atividades físicas feitas em casa. Quem já é habituado a exercitar-se pode realizar séries por conta própria, tomando os cuidados necessários para evitar lesões. Sempre que possível, também é recomendada a orientação de um profissional de educação física;
- Se for muito importante recorrer a espaços públicos, pode-se intercalar exercícios físicos nesses locais com atividades em casa, reduzindo as saídas à rua;
- Caso opte por academias, observar se todas as medidas de segurança sanitária exigidas pelos órgãos públicos estão sendo praticadas com rigor (lotação máxima, disponibilidade de álcool em gel nos ambientes coletivos, higienização dos aparelhos) e também tomar os cuidados individuais (higienizar os aparelhos, usar máscara facial e trocá-la sempre que ficar úmida, manter-se afastado dos outros frequentadores). Veja a portaria do Governo de Santa Catarina que normatiza o funcionamento desses locais;
- Levar toalha de uso individual em qualquer exercício físico, para enxugar o suor do rosto e prolongar a vida útil da máscara;
- Em qualquer situação, priorizar a prática de atividades físicas em locais com poucas pessoas, de preferência arejados;
- Ter consciência de que o uso da máscara vai dificultar o desempenho, e, por isso, reduzir o ritmo. No caso de atividades aeróbicas, é importante reconhecer o limite do corpo e jamais remover a máscara total ou parcialmente (deixar só o nariz para fora não vale!). Em atividades como a musculação, pode-se aumentar o tempo de descanso entre as séries, garantindo uma melhor recuperação da respiração;
- Por fim, não precisa ter paranoia: o uso da máscara facial durante o treino não compromete a saúde.

-> Veja o comunicado da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte sobre o uso de máscaras faciais.

-> Consulte também as perguntas e respostas da OMS sobre uso geral de máscaras faciais (em inglês).

-> Leia também informações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Ministério da Saúde sobre o uso de máscaras de proteção.

-> Assista ao vídeo do Curso Técnico em Enfermagem do Câmpus Florianópolis sobre o manuseio correto das máscaras.

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Qual a diferença entre doentes assintomáticos, pré-sintomáticos e sintomáticos?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 21 jul 2020 09:09 Data de Atualização: 21 jul 2020 09:56

Neste exato momento, você pode ter o coronavírus e não saber. E se você acha que não tem problema fazer uma visitinha a algum familiar ou sair com poucos amigos, aí pode piorar ainda mais a situação já que, se você for um pré-sintomático ou um assintomático, pode transmitir o vírus sem nem se dar conta. Ficou preocupado(a)? Sim, a situação é preocupante mesmo e, neste post, vamos explicar:

  • - a diferença entre os pacientes assintomáticos, pré-sintomáticos e sintomáticos
  • - por que mesmo quem já teve Covid-19 precisa se cuidar
  • - o risco de visitar familiares e amigos
  • - a partir de quantas pessoas pode ser considerada uma aglomeração

A curva segue crescendo

Infelizmente, a situação do coronavírus no Brasil continua preocupante. Até o momento desta publicação, 80 mil pessoas já tinham morrido de Covid-19 segundo dados do Ministério da Saúde. Isso representa mais do que toda a população da cidade de Caçador e muito mais do que a maioria dos municípios catarinenses têm em número de habitantes. Quando você ler este texto, com certeza, esses números já serão maiores.

-> Se quiser entender melhor a curva de crescimento, assista a esta live do IFSC sobre “O que os números revelam sobre a pandemia no Brasil?”

Os casos notificados de pessoas infectadas também seguem crescendo e, o mais perigoso, de forma silenciosa. Sim, porque cerca de 45% das transmissões ocorrem quando a pessoa é pré-sintomática, ou seja, ainda não apresentou os sintomas, conforme um estudo publicado pela revista científica Science em maio deste ano.

Gráfico mostrando como funciona a transmissão do coronavírus

Para entender este cenário, é preciso saber a diferença entre as pessoas contaminadas pelo vírus, que podem ser pré-sintomáticas, sintomáticas e assintomáticas. A enfermeira e professora do curso técnico de Enfermagem do Câmpus Florianópolis do IFSC, Ângela Kirchner, nos explicou o que cada termo significa:

Todas as pessoas contaminadas podem transmitir o vírus para outras?

Sim, as pessoas pré-sintomáticas, sintomáticas e assintomáticas transmitem o vírus - o que vai mudar é quando essa transmissão pode ocorrer.  “Essa lacuna é o que realmente torna complicado o controle da pandemia porque a gente não tem como saber se aquela pessoa já está transmitindo”, alerta a professora Ângela, destacando a importância do cuidado com todas as pessoas e a questão do distanciamento social.

No início de junho, houve uma polêmica declaração da epidemiologista Maria van Kerkhove, da Organização Mundial da Saúde (OMS), de que pacientes assintomáticos contaminados pela Covid-19 não poderiam transmitir o vírus a outras pessoas. No entanto, a própria OMS esclareceu posteriormente a fala e reforçou que pessoas assintomáticas podem sim transmitir o novo coronavírus.

-> Assista a este vídeo da OMS sobre a transmissão da doença

Quando há mais risco de contágio?

No momento em que uma pessoa tem contato com o vírus, ele começa a se replicar dentro do organismo. A partir disso, quanto maior a carga viral da pessoa, mais ela vai transmitir. “Considera-se que o período de maior de transmissão é entre o terceiro dia após o contágio até o décimo quarto dia, que é quando a pessoa tem uma grande quantidade de carga viral e o organismo dela ainda não deu conta de mitigar esse vírus”, explica a professora do IFSC.

Mas como saber em qual estágio a pessoa está?

A única forma de saber isso é por meio de teste de anticorpo.

-> Leia o post que fizemos sobre como funcionam os testes que identificam o coronavírus no organismo

Mas, de maneira geral, sem testes em massa, não tem como saber se alguém é assintomático ou pré-sintomático (nesse caso, até aparecerem os sintomas). E metade das transmissões ocorrem por pessoas que se encontram nestes estágios, ou seja, estão transmitindo o vírus muitas vezes sem saber que estão contaminadas.

É por isso que o cuidado deve ser contínuo. “Você pode estar tanto no estágio pré-sintomático e depois desenvolver sintomas, bem como você pode não desenvolver sintomas da doença e ser um transmissor. Daí a importância de todos manterem as precauções de uso de máscara, lavagem contínua das mãos, distanciamento social. Isso é muito importante neste momento”, ressalta Ângela.

Já tive Covid-19. Posso parar de me preocupar?

Tem muita gente achando que o exame positivo de Covid-19 é passaporte para sair por aí e retornar à vida “normal” após se curar da doença. Não é bem assim. Ainda não há clareza sobre por quanto tempo uma pessoa que já teve o vírus fica imune a ele. Além disso, quem já teve Covid-19 pode ser um transmissor do SARS-CoV-2, como destaca a professora do IFSC:

A recomendação, segundo Ângela, é que quem testar positivo para Covid-19, a partir do momento que apresentou os sintomas, permaneça pelo menos 14 dias em isolamento, para evitar a transmissão para outras pessoas - mesmo depois que os sintomas passarem. Quem não apresentou sintomas, mas testou positivo, também deve fazer o isolamento de 14 dias.

Aja como se estivesse contaminado

Justamente por não sabermos quem pode estar com o vírus, é preciso seguir o protocolo de biossegurança e os cuidados para se proteger e proteger os outros.

Frase da professora do IFSC, Ângela: "A partir do momento que eu me considero sempre com potencial de contaminação, eu me cuido mais".

Entre as medidas de cuidado, a professora do IFSC reforça, inclusive, a higiene domiciliar como limpar as maçanetas da porta, reservar um lugar para colocar as roupas usadas na rua e a limpeza das compras. “Isso tudo são cuidados que a gente precisa estabelecer porque a gente ainda não desvencilhou cientificamente todos os meandros dessa pandemia”, diz Ângela.

-> Assista a este vídeo da IFSCTV sobre os cuidados ao chegar em casa
-> Faça sua parte -> Epidemiologista do IFSC destaca o que cada pessoa pode fazer para chegarmos mais rápido ao fim da pandemia

Tem problema visitar familiares ou sair com poucos amigos?

De acordo com a professora do IFSC, esse tipo de comportamento ainda deve ser evitado já que, no Brasil, a doença está em uma curva ascendente, ou seja, a pandemia ainda não está estabilizada. “Enquanto isso não acontecer ou pelo menos até que a gente tenha uma vacina, nós precisamos manter a questão do distanciamento pra gente proteger as pessoas”, afirma.

A partir de quantas pessoas pode ser considerado que há uma aglomeração?

Até pelo tempo que já dura a pandemia - e, por enquanto, não há uma previsão para seu fim -, algumas pessoas estão relaxando os cuidados em relação às medidas de distanciamento social. Encontros entre poucos amigos e contato com familiares acabam sendo feitos por se entender que não são aglomerações. No entanto, a professora Ângela alerta que, neste momento, encontrar com qualquer pessoa que não esteja no seu convívio social cotidiano pode ser considerada uma aglomeração.

Ângela explica que, se todas as medidas fossem seguidas - como se encontrar em um local aberto com todos usando máscaras e mantendo uma distância de dois metros das outras pessoas e sem contato físico -, até não haveria tanto risco, mas alerta que o perigo de afrouxar os protocolos de biossegurança é que nem todos têm o bom senso de fazer isso de maneira adequada. “Entre o veneno e o remédio, o problema está na dose. Como dosar esse convívio sem que a gente extrapole e nos coloquemos em risco e coloquemos outras pessoas no risco de adquirir o vírus?”, enfatiza.

A professora reconhece que o distanciamento social acarreta um sofrimento, mas que por enquanto ainda é necessário. “Ninguém gostaria de ser responsável de transmitir o risco para outras pessoas e seria muito triste se a gente vai conviver com familiar e depois a gente descobre que fomos nós o foco de transmissão”, comenta.

Quero iniciar o distanciamento social com outras pessoas. É só me juntar?

Não. Para que você possa começar um isolamento junto com a alguém da sua família ou amigos que ainda não estão na mesma casa que você, é preciso fazer um isolamento total (lockdown) de 14 dias - tanto você quanto as outras pessoas. “É o período que, se eu tivesse contato hoje com o vírus, durante 14 dias não teria mais possibilidade de transmissão viral a partir dessa data”, explica a professora do IFSC. Mas atenção: é um isolamento total dentro de casa que não deve incluir nem idas a mercado, por exemplo. Ângela recomenda que haja uma logística para que as compras sejam feitas antes como uma forma de permitir esse isolamento total.

O que fazer por enquanto?

A resposta continua sendo a mesma que já demos em outros posts por aqui: aguardar por uma vacina. Em todo mundo, 130 vacinas já estão sendo desenvolvidas segundo Ângela, mas é um processo demorado.

-> Veja neste post por que é tão demorado produzir uma nova vacina

Individualmente, o que cada um deve fazer é seguir mantendo as precauções como uso de máscara, lavagem contínua das mãos, uso de álcool em gel e o distanciamento social. “A partir do momento que todo mundo se cuidar, o vírus não se transmite mais e ele se mitiga e nós podemos ter um afrouxamento e voltar à nossa rotina”, diz Ângela. 

Frase da professora do IFSC. Ângela: "A responsabilidade para que o vírus pare de circular é de todo mundo".

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É possível prevenir o coronavírus por meio da alimentação?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 14 jul 2020 14:58 Data de Atualização: 20 jul 2020 15:38

Alho esmagado com água quente, pimenta, café, bebidas alcoólicas, alimentos alcalinos, vitaminas C e D, até chá de erva-doce: quando o primeiro caso de Covid-19 foi confirmado no Brasil, em 26 de fevereiro de 2020, já circulavam pelas mídias sociais informações falsas ou distorcidas sobre o uso de certos alimentos e nutrientes “milagrosos” que poderiam evitar ou curar a doença. Tanto que, um dia após a confirmação do primeiro caso, em 27 de fevereiro, a página “Saúde sem fake News” do Ministério da Saúde explicava ser falsa a afirmação de que o consumo de vitamina C, fígado bovino, suco de acerola, suco de laranja e chá de erva-doce seriam recomendados para prevenção do contágio.

A explicação é recorrente em todos os desmentidos relacionados a receitas milagrosas: “Até o momento, não há nenhum medicamento, substância, vitamina, alimento específico ou vacina que possa prevenir a infecção pelo coronavírus”. A nutricionista do IFSC Karine Andrea Albiero subscreve o veredito do Ministério da Saúde e complementa: “A gente não tem o alimento vilão, nem o alimento mocinho, e os milagrosos não existem nesse contexto”.

Quer dizer que não há alimentos que contribuam para alimentar a imunidade?

A relação alimentação x imunidade existe, mas é preciso abandonar a ilusão de que o consumo repentino e intenso de determinados alimentos vá provocar uma resposta imunológica suficiente para evitar ou combater o coronavírus – ou qualquer outro patógeno. De acordo com Karine, que é graduada e mestra em Nutrição pela UFSC e atua na Pró-Reitoria de Ensino do IFSC, alimentar-se de forma saudável deve ser uma prática rotineira, adotada ao longo do tempo, e não uma preocupação exclusiva do atual momento de pandemia.

Além disso, a alimentação definida como “promotora de saúde” envolve elementos como a manutenção da hidratação do corpo, com o consumo regular de água; a opção por alimentos in natura, em detrimento dos processados e ultraprocessados; e a redução do consumo diário de sal. Essas e outras recomendações estão no Guia Alimentar para a População Brasileira, material publicado pelo Ministério da Saúde e disponível em acesso livre.
 

 

O consumo de alimentos in natura, em especial de origem vegetal, deve sempre ser priorizado em função da quantidade de fibras e micronutrientes que eles contêm – vitaminas, minerais e antioxidantes – e que são importantes para a microbiota intestinal. Karine explica que esse conjunto de bactérias benéficas funcionam como uma barreira de defesa contra micro-organismos patógenos. Folhosos verde-escuros como rúcula e couve; frutas como laranja, maçã, goiaba, abacate; oleaginosas como as castanhas em geral; e leguminosas como o feijão e a lentilha são exemplos de alimentos extremamente protetores, segundo Karine.

Aliado a isso, o consumo excessivo de sal pode ser controlado com a substituição desse ingrediente por mais temperos naturais no preparo dos alimentos, como salsa, cebolinha, alecrim, coentro, gengibre, manjericão, louro. “É uma ótima escolha que a gente pode fazer diariamente. E esses temperos naturais são ricos em vitaminas, minerais e antioxidades naturais, então a gente qualifica também um pouco mais a nossa alimentação do dia a dia”, ressalta a nutricionista.
 

 

Não tem milagre

Embora haja práticas alimentares saudáveis e a adoção dessas práticas possa contribuir para um melhor funcionamento do sistema imunológico, é preciso ter claro que qualquer resultado de uma mudança na alimentação leva tempo. É muito comum, segundo Karine, que as pessoas esperem resultados rápidos demais. No caso de pacientes que precisam reverter um quadro de sobrepeso ou obesidade, por exemplo, a ansiedade por resultados rápidos costuma ser a regra. “Nós ganhamos peso numa sequência de inúmeros anos, na constância da manutenção de um hábito de vida e de um hábito alimentar ruim. A regressão disso não é algo que vá acontecer em uma semana de suplementação alimentar”, atesta.

E sempre é bom lembrar que, como doença crônica, a obesidade pode favorecer a ocorrência de muitas outras doenças, constituindo-se também fator de risco para o novo coronavírus. No cenário pandêmico, portanto, é preciso ter em mente que a adoção de uma alimentação promotora de saúde é especialmente importante para pessoas que apresentam as chamadas “comorbidades” ou condições clínicas especiais. 


E os chamados superalimentos? Eles têm mesmo alguma coisa especial?

Abacate, coco, aveia, batata-doce, todos esses alimentos “da moda” são saudáveis e devem ter o consumo recomendado, explica Karine – com exceção de casos específicos que devem ser sempre avaliados, criteriosamente, indivíduo por indivíduo, como a necessidade de alguma restrição alimentar associada a patologias, como diabetes, dislipidemias ou hipertensão arterial. Porém, o fato de serem saudáveis não quer dizer que eles sejam milagrosos, curativos ou “super”. Para a nutricionista, a supervalorização desses alimentos é um equívoco e considera-los “super” é uma visão extremamente simplista. 

“Fala-se do alho, da cebola, da pimenta, que tem uma função anti-inflamatória muito importante, açafrão, gengibre, linhaça, gergelim, azeite de oliva. Esses alimentos são ótimos. Mas isso não quer dizer que se eu tomar um litro de azeite de oliva por dia, vou ficar com meu HDL maravilhoso”, brinca Karine. Segundo ela, a lógica da alimentação saudável deve estar harmonizada com outros fatores, como a prática de atividade física e a manutenção da saúde mental.

Em contrapartida, há alimentos que podem ser “super”, mas em sentido negativo: aqueles com excesso de sal ou de açúcar, gorduras saturadas ou trans e pobres em nutrietes. Esses devem, sempre, ser evitados. Margarinas, nuggets, biscoitos recheados, congelados industrializados, sucos de caixinha e refrigerantes são pobres em nutrientes e seu consumo está ligado com o aparecimento de hipertensão arterial, obesidade e diabetes. E com as decorrências da pandemia, como falta de tempo, desmotivação para cozinhar ou stress, pode parecer difícil não recorrer a esse tipo de comida.

Existe alguma forma conhecida de contaminação por coronavírus por meio dos alimentos?

Para além do aspecto nutricional, os alimentos também são centro de atenção na atual pandemia em função da maior atenção que vem sendo dada à higienização dos produtos no momento em que eles entram em casa (há um post sobre esse assunto no Blog do IFSC, além de um episódio do podcast Ciência para Seus Ouvidos). Já está no repertório do “novo normal” a prática de limpar com bastante rigor as compras do supermercado – não só embalagens e invólucros, mas também os alimentos propriamente ditos – com álcool 70% ou solução de hipoclorito de sódio (água sanitária).

De acordo com a Fundação Oswaldo Cruz, é possível a ocorrência de contaminação por alimentos caso o produto tenha tido contato com pessoas doentes, sintomáticas ou não. Isso porque o vírus pode permanecer ativo por diferentes períodos de tempo em vários tipos de superfícies, o que inclui os alimentos. Por isso, é muito importante a adoção das medidas de higiene – que devem permanecer um hábito mesmo após a pandemia, na opinião de Karine Albiero.

“É um hábito que nós deveríamos ter. No supermercado, há manipulação, toque, eu não sei de onde veio esse alimento. Até chegar na prateleira do supermercado, ele passou por inúmeros atravessadores e processos. O coronavírus pode passar dias, horas, dependendo da superfície, e se manter no ambiente em uma determinada temperatura e umidade. Mas a gente sabe que, no processo de higienização e desinfeção, é possível combatê-lo”, considera. A nutricionista ressalta que essa higienização protege não apenas contra o novo coronavírus, mas também elimina outros micro-organismos perigosos, como outros vírus, bactérias e sujidades.

É preciso tomar cuidado especial com alimentos prontos, como os que chegam por delivery, por exemplo?

Karine explica que os alimentos que passaram por cocção têm potenciamente menos risco de contaminação, mas há cuidados que podem e devem ser tomados. “O serviço de delivery pode, sim, ser seguro, mas precisa ter um cuidado redobrado. Além da questão do cuidado do restaurante até chegar na nossa casa, a gente tem o cuidado da nossa casa em diante”, detalha.

Partindo do pressuposto de que, no local onde foi preparado, o alimento tenha recebido todos os devidos cuidados de segurança nutricional, ao receber pratos prontos por delivery é recomendável cuidar, principalmente, de dois aspectos: a embalagem e a temperatura da comida.

Karine recomenda descartar imediatamente a embalagem, de preferência num lugar diferente daquele onde o alimento será consumido. Caso a embalagem seja colocada numa superfície para que a pessoa se sirva, é importante, também, higienizar essa superfície depois.

A nutricionista também sugere que se faça um reaquecimento do alimento antes de consumi-lo, já que submeter o produto a alta temperatura pode minimizar os riscos de contaminação. “Muitos agentes de transmissão e doenças são sensíveis ao calor, e o processo de alta temperatura pode aumentar a segurança no consumo do alimento”, considera.

Aprenda mais sobre hábitos alimentares promotores de saúde

Consulte o Guia Alimentar para a População Brasileira, publicação gratuita do Ministério da Saúde.

Conheça fontes confiáveis de verificação de informações

Conheça a página “Saúde Sem Fake News”, do Ministério da Saúde. Veja os esclarecimentos sobre alho, café, chá de limão com bicarbonato, consumo de bebidas e alimentos quentes, alimentos alcalinos, água morna com sal, entre outros boatos.

Conheça também a página “Caçadores de mitos” da Organização Mundial da Saúde (OMS), na qual se desmente boatos sobre propriedades que teriam a pimenta, o alho e as bebidas alcoólicas na prevenção e tratamento do novo coronavírus (a página está em inglês).

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Preciso andar de ônibus, e agora?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 07 jul 2020 13:30 Data de Atualização: 10 jul 2020 13:19

Estamos há cerca de quatro meses em distanciamento social devido à pandemia de Covid-19. Nesse momento, muitos municípios estão retomando a circulação de ônibus urbanos. Em Florianópolis, por exemplo, os ônibus municipais e intermunicipais já voltaram a circular de segunda a sexta-feira, com várias restrições, como capacidade reduzida a 40% da lotação, uso obrigatório de máscaras e pagamento somente com cartão (veja outras cidades catarinenses que retomaram o transporte coletivo urbano).

O que essa volta representa? A professora dos cursos técnico e superior em Enfermagem do Câmpus Joinville do IFSC, Josiane Steil Siewert, alerta que o transporte público é um fator de risco à transmissão do coronavírus por promover a aglomeração de pessoas e pela dificuldade de se realizar a limpeza do veículo a cada troca de passageiros. No entanto, quem não pode prescindir do transporte público pode tomar alguns cuidados e minimizar os riscos.

Josiane destaca que, havendo necessidade de sair de casa, o transporte público não deve ser a primeira opção. A prioridade deve ser dada ao transporte individual, de carro, bicicleta ou mesmo a pé, que oferecem um risco menor de contaminação. “O transporte público não deve ser a nossa primeira escolha, pois nós podemos tomar todos os cuidados, mas muitas vezes, as pessoas que estão junto com a gente podem não ter toda essa precaução”.

Se realmente for necessário se deslocar de ônibus, alguns cuidados devem ser tomados:

  • - Se possível, escolha um horário alternativo, fora do horário de pico;
  • - Planeje o itinerário, para trocar o menos possível de transporte e fazer um trajeto menor;
  • - Utilize sempre a máscara e tenha uma reserva, para trocar no caso de a máscara ficar úmida e na volta para casa;
  • - Se possível, utilize o protetor facial ou para os olhos, pois os olhos são também passíveis de contaminação;
  • - Evite ao máximo tocar as superfícies do ônibus;
  • - Tente sentar à maior distância possível dos outros passageiros, principalmente evite sentar de frente para outras pessoas;
  • - Utilize álcool em gel após tocar as superfícies do ônibus;
  • - Ao chegar em casa, retire a roupa e os sapatos logo ao entrar e deixe-os em local separado;
  • - Passe as roupas utilizadas na rua e também as máscaras de tecido após lavá-las;
  • - Lembre-se de higienizar o celular ao chegar em casa, de preferência com álcool isopropílico, que não contém água;
  • - Se for necessário levar uma criança no ônibus, segure-a para que ela toque o menos possível nas superfícies e higienize as mãos da criança com álcool em gel.

A orientação de não levar as mãos ao rosto é uma das mais difíceis de cumprir, segundo Josiane. “Alguns estudos verificaram que fazemos esses movimentos pelo menos 20 vezes por minuto, seja para coçar o nariz, mexer no cabelo, todos movimentos inconscientes difíceis de evitar, por isso a importância da utilização do álcool em gel ao se tocar as superfícies do transporte coletivo e utilizar um protetor facial ou para os olhos”, aponta.

Janelas abertas ou fechadas?

Tanto a professora Josiane quanto o professor Jesué Graciliano da Silva, do curso técnico em Ar-Condicionado e Refrigeração do Câmpus São José do IFSC, concordam que deixar as janelas abertas é mais seguro que utilizar o ar-condicionado do ônibus, pois a troca de ar constante evita a disseminação do vírus.

Jesué explica que as empresas de ônibus estão sendo cobradas para que tomem providências para manterem as janelas abertas, o que pode ser um problema, pois em muitas cidades, as frotas foram totalmente climatizadas, como por exemplo Salvador. Em Florianópolis, a Prefeitura ordenou a retirada dos lacres das janelas de ônibus.

Já os fabricantes de ônibus alegam que os veículos seriam mais seguros que ambientes climatizados normais, pois permitem até 20 trocas de ar por hora (troca de todo o volume de ar dentro do veículo), enquanto um escritório climatizado, por exemplo, permite de cinco a 10 trocas de volume de ar a cada hora. Além disso, os ônibus precisam manter um sistema de filtragem de ar conforme determina legislação (NBR 15570-2009). “Do ponto de vista matemático, está dentro da norma. Porém, em um ambiente com ar condicionado, você não fica ‘colado’ nas pessoas. No Brasil, os ônibus saem lotados, e esse é um problema. Uma coisa é eu estar em um ambiente climatizado, onde eu posso ficar a dois metros de distância da pessoa. Outra é eu entrar no ônibus e ele estar lotado”, destaca o professor Jesué.

Outro problema apresentado pelo professor é a falta de fiscalização sobre a manutenção dos sistemas de ar condicionado no que diz respeito à filtragem de ar. “O vírus não tem asinha, então ele precisa pegar carona em pequenas partículas que ficam em suspensão no ar, e são filtradas pelo ar condicionado”, explica o professor. Segundo ele, com as janelas abertas, a diluição das partículas é maior.

Avião é seguro?

A troca de ar no avião é mais rápida que no ônibus ou trem, por exemplo. Além disso, o ar do avião é limpo por um instrumento chamado filtro de ar particulado de alta eficiência (Hepa, na sigla em inglês). Este sistema é capaz de capturar partículas menores do que aquelas que são capturadas pelos sistemas comuns de ar condicionado. 

No entanto, alerta Jesué, o avião também representa um risco por diversos fatores, como por exemplo a proximidade entre os passageiros ou a falta de tempo para higienização completa entre um voo e outro. Assim, o passageiro deve tomar os mesmos cuidados que em qualquer outro transporte coletivo.

Qual o futuro do transporte coletivo?

Maior cuidado com procedimentos de limpeza, com utilização de equipamentos mais modernos, como ultravioleta, deve ser incorporado à rotina das empresas de transporte coletivo, segundo os professores Josiane e Jesué.

Os fabricantes desses veículos também devem trabalhar em novos projetos para aperfeiçoamento dos sistemas de ar condicionado. É preciso lembrar que muitas medidas têm impacto econômico, como por exemplo a revisão da lotação dos veículos em circulação. Além disso, os próprios usuários do transporte devem adquirir os novos hábitos de higiene.

Saiba mais:

Para obter mais informações sobre ar condicionado e a pandemia de Covid-19, acesse o site preparado pelo professor Jesué Graciliano da Silva, com entrevistas com especialistas, estudos diversos e vídeos explicativos.

Confira as orientações da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para passageiros e empresas de transporte coletivo.

Veja também reportagem sobre estudos realizados na China e Estados Unidos. O estudo chinês analisou possível contágio por ar condicionado em um restaurante. Nos Estados Unidos, foram realizados estudos levando em conta as rotas de ônibus interestaduais e incidência do vírus.

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Como funcionam os testes que identificam o coronavírus no organismo?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 30 jun 2020 13:42 Data de Atualização: 30 jun 2020 14:00

Desde o início da pandemia do novo coronavírus, os órgãos de saúde divulgam com muita ênfase os principais sintomas da doença que foi nomeada como “Covid-19”: febre, tosse seca, dor de garganta e sensação de cansaço – além de, com menos frequência, perda do paladar e do olfato, dor de cabeça, erupções cutâneas e embranquecimento das pontas dos dedos. Em geral, a febre é o primeiro sinal de alerta, e a medição da temperatura corporal tornou-se prática corriqueira na entrada de qualquer espaço público, como forma de triagem.

Porém, os sintomas iniciais da infecção pelo novo coronavírus são muito semelhantes aos da gripe comum, dos resfriados tão típicos das estações frias e mesmo de alguns quadros alérgicos que acometem o sistema respiratório. Então, como se certificar de que um paciente com sintomas (ou mesmo assintomático) é portador do SARS-CoV-2?

Diferentes metodologias

A resposta está nos testes desenvolvidos especificamente para pesquisar a presença do novo coronavírus no organismo. No vídeo abaixo, o professor Paulo Henrique Calixto, que atua na área de Biotecnologia no Câmpus Lages e é doutor em Medicina Tropical e Infectologia, explica que o diagnóstico da Covid-19 pode ser feito, basicamente, por dois tipos de testes: os diretos e os indiretos.


No método direto, procura-se o vírus propriamente dito no organismo do paciente. Se o resultado dá positivo, isso significa que a pessoa que foi testada está com o vírus. O teste direto mais comum é o PCR, para o qual se extrai uma amostra da mucosa nasal do paciente, com uso de um “swab” (tipo de haste flexível com ponta de algodão).

O professor enfatiza que, pelo teste PCR, é possível identificar se o paciente está com o vírus no momento do teste. Esse teste não detecta anticorpos, então pelo PCR não é possível saber se eventualmente a pessoa já contraiu o coronavírus e se curou. Esse tipo de pesquisa para anticorpos ocorre com os testes indiretos, que são aqueles que procuram não o vírus propriamente, mas a presença de células de defesa no organismo do paciente.

Os chamados testes rápidos, que em abril tiveram a venda em farmácias e drogarias autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), são do tipo indireto. Em cerca de 30 minutos, eles identificam a presença de anticorpos para o coronavírus no material coletado. O professor Paulo Calixto ressalta que, nesse tipo de teste, não se pesquisa a presença do vírus, mas sim evidências de que o vírus tenha passado pelo organismo do paciente. Caso a pessoa apresente algum anticorpo contra o novo coronavírus, isso quer dizer que ela já teve contato com ele.

Por que existem testes falso-negativos?

Os testes rápidos têm um percentual de 20% a 30% de resultados falso-negativos, já que os anticorpos, em geral, só aparecem no sangue entre 7 e 14 dias depois da infecção. Por isso, o índice de falso-negativos é considerável: “Se, por acaso, eu me infectei hoje ou há sete dias, e se eu fizer uma sorologia, muito provavelmente ela vai dar negativa. Então eu vou receber um resultado negativo para a Covid e vou continuar as minhas atividades, continuar indo ao trabalho, convivendo com as pessoas e ao mesmo tempo transmitindo, porque eu sou portador mesmo não tendo sintoma nenhum. Essa é a grande desvantagem da sorologia”, detalha Paulo.

Em contrapartida, a sorologia é vantajosa para a realização de inquérito sorológico, ou seja, quando se busca saber quantas pessoas já se infectaram pelo vírus.

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Existe uma previsão para o fim da pandemia?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 23 jun 2020 09:59 Data de Atualização: 23 jun 2020 13:11

O anúncio de que se tratava de uma pandemia de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus (Sars-Cov-2), foi feito pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 11 de março de 2020. Desde então, há mais de três meses, o que todos querem saber é quando essa situação irá acabar.

No início deste mês, vimos a Nova Zelândia comemorar o fato de não ter mais casos ativos de coronavírus, tornando-se um dos primeiros países do mundo a voltar à normalidade pré-pandemia, suspendendo todas as restrições impostas para controlar a disseminação do vírus. No entanto, uma semana depois, dois casos voltaram a ser registrados e nos mostraram que a luz no fim do túnel pode não estar tão próxima.

Afinal, podemos falar de um fim da pandemia?

Segundo a epidemiologista e professora do curso de Enfermagem do Câmpus Florianópolis do IFSC, Vanessa Jardim, a resposta é sim, mas isso em termos de pandemia, já que a doença será algo presente nas nossas vidas. “A gente espera que sim, que haja um fim do estado de pandemia. Agora o fim da doença, o fim da disseminação da Covid-19 entre a população, é algo extremamente incerto de se dizer”, afirma a doutora em Enfermagem na área de Indicadores de Saúde.


A professora explica que conviver com a doença será uma realidade, mesmo que uma vacina seja desenvolvida. “Até hoje convivemos com surtos de Influenza, apesar de termos vacina e tratamento específico”, comenta ao relembrar a epidemia da Influenza, que também é uma síndrome aguda respiratória como a Covid-19.

Em que fase estamos no momento?

Nesta segunda-feira (22), a Organização Mundial da Saúde alertou que a pandemia continua acelerando no mundo e que seus efeitos serão sentidos por muitos anos. Mais de 8,8 milhões de casos de pessoas infectadas pelo coronavírus já foram reportados à OMS e mais de 465 mil pessoas morreram por causa da Covid-19 em todo o mundo.

Se você acompanha os noticiários, já deve ter visto diversas reportagens falando do pico da curva da doença. No mês passado, a Secretaria da Saúde de Santa Catarina revisou a data e projetou que o pico da pandemia do coronavírus no Estado deve ocorrer até o fim de junho. Se você está confuso achando que já leu ou ouviu que o pico seria em abril ou maio, a gente explica.

O pico da curva da doença muda, uma vez que ela se comporta de maneira diferente de acordo com as medidas que são tomadas no local para a contenção da circulação do vírus. A professora Vanessa revela que todo ciclo de uma doença infectocontagiosa ocorre em forma de curva ascendente, passando para um período de platô para depois começar a ser descendente. “Se são tomadas medidas para atrasar ou impedir a circulação extrema do vírus, a gente começa a ter um aumento do número de casos mais discreto e pode ser que não haja um pico ou que a gente não veja este pico”, afirma. 

De acordo com a epidemiologista, em Santa Catarina está havendo um comportamento semelhante entre os municípios de forma geral. No gráfico abaixo, extraído de uma aplicação on-line interativa desenvolvida por pesquisadores do Câmpus Lages do IFSC, é possível visualizar os casos confirmados de Covid-19 no estado:

 

Como é possível perceber, ainda estamos subindo na curva. “Não é pra ser alarmante, mas olhando do ponto de vista do ciclo da doença infecciosa e do ciclo epidemiológico, ainda estamos em um período ascendente”, ressalta Vanessa. A professora do IFSC alerta ainda que essa ascensão vem junto com o período de inverno, em que outras síndromes agudas respiratórias normalmente já acometem a população.

Quando chegaremos ao platô da curva?

A gente ainda não chegou ao estágio de platô na curva, que é quando grande parte da população já se contaminou e é possível contar com a resposta imunológica de forma que a doença não siga se espalhando. Mas é aí que está o grande problema da atual pandemia. “A gente ainda não conseguiu definir no padrão populacional qual é a resposta imunitária ao novo coronavírus”, explica Vanessa.

Para entender melhor a questão da curva da doença, assista à live realizada no canal do IFSC do YouTube com o tema “O que os números revelam sobre a pandemia no Brasil”

Como saber que chegamos ao fim?

Diferentemente de quando a OMS declarou que estávamos vivendo uma pandemia, a professora do IFSC afirma  que, provavelmente, não teremos um grande anúncio para avisar que chegamos ao fim desta situação. “Isso só vai acontecer se a gente encontrar uma vacina e aí é um processo bem longo: descobrir a vacina, produzir a vacina, tornar a vacina disponível para a população em escala global e aí podemos falar de um controle global da pandemia”, afirma. Neste post do IFSC Verifica abordamos a questão de por que é tão demorado produzir uma nova vacina.

Enquanto os cientistas não desenvolverem uma vacina para combater o novo coronavírus, o que deve ser feito é tomar medidas que evitem a circulação exacerbada do vírus, a contaminação excessiva da população e um número elevado de mortos.

Olhando para a história, temos exemplos muito diferentes de pandemias para buscarmos algum parâmetro que nos permita estimar um fim para a atual doença. O professor de história do Câmpus Jaraguá do Sul-Centro, Jean Raphael Zimmermann Houllou, elenca a gripe russa, do século XIX, e a gripe espanhola, do século XX, que foram datadas em poucos anos. Já a varíola teve seus primeiros registros inferidos aos faraós do Antigo Egito e assolou a humanidade durante milhares de anos até ser considerada erradicada apenas no final do século XX por meio da vacinação em massa. A cólera, por sua vez,  é uma doença ainda presente.

Se tiver interesse em saber mais sobre pandemias ao longo da história, suas consequências, curiosidade e, especialmente, o que podemos aprender com essa pandemia do coronavírus, escute este episódio do podcast do IFSC Ciência para Seus Ouvidos.

Quais variáveis interferem para chegarmos ao fim da pandemia?

A principal variável que nos permite vencer o coronavírus é a imunidade da população, ou seja, as pessoas estarem biologicamente protegidas do vírus. Segundo a epidemiologista do IFSC, essa imunidade pode ser conseguida pelo contato com o agente infeccioso de forma natural – que significa ser contaminado com a doença e gerar anticorpos – e a outra maneira é a vacina, porque a vacina induz o sistema imunológico a desenvolver uma defesa e, com isso, é possível proteger a população ao seu redor. 

Então por que não expor toda a população ao vírus?

É neste ponto que entra toda a discussão da capacidade do sistema de saúde. "Não dá pra fazer isso porque não temos condições de tratar os doentes e, como há muitos doentes entre os contaminados, isso seria eliminar conscientemente os indivíduos mais vulneráveis, o que não é ético nem tolerável”, destaca Vanessa, lembrando que alguns países pensarem nesse tipo de ação – como o Reino Unido - , mas recuaram porque não funcionou. Segundo a professora, em uma doença como a Covid-19, o único meio seguro para erradicar a doença é a vacina.

O que fazer até que se tenha uma vacina?

As estratégias de distanciamento social, testagem em massa, higienização das mãos e uso de máscaras são essenciais para conter ou diminuir a circulação do vírus enquanto não é possível tratar todos os infectados. “Isso com certeza alarga a curva epidêmica porque estaremos em um período maior sem imunidade ao vírus, mas também estamos contendo o número de doentes e mortos pela nova doença”, afirma Vanessa.

Enquanto cientistas no mundo todo estão atrás de uma vacina, você pode fazer sua parte para que a gente chegue o quanto antes ao fim da pandemia.

 

Em uma entrevista dada em abril, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, reforçou que o relaxamento de medidas de isolamento social ou quarentena não significa o fim da pandemia de Covid-19. "Queremos reforçar que relaxar restrições não é o fim da epidemia em país nenhum. Acabar com a epidemia vai requerer um esforço contínuo por parte de indivíduos, comunidades e governos para continuar a suprimir e controlar o vírus", afirmou.

Já posso visitar minha mãe e sair só com uns poucos amigos?

Esta é uma situação delicada, pois o que a OMS, o Ministério da Saúde e, no nosso caso, o Governo de SC e os municípios têm feito são recomendações de distanciamento social, evitar aglomerações e, se for possível, ficar em casa. Segundo a epidemiologista Vanessa, os estudos científicos têm apontado que a transmissão do coronavírus ocorre, principalmente, quando se está entre pessoas contaminadas (assintomáticas ou não) por um período muito longo. “Não deixa de ser uma escolha pessoal, mas muitas questões precisam ser avaliadas se alguém decide fazer isso, porque para transmissão do vírus é necessário contato”, comenta. 

De acordo com a professora do IFSC, algumas questões que tornam essa situação um pouco mais segura, se for necessário, é evitar o contato e fazer isso em ambientes abertos, evitando o compartilhamento de espaços, uma vez que esse tipo de contato pode gerar a transmissão do vírus. “Vale sempre a reflexão pessoal: se eu sou uma pessoa que preciso me expor constantemente por questões de trabalho ou atividades necessárias que eu realizo, eu vou querer expor meu familiar - membro de grupo de risco - ao meu contato sabendo que talvez eu tenha sido exposto ao vírus mesmo sem apresentar sintomas?”, destaca Vanessa.

Quando a vacina for descoberta, será vida que segue?

Se a descoberta de uma vacina pode representar o fim da pandemia em termos médicos, não podemos nos esquecer do que essa doença tem causado na sociedade como um todo - e não só em quem é contaminado ou atingido direta ou indiretamente pelo coronavírus. De acordo com a professora de Sociologia do Câmpus Criciúma, Sabrina Rosa Paz, as desigualdades sociais que sempre existiram e que estão sendo escancaradas neste momento, além de terem sido agravadas durante a pandemia, serão conservadas. 

Por isso, é difícil falar de um fim da pandemia em termos sociais. “A pandemia teve como efeito o que podemos chamar de uma aceleração de processos que já estavam em curso, como, por exemplo, o desemprego e o crescimento do trabalho informal e o aumento progressivo da educação a distância”, destaca Sabrina.

E o fim dos impactos econômicos?

Se por um lado estamos ansiosos aguardando a descoberta de uma vacina para podermos chegar ao fim da pandemia em termos de saúde, por outro, teremos um longo caminho de recuperação econômica pela frente. O professor da área de Gestão e Negócios do Câmpus São Miguel do Oeste, Felipe Cintra, menciona estudos feitos pelos organismos financeiros internacionais, como o FMI, e pelas agências de análise de riscos, que apontam a volta de um nível de atividade econômica similar ao que se tinha antes da pandemia a partir do primeiro semestre do ano que vem, mas isso em um cenário bem otimista e em termos globais. “Em outros cenários, temos relatos de que a gente pode demorar até 2023 para chegar ao nível de atividade econômica que tínhamos antes da pandemia”, afirma.

Ao analisarmos a situação econômica no Brasil, a previsão é ainda pior. “Quando você tem um ambiente de incerteza, não só do ponto de vista sanitário e global, mas também das regras do próprio funcionamento do país, que é o que acontece no Brasil, dificulta ainda mais responder. Pra cá, o próprio Banco Central vem trabalhando com um cenário de 2022 para 2023”, destaca o professor.

Para Cintra, é muito difícil responder quando vamos conseguir sair dessa pandemia.

Vida pós-pandemia

Muito tem se falado sobre como será a vida pós-pandemia e a certeza de que teremos um “novo normal”. Um hábito que deveria ser incorporado na nossa rotina, segundo a epidemiologista Vanessa, é a etiqueta respiratória:

Enquanto não existir uma vacina para o coronavírus, a professora de Sociologia do IFSC, Sabrina Paz, acredita que haverá uma “nova normalidade” com o estabelecimento de regras e medidas de proteção, especialmente, nos lugares públicos e ambientes de trabalho. A docente espera que, no período pós-pandemia, possamos pensar e agir de forma mais sistêmica.

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Cloroquina e hidroxicloroquina: esses medicamentos têm eficácia contra a Covid-19?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 09 jun 2020 14:23 Data de Atualização: 22 jun 2020 16:38

Um dos assuntos mais polêmicos ao se falar no combate à Covid-19 é o uso dos medicamentos cloroquina e hidroxicloroquina. No início da pandemia no Brasil, em meados do mês de março, foram anunciadas pesquisas com essas drogas no combate à doença, o que gerou uma corrida às farmácias por pessoas que queriam estocar o medicamento em casa, obrigando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a emitir resolução para que a venda dessas drogas fosse feita apenas com receituário médico especial.

Nos meses subsequentes, houve um esforço mundial para a realização de pesquisas com a substância. Como resultado, revistas científicas importantes, bem como a comunidade médica e científica, passaram a desaconselhar o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina para o tratamento da Covid-19 por não apresentarem resultados clínicos relevantes e terem muitos efeitos colaterais.

No Brasil e nos Estados Unidos, principalmente, o uso da droga virou questão política. O governo brasileiro chegou a emitir portaria recomendando o uso da cloroquina e hidroxicloroquina, desde que o paciente assine termo de responsabilidade. Laboratórios do Exército Brasileiro também passaram a produzir esses medicamentos.

Já no início da pandemia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou o Solidarity, um esforço conjunto mundial de pesquisa que busca acelerar a identificação de alguma droga que possa ajudar no tratamento da Covid-19, entre eles a cloroquina e a hidroxicoloroquina. No início de junho, a OMS afirmou que novas pesquisas serão feitas com a cloroquina e a hidroxicloroquina, inclusive a revisão de um artigo importante publicado na revista científica The Lancet. Porém, não há recomendação do seu uso no momento.

Para esclarecer esse assunto, conversamos com o médico Diego Vinícius de Magalhães, do Subsistema Integrado de Atenção à Saúde do Servidor (SIASS) do IFSC. Ele é reumatologista e tem experiência em receitar esses medicamentos, muito utilizados no tratamento de doenças imunomediadas, como artrite reumatoide e lúpus, e também no tratamento da malária. 

Diego reafirma a posição da comunidade médica, de que essas drogas não apresentam efeitos comprovados contra a Covid-19, e ainda alerta para o perigo da automedicação com substâncias que podem ter efeitos colaterais graves.

Veja em vídeo os principais trechos da entrevista.

Qual a diferença entre cloroquina e hidroxicloroquina?

Esses dois medicamentos foram desenvolvidos para o tratamento e prevenção da malária. A diferença entre eles está na química orgânica, sendo a cloroquina o medicamento mais antigo. As duas substâncias têm ação no sistema imunológico e por isso também são utilizadas no tratamento de doenças imunomediadas, ou seja, quando o sistema imunológico ataca o próprio organismo, como lúpus, artrite reumatoide, Síndrome de Sjögren, entre outras.

Outra diferença entre as duas drogas está na sua farmacodinâmica, como o tempo de excreção renal. A cloroquina tem mais chance de se depositar na mácula (estrutura do fundo do olho), principalmente para pessoas com problemas nos rins ou fígado e no uso prolongado do medicamento. 

Como essas drogas começaram a ser testadas para combater a Covid-19?

Os coronavírus, como uma “família” de vírus, são conhecidos desde a década de 1950. Em dezembro de 2019, foi descoberto na China o vírus Sars-Cov-2, que causa a doença Covid-19. Esse vírus, em pessoas que têm predisposição a desenvolver a forma mais grave, causa uma “tempestade de citocinas”, ou seja, uma resposta inflamatória do organismo, que resulta em disfunção de vários órgãos, como pulmão, rins e intestino. Em muitos pacientes, a doença evolui para uma pneumonia, e o paciente precisa ficar entubado.

Como a cloroquina e a hidroxicloroquina têm ação sobre o sistema imunológico, começaram a ser realizadas pesquisas com o vírus Sars-Cov-2. Observou-se em experimentos in vitro (em laboratório) que esses medicamentos diminuíram a capacidade do vírus de entrar em células humanas, dificultando a ação do vírus nessas células. Porém, quando foram realizados testes em pessoas doentes, não houve bons resultados.

Por que não podemos dizer que a cloroquina e a hidroxicloroquina são a cura para esse novo coronavírus? Como foram realizados os estudos com esses medicamentos?

Para afirmarmos que um medicamento tem uma ação comprovada no tratamento de uma doença precisamos realizar estudos controlados, randomizados, duplo-cego, com grupo controle, com uma metodologia bem trabalhada e com resultados positivos. Para cada tipo de medicamento existe um padrão de pesquisa e um tempo variado para o desenvolvimento. No caso da cloroquina e hidroxicloroquina, são medicamentos que já existem. O que se tentou foi observar se havia efeito sobre o Sars-Cov-2. No caso, os estudos que apontaram algum resultado foram estudos observacionais apenas, não houve um estudo de peso estatístico. 

Então, cientificamente, não existe um estudo sério, organizado e sem viés confirmando dados positivos tanto da hidroxicloroquina quanto da cloroquina. Observou-se, em estudos mais completos, (como o publicado no The New England Journal of Medicine) efeitos colaterais graves com o uso da hidroxicloroquina em altas doses, como arritmia cardíaca. Porém, não se observou diferença significativa na melhora dos pacientes. Então, no momento, não se tem evidência científica de que a hidroxicloroquina e a cloroquina curam ou tratam Covid-19. Há mais uma questão política que científica sobre o medicamento. Quando o Ministério da Saúde lançou um protocolo para uso da hidroxicloroquina, as sociedades médicas emitiram documentos dizendo que não há evidência científica. 

E assim como não há comprovação da eficácia do uso desses medicamentos no tratamento da Covid-19, também não se encontrou, até o momento, nenhum outro medicamento que possa ser utilizado. Entre todos os medicamentos que foram testados, um medicamento chamado Remdesivir, liberado nos Estados Unidos, foi o que apresentou melhor resposta, porém não conseguiu controlar as formas graves da doença.

Qual o perigo da automedicação com a cloroquina e a hidroxicloroquina?

Nós nunca devemos tomar um medicamento por conta própria. O medicamento deve ser prescrito após uma avaliação médica, porque um medicamento que faz bem para mim pode não fazer bem para outra pessoa. 

Assim como a definição da dosagem, os efeitos colaterais dependem da dose do medicamento e do peso da pessoa. Quando usado em dose alta ou associado a algum antibiótico, pode causar arritmia cardíaca grave. Os efeitos mais a longo prazo podem ser deposição na mácula do olho e diminuição da capacidade visual. Quem tem disfunção renal, mesmo tomando uma dose pequena, tem mais risco de ter uma arritmia. Quando esses medicamentos são utilizados por quem precisa, em uma dose correta, os efeitos colaterais são raros. 

Além disso, pode haver reações alérgicas ao medicamento, como fechamento da glote e lesão de pele, que é uma reação a um medicamento que a pessoa não está acostumada a tomar. Não só para Covid-19, mas para qualquer doença, a automedicação não é recomendada.

Quando surgiu a notícia de que a cloroquina e a hidroxicloroquina poderiam ter algum efeito positivo em relação à Covid-19, houve uma corrida às farmácias, com excesso de prescrição, já que esses medicamentos não exigiam receituário de controle para ser adquirido. Essa busca exagerada casou outro problema grave, já que muitas pessoas que utilizavam esse medicamento para outras doenças (como lúpus e artrite) acabaram ficando sem medicação.

Como é o tratamento contra a Covid-19, em casos leves e graves?

Em relação à Covid-19, 85% dos infectados não vão ter sintomas, ou vão ter sintomas leves, como tosse seca, coriza, falta de ar leve, indisposição, febre, dor no corpo, parecido com uma gripe. Porém, assim como a gripe, não há medicamento que combata o vírus, ao contrário das infecções bacterianas, tratadas com antibiótico.

Nos sintomas leves, é orientado que a pessoa faça repouso, se mantenha em isolamento por 14 dias, faça hidratação e tome remédio para febre. Nos casos mais graves, que exige hospitalização e até mesmo ventilação mecânica, há cuidados intensivos de UTI, mas não há um medicamento eficaz para ser utilizado nesse caso.

Existe algum alimento ou bebida que possa ser usado na prevenção da Covid-19? Há boatos que a água tônica, um refrigerante à base de quinino, possa ter esse efeito.

Não há nenhum estudo que diga que tomar água tônica ou qualquer outro alimento com quinino em sua composição vá prevenir ou curar a Covid-19. O que se orienta, e que há comprovação de eficácia, é a prevenção: isso inclui a etiqueta de tosse e espirro, utilizar máscara quando sair à rua, lavar as mãos corretamente com água e sabão ou utilizar o álcool em gel e, é claro, manter o distanciamento social sempre que possível.

Outra medida que você pode tomar é ter uma alimentação saudável, com alimentos mais naturais, fortalecendo o organismo como um todo. Porém, não existe um único alimento que vá prevenir ou curar a Covid-19. É importante sempre que buscar informações, procure fontes confiáveis, como seu médico ou canais oficiais de órgãos de saúde.

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IFSC VERIFICA

Por que é tão demorado produzir uma nova vacina?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 02 jun 2020 13:33 Data de Atualização: 02 jun 2020 14:15

Você já deve ter ouvido que prevenir é melhor do que remediar, certo? Pois saiba que esse ditado não é apenas sabedoria popular. É fato: no caso das doenças transmitidas por vírus e bactérias, evitar sua incidência por meio das vacinas é considerado mais indicado do que o tratamento por meio de medicamentos. Ou seja, é melhor prevenir o aparecimento da doença – com uma vacina – do que ter que tratar os doentes com remédios.

Desde que os primeiros casos de Covid-19 surgiram, no final de 2019, o rápido alastramento da doença viral altamente contagiosa desencadeou uma corrida pelo desenvolvimento de uma vacina que proporcione imunização contra o vírus SARS-CoV-2. Em abril, a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou um programa de pesquisa e desenvolvimento que une 20 países no esforço pela disponibilização da vacina contra o novo coronavírus o mais rapidamente possível, de modo a conter a pandemia (leia, em inglês, o pronunciamento público do grupo). 

Mas se já existem vacinas contra outros tipos de vírus, não deveria ser mais simples produzir uma vacina nova?

A gente fez essa pergunta para a professora Rosane Schenkel de Aquino, que é farmacêutica bioquímica e dá aulas de disciplinas como Microbiologia, Imunologia e Toxicologia no Câmpus Lages. Ela explica que não há “receita” pronta, já que para se produzir uma vacina é preciso, primeiro, conhecer as especificidades do vírus para o qual se está buscando a imunização. 

“Cada vírus tem uma característica diferente. Ele pode ser da mesma família de um outro, mas ter uma forma de ligação diferente, produzir uma proteína, um gene diferente, e isso pode deixá-lo mais agressivo ou menos agressivo”, exemplifica. Isso ocorre mesmo dentro de vírus de uma mesma família, como é o caso dos vários coronavírus. 

Quais são os passos para o desenvolvimento de uma vacina?

De acordo com Rosane, conhecer o vírus permite que se entendam os mecanismos pelos quais ele funciona – por exemplo, identificar, por meio do DNA ou do RNA, que componentes induzem o sistema imunológico do organismo infectado e produzem uma quantidade suficiente de anticorpos para gerar a imunização. É preciso também identificar, nesse estágio inicial, quais as células que o vírus infecta no ser humano e, além disso, os tipos de ligação que ele faz com essas células. No caso do SARS-CoV-2, ele infecta células pulmonares; já o HIV, por exemplo, infecta as células do sistema imunológico. São mecanismos de ação diferentes.

Os testes iniciais, explica Rosane, geralmente são feitos em células de cultivo – que são produzidas a partir de tecidos vivos especialmente para experiências de laboratório. A partir desse estágio parte-se para os testes em animais, que ainda são controvertidos, e somente depois para os testes em seres humanos. De acordo com a OMS, já estão em estágio de avaliação clínica – ou seja, em estudos com seres humanos – dez candidatas a vacinas contra o novo coronavírus. Outros 115 estudos encontram-se no estágio de avaliações pré-clínicas (a lista completa, em inglês, pode ser consultada no site da OMS).

Quando devemos ter uma vacina contra o novo coronavírus?

Desde o início da pandemia, as autoridades de saúde têm repetido que não haveria perspectiva de vacina contra o causador da Covid-19 em menos de dois anos. Contudo, com a divulgação de resultados positivos nos primeiros testes realizados em seres humanos por uma empresa norte-americana, em maio, alguns veículos de comunicação já falaram na possibilidade de uma vacina no final de 2020 ou início de 2021. 

A professora Rosane Schenkel de Aquino considera que é muito difícil fazer essa estimativa com precisão. Segundo ela, algumas vacinas das que temos hoje disponíveis exigiram décadas de pesquisa entre a descoberta do patógeno e a oferta de imunização para a população. Um aspecto que toma muito tempo das pesquisas, explica, é o processo de avaliação da segurança da substância. “Para que se tenha certeza de que a vacina é segura, isso envolve acompanhar os pacientes testados por mais tempo, para saber se houve efeito colateral, se o paciente adoeceu ou apresentou algum sintoma diferente”, ressalta.

Além disso, após a “descoberta” da vacina propriamente dita, no caso de uma pandemia em curso como a que vivemos hoje, há a necessidade de garantir que ela chegue ao maior número de pessoas possível, de forma rápida. Ou seja, é preciso que a fabricação entre em escala industrial na produção e na distribuição.

Qual o papel do Brasil nas pesquisas em torno de uma vacina para a Covid-19?

O Brasil não compõe o grupo de 20 países que integram a cooperação internacional capitaneada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em busca da vacina contra o novo coronavírus – o único representante da América do Sul na iniciativa é a Argentina.

Porém, há uma vacina contra o SARS-CoV-2 em desenvolvimento na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), centenária instituição de ciência e tecnologia em saúde vinculada ao governo federal e sediada no Rio de Janeiro. Isso é relevante, segundo Rosane, porque as características do vírus podem sofrer algum tipo de mudança entre um lugar e outro. “Isso não quer dizer que uma vacina produzida na Europa não vá funcionar no Brasil. Mas ter uma produção de vacina local, que considere as características do vírus circulante, teoricamente é mais eficiente”, detalha. 

As vacinas são capazes de erradicar doenças?

Sim. Isso já aconteceu com a poliomielite ou paralisia infantil, que é considerada erradicada no Brasil desde 1989. Em nível global, a varíola também foi uma doença viral que a OMS considerou erradicada em 1979 (leia, em inglês, sobre a comemoração dos 40 anos desse feito). O Brasil já chegou a receber certificação de erradicação do sarampo, mas a baixa procura pela vacinação abriu a brecha para o surgimento de um surto da doença em 2018. Hoje a vacinação contra o sarampo é recomendada tanto para crianças quanto para adultos.

Em muitos casos, o fato de uma doença “desaparecer” pode gerar a falsa impressão de que não é mais necessário se vacinar. Notícias falsas difundidas sobre supostos efeitos colaterais da imunização, não apenas no Brasil, também são apontadas como responsáveis pela queda na procura pela vacinação e a reincidência de doenças controladas, como é o caso do sarampo.

Esse foi um dos assuntos discutidos numa recente live do projeto “O cuidar em evidência”, coordenado por professoras dos cursos de Enfermagem dos câmpus Florianópolis e Joinville (a gravação está disponível no canal IFSC Enfermagem).

Na conversa conduzida pela coordenadora do bacharelado em Enfermagem do Câmpus Joinville, professora Betina Barbedo, a enfermeira Sandrine Teuber e a infectologista Magali Chaves Luiz lamentaram o grande prejuízo que as notícias falsas sobre as vacinas provocam na sociedade e ressaltaram a importância de que todas as pessoas busquem imunização junto à rede pública de saúde. Até porque o Programa Nacional de Imunização brasileiro, que foi implantado nos anos 1960, é reconhecido como um dos mais eficientes do mundo.

E enquanto não tem vacina para a Covid-19?

Até que surja uma imunização eficiente, segura e acessível a todos, as recomendações para evitar o contágio pelo novo coronavírus são aquelas que não custa repetir: manter as mãos sempre muito bem higienizadas, com água e sabão ou álcool 70; evitar aglomerações; usar máscara de tecido em ambientes coletivos; manter distância de segurança das outras pessoas; respeitar o distanciamento social dentro das normas de seu município; e, sempre que possível, ficar em casa.

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IFSC VERIFICA

Como a informação pode ajudar a conter uma pandemia?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 26 mai 2020 08:53 Data de Atualização: 26 mai 2020 10:21

Olá! Estamos felizes por apresentar a você o IFSC Verifica, uma ação de extensão que pretende contribuir para o esclarecimento sobre questões relacionadas à pandemia de Covid-19. 

Até dezembro, nossa equipe irá identificar as principais dúvidas dos nossos públicos sobre os mais variados aspectos da pandemia, buscando as respostas junto aos pesquisadores aqui mesmo do IFSC. A ideia é reconhecer, valorizar e aproveitar os saberes dos nossos docentes e técnicos, dando visibilidade ao conhecimento científico produzido pelos servidores da instituição. 

As questões que surgem quando se fala na pandemia de uma doença viral, como é o caso da Covid-19, num primeiro momento podem conduzir automaticamente à área da saúde. Mas muitas outras áreas do conhecimento podem ser acionadas para compreender a grande variedade de aspectos da pandemia, como a psicologia, a nutrição, a tecnologia da informação, a pedagogia, a química, a comunicação, as muitas engenharias, a biotecnologia, a estatística. É um imenso número de saberes contemplados no universo de formação dos nossos pesquisadores.
 


Como participar?

Semanalmente, iremos escolher uma questão enviada pelos nossos públicos por meio das mídias sociais oficiais do IFSC ou pelo e-mail do projeto (verifica@ifsc.edu.br). Não iremos identificar o autor da pergunta, até porque imaginamos que várias pessoas possam fazer encaminhamentos semelhantes – o que, inclusive, vai nos ajudar a perceber a relevância de cada tema.

Com a pergunta formulada, vamos acionar as fontes do IFSC dentro das especialidades necessárias para buscar uma resposta qualificada e clara. Essa resposta será publicada na página do IFSC Verifica, compondo um banco de informações que poderá ser consultado a qualquer momento, na medida em que as postagens se sucederem. 

Que tipos de questões serão respondidas?

Aqui no IFSC Verifica nossa expectativa não é apenas desmentir boatos ou denunciar conteúdo malicioso disseminado com intenção de tumultuar e confundir. Queremos também esclarecer questões que talvez pareçam simples, pueris, ou mesmo retomar aqueles temas que já podem ter sido abordados com bastante frequência, mas ainda despertam algum tipo de dúvida.

Perguntar sempre é válido!

Uso de máscaras, efetividade do álcool em gel, hábitos de higiene e limpeza, formas de contágio, orientações para o dia a dia; ou mesmo dúvidas mais técnicas sobre a forma como o vírus age no organismo, funcionamento de equipamentos hospitalares, fabricação de medicamentos; ou, ainda, questões amplas como os riscos do sentimento de solidão durante o isolamento social. 

Nós sempre vamos procurar diretrizes para responder às muitas questões sobre a pandemia de forma qualificada. Quando, eventualmente, não encontrarmos respostas dentro do IFSC, vamos recorrer a outras fontes, como universidades, institutos federais, instituições de pesquisa e organismos oficiais. O objetivo é encontrar informação qualificada, que parta de fontes confiáveis e devidamente identificadas.

Você já ouviu falar em fact-checking?

Nossa inspiração para o projeto IFSC Verifica vem da prática jornalística conhecida como fact-checking, ou checagem de fatos, que não é propriamente nova, mas vem ganhando visibilidade nos últimos anos.

O site independente FactCheck.org é reconhecido como a primeira iniciativa de fact-checking, lançado em 2003 pelo jornalista norte-americano Brooks Jackson. Com a escalada da desinformação e suas diversas manifestações – como as conhecidas “fake news” -, muitas outras organizações passaram a atuar com fact-checking, seja verificando a precisão das declarações de pessoas públicas (como chefes de estado, candidatos a cargos eletivos e lideranças políticas), seja desmentindo boatos e lendas urbanas que se disseminam pela internet.

No Brasil, algumas dessas iniciativas são o projeto Truco, a Agência Lupa, a Aos Fatos e o projeto Comprova. No âmbito global e voltada especificamente para o cenário da Covid-19, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou há alguns dias o projeto Verified, que vai atuar especificamente no combate à desinformação sobre a pandemia de coronavírus, por meio de newsletter para assinantes.

São duas pandemias para combater, então vamos lá

Convidamos você a compartilhar conosco suas inquietações e nos comprometemos a buscar respostas confiáveis, qualificadas e o mais precisas possível. A informação é uma das armas para acabar com essa pandemia – e de quebra vamos contribuir também para enfrentar outra pandemia grave e desafiadora, que é a da desinformação. Venha conosco!

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IFSC VERIFICA

A imunidade coletiva pode acabar com a pandemia?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 22 set 2020 09:46 Data de Atualização: 23 set 2020 09:45

Enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) sempre recomendou o distanciamento social como forma de conter a pandemia do coronavírus até que se tenha uma vacina, alguns países cogitaram o uso da estratégia popularmente conhecida como imunidade de rebanho. O assunto gera controvérsia entre especialistas. Seria possível aguardar até que uma parte da população fosse contaminada para que a situação passasse a ser naturalmente mais segura para todos?

No post desta semana, vamos abordar as seguintes questões:

- O que é imunidade de rebanho?
- A estratégia de imunidade coletiva pode ajudar no controle da pandemia?
- O que é a taxa de transmissão?
- Quem já teve a Covid-19 fica imune?

Imunidade coletiva e imunidade de rebanho são a mesma coisa?

Sim, mas o termo científico correto é imunidade coletiva ou imunidade natural, que representa o processo em que um grande número de pessoas numa população já adquiriu anticorpos contra uma doença. “Se muitas pessoas da população possuem anticorpos contra a doença, elas param de transmitir para outras e, então, essa cadeia de transmissão é diminuída”, explica a professora do curso de Enfermagem do Câmpus Florianópolis Suelen dos Santos Saraiva, enfermeira e mestra em Saúde Pública. “Quanto mais pessoas imunes eu tiver na população, menor vai ser a transmissão dessa doença”, enfatiza.

Quando o nosso corpo entra em contato com uma doença, ele cria anticorpos. “Os anticorpos de memória fazem com que nosso corpo saiba como lidar com aquela doença e nos proteja daquilo”, afirma Suelen. Em algumas doenças, essa imunidade é vitalícia, ou seja, quem teve uma vez não contrai novamente. Mas, em outras, os anticorpos criados têm um prazo dentro do nosso organismo até pela modificação do vírus, o que faz com que a gente tenha que tomar vacinas periodicamente - como é o caso do vírus H1N1, cuja campanha de vacinação ocorre todo ano.

Imunidade natural X Imunidade pela vacina

A imunidade coletiva pode ocorrer naturalmente, quando se contrai a doença, ou por meio de vacinação. A professora do IFSC ressalta que a vacina é feita de uma forma controlada. “Mesmo que a vacina utilizada seja feita com vírus vivo, ela nunca vai ter a mesma força se eu pegasse a doença realmente”, pondera.

O que indica a necessidade de uma vacina é o potencial de contaminação da doença. “Temos que considerar como esse vírus circula e o quão rápido ele circula na população”, fala Suelen. No caso da Covid-19, esse potencial de transmissão é muito grande, como os números de novos casos e de óbitos comprovam. “É isso que vai me dizer que a população sozinha não vai conseguir se proteger contra esse agente infeccioso e a gente precisa de uma vacina para proteger a população”, afirma.

Como já explicamos neste post, o processo de fabricação de uma vacina é demorado. Enquanto o mundo inteiro espera esse momento que deve marcar o fim da pandemia do coronavírus, por que não deixar o vírus circular livremente entre as pessoas para que possamos nos tornar imunes e a transmissão possa definhar naturalmente?

Este debate vem sendo travado desde o início da pandemia. O Reino Unido chegou a cogitar essa estratégia de imunidade coletiva, mas recuou. A Suécia foi na contramão dos vizinhos europeus e apostou na “imunidade de rebanho”, não restringindo a circulação de pessoas. Resultado: em junho, era o segundo país da Europa com mais casos de contaminação por habitante.

Quem critica a adoção dessa estratégia aponta justamente o risco ao qual a população é exposta. A professora do IFSC é uma das que não concorda com a ideia de deixar as pessoas criarem naturalmente esta imunidade coletiva para conter a pandemia. “No momento em que você não toma medidas restritivas para uma doença que tem uma grande propagação, uma grande probabilidade de contaminação, você está deixando a população inteira suscetível a essa doença e a chance dela adoecer e dela morrer por isso é muito grande”, alerta.


Quantos infectados são suficientes numa população para que os imunes impeçam a circulação do vírus?

Cada doença tem uma taxa de transmissão chamada de R que é calculada usando modelos matemáticos. A professora de matemática do Câmpus Gaspar Vanessa Oechsler explica que o chamado R zero(R0) seria a taxa inicial, ou seja, quantas pessoas alguém que está contaminado pode infectar sem qualquer medida de combate. “Pesquisadores indicam que o R0 da Covid é de 2,4 a 3,3 - o que isso significa que uma pessoa passa o vírus a outras 2 ou 3”, afirma.

No livro “As regras do contágio: Por que as coisas se espalham — e porque param”, o epidemiologista Adam Kucharski define quatro parâmetros que são utilizados para a elaboração da taxa de contágio: 1) Duração da infecciosidade, 2) Oportunidade: com quantas pessoas o infectado teve contato, 3) Probabilidade de transmissão: quando duas pessoas de encontram, qual a probabilidade do vírus ser transmitido de um para o outro, e 4) Suscetibilidade: quão provável é que a pessoa contraia o vírus. “Esses parâmetros são traduzidos em números que são multiplicados e geram a taxa de transmissão”, explica Vanessa.

No Brasil, essa taxa tem variado. De acordo com o monitoramento feito pelo Imperial College London, que se tornou uma referência internacional em pesquisas sobre a Covid-19, a taxa em abril no nosso país chegou ao seu maior patamar de 2,81 e, em agosto, caiu para 0,94 - o menor índice até então desde o início do monitoramento. No entanto, o número de reprodução do novo coronavírus no Brasil voltou a subir para o patamar 1 na semana iniciada em 23 de agosto. “O ideal é que a taxa seja menor do que 1, o que indica que cada vez menos indivíduos se infectam e o número dos contágios retrocede”, aponta a professora de matemática.

Segundo o painel de dados da Fiocruz, dados de 20 de setembro - os mais recentes até a publicação deste post - apontam que a taxa de transmissão no Brasil e em Santa Catarina estava em 0,7.

Gráfico da Fiocruz mostrando a evolução de RT no Brasil e em SC

“É a partir dessa taxa que se estima o percentual de pessoas que deveriam estar imunizadas na população para que a gente possa ter a imunidade coletiva”, explica Suelen. Cada doença tem um valor diferente. Segundo a professora do curso de Enfermagem, de acordo com os estudos que se tem hoje, no caso da Covid-19, entre 60% e 75% da população deveria ter anticorpos contra o vírus para se pensar na imunidade de rebanho.

No entanto, ela menciona também um estudo publicado em julho na plataforma medRxiv que estimou que o limiar de imunidade coletiva ao novo coronavírus pode ser alcançado em uma determinada região se algo entre 10% e 20% da população for infectada. “Mesmo se for se pensar em 20%, é muita gente com risco de ficar doente e morrer”, diz Suelen. “É tudo muito novo, então a certeza só vai vir com a vacina, com uma imunidade garantida de uma forma não prejudicial à população”, afirma.

Na ilustração abaixo, adaptada de um estudo internacional publicado na Immunity, é possível entender melhor visualmente como funcionaria a imunidade coletiva:

 

Infográfico mostrando como funciona a imunidade de rebanho na população

A professora destaca que, conforme os estudos da doença têm apontado, cerca de 80% das pessoas infectadas têm sintomas leves - isso sem contabilizar o grande número de pessoas assintomáticas, ou seja, que possuem o vírus e nem sabem.

-> Qual a diferença entre doentes assintomáticos, pré-sintomáticos e sintomáticos?

Outros 20% da população que pegam o coronavírus precisam de algum tipo de auxílio médico e 5% dessas pessoas vão precisar de um leito de UTI. “Parece que é pouco, mas dentro do número de pessoas que estão ficando doentes, acaba sendo muito”, alerta Suelen.

-> Como funciona uma Unidade de Terapia Intensiva?

A lógica de uma imunidade adquirida por vacina é diferente. “Na vacina, você coloca esse patógeno na pessoa para que ela adquira os anticorpos, mas você coloca isso de uma forma enfraquecida, então a pessoa não vai ter a doença realmente, não vai sofrer com todas as consequências assim como as pessoas que ficariam aguardando a imunidade de rebanho que poderiam sim ter formas grave da doença e acabar tendo complicações e até mesmo óbito”, analisa a professora. “Não tem como neste momento a gente pensar em imunidade de rebanho justamente pela gravidade da doença e pela história que ela está apresentando na população”, reforça Suelen.

Outro ponto a se considerar é a taxa de letalidade da doença. Segundo dados do Ministério da Saúde, esse índice no Brasil, no dia 21 de setembro, foi de 3%. Em Santa Catarina, de acordo com boletim divulgado pelo Governo do Estado também em 21 de setembro, o índice ficou em 1,29%. Este número indica qual a proporção dos doentes que acabou morrendo em decorrência da doença. “A taxa de letalidade parece ser pequena, mas ela é alta dentro das características da doença, justamente porque a Covid-19 ainda está muito permeável na população e se disseminando com muita facilidade, o que faz com que as chances de muitas pessoas irem a óbito aumentem”, explica a professora.

Já peguei Covid-19. Estou imune?

Enquanto mais de 137 mil pessoas já foram a óbito por causa da Covid-19 no Brasil, o Ministério da Saúde contabiliza cerca de 3,8 milhões de casos recuperados na data de publicação deste post. Algumas pessoas que já tiveram a doença respiram aliviadas achando que estão imunes ao vírus e não poderão contraí-lo novamente. No entanto, a situação ainda não pode ser encarada desta forma.

“No caso da Covid-19, não se tem nenhum estudo ainda que consiga dizer realmente que existe uma imunidade adquirida e por quanto tempo essa imunidade é adquirida”, alerta Suelen. Segundo a professora, pesquisas têm buscado comparar o SARS-CoV-2 com outros tipos de coronavírus que apontam imunidade de 40 dias até três meses. Casos recentes - embora ainda raros - de reinfecção pelo coronavírus colocam essa imunidade adquirida ainda mais em xeque. “Não se tem noção de por quanto tempo essa imunidade vai ser adquirida”, ressalta Suelen.

Além disso, mesmo considerando uma imunidade temporária de quem já teve a Covid-19, a pessoa pode transmitir o vírus por meio de contato com superfície contaminada - como a professora Ângela Kirchner, também do curso de Enfermagem do Câmpus Florianópolis, explicou neste vídeo no post que já fizemos sobre doentes assintomáticos, pré-sintomáticos e sintomáticos.

A incerteza em relação a essa imunidade adquirida por quem já teve a doença fragiliza ainda mais a estratégia de imunidade coletiva. “Ao seguir a linha da imunidade de rebanho, você está deixando uma população suscetível a uma doença, deixando que aquele vírus circule sem ter uma garantia de sucesso lá no final”, destaca a professora Suelen. “Os pesquisadores têm estudado pra ver como tudo isso pode se dar, mas não se tem exatamente uma informação 100% fidedigna, uma evidência científica forte que fale quanto tempo tudo aquilo vai durar, então é muito difícil você apostar nesse tipo de ação para essa doença”, afirma.

Suelen reforça que os cuidados para evitar a transmissão devem ser mantidos inclusive por quem já testou positivo para a doença. ”Nesse tipo de doença, você tem que pensar em si e no outro, porque você pode estar se cuidando, mas precisa cuidar do outro”, avisa. 


O que pode acabar com a pandemia?

O que deve acabar com a pandemia é a imunidade coletiva da população, mas adquirida por meio da vacinação em massa. “Essa imunidade é que dá segurança para a população porque temos controle do que vai acontecer”, afirma Suelen.

Citação da professora Suelen: "Com o que se tem posto hoje, a imunidade coletiva só vai se dar por meio da vacinação."

> Existe uma previsão para o fim da pandemia?

Até lá, as recomendações para diminuir a proliferação do vírus seguem sendo o distanciamento social, o uso de máscaras e a higienização frequente das mãos. “O ideal realmente seria manter o isolamento enquanto a gente não tiver uma vacina eficaz para esse vírus porque realmente ele é muito agressivo e você ainda não tem uma garantia de por quanto tempo essa imunidade vai durar”, orienta Suelen.

Quer saber mais sobre o que abordamos neste post?

- A busca por um modelo matemático para descrever a dinâmica da Covid-19
- Entrevista da epidemiologista Maria Van Kerkhove da OMS em 19 de agosto comentando que os estudos sobre a resposta imunológica de quem contrai Covid-19 ainda não estão claros (veja no trecho a partir da marcação de tempo 47’15”)
- Live da Associação Brasileira de Saúde Coletiva sobre a imunidade coletiva
- Painel de dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em que é possível acompanhar a taxa de transmissão a nível nacional 

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Qual a melhor forma de medir a temperatura do corpo?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 04 ago 2020 14:33 Data de Atualização: 21 set 2020 09:36

A medição da temperatura corporal das pessoas que circulam em espaços públicos, como estabelecimentos comerciais, clínicas, transporte coletivo ou mesmo em barreiras sanitárias, é uma das medidas preventivas adotadas em todo o mundo para evitar a propagação do novo coronavírus. Em Santa Catarina, cada município detalha as regras para esse procedimento. No caso de Florianópolis, por exemplo, as pessoas que estejam com temperatura acima de 37,8 graus devem ser impedidas de entrar nos estabelecimentos e encaminhadas ao serviço Alô Saúde (conheça essa e outras normas no Decreto Municipal 21.459).

O equipamento mais utilizado nesses contextos é o termômetro digital de infravermelho, que permite a aferição da temperatura sem que haja contato físico entre a pessoa examinada e quem opera o aparelho. Há, contudo, diferentes tipos de termômetros. Além do infravermelho, em evidência neste momento de pandemia, há também os termômetros digitais e os de mercúrio – estes últimos, em processo de obsolescência. Independentemente do tipo de termômetro que se utiliza para aferir a temperatura do corpo e identificar se há ou não um processo febril, é importante saber a forma correta de utilizar o equipamento e também os contextos em que é necessário verificar a febre.

Nós conversamos com dois pesquisadores do IFSC para este post e vamos abordar as seguintes questões:

- Entender o que é febre, o que ela pode indicar e como proceder para baixá-la;
- Identificar os diferentes tipos de termômetros e como utilizá-los corretamente para fazer a aferição da temperatura corporal.

O que é a febre? O que ela indica?

O professor Inácio Alberto Pereira Costa, que atua na área de Saúde no Câmpus Florianópolis, explica que a febre geralmente indica uma reação do organismo a algum tipo de infecção. A temperatura média corporal costuma variar entre 36 e 37,3 graus Celsius. Mais do que isso caracteriza a febrícola (até 37,8 graus), a febre (acima de 37,8 até 39 graus) e a febre alta (mais de 39 graus). 

Ao se constatar a ocorrência de febre com uso de um termômetro, deve-se observar se há outros sintomas associados a ela – no caso da Covid-19, os mais comuns são tosse, falta de ar, falta de paladar e cansaço, de acordo com o professor, que é doutor em Enfermagem. Ele enfatiza também que é importante sempre procurar orientação médica em caso de febre, evitando, principalmente, a automedicação. “Muitas vezes a febre é um dos sintomas de alguma condição clínica que demanda um tipo específico de medicamento, e não outro. Por isso o recomendado é só tomar medicamentos para baixar a febre com orientação médica, respeitando a dose e a frequência”, explica.

Outro alerta que o professor faz é que nem sempre um aumento da temperatura do corpo significa febre. Há alterações de temperatura que são aceitáveis em condições normais. Após a prática de atividades físicas, por exemplo, é comum que haja uma oscilação. Mulheres em período fértil também costumam ter a temperatura corporal elevada. 

Como medir corretamente a temperatura corporal?

Identificar se há febre apenas pelo contato da mão ou do pulso com o rosto da pessoa examinada pode ser válido apenas como uma primeira “impressão empírica” do problema, mas não é recomendável, de acordo com o professor Inácio Costa. “Numa primeira impressão empírica, você pode sentir alguma alteração na temperatura da pessoa. Mas é preciso fazer a aferição com uso de um termômetro para mensurar a temperatura, identificar se há febre, se é alta ou não, e proceder dependendo do caso”, recomenda.

O indicado para situações em que há suspeita de febre é fazer a aferição com uso de um termômetro digital, que é encontrado facilmente nas farmácias e tem preço acessível. Basta seguir as instruções do fabricante, “zerando” o termômetro e colocando o aparelho sob a axila da pessoa examinada. Após o tempo necessário para a aferição, o termômetro emite um sinal sonoro e mostra, no visor digital, a temperatura do paciente. O professor Inácio Costa salienta que, antes e após o uso, é importante higienizar o aparelho com álcool.

Outro ponto a observar é que a medição será mais precisa com o paciente examinado em repouso há pelo menos cinco minutos, num ambiente confortável. A oscilação da temperatura do ambiente pode causar imprecisões nas leituras – inclusive indicando temperatura menor que 36 graus.

Sempre é preciso fazer algo para baixar a febre?

A febre indica que o organismo está reagindo a algum agente infeccioso, mas tomar providências para baixá-la não implica que isso force o organismo a deixar de reagir. “Pelo contrário, baixar a febre ajuda o organismo a atuar nesse processo de defesa, a trabalhar para combater a infecção”, esclarece. Além de medicamentos específicos com função antitérmica, com orientação médica, é possível também adotar procedimentos como banho morno ou compressas de água fria no corpo para baixar a temperatura.

Controlar a febre é essencial principalmente nos casos de temperaturas acima de 39 graus, que caracterizam a febre alta. Nesse tipo de situação é preciso necessariamente de acompanhamento médico numa unidade de saúde. 

Quais os tipos de termômetros existentes no mercado, hoje? Existe algum mais recomendado?

São três tipos de termômetros utilizados para medir a temperatura do corpo. Os digitais de infravermelho, que se popularizaram com a pandemia do novo coronavírus, são o modelo mais caro, mas tem algumas vantagens. “Uma delas é que o termômetro infravermelho permite que se faça a aferição da temperatura sem contato físico. Além disso, a medição leva apenas alguns segundos”, esclarece Inácio Costa. Os termômetros digitais são os mais recomendados para uso doméstico: são acessíveis e de simples operação, além de serem também precisos. “O termômetro digital exige contato. Ele é posicionado na axila do paciente e manuseado por quem vai fazer a leitura, então é preciso mantê-lo higienizado após cada uso”, observa o professor. Os termômetros líquidos, que geralmente têm mercúrio na sua estrutura, estão cada vez mais em desuso. “Eles têm a vantagem de não precisar de bateria, mas como têm mercúrio, que é um metal tóxico que pode causar danos à saúde e ao ambiente, isso pode ser perigoso caso ele venha a se quebrar”, ressalta Inácio Costa. Outro aspecto negativo do termômetro de mercúrio é seu manuseio pouco prático, pois para que o filete de mercúrio se posicione no lugar correto antes da medição, é preciso “sacudir” o aparelho, e isso pode provocar quedas ou acidentes.

O mais recomendado para uso doméstico, portanto, é o termômetro digital, que tem manuseio fácil e permite uma leitura precisa e objetiva. O infravermelho, por conta de sua relação custo-benefício, pode ser um investimento desnecessário para quem só faz uso ocasional do aparelho. Já o de mercúrio é o menos recomendado.

Têm circulado nas redes sociais boatos sobre possíveis riscos do uso de termômetros infravermelhos. Porém, como o professor Inácio Costa enfatiza, esse é o modelo de equipamento mais recomendado, no momento pandêmico, para fazer a aferição de temperatura em locais públicos. Várias agências de checagem já desmentiram o conteúdo malicioso divulgado pelas redes de que esses termômetros trariam danos à saúde (como a AFP Checamos, a Lupa e a Aos Fatos). (texto atualizado em 10/09/2020)

E como os termômetros funcionam? Qual a ciência por trás desses aparelhos?

Cada tipo de termômetro tem uma especificidade técnica que permite a aferição da temperatura de um sistema ou objeto, como explica o professor Marcelo Schappo, que atua no Câmpus São José e é doutor em Física. “Eles medem o que chamamos de ‘grandezas termométricas’, ou seja, eles medem algo que varia com a temperatura de uma forma controlada, através de diferentes fenômenos físicos, a depender do tipo de termômetro”, detalha.

No caso dos termômetros líquidos – que em geral usam mercúrio –, o fenômeno que permite seu funcionamento é a dilatação térmica: quando a temperatura de um corpo varia, isso altera a agitação das partículas que o formam, modificando a dimensão desse corpo. Se a temperatura aumenta, as partículas se agitam mais, e, no geral, o corpo se expande; e se a temperatura diminui, ocorre o contrário. Isso explica por que o mercúrio existente dentro do termômetro ganha volume conforme a temperatura que ele está medindo. Já os termômetros digitais eletrônicos funcionam com o princípio da resistência elétrica. “Os metais são bons condutores de corrente elétrica, mas essa facilidade de condução elétrica depende da temperatura do metal: quanto maior a temperatura, mais difícil ocorrer a condução de corrente através dele. Dizemos, assim, que sua resistência elétrica aumenta com a temperatura. Colocando a ponteira metálica em contato com o corpo, o sensor terá sua resistência elétrica modificada, o que pode ser medido pelo termômetro para identificar a temperatura do sujeito”, explica o professor.

Por fim, os termômetros infravermelhos funcionam com o princípio chamado “radiação de corpo negro”. O professor Marcelo Schappo explica que todos os objetos emitem ondas eletromagnéticas de uma forma relacionada à sua temperatura. O corpo humano emite radiação na faixa conhecida por “infravermelho”, que é menos energética que a luz visível. Os termômetros captam as ondas emitidas pelo corpo através de um sensor que, por sua vez, converte isso para um sinal de corrente elétrica. A partir desse sinal elétrico gerado, o termômetro identifica a temperatura.

Schappo também enfatiza que os boatos em torno de possíveis males provocados pelos termômetros infravermelhos são pura bobagem. "A ideia de que o termômetro infravermelho causa danos ao cérebro é absurda por vários motivos. O primeiro é que, para determinar a temperatura, ele recebe radiação emitida pelo nosso corpo, e não o contrário. E o segundo é que o laser que o aparelho emite serve apenas para auxiliar na mira do operador, fazendo com que ele aponte o sensor para o local correto do nosso corpo. Esse laser vermelho não tem energia suficiente para causar danos à pele e muito menos para atravessar todos os tecidos e atingir o cérebro", esclarece. (texto atualizado em 18/09/2020)

Como o termômetro identifica a temperatura que está sendo medida?

Isso ocorre por meio de um processo de calibração feito pelo fabricante, explica o professor Marcelo Schappo. Isso quer dizer que o aparelho é submetido a pelo menos dois sistemas controlados onde a temperatura é conhecida, para que, no processo de medida, o termômetro use esses números como referência. A partir daí, ele pode medir outras temperaturas através de comparação.

Estamos atravessando uma pandemia. Devo aferir minha temperatura diariamente, por precaução?

O professor Inácio Costa diz que essa não é uma prática recomendável. “É preciso tomar cuidado com o excesso de preocupação porque isso pode levar ao stress. O recomendado é medir a temperatura quando você percebe alguma alteração, já que a febre sempre desencadeia, com ela, algum tipo de mal estar, como calafrios”, orienta. Preocupar-se em registrar a temperatura corporal todos os dias pode causar uma ansiedade indesejável.

Tenho um termômetro em casa, mas uso-o pouco. Como fazer para garantir o bom funcionamento desse aparelho, quando eu precisar?

É importante, em primeiro lugar, guardar o termômetro adequadamente, conforme as instruções do fabricante. Isso vale em especial para os eletrônicos e os de infravermelho, que podem oxidar, pegar umidade ou “vazar” as baterias. No caso dos termômetros de mercúrio, devem ficar bem guardados, dentro da embalagem apropriada, em lugar não suscetível a batidas. E longe das crianças!

O professor Marcelo Schappo recomenda também que se sigam as instruções do fabricante ao utilizar o termômetro. “Medidas incorretas levarão a dados incorretos obtidos”, alerta. No caso do eletrônico, é preciso verificar se a ponteira está desobstruída e em contato adequado com a pele da pessoa examinada. Já com o infravermelho é preciso identificar a distância recomendada e manter o aparelho posicionado pelo tempo adequado de captação de sinal. Conheça o guia elaborado pelo Instituto Nacional de Metrologia (Inmetro) para orientar o uso correto dos termômetros de infravermelho.

Caso você faça uma medição e desconfie do resultado, é melhor procurar outro aparelho para fazer a comparação.

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Você tem um ou mais fatores de risco para a Covid-19?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 15 set 2020 14:10 Data de Atualização: 15 set 2020 15:09

Para algumas pessoas, o vírus Sars-Cov-2 causa apenas sintomas leves e semelhantes aos da gripe. Porém, para outras, pode ocasionar a forma grave da Covid-19. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), 40% dos casos parecem ter doença leve; 40%, doença moderada; 15% parecem progredir para doença grave; e 5% ficam em estado crítico. Pessoas idosas e com condições de saúde preexistentes (como pressão alta, doenças cardíacas, doenças pulmonares, câncer ou diabetes) parecem desenvolver doenças graves com mais frequência do que as outras. 

O IFSC Verifica foi pesquisar o que são fatores de risco para o desenvolvimento da forma grave da Covid-19. Veja no post de hoje:

- O que são fatores de risco

- Estatísticas sobre os fatores de risco em relação aos óbitos

- Hábitos que minimizam os fatores de risco

- Cuidados que todos devemos tomar

- Por que é tão difícil controlar os fatores de risco no Brasil

O que são fatores de risco?

Segundo a professora de Enfermagem Juliana Fernandes da Nóbrega, do Câmpus Florianópolis, a expressão “fatores de risco” é mais correta que “grupos de risco”. Ela explica que fatores de risco são uma série de condições e comorbidades, ou seja, doenças prévias que fazem com que a pessoa tenha maior probabilidade de desenvolver a forma grave da doença, de necessitar de hospitalização ou ter mais chances de morrer em comparação a quem não tem nenhum fator. 

Porém, a professora alerta que isso não quer dizer que a pessoa que não tenha fatores de risco não possa desenvolver a forma grave da doença, pois há muitos casos de pessoas jovens e saudáveis com sintomas graves ou mesmo indo a óbito.

Além disso, ter um fator de risco não significa que a pessoa tem mais chances de se contaminar pelo Sars-Cov-2, apenas que, se contaminada, tem maior possibilidade de desenvolver a forma grave de Covid-19, que em termos técnicos também pode ser chamada de Síndrome Aguda Respiratória Grave (SRAG).

Quais os principais fatores de risco?

O Boletim Epidemiológico 30, do Ministério da Saúde, aponta que de 16 de fevereiro a 5 de setembro de 2020, o Brasil registrou 122.772 mortes por SRAG ocasionada pela Covid-19. Destes, 78.037 (63,6%) apresentavam pelo menos uma comorbidade ou fator de risco para a doença.  

Segundo a professora de Enfermagem, os principais fatores de risco são a idade avançada (acima de 65 anos) e doenças crônicas não transmissíveis, como cardiopatias (entre elas a hipertensão arterial sistêmica, a “pressão alta”), diabetes tipo 2 e obesidade/sobrepeso. Quanto mais fatores de risco a pessoa tiver, mais risco ela corre de desenvolver sintomas graves.

São doenças muito relacionadas à idade, pois quanto mais velha for a pessoa, mais chance ela tem de desenvolver doenças crônicas. Porém, este não é o único fator: “por exemplo, no Brasil e nas Américas, há uma grande incidência de crianças obesas, que é um fator de risco”, alerta a professora Juliana, lembrando ainda que muitas crianças com comorbidades também desenvolveram os sintomas graves da Covid-19.

Veja a explicação mais detalhada no vídeo:

 

Quais outros fatores de risco para desenvolver a forma grave da Covid-19?

Além dos já citados, há vários outros fatores de risco e comorbidades que podem agravar quadros de Covid-19. O gráfico abaixo, do Ministério da Saúde, demonstra quais os mais prevalentes entre as pessoas que morreram da doença no Brasil no período de 16 de fevereiro a 7 de setembro de 2020:

Gráfico mostra comorbidades e fatores de risco dos óbitos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) por Covid-19

Para pessoas com 60 anos ou mais, cardiopatias, diabetes, doenças neurológicas e renais foram os principais fatores apresentados. Já entre as pessoas com menos idade, a obesidade está em terceiro lugar em número de óbitos. 

Outros fatores também podem ser destacados, como doenças relacionadas ao pulmão (pneumopatias como Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica, asma, entre outras), visto que a Covid-19 compromete significativamente as vias respiratórias. É importante lembrar que o hábito de fumar é fator de risco para doenças respiratórias, o que torna o fumante ainda mais vulnerável às complicações da Covid-19. Veja no site Saúde Brasil, do Ministério da Saúde, quais os bons motivos para deixar de fumar durante a pandemia e dicas de como fazê-lo.

Pessoas imunodeprimidas também estão entre as que apresentam fatores de risco, como portadores de HIV, doenças autoimunes (artrite reumatoide, lúpus, entre outras), ou qualquer situação que necessite do uso de imunossupressores, como transplante de órgãos. Porém, segundo a professora, nem todos os medicamentos imunossupressores tornam a pessoa mais vulnerável para desenvolver a forma grave da Covid-19. Nesse caso, o importante é o paciente conversar com seu médico.

O gráfico acima destaca ainda outras doenças, como neurológicas, hepáticas, renais e hematológicas como fatores de risco. Em todos os casos, segundo a professora Juliana, o alerta maior é para os pacientes que não estão realizando o tratamento adequado, pois o desequilíbrio das doenças preexistentes torna esses pacientes mais vulneráveis à forma grave da Covid-19.

Sobre pacientes com câncer, um estudo do Instituto Nacional do Câncer (Inca) detectou que esses indivíduos têm mais chances de desenvolver a forma grave da Covid-19. Entre os principais fatores do agravamento estão a idade, o câncer em estado avançado, a metástase, o paciente em cuidado paliativo e a Proteína C Reativa (que é detectada no sangue). Veja mais detalhes sobre o estudo na página do movimento Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC), que também traz dicas para esses pacientes.

- Veja mais sobre os riscos durante a gravidez e puerpério.

- Saiba mais sobre a relação entre obesidade e Covid-19.

- Veja no estudo do CDC (em inglês) informações mais detalhadas sobre riscos e tratamentos para doenças crônicas específicas.

Manter o fator de risco sob controle

Para quem tem um fator de risco, é importante manter a doença de base estabilizada. De acordo com a professora Juliana, se a pessoa já sabe que tem uma doença de base, o que ela deve fazer nesse momento é manter o tratamento e adotar hábitos de vida saudáveis. “O CDC, que é o Centro de Prevenção e Controle de Doenças, trouxe um documento sobre a pandemia ressaltando a importância do controle adequado dessas doenças crônicas. Uma pessoa que tenha uma doença crônica que esteja muito controlada, ela zera o fator de risco, fica no mesmo patamar que aquela que não tem”, destaca Juliana. 

Por exemplo, caso um diabético que está com a glicemia controlada e praticando exercício físico contraia a Covid-19, o organismo dele vai responder melhor à doença do que um diabético sem esses cuidados. O mesmo vale para pessoas com imunossupressão, doenças autoimunes, pacientes renais, entre outras.

Como aumentar os fatores de proteção contra a forma mais grave da Covid-19

- Manter o uso de medicamentos prescritos pelo médico e a agenda de consultas de rotina;

- Manter uma alimentação saudável (veja dicas sobre como se alimentar com qualidade durante a pandemia);

- Evitar o sedentarismo (veja dicas para realizar exercícios físicos com segurança durante a pandemia);

- Manter uma rede de contatos, com familiares e amigos, evitando o isolamento e cuidando da saúde mental (veja dicas sobre como cuidar da saúde mental durante o distanciamento social);

- Filtrar o tipo de informação recebida, evitando orientações erradas sobre tomar ou não medicações. Em caso de dúvida, consultar o médico de confiança.

No vídeo, a professora Juliana explica como a saúde em equilíbrio é fator de proteção contra a Covid-19 e outras doenças:

Evitar a contaminação é para todos

Pessoas com ou sem fatores de risco têm a mesma chance de se contaminar com o novo coronavírus. Por isso, as recomendações de prevenção valem para todos.  “Os cuidados, a prevenção, precisam ser para todos nós, mesmo para quem não tem fatores de risco. Até porque ao me cuidar, eu cuido do outro. Então a gente reforça essa fala, que é uma ação comunitária, muito para além do individual”, destaca a professora Juliana.

Para as pessoas com fatores de risco, o importante é minimizar a exposição ao vírus segundo Juliana, adotando medidas como distanciamento social, uso de máscaras, lavagem das mãos, entre outros. Como estamos há seis meses de distanciamento social, é difícil se manter em casa. Assim, quando for necessário sair, tomar todos os cuidados possíveis, como manter distanciamento, usar máscara e preferir locais abertos.

Por que é tão difícil controlar os fatores de risco no Brasil

As doenças crônicas não transmissíveis (cardiopatias, diabetes e obesidade) são as responsáveis pelas principais causas de morte no mundo e no Brasil. “Podemos citar o infarto agudo do miocárdio e as doenças cérebro-vasculares, o acidente vascular cerebral, o famoso derrame, que são resultado dessas doenças crônicas, quando não bem acompanhadas e tratadas”, aponta a professora Juliana. 

Segundo ela, o quadro dessas doenças é mais preocupante no Brasil devido a uma particularidade: muitas pessoas descobrem que têm doenças crônicas apenas quando têm um problema grave, como um infarto ou derrame. Além disso, a pandemia do novo coronavírus agravou esse cenário: muitas pessoas descobrem que têm uma doença crônica apenas quando estão sendo internadas nas UTIs com Covid-19. “Quando a gente pensa nas mazelas socioeconômicas, que o serviço de saúde não chega a todos, ou chega de forma insuficiente, sabemos que essas pessoas estão muito mais vulneráveis a desenvolver a forma grave da doença”, alerta Juliana. 

Para a professora, “a pandemia escancara o retrato de saúde do Brasil. É também característica de países que não investem com força em ações de promoção da saúde, eles têm alta prevalência e incidência de doenças crônicas não transmissíveis, e por consequência uma alta incidência de crianças, jovens, adultos e idosos que estão desamparados e mais expostos aos agravos desta pandemia”. Dessa forma, “mudar o foco” da atenção da saúde para a prevenção é a melhor maneira de evitar complicações pela Covid-19 e outras doenças.

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Preciso ir ao dentista. É seguro?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 08 set 2020 15:55 Data de Atualização: 08 set 2020 16:11

Gostar, ninguém gosta. Mas as visitas regulares ao dentista são um cuidado que deve integrar a rotina de todas as pessoas desde a infância, com foco na saúde bucal e também no bem-estar integral.

Porém, com a pandemia do novo coronavírus – um patógeno transmitido pela saliva – vários cuidados devem ser tomados quando é hora de consultar um profissional da área. Além do reforço nas medidas de biossegurança dos consultórios, normas dos órgãos de saúde preveem também critérios para definir que tipos de atendimentos devem ser priorizados e quais podem esperar.

Neste post, você vai entender:

-Por que os atendimentos odontológicos são motivo de atenção dos órgãos de saúde durante a pandemia;
-Que atendimentos devem ser priorizados e quais podem ser deixados para depois;
-A diferença entre urgência e emergência odontológica;
-Como proceder caso você precise de atendimento odontológico.

Quais os riscos do atendimento odontológico com a pandemia?

De acordo com a dentista do Câmpus São José do IFSC, Patrícia Rocha Kawase, a especificidade do atendimento odontológico deixa suscetíveis tanto o paciente quanto o profissional, em função, principalmente, da proximidade física obrigatória entre ambos.

Além disso, o atendimento também envolve o contato com fluidos corporais, em especial a saliva. Na realização dos procedimentos, o uso de equipamentos que geram aerossol – “sprays” com gotículas de saliva e fluidos, em geral imperceptíveis, mas potenciais transmissores do coronavírus – é outro fator de atenção. No vídeo, a profissional explica essas peculiaridades.
 

 

Então o que muda no atendimento odontológico com a Covid-19?

Patrícia Kawase explica que a principal recomendação no momento atual é adiar todos os atendimentos que podem esperar (os chamados procedimentos eletivos), dando prioridade apenas a casos de urgência ou emergência. Segundo ela, embora a nota técnica da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) detalhe o que pode ser enquadrado como urgência e como emergência, a decisão por fazer o atendimento ou não deve ser baseada em casa caso. “O critério e a decisão final são sempre resolvidos na relação entre o paciente e o profissional de saúde”, ressalta.

Além da nota da Anvisa, que serve de base a recomendações específicas feitas pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO), as orientações para os atendimentos odontológicos no contexto da pandemia também são assunto de uma publicação da Organização Mundial da Saúde (OMS). O documento recomenda que visitas de rotina ao dentista que visem apenas check-ups, limpeza e cuidados preventivos devem ser adiadas por enquanto, assim como as consultas para procedimentos estéticos. 

O que pode ser considerado urgência ou emergência odontológica?

Pode-se resumir da seguinte forma: as urgências são os atendimentos que devem ser priorizados, mas não representam risco maior para o paciente; já as emergências podem envolver risco à vida. Os casos urgentes são os que envolvem dor, como a fratura de um dente, por exemplo. Os de emergência abrangem sangramentos não controlados, infecções, celulite facial (doença bacteriana) e traumatismos. A Secretaria da Saúde de Santa Catarina emitiu, em abril deste ano, nota técnica que detalha os quadros que podem ser considerados urgência ou emergência odontológica. A dentista Patrícia Rocha Kawase explica no vídeo esses critérios.
 

 

Estou com dor e inchaço na gengiva. Devo ir ao dentista ou esperar?

Tanto a OMS quanto os órgãos de saúde locais recomendam que, neste momento de pandemia, seja adotado um sistema de atendimento remoto para a avaliação prévia dos pacientes a distância. Essa primeira triagem visa garantir que somente os pacientes que se enquadrem em casos de urgência ou de emergência desloquem-se até o espaço de atendimento, seja ele clínica particular ou posto de saúde.

Em Florianópolis, por exemplo, o paciente odontológico pode fazer esse contato prévio por meio do Whatsapp do seu centro de saúde de referência (veja a lista). Na conversa com o profissional de atendimento, ele dá o máximo possível de detalhes sobre o caso e, a depender da gravidade, pode ser apenas orientado sobre cuidados básicos, receber prescrição de medicação ou ser encaminhado para consulta de urgência ou emergência. Nesse atendimento remoto, o paciente também é questionado sobre possíveis sintomas de Covid-19 e, caso necessário, é feito o devido encaminhamento.

Neste momento, portanto, o recomendável é buscar uma avaliação prévia do seu caso antes de ir ao consultório. Informe-se em sua cidade sobre o funcionamento dos serviços odontológicos na rede pública ou, caso prefira atendimento particular, converse com seu dentista.

-> Conheça o protocolo de atendimento remoto dos postos de saúde de Florianópolis.

E no consultório, o que mudou?

Profissionais de odontologia e equipes de suporte que atuam nos ambientes de atendimento devem obedecer a uma série de regras em função da pandemia. A recomendação de que se evitem procedimentos eletivos resulta na diminuição da circulação de pessoas nos ambientes, o que reduz os riscos de transmissão.

Porém, para urgências e emergências o comparecimento presencial é compulsório, assim como a interação do paciente com os profissionais em atendimento. Por isso, novos protocolos de biossegurança foram implementados.

Esses cuidados abrangem basicamente o reforço na higienização dos ambientes e equipamentos, o maior rigor no potencial de proteção da indumentária dos profissionais – tanto dentistas quanto equipe auxiliar – e a diminuição no número de atendimentos, possibilitando maior intervalo de tempo entre um paciente e outro e evitando a presença de muitas pessoas na sala de espera.

Os pacientes, por sua vez, são solicitados a higienizar as mãos na entrada da clínica ou consultório, utilizar proteção nos cabelos (touca), pés (sapatilhas) e rosto (máscara facial) – esta última, claro, enquanto não estiver em atendimento.

Meu dentista parece um astronauta :D

Antes da pandemia, a indumentária dos dentistas já previa uso obrigatório de jaleco, luvas, óculos e máscaras faciais, no intuito de reduzir o potencial de contágio por quaisquer micro-organismos. Com a Covid-19 e seu risco de transmissão por meio da saliva, esses profissionais passaram a adotar, também, avental impermeável por cima do jaleco e protetor facial tipo “face shield”. A especificação das máscaras faciais também ficou mais rigorosa.

“A contaminação por partículas aéreas é uma situação que já é esperada na área de saúde, e especificamente na odontologia. Para esse vírus, o que mudou foi a especificação da máscara, que agora deve ter uma capacidade maior de proteção. O protetor facial, que não fazia parte da nossa indumentária, agora também é necessário, assim como o uso de avental impermeável”, descreve a dentista Patrícia Kawase. Outra recomendação que ela destaca é a troca do sugador convencional por uma bomba de vácuo, que ajuda a diminuir a formação de aerossóis e reduz, também, a necessidade de o paciente cuspir durante o procedimento.

Os protocolos de segurança envolvem também a manutenção de janelas abertas e o não uso de ar-condicionado, para favorecer a troca constante de ar do ambiente.

-> Consulte o documento da OMS sobre atendimentos odontológicos durante a pandemia de Covid-19 (em inglês)

-> Leia as normativas da Anvisa, do CFO e da Secretaria de Estado da Saúde sobre atendimentos odontológicos na pandemia

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Animais de estimação podem contrair o novo coronavírus?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 01 set 2020 10:42 Data de Atualização: 01 set 2020 18:18

As incertezas com a pandemia do novo coronavírus atingem também os animais de estimação. Há vários relatos pelo mundo de pets que testaram positivo para o SARS-CoV-2. No entanto, não há nenhuma evidência científica de que eles possam transmitir a doença para humanos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). 

As médicas veterinárias do IFSC Carolina de Castro Santos e Aline Mello explicam neste post:

- O que as pesquisas científicas revelam sobre a Covid-19 em animais de estimação. Eles adoecem da mesma forma que humanos?

- Se há alguma evidência de que um animal doente possa transmitir o vírus para humanos.

- Os cuidados que devem ser tomados com os pets durante os passeios ou em casa, caso alguma pessoa esteja infectada pelo novo coronavírus.

- E alertam sobre o risco de pessoas utilizarem medicamentos veterinários.

A médica veterinária Carolina de Castro Santos, professora de Produção Animal do Câmpus Canoinhas do IFSC, afirma que assim que a epidemia começou, acreditava-se que os animais de companhia não corriam risco de contrair Covid-19 dos seus tutores. No entanto, logo nas primeiras semanas surgiram relatos de transmissão de zoonose reversa para animais. "A zoonose é uma doença transmitida do animal para o homem. A zoonose reversa é o processo contrário, transmitida do homem para o animal".

As notificações de animais com a Covid-19 e as pesquisas feitas em laboratórios estão sendo reunidas pela Organização Internacional para a Saúde Animal (OIE) e podem ser acompanhadas na página "Eventos em animais". O objetivo é reunir relatos para tentar entender quais animais são mais suscetíveis ao vírus, como adoecem, quais são mais resistentes e como ocorre a transmissão entre humanos e animais.

O que se sabe até agora é que há resultados positivos para o novo coronavírus em cães, gatos, animais de zoológico e de criação, segundo o levantamento da OIE. Todos os casos estão sendo monitorados. Entre cães domésticos há relatos na China e nos Estados Unidos. Já entre gatos, foram confirmados casos de contaminação em vários países, como China, Bélgica, França, Espanha, Alemanha, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos. Em um zoológico de Nova York também houve diagnóstico em leões e tigres.

Além disso, segundo Carolina, estudos experimentais recentes demonstraram que gatos e furões podem ser infectados pelo vírus SARS-CoV-2 e transmitir a infecção para outros gatos ou furões. "A pesquisa indica que os animais infectados podem ser assintomáticos ou apresentar febre, sinais respiratórios leves ou sinais gastrointestinais. Mas essa informação deve ser analisada com cautela, visto que o estudo publicado não passou por revisão científica por pares e não apresentou dados de saúde e nem o status imunológico dos gatos para as principais viroses felinas, que poderiam interferir nos resultados do experimento. Não há, portanto, nenhuma comprovação científica que algum animal tenha ficado doente pelo SARS-CoV-2", completa.

Já os cães, suínos, galinhas e patos parecem ser menos suscetíveis à Covid-19, de acordo com os estudos reunidos pela OIE.

Como os pets são infectados?

Os casos de pets com Covid-19 têm em comum o fato de os animais viverem em famílias com casos de humanos suspeitos ou confirmados da doença, segundo os relatos reunidos pela OIE.

A médica veterinária do Câmpus Florianópolis-Continente do IFSC, Aline Mello, lembra que a convivência das pessoas com seus pets muitas vezes é bem próxima. "Eu também tenho gato em casa e sei como é, quando a gente adoece eles querem ficar junto, vêm pra cima da cama. A chance maior é da gente transmitir pra eles. Não há nenhum relato no mundo do animal ter servido de fômite."

O fômite a que ela se refere é qualquer objeto ou substância capaz de absorver e transportar o vírus. Poderia se pensar, por exemplo, que as patas dos cães ou gatos pudessem levar o vírus da rua para casa e contaminar as pessoas. "No entanto não há nenhuma evidência científica de que isso tenha ocorrido", afirma. 

Mas como ainda há muitas incertezas em relação à Covid-19, organizações internacionais como o Centro Pan-Americano de Febre Aftosa e Saúde Pública Veterinária da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (PANAFTOSA-OPAS/OMS) e a Organização Internacional de Proteção Animal Mundial (World Animal Protection) sugerem alguns cuidados com os pets, principalmente na hora de passear na rua. 

Entre esses cuidados, Carolina reforça que o uso de álcool em gel é contraindicado para animais: "Ao retornar do passeio, o tutor deve lavar as patas dos cães com shampoo específico."

Já em relação aos gatos, a orientação é mantê-los dentro das residências, independentemente da pandemia. "Gatos que frequentam a rua têm sua expectativa de vida muito reduzida, por atropelamento, envenenamento e doenças infecciosas adquiridas com o contato com outros gatos de rua", afirma Carolina.

E quem tiver Covid-19, como pode proteger seu animal?

Como os relatos indicam que os animais podem ser afetados pelo novo coronavírus, a OIE recomenda que pessoas com suspeita ou confirmação de infecção pelo SARS-CoV-2 limitem o contato com seus animais.  Práticas de higiene, como lavar as mãos, são fundamentais e não devem ser esquecidas antes e depois das interações com animais. 

"O ideal é que os cuidados com o pet sejam realizados por pessoas que não estejam com suspeitas da doença. Se a pessoa morar sozinha com o animal, ela deve sempre usar máscara quando estiver lidando com o pet e o compartilhamento de alimentos não deve ser realizado. O tutor também não pode permitir que o animal lhe dê lambidas", orienta Carolina.

A vacina contra coronavírus para cães imuniza para Covid-19? 

Antes de mais nada, vale lembrar que o coronavírus ficou mundialmente falado com a pandemia de Covid-19, mas na verdade é um antigo conhecido.

Os coronavírus fazem parte de uma grande família de vírus, a Coronaviridae, que pode acometer tanto animais quanto seres humanos. A veterinária Carolina explica que existem quatro gêneros pertencentes à família Coronaviridae, os Alphacoronavirus, Betacoronavirus, Gammacoronavirus e os Deltacoronavirus. "Cães e gatos podem ser acometidos pelos coronavírus do gênero Alphacoronavirus. As vacinas múltiplas (V8 ou V10), utilizadas em cães para prevenir diversos tipos de doenças, realmente inclui cepas de coronavírus, que são espécies específicas. No caso dos cães, ela protege contra o coronavírus entérico canino (CCoV), que causa gastroenterite, infectando as células intestinais. Já o coronavírus felino (FCoV) causa nos gatos a peritonite infecciosa felina, para qual não há vacina no Brasil.

A veterinária Aline completa ao afirmar que a vacina para cães, por exemplo, imuniza o animal apenas para o coronavírus canino e não o protege da Covid-19. Ela também faz um alerta para as pessoas que pensam em tomar a vacina para coronavírus canino. Veja no vídeo:

 

Medicamentos veterinários não podem ser usados por humanos

Além da vacina para cães, na ansiedade para se proteger do novo coronavírus tem muita gente que também está apelando a receitas caseiras e uso de medicamentos sem comprovação científica para a Covid-19. É o caso da Ivermectina, um remédio bastante usado para piolho e sarna. 

A procura por este e outros produtos em clínicas veterinárias levou o Conselho Federal de Medicina Veterinária a fazer um alerta sobre os perigos de se utilizar medicamentos veterinários em humanos, "uma vez que não foram desenvolvidos e testados em pessoas, ou seja, não existem dados que atestem a segurança e a eficácia do uso dessas formulações em humanos”:

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É arriscado engravidar na pandemia?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 25 ago 2020 15:55 Data de Atualização: 25 ago 2020 16:31

Todos nós tivemos planos afetados por causa da pandemia de Covid-19. Mas, para algumas mulheres, o impacto bateu em cheio com o projeto da maternidade. Quem já estava grávida antes de tudo isso começar, ou engravidou durante esse período, se viu em situação delicada quando o Ministério da Saúde anunciou em abril que grávidas e puérperas (até duas semanas após o parto) fazem parte do grupo de risco, ou seja, têm maior risco de sofrer complicações da Covid-19. 

Neste post, vamos abordar as seguintes questões:

- Quais os riscos de engravidar na pandemia?
- Por que o Brasil teve mais mortes de gestantes com Covid-19?
- É preciso ter algum cuidado especial por estar grávida?
- Há algum tipo de parto mais indicado para quem está com a doença?
- As mulheres com coronavírus podem amamentar?
- Como lidar com o puerpério em plena pandemia?

A gravidez durante a pandemia traz riscos específicos?

Sim. A consideração é da enfermeira obstétrica e professora do Câmpus Florianópolis do IFSC Juliana Monguilhott, atual presidente da Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiras Obstetras em Santa Catarina (Abenfo-SC). O risco não é pelo fato de a mulher grávida ter mais chance de se contaminar pelo coronavírus, mas sim porque a gestação acarreta alterações fisiológicas que podem dificultar a resposta do corpo da gestante ao vírus. “A própria gestação já traz algumas consequências fisiológicas para o corpo da mulher e a gente sabe que muitas delas estão relacionadas ao sistema cardiovascular e respiratório, que são justamente dois dos sistemas mais atingidos pelo coronavírus”, explica Juliana. 

 

Existe alguma orientação para evitar gravidez neste momento?

Não, não há nenhuma normativa contraindicando a gestação neste momento. No entanto, em abril, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu uma nota técnica recomendando a suspensão temporária de procedimentos de reprodução humana assistida. 

"É uma situação bem complexa, porque o planejamento familiar para cada mulher e para cada família engloba diversos fatores”, afirma Juliana. Segundo a professora, é preciso considerar, por exemplo, a situação de uma mulher com mais de 35 anos, que já tem uma reserva ovariana menor e que tem pressa em engravidar; e a de outra mais jovem que pode se planejar e decidir não engravidar no meio dessa pandemia. “Para essa mulher que pode se planejar, eu diria que sim, é arriscado engravidar. Então se ela pode esperar, é melhor”, diz.

-> OMS esclarece dúvidas sobre planejamento familiar e métodos contraceptivos na pandemia

Estou grávida. E agora?

É importante que as mulheres grávidas tenham rigor nos cuidados para evitar o contágio com o vírus - que são os mesmos para todos, como o uso de máscara, a higienização frequente das mãos e o distanciamento social. Além disso, devem fazer o acompanhamento pré-natal com bastante atenção.


Tão logo apresente qualquer sintoma, a gestante deve procurar atendimento médico para evitar agravamento do quadro, orienta a professora do IFSC. Também não se deve tomar nenhuma medicação por conta própria: caberá ao médico indicar o tratamento de acordo com cada situação. “A gente vê sendo divulgado o uso de ivermectina, de cloroquina, de várias medicações que não têm evidência científica e que, no caso da gestante, pode ter efeito colateral para ela e para o bebê”, alerta.

-> Cloroquina e hidroxicloroquina: esses medicamentos têm eficácia contra a Covid-19?

“O que tem que se pensar é no isolamento social, na ingestão de líquido, numa alimentação saudável com frutas e minerais para aumentar a imunidade e reduzir as chances da gestante ser infectada com o vírus”, orienta a professora. 

-> Leia o post: É possível prevenir o coronavírus por meio da alimentação?

O que tem que se pensar é no isolamento social, na ingestão de líquido, numa alimentação saudável com frutas e minerais para aumentar a imunidade e reduzir as chances da gestante ser infectada com o vírus

Existe um momento mais crítico durante a gestação?

A professora do IFSC informa que, no final da gestação, contrair o vírus pode levar a um parto prematuro. “Muitas vezes, essa mulher que contraiu o vírus apresenta uma dificuldade respiratória e acaba sendo indicada a indução do trabalho de parto ou a própria cesariana”, diz. 

Segundo Juliana, ainda não há evidências científicas das consequências quando o coronavírus é identificado no primeiro e no segundo trimestre da gestação. “O que a gente tem é que, no fim da gestação e, principalmente, no puerpério, algumas mulheres que estão tendo esse diagnóstico estão ficando mais graves e muitas delas estão indo a óbito por falta de assistência adequada no tempo oportuno”, afirma.  

É mais perigoso ser gestante no Brasil neste momento?

Em julho, um estudo publicado no periódico médico International Journal of Gynecology and Obstetrics chamou a atenção para o risco de ser gestante no Brasil neste momento. A pesquisa apontou que 124 mulheres gestantes ou que estavam no período do puerpério haviam morrido de Covid-19 no Brasil até a conclusão do estudo. Esse número representou 77% das mortes registradas no mundo no período, ou seja, morreram mais mulheres grávidas ou no pós-parto no Brasil do que em todos os outros países somados. O estudo foi feito por um grupo de enfermeiras e obstetras brasileiras ligadas à Unesp, UFSCAR, Fiocruz, IMIP e UFSC.


Um estudo do Grupo Brasileiro para Estudos de Covid-19 e Gestação, publicado no periódico BJOG, uma publicação internacional de Obstetrícia e Ginecologia, em 16 de agosto, apontou que, até agora, os principais fatores de risco para morte materna por Covid-19 foram: ser puérpera no momento da notificação da Covid, obesidade, diabetes e doença cardiovascular. Ser branca mostrou-se fator de proteção.

Segundo Juliana, não existem dados confiáveis do número de gestantes contaminadas por Covid-19 no Brasil e nem de óbitos desse grupo. Nos boletins que o Ministério da Saúde divulga, essa informação não está disponível. 

Para a professora, qualquer número que se apresente hoje em relação a gestantes e Covid-19 deve estar subestimado. Um estudo publicado pela Escola Nacional de Saúde Pública em junho deste ano apontou que o número de gestantes assintomáticas pode variar de 66% até 100%.

-> Entenda a diferença entre doentes assintomáticos, pré-sintomáticos e sintomáticos

“Além do número de assintomáticas, deve ter um número bem maior de gestantes contaminadas porque nem todas são testadas e, no número que os municípios enviam para o Ministério da Saúde, não tem como informar a fase da gestação e nem se a mulher é puérpera ou está amamentando”, conta. “E a gente sabe que em muitas mortes maternas pelo coronavírus, as mulheres foram diagnosticadas no puerpério”, completa.

No início de agosto, em reunião com deputados da comissão externa que acompanha ações de combate ao coronavírus da Câmara de Deputados, o Ministério da Saúde informou que gestantes serão submetidas a protocolos específicos de atendimento e que todas serão testadas para Covid-19 no final da gestação. O secretário de atenção primária do Ministério da Saúde, Raphael Parente, reconheceu que a mortalidade materna no Brasil ainda é alta e informou que até o dia 1º de agosto tinham sido registrados 199 óbitos de mulheres grávidas no Brasil, 135 por Covid-19. Segundo dados apresentados pela pasta no evento, as gestantes têm risco 1,5 maior de internação em UTI com necessidade de ventilação mecânica em relação ao restante da população.

Diante desse contexto de pandemia, a professora do IFSC destaca a necessidade de se pensar em um modelo de atendimento que exponha menos as gestantes, como é a proposta dos centros de parto normal (CPN). Em Santa Catarina, ainda não há estrutura desse tipo que possa acolher as gestantes de risco obstétrico habitual, evitando colocá-las em risco em uma maternidade de grande porte com vários casos de Covid-19, por exemplo. “A gente precisa sim de uma atenção que priorize a fisiologia do parto e nascimento, como são os centros de parto normal, permitindo que as maternidades e hospitais de grande porte fiquem para as mulheres que realmente precisam, para quem tem gestação de alto risco ou tem alguma interferência”, defende Juliana, que está envolvida no projeto que busca implantar um CPN em Florianópolis - do qual o IFSC é parceiro.

Algum tipo de parto é mais indicado para quem tem Covid-19?

O fato de uma gestante ter Covid-19 não representa uma indicação para determinado tipo de parto. “A gente já sabe dos inúmeros benefícios do parto normal para a mãe e para o bebê, então se ela tem um quadro bom, a ausculta cardíaca fetal se mantém boa durante o trabalho de parto, a gestante pode seguir para um parto normal”, explica a professora. Caberá ao obstetra avaliar cada caso, como já ocorre normalmente.

Já o parto na água está contraindicado para parturientes com Covid-19 - sejam casos suspeitos ou já confirmados - pelo risco de contaminação pela água, conforme nota técnica do Ministério da Saúde.

-> Leia o post sobre a transmissão do coronavírus pela água 

O diagnóstico de Covid-19 também confere à gestação um grau de alto risco, o que inviabiliza, por exemplo, a realização de um parto domiciliar - que hoje é uma opção só feita por equipes particulares em gestações que não sejam de risco. Esse tipo de parto não faz parte da rede de atenção à saúde e não é feito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Portanto, a gestante com Covid-19 deve ser encaminhada a um hospital ou maternidade para ter o bebê.

Por causa da pandemia, as maternidades mudaram seus protocolos de atendimento limitando o número de acompanhantes com a gestante e proibindo as visitas. O indicado é que cada gestante entre em contato com a instituição onde pretende fazer seu parto para conferir as novas regras de cada lugar.

-> Veja nota do Ministério da Saúde com recomendações para o trabalho de parto, parto e puerpério durante a pandemia

A mãe com Covid-19 passa o vírus para o bebê?

Segundo a Organização Mundial da Saúde, ainda não se sabe se mulheres grávidas com Covid-19 podem passar o vírus para o bebê durante a gravidez ou no trabalho de parto. Mas a professora do IFSC cita um estudo publicado no periódico Women’s Health em julho em que foram relatados, em uma mesma instituição do Brasil, cinco óbitos fetais de mulheres com coronavírus e em que o vírus foi identificado no líquido amniótico de um bebê e na placenta de dois bebês. “Isso traz muita sugestão de que a transmissão vertical é uma possibilidade, de que o vírus pode ser transmitido através da placenta pro bebê”, afirma Juliana. 

Até então, quando um bebê era diagnosticado com Covid-19, a transmissão era associada ao parto ou até ao pós-parto, num momento de amamentação, por exemplo, por uma mãe com a doença. “Mas essa série de casos mostrou pra gente que não, que nos óbitos fetais intra útero já tinha presença do vírus”, explica a professora.

Juliana esclarece que o compilado dos estudos está demonstrando que existe essa possibilidade, mas parece ser rara. “Pelo acúmulo de conhecimento até o momento sobre Covid nas gestantes, parece ser um evento raro, mas seria possível sim”, explica. 

Segundo ela, muitos profissionais têm observado um aumento de óbitos fetais no Brasil após o início da pandemia. “Entretanto, sem um estudo adequado incluindo testagem de todas as gestantes, é difícil avaliar se essa observação é real ou se existe uma relação de causa e efeito entre Covid-19 e óbito fetal”, pondera.

Como tudo ainda é muito novo, ainda não existem estudos que tratem de sequelas para bebês que sejam diagnosticados com coronavírus.

Como fica a amamentação?

A professora do IFSC destaca que não há evidência científica que mostre contaminação por meio do leite materno. “Por enquanto, considerando os benefícios da amamentação, o indicado é que as mulheres - mesmo aquelas positivas para Covid - possam amamentar os bebês”, reforça.

-> Leia a Nota técnica do Ministério da Saúde sobre amamentação

Inclusive, o contato pele a pele é incentivado também para mães testadas positivas para Covid-19, mas não de forma imediata. “Então o bebê nasce, o clampeamento ainda é oportuno do cordão e, enquanto se aguarda para clampear o cordão umbilical, é trocada a camisola da mãe, a mulher é seca, troca-se sua a máscara e aí o bebê vai para o contato pele a pele com ela para amamentação”, explica Juliana. A OMS recomenda o clampeamento tardio do cordão umbilical quando possível, que é quando se interrompe o fluxo sanguíneo entre a mãe e o bebê.

De acordo com a professora, no caso de bebês que desenvolveram a doença depois do parto, o que se acredita é que a transmissão tenha ocorrido durante a amamentação por gotícula ou aerossol, mas não pelo leite materno. “No caso de a mulher estar com Covid, o ideal é que ela use máscara durante a amamentação”, recomenda.   

-> Sociedade Brasileira de Pediatria defende a manutenção da amamentação em mães portadoras da Covid-19

Puerpério em plena pandemia

Se não bastasse toda a preocupação com a gestação durante a pandemia, após ter o bebê, a mulher pode se ver solitária no chamado puerpério, que é o período que se estende de 45 a 60 dias após o nascimento da criança. A enfermeira obstétrica Juliana alerta para a importância de haver uma rede de apoio para a puérpera, ainda que adaptada ao atual contexto de distanciamento social:

-> Assista à live Puerpério em Tempos de Pandemia feita por professoras do curso de Enfermagem do IFSC

Veja também:

-> Orientações do Ministério da Saúde sobre gestantes e lactantes

-> Nota técnica do Ministério da Saúde sobre a atenção à saúde do recém-nascido no contexto da infecção pelo novo coronavírus

-> Organização Mundial de Saúde responde dúvidas sobre amamentação e Covid-19 (em inglês)

-> Fluxo de manejo clínico de gestantes na Atenção Especializada conforme o Ministério da Saúde


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A carne pode ser contaminada pelo novo coronavírus?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 18 ago 2020 14:23 Data de Atualização: 20 ago 2020 13:16

A notícia vinda da China no último dia 13 de que foram encontrados traços do novo coronavírus em embalagens de frango importado do Brasil, mais especificamente de Santa Catarina, levou rapidamente a Organização Mundial da Saúde, o governo brasileiro e o setor produtivo a garantirem que não há motivos para se ter medo de comida.

Desde o início da pandemia, esse foi um consenso entre as mais diversas áreas que atuam para evitar a proliferação do vírus: não há evidências de que os alimentos têm participação na transmissão da Covid-19 pelo mundo.

Mas essa não é a primeira vez que os frigoríficos são destaque quando o assunto é coronavírus. Eles já foram até apontados pelo Ministério Público do Trabalho como um dos responsáveis pela interiorização da doença no Brasil, pela quantidade de trabalhadores que foram infectados. Mas como ocorreu a proliferação da Covid-19 nessas indústrias? Existe alguma relação entre a contaminação dos funcionários e a produção de carne?

Por conta dessas e de muitas outras perguntas sobre os frigoríficos, o IFSC Verifica convidou professores dos câmpus Canoinhas e São Miguel do Oeste para uma conversa. Nesses dois câmpus existem cursos de Alimentos e Agroindústria. A médica veterinária Carolina de Castro Santos, a zootecnista Sandra Aparecida Tavares, o químico industrial de alimentos Luciano Heusser Malfatti e a farmacêutica bioquímica Roberta Garcia Barbosa respondem:

• A carne é um alimento seguro de ser consumido?

• Como ocorre a produção na indústria de carne e derivados?

• Quais são as normas sanitárias a que esse setor está submetido?

• Por que tantos trabalhadores de frigoríficos foram contaminados pelo novo coronavírus?

• O que determinam as portarias governamentais para evitar a proliferação da Covid-19 nesses ambientes?

Informações da China precisam ser mais precisas

A primeira avaliação dos professores é unânime: a China precisa esclarecer onde os traços do novo coronavírus foram encontrados. A informação é que estavam em uma embalagem com asas de frango congeladas. Para eles, essa informação não é precisa nem suficiente. Roberta Barbosa, doutora em Ciência dos Alimentos e professora do Câmpus São Miguel do Oeste, explica que os pedaços de frango são colocados em uma embalagem primária, como de polietileno (plástico). Isso ocorre num ambiente totalmente controlado. Depois essas embalagens vão para outro setor de de produção, onde são acondicionadas em embalagens secundárias, como caixas de papelão, que vão para caminhões e contêineres. "Será que a contaminação foi nessa embalagem secundária?", questiona.

Ela aponta que muitas pessoas acabam manipulando essas caixas tanto no carregamento no Brasil como no país importador. "Além disso, no caso de países como a China, uma carga dessas demora de 45 até 60 dias para chegar ao destino. Não há qualquer evidência científica de que o vírus permaneça tanto tempo vivo."

O professor Luciano Malfatti alerta ainda que a China anunciou ter encontrado traços de material genético do SARS-CoV-2: "Isso é completamente diferente do vírus ativo. É como se o vírus tivesse se desmanchado, deixando apenas traços do RNA. A cápsula lipoproteica (que o protege) não existe mais."

Carolina completa ao explicar que o vírus é um parasita intracelular obrigatório: "Ele não sobrevive e não consegue se multiplicar, ser ativo, fora de uma célula."

Declaração em destaque de Carolina de Castro Santos, médica veterinária e professora do Câmpus Canoinhas: "Encontrar traços do material genético não significa encontrar vírus com poder infectante. A gente precisa esperar esse posicionamento oficial. E a China não pode se abster da responsabilidade dessa contaminação ter ocorrido lá."

O lote identificado pela China é apontado como sendo da empresa Aurora, que em nota oficial também diz aguardar mais detalhes sobre a possível contaminação.

O processo de produção de carne é seguro?

Antes mesmo da pandemia de Covid-19, as indústrias de carne precisavam seguir uma série de normas para controle sanitário e que segundo os professores passam total segurança. "Por conhecer a realidade das plantas (frigoríficos), não me preocupo com a segurança dos alimentos. Os processos são rigorosamente controlados para minimizar risco de infecção", afirma Carolina. Luciano concorda: "A indústria vem se adaptando ano após ano. Os controles são muito rigorosos."

Entre os itens que garantem a segurança alimentar, a professora Roberta Barbosa destaca os equipamentos de proteção individual (EPIs): "Mesmo antes da pandemia, práticas rigorosas de controle de higiene e de qualidade eram empregadas nos frigoríficos. Podemos citar o uso de botas, macacão (ou calça e blusa), capacete, máscara, luvas e touca de proteção, que além da segurança do manipulador, impedem a presença de contaminantes físicos, químicos ou biológicos na carnes e seus produtos."

Os EPIs são fornecidos e higienizados pelas próprias indústrias. Nenhuma roupa ou material é levado pelo trabalhador para ser higienizado em casa. "Entrou na planta já se coloca o EPI e dependendo do setor em que a pessoa trabalha, ela realiza duas, três trocas de roupas", explica Carolina.

Outra questão abordada pelo professores é em relação à circulação do ar. Os ambientes são refrigerados e, por isso, não pode haver entrada de ar externo. "A maioria dos ambientes é refrigerado, a temperatura de 10 graus, onde o fluxo de ar é direcionado de dentro da indústria para fora", explica Roberta.

Ambientes e utensílios também são rigorosamente limpos com frequência, afirma o professor Luciano Malfatti. Químico industrial de alimentos e com atuação na higienização de ambientes durante a pandemia, ele explica no áudio a seguir como é feita a sanitização dos frigoríficos: a frequência e os produtos utilizados para limpeza:

 

 

As carnes passam por algum processo de higienização?

Ouça e tire essa dúvida!

 

Carolina destaca ainda que o sistema de inspeção para empresas exportadoras exige muito controle na indústrias: "É inclusive referência para outros países. Então acredito que a contaminação dos trabalhadores ocorreu principalmente em locais de aglomeração e convívio."

Por que tantos trabalhadores foram contaminados?

No início da pandemia os frigoríficos já eram apontados como locais propícios para disseminação do novo coronavírus, como consta em nota técnica do MPT: "em razão da elevada concentração de trabalhadores em ambientes fechados, com baixa taxa de renovação de ar, baixas temperaturas, umidade e com diversos postos de trabalho que não observam o distanciamento mínimo apto a viabilizar segurança durante a prestação de serviços, além da presença de diversos pontos que propiciam aglomerações de trabalhadores, tais como: transporte coletivo, refeitórios, salas de descansos, salas de pausas, vestiários, barreiras sanitárias, dentre outros."

Esses pontos também foram motivos de preocupação para os professores dos câmpus que formam profissionais para atuarem no setor. Segundo Roberta, na maioria das vezes os funcionários ficam o dia todo na indústria, se alimentam, fazem as pausas e convívio em ambiente fechados e aglomerados. "São locais em que os funcionários ficam muito próximos uns dos outros. São pontos em que o Ministério da Agricultura e Pecuária teve que atuar e legislar alterações de práticas para evitar o contágio.”

Ela também acredita que o transporte das indústrias tenha contribuído para a proliferação do vírus: "Muitos desses frigoríficos ficam em cidades pequenas, que não possuem mão de obra suficiente para atender a oferta de trabalho. As indústrias precisam trazer trabalhadores de outras cidades. Desta maneira, o transporte também se torna um vilão quando não se tomam as medidas necessárias de distanciamento, uso de máscaras, abertura das janelas e demais precauções para evitar a disseminação do vírus."

Apesar do grande número de trabalhadores contaminados, os professores não perceberam redução na produção em Santa Catarina. No áudio a seguir eles falam sobre o aumento dos turnos de trabalho:

 

 

Governos determinam mais cuidados para funcionamento de frigoríficos

Os casos de Covid-19 entre trabalhadores de frigoríficos levaram o Ministério Público do Trabalho a fechar temporariamente algumas unidades e a propor mais rigor no uso de EPIs.

Em Santa Catarina, o governo publicou portaria estadual em 12 de maio para "estabelecer medidas de prevenção para o funcionamento dos estabelecimentos de abatedouros frigoríficos de carnes em Santa Catarina". Os Ministérios da Economia, da Saúde e da Pecuária, Agricultura e Abastecimento emitiram portaria com medidas para todo o território nacional apenas em junho.

Entre as medidas estão capacitações para os funcionários, para que usem máscara, não compartilhem EPIs e consigam utilizar os equipamentos sem se contaminar ao colocá-los ou retirá-los. A professora Sandra Tavares afirma que em algumas linhas de produção em que o distanciamento mínimo não é possível, as indústrias que não conseguirem atender essa demanda deverão instalar barreiras, como divisórias de acrílico entre os postos de trabalho ou o uso de roupas e EPIs apropriados, como protetores faciais (face shield).

Os professores destacam que a portaria de Santa Catarina é mais rigorosa que a nacional. "Exige, por exemplo, distanciamento mínimo de 1,5 metro entre os trabalhadores na linha de produção, enquanto que a portaria nacional é de um metro, medida de ombro a ombro na linha de produção", exemplifica Sandra Tavares.

Outras medidas estabelecidas pela portaria da Secretaria da Saúde de Santa Catarina são: realizar a aferição de temperatura dos trabalhadores na entrada e na saída das unidades e programar a utilização dos refeitórios com apenas 1/3 (um terço) da sua capacidade, além de ficar proibida a modalidade de buffet de auto serviço (self service).

Veja as medidas para evitar contaminação pelo novo coronavírus nos frigoríficos nas portarias da Secretaria de Saúde de Santa Catarina e do governo federal.

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Como funciona uma Unidade de Terapia Intensiva?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 11 ago 2020 13:49 Data de Atualização: 11 ago 2020 20:12

A cada momento, a imprensa divulga informações sobre lotação de hospitais e Unidades de Terapia Intensiva (UTI). São dados importantes, levados em conta pelas autoridades públicas na decisão pelo relaxamento ou reforço das medidas de distanciamento social, pois como não há um tratamento específico e eficaz contra a Covid-19, manter ações de monitoramento e suporte dos pacientes mais graves se tornou imprescindível para salvar vidas.

A Associação Médica Intensivista Brasileira (Amib) estima que no início da pandemia, o Brasil tinha cerca de 2,2 leitos de UTI a cada 10 mil habitantes, o que estava dentro da média preconizada pelo Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde (OMS), de um a três leitos de UTI para cada 10 mil habitantes. No entanto, a distribuição desses leitos é desigual, sendo 1,4 no SUS e 4,9 na rede privada. A diferença também se dá por regiões, sendo o Sudeste e Centro-Oeste a regiões com melhor estatística e as regiões Nordeste e Norte com a pior. O Sul estava dentro da média nacional, com 2,2 leitos por 10 mil, porém, com a diferença de 1,8 leitos no SUS e 3,5 na rede privada.

Desde o início da pandemia no Brasil, em março, o Sistema Único de Saúde (SUS) habilitou 11.777 leitos de UTI (informações do site do Ministério da Saúde). Também se fala na importância dos equipamentos utilizados nessas unidades, principalmente os ventiladores pulmonares (respiradores), que suscitaram uma “corrida” pela compra e importação. 

Assim, o IFSC Verifica consultou especialistas do IFSC para saber:

- Como funciona uma UTI e porque ela é tão importante no tratamento da Covid-19

- O que é um ventilador pulmonar e quem precisa utilizar esse tipo de aparelho

- Quais os riscos para os pacientes que utilizam esses ventiladores

- Qual a diferença entre os diversos tipos de aparelhos que auxiliam na respiração do paciente

Conheça também o projeto em colaboração do IFSC e da UFSC para produzir ventiladores pulmonares e Ambus automatizados de baixo custo.

Por que a UTI é importante no tratamento da Covid-19?

Segundo a coordenadora do curso técnico em Enfermagem do Câmpus Florianópolis, Marciele Misiak Caldas, apenas cerca de 10% das pessoas contaminadas pelo novo coronavírus precisam de internação em Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Ela cita nota da Amib, que esclarece: “a Covid-19 é uma infecção com potencial de causar alterações significativas na capacidade ventilatória, levando a comprometimento pulmonar difuso e piorando as trocas gasosas. A internação em UTI geralmente ocorre com paciente que apresenta alterações pulmonares gravíssimas causadas pela infecção, em que a capacidade de ventilar os pulmões ou realizar a troca gasosa desses pacientes é reduzida, o que pode resultar em um quadro de insuficiência respiratória e a necessidade de uma monitorização contínua e uso dos ventiladores pulmonares”. 

Mas, como funciona uma UTI? A professora do curso de Engenharia Elétrica do Câmpus Itajaí, Fernanda Isabel Marques Argoud, especialista em Engenharia Biomédica, esclarece que uma UTI é composta por vários tipos de equipamentos, sendo alguns fixos e outros móveis, como o ventilador mecânico.

Entre os equipamentos fixos em uma UTI, o principal é o Monitor Cardíaco Multiparâmetros, que tem como função verificar vários sinais vitais, como frequência cardíaca, eletrocardiograma, pressão arterial, quantidade de oxigênio no sangue, entre outros.

Os respiradores (também chamados de ventiladores pulmonares) são utilizados apenas quando a pessoa não consegue respirar sozinha, apresente queda da saturação de oxigênio no sangue, dificuldade de respirar, alterações nos exames de imagens como raio X e tomografia, alterações metabólicas, além da falência de outros órgãos. 

Nesse caso, o equipamento é inserido pela boca ou pela traqueia e faz a função do pulmão da pessoa. Há outros tipos de respiradores mais simples, como o Ambu, utilizado principalmente em situações de emergência, e o cateter nasal, que auxiliam a respirar melhor, porém, não substituem a função pulmonar (veja abaixo a diferença entre esses equipamentos).

A professora Marciele alerta, porém, que ter leitos de UTI ou respiradores disponíveis em determinada região não significa que é possível relaxar as medidas de prevenção à Covid-19. Como não há um tratamento específico e comprovadamente eficaz, as medidas tomadas em UTIs podem melhorar o prognóstico da doença, mas não são sinônimo de cura. “A UTI vai proporcionar uma qualidade melhor, um suporte melhor para o paciente, mas não quer dizer que ele está fora de risco. Então, com certeza as medidas de prevenção são o melhor caminho”.

No vídeo, a professora Marciele explica melhor como funciona uma UTI no caso do tratamento para o coronavírus:

Cuidados extras na segurança de profissionais e pacientes

Além dos equipamentos, o funcionamento de uma UTI exige uma equipe capacitada para este tipo de atendimento, focada nos cuidados do paciente. O enfermeiro é o profissional que faz o monitoramento e ajuste de equipamentos, sob coordenação da equipe médica e em conjunto com outros profissionais, como fisioterapeutas, nutricionistas, farmacêuticos, psicólogos, odontólogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais.

A coordenadora do curso técnico em Enfermagem destaca que, com o coronavírus, reforçaram-se os cuidados com os próprios profissionais da saúde em UTI no que diz respeito aos equipamentos de proteção individuais (EPIs). Além dos usuais, enfermeiros e demais profissionais precisam utilizar equipamentos adicionais, como faceshield, aventais, luvas, entre outros, durante todo o período de trabalho na UTI.

Também há a questão da alta rotatividade dos profissionais e deslocamento de trabalhadores da saúde de outras áreas para a UTI, o que exige capacitação desses profissionais em pouco espaço de tempo.

A pesquisa realizada pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) sobre a situação das equipes de UTIs no Brasil traz mais detalhes sobre os desafios enfrentados pelos profissionais de saúde na linha de frente da pandemia.

Os riscos de se utilizar um ventilador pulmonar

Segundo as professoras Marciele e Fernanda, o ventilador pulmonar é um equipamento para se usar em última instância e por pouco tempo, pois pode causar vários danos à saúde do paciente. A pneumonia por ventilação mecânica é um dos efeitos mais comuns. 

Fernanda explica que o respirador é basicamente uma bomba em que são misturados gases, que são insuflados por meio de tubos, de difícil esterilização. “Como a tubulação não pode ser metálica, tem que ser flexível e confortável, a probabilidade de ficar uma bactéria dentro é muito alta, pois não é possível esterilizá-la em uma autoclave. Além disso, o ar do respirador precisa ser umidificado, e não tem fonte maior de infecção do que umidade”, completa.

Marciele lembra também que o uso do respirador por muito tempo pode comprometer a musculatura respiratória e dos membros do paciente, ocasionando perda de força, o que pode dificultar a retirada do tubo e exigir tratamento fisioterápico após a internação.

O risco de uso inadequado também é grande. O respirador precisa ser utilizado por profissionais treinados, pois erros de regulagem da saída de ar, por exemplo, podem causar danos graves aos pulmões. O fisioterapeuta é o profissional indicado para auxiliar médicos e enfermeiros na definição dos parâmetros de uso dos ventiladores pulmonares em UTIs.

Assim, a taxa de mortalidade por Covid-19 com o uso de respiradores é alta. Segundo estudo UTIs Brasileiras, em torno de 9% dos pacientes em UTI e que não utilizaram ventilação mecânica foram a óbito, enquanto entre os que receberam ventilação, a média de mortalidade foi de 65%, sendo 62% na rede privada e 70% na pública.

Porém, em casos graves, a chance de óbito é de 100% caso o respirador não seja usado. Por isso cabe à equipe médica avaliar com precisão quem necessita desse cuidado mais intensivo.

A Agência Brasileira de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu nota técnica específica sobre os ventiladores pulmonares, em que aponta riscos e benefícios desses aparelhos e cita normas para sua fabricação de forma segura.

No vídeo, a professora Fernanda explica melhor quais os riscos dos ventiladores pulmonares.

Por que precisamos importar esses equipamentos? É muito caro produzi-los?

Segundo o site do Ministério da Saúde (MS), desde o início da pandemia foram adquiridas 9.672 unidades de ventiladores pulmonares, sendo 4.995 equipamentos de UTI e 4.677 de transporte (Ambus). Além disso, há contratos para a produção de 16.252 ventiladores pulmonares em empresas nacionais.

Fernanda lembra que há muitos anos se alerta para a falta de respiradores em hospitais. “O coronavírus é um vírus que ataca principalmente o pulmão. Então, quando a humanidade ficou sabendo que estávamos em risco de pandemia, isso gerou uma preocupação ainda maior. Se falta respirador hoje, o que vai acontecer em caso de coronavírus?”

Existem várias iniciativas para a produção desses equipamentos por instituições brasileiras. Uma parceria entre a UFSC e o IFSC está desenvolvendo equipamentos médicos para combate à Covid-19, sendo dois Ambus automatizados e um modelo de ventilador pulmonar. O protótipo de ventilador já está em fase de testes clínicos, ou seja, em humanos.

Segundo o professor do Departamento Acadêmico de Metal Mecânica do Câmpus Florianópolis Luiz Fernando Segalin de Andrade, o equipamento está passando por algumas adequações na interface com o usuário, detectadas a partir dos testes pré-clínicos (com animais) realizados no Hospital das Clínicas, em Porto Alegre, e no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

A intenção é produzir quatro a cinco protótipos para testes e depois conseguir parceria com empresas para a produção em larga escala, a um custo bem mais baixo que o dos equipamentos oferecidos pelo mercado atualmente. Os equipamentos são produzidos nos laboratórios da UFSC que fazem parte do grupo de Equipamentos Médicos de Emergência (EME), sendo que algumas peças também são produzidas nas instalações do IFSC.

Os Ambus automatizados estão em fase de protótipo. O projeto foi paralisado por um tempo por falta de recursos e por limitações na aquisição de peças e ferramentas. Agora, com recursos do Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif), a produção foi retomada e em breve devem ser iniciados os testes.

Para saber mais sobre o projeto, veja matéria publicada no Portal do IFSC

Tipos de equipamentos

Conheça os diferentes tipos de equipamentos que dão suporte à respiração do paciente (fotos: Banco de Imagens):

 

Cateter nasal: o paciente recebe oxigênio pelo nariz, mas mantém os movimentos próprios de respiração.

 

 

 

 

 

 

 

Ambu: é utilizado em casos de emergência até chegar ao ventilador mecânico. A ventilação pode ser manual ou automatizada.

 

 

 

 

Ventilador mecânico (respirador): há o respirador com máscara, que não é invasivo, e o ventilador de intubação, que utiliza cânulas (o circuito).

 

 

 

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O novo coronavírus pode ser transmitido pela água ou pela rede de esgoto?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 16 jun 2020 15:02 Data de Atualização: 29 jul 2020 14:06

Qual o impacto da falta de condições sanitárias adequadas na pandemia de Covid-19 no Brasil? Há muitos aspectos a serem considerados. O primeiro deles é a falta de água em muitas localidades do país até para lavar as mãos. São quase 35 milhões de brasileiros sem acesso a água tratada, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS 2018). Essa é uma das principais preocupações dos epidemiologistas, já que a forma mais segura de evitar a contaminação é utilizando água e sabão para a higienização.

Além da falta de abastecimento, tem-se questionado muito se o novo coronavírus pode ser transmitido pelo esgoto, já que vivemos num país em que quase metade da população não tem acesso a sistema de esgotamento sanitário adequado e muitas comunidades convivem com esgoto a céu aberto. Para essa pergunta nem a Organização Mundial de Saúde (OMS) tem uma resposta conclusiva.

Os estudos ainda são recentes e não há comprovação de que o SARS-CoV-2 mantém sua forma ativa na água ou no esgoto, ou seja, na forma que pode contaminar as pessoas.

Pesquisas indicam presença de SARS-CoV-2 em água, urina e fezes

A questão se o novo coronavírus pode ser transmitido pela água ou pelo esgoto é diferente do fato dele ser identificado nesses ambientes. Quem explica essa diferença é a engenheira sanitarista Andreza Thiesen Laureano, professora do curso técnico em Saneamento do Câmpus Florianópolis do IFSC: "Ao entrar em contato com a água, ele sobrevive e o RNA viral pode ser detectado através de exames específicos. No entanto, não se sabe ainda se, na água, ele se mantém na forma ativa/viável." O RNA pode ser entendido como material genético do vírus.

Em documento publicado em abril com orientações para a gestão da água e do saneamento durante a pandemia, a OMS afirma que, como o vírus da Covid-19 é encapsulado, ele é menos estável no ambiente hídrico em comparação com vírus humanos que têm transmissão conhecida pela água, como os rotavírus e a hepatite A: "Um dos estudos observou que outros coronavírus humanos sobreviveram apenas dois dias em água da torneira sem cloro e nas águas residuais hospitalares a 20°C." Uma das conclusões do documento é a de que métodos de tratamento da água que utilizam a filtração e a desinfecção devem inativar o novo coronavírus.

Já a presença do SARS-CoV-2 em fezes foi confirmada. Pesquisadores da cidade  de Zhuhai, na China, examinaram 98 pacientes com Covid-19 entre janeiro e março deste ano. Os resultados da pesquisa estão publicados na revista científica The Lancet: "Observamos que em mais da metade dos pacientes, suas amostras fecais permaneceram positivas para o RNA da SARS-CoV-2 por uma média de 11,2 dias após as amostras do trato respiratório se tornarem negativas para o RNA da SARS-CoV-2, implicando que o vírus se replica ativamente no trato gastrointestinal do paciente e que a transmissão fecal-oral pode ocorrer após a liberação viral no trato respiratório."

Pesquisa da UFSC identifica novo coronavírus em amostra de agosto de novembro de 2019

Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), da Universidade de Burgos (Espanha) e da startup BiomeHub identificaram partículas do novo coronavírus em duas amostras do esgoto de Florianópolis colhidas em 27 de novembro de 2019, dois meses antes do primeiro caso clínico ser relatado no Brasil. A descoberta, divulgada em 2 de julho de 2020, só foi possível porque havia amostras de esgoto congeladas para outros estudos. Segundo os pesquisadores, é o relato da primeira presença confirmada do vírus nas Américas. (texto atualizado em 29 de julho de 2020).

No decorrer de 2020, outra pesquisa brasileira - coordenada pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em ETEs Sustentáveis (INCT ETEs Sustentáveis) - identificou a presença do novo coronavírus no esgoto da região de Belo Horizonte (MG). Realizado desde abril, o estudo analisa a Bacia do Onça, onde há duas estações para tratamento do esgoto coletado em boa parte da capital mineira e da cidade de Contagem. As coletas para análise são feitas semanalmente. Os boletins indicam aumento no número de amostras com SARS-CoV-2: "Para as regiões/bairros localizados na bacia do Onça, houve um aumento expressivo de amostras que testaram positivo (64% nas semanas um e dois, 69% nas semanas três e quatro para 88% na semana cinco)."

Pesquisas como estas têm sido feitas ao redor do mundo. Os relatos mais antigos da presença do novo coronavírus no esgoto são de Wuhan, na China, em outubro de 2019.

A professora Andreza reforça que, mesmo não havendo comprovação científica da transmissão hídrica da Covid-19, esta hipótese não está descartada. Por isso, em locais sem sistemas públicos ou individuais de coleta e tratamento de esgoto adequados, onde as pessoas têm contato físico com o esgoto líquido ou aerossóis do esgoto, a transmissão de doenças de veiculação hídrica é maior. Segundo ela, como ainda não há resultados conclusivos sobre a possibilidade de transmissão de Covid-19 a partir do sistema de esgoto, os especialistas têm utilizado pesquisas de outro tipo de coronavírus, o SARS-CoV-1 - similar ao SARS-CoV-2.

"Para o SARS-CoV-1 houve comprovação de contaminação por aerossóis provenientes de esgoto num prédio em um país asiático. O esgoto produz aerossóis quando é submetido à turbulência. Portanto, para operadores de estações de tratamento de esgoto, o risco é aumentado, a exemplo de outras doenças."

A Organização Mundial de Saúde reforça a importância do uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), como máscaras e óculos, pelos trabalhadores dos serviços de saneamento.

Higiene é vital para se enfrentar a pandemia

Como já se detectou o novo coronavírus nas fezes, existe uma preocupação muito grande para outras formas de transmissão feco-oral além da que poderia ocorrer pelas redes de esgoto e de água, como no contato direto de uma pessoa com as fezes de outra, no manuseio do lixo doméstico ou por meio de vetores como baratas, moscas ou superfícies contaminadas. Tudo isso ainda está sendo pesquisado. Lavar as mãos e as superfícies com água e sabão continua sendo o mais recomendado, já que o coronavírus possui um revestimento lipídico, que é facilmente destruído pelos sabões.

Se ele sobrevive no esgoto, pode ser perigoso tomar banho de mar?

Mesmo não havendo comprovação científica da transmissão hídrica da Covid-19 em ambientes aquáticos, tanto em rios, quanto no mar, Andreza afirma que "pelo princípio da precaução, neste momento é importante evitar entrar em contato com essas águas, pois as mesmas são passíveis de estarem contaminadas e a hipótese de transmissão hídrica não está descartada." O mesmo vale para piscinas públicas. O cloro, usado em dosagem correta, provavelmente eliminará o vírus, mas não é recomendável o contato com outras pessoas. Mesmo porque há outros ambientes comuns, como banheiros, mesas e cadeiras. Por isso, valem as mesmas recomendações: fique em casa e lave as mãos com água e sabão.

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Como não desistir de praticar atividades físicas em função da máscara facial?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 28 jul 2020 15:27 Data de Atualização: 28 jul 2020 16:19

Elas entraram para o figurino em todos os contextos, por mais que sejam, por vezes, incômodas. Com a liberação da prática de atividades físicas, seja em ambientes ao ar livre ou em academias, as máscaras faciais também são item essencial nas novas normas de convívio social impostas pela pandemia. O problema é que, na prática de corrida, caminhada, ciclismo ou mesmo em atividades anaeróbicas, como a musculação, o desconforto respiratório que elas causam é inevitável.

Neste post, vamos te mostrar que, mesmo com a certa dificuldade que as máscaras podem provocar na prática de atividades físicas, vale a pena persistir e incorporar esse acessório ao kit esportivo: os benefícios de se exercitar neste momento pandêmico são muito importantes para manter lá em cima a almejada imunidade do organismo. Vamos abordar na sequência algumas questões como:

- Por que é importante manter a atividade física regular no cenário de pandemia;
- Como contornar o incômodo provocado pela máscara durante a atividade física;
- A diferença entre atividade física e exercício físico – e por que é importante saber até onde ir com cada um deles;
- Práticas bem simples a serem adotadas para voltar a malhar e manter regularidade.

Máscara: usar ou não usar durante a malhação?

Desde o início da pandemia, diferentes orientações foram passadas pelos órgãos de saúde sobre o uso da máscara facial. No início da situação de emergência sanitária, recomendava-se que não se adotasse o uso de máscaras descartáveis como forma de prevenção ao contágio, mas a lógica, naquele momento, era garantir o suprimento desse item de segurança aos profissionais de saúde. 

Com o avanço da pandemia, o prolongamento da necessidade de medidas preventivas e o desenvolvimento de novos estudos, o uso de máscaras “caseiras” – ou seja, de uso não profissional – passou a ser recomendado e tornou-se, em muitos casos, obrigatório nos espaços públicos. Essa obrigatoriedade foi estendida aos ambientes coletivos onde as pessoas praticam exercícios, seja ao ar livre ou em academias.

A professora Andresa Silveira Soares, que atua na área de Educação Física no Câmpus Florianópolis, afirma que utilizar a máscara facial durante a prática de exercícios é extremamente importante, já que ela evita a propagação de gotículas que podem transmitir o novo coronavírus (e também outros patógenos). “Mesmo que ela incomode, é extremamente importante que sempre se utilize a máscara”, enfatiza. Andresa sustenta a recomendação mesmo com a posição da Organização Mundial da Saúde (OMS) – que, levando em conta o fato de as máscaras ficarem úmidas mais rápido durante a prática de atividades físicas, em função da respiração intensa e transpiração, orienta que esse uso seja evitado. “Mas exigem normas municipais e estaduais para que o uso seja unificado, portanto isso deve ser observado e as pessoas precisam se acostumar”, pondera. A Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte também defende a importância do uso das máscaras faciais, neste comunicado.

De fato, a máscara facial, seja ela de tecido ou de outro material, tende a umedecer mas rápido durante a atividade, e isso anula seu potencial de proteção. O recomendado, portanto, é que o esportista sempre tenha à disposição mais uma ou duas máscaras, para garantir o uso correto e seguro durante todo o treino. Além disso, diminuir a intensidade do treino pode favorecer a adaptação à máscara e também prolongar a vida útil do acessório. No vídeo abaixo, a professora Andresa Soares explica melhor essas recomendações e fala, também, sobre como a adaptação aos diferentes tipos de máscaras é algo individual.

 

Por que é importante manter atividade física regular neste momento de pandemia?

Lá em março, quando ainda não se tinha a real noção do que representaria a emergência de saúde pública provocada pelo novo coronavírus, muita gente deixou de lado atividades que exigissem sair de casa. Isso incluiu a prática de atividades físicas ao ar livre ou em estúdios e academias. Só que as pessoas provavelmente não imaginavam que a imposição do distanciamento social se estenderia por tanto tempo. 

Movimentar o corpo é um hábito muito importante para a manutenção da saúde de forma integral, de acordo com a professora Andresa Soares, e isso engloba não apenas a parte física, mas também a saúde mental e o bem estar de forma mais ampla. Ela menciona que a recomendação da OMS é de que se pratique atividades físicas por cerca de 30 minutos diários, que podem ser, inclusive, fracionados nos diversos períodos do dia.

Essa atividade física mínima recomendada não é, necessariamente, exercício físico: enquanto as atividades físicas são, conceitualmente, os movimentos que tiram o corpo do estado de repouso, exercícios físicos são atividades programadas e sistematizadas. “Pode-se dizer que nem toda atividade física é um exercício físico, mas todo exercício físico, ou prática corporal, é uma atividade física”, detalha. Práticas cotidianas como varrer a casa, caminhar até o ponto do ônibus, passear com o cachorro, brincar com as crianças ou estender roupa no varal podem ser consideradas atividades físicas.

Na realidade do trabalho ou estudo remoto em home office, a rotina de muitas pessoas tornou-se mais sedentária. Por isso, Andresa reforça que é importante ter prestar atenção nos sinais que o corpo dá em reação à falta de atividade física. “É importante que as pessoas tenham consciência corporal, conheçam o seu corpo. Estamos num momento especial para as pessoas conhecerem as possibilidades e especialmente os limites do seu corpo, que dá respostas. Se você está há muito tempo sentada numa posição, trabalhando em home office, você vai sentir uma dor nas costas”, exemplifica. A melhor resposta a esse sinal específico seria parar um pouco, levantar-se, alongar, sair do estado de inércia.

Parei de malhar no começo da pandemia e o sedentarismo está me incomodando. Como voltar de forma segura?

A professora Andresa Soares recomenda que o retorno ou início de prática de exercícios físicos, no atual momento, seja feito de forma gradual. Não adianta querer recuperar muito rápido o tempo perdido e igualar a performance de antes da pandemia: a quebra na rotina e o próprio uso da máscara facial vão comprometer o desempenho. Mas é importante não se abalar ou desistir. “Neste momento, você não tem que estar preocupado com seu desempenho, e sim com o condicionamento físico”, recomenda Andresa. No vídeo, ela explica que a queda de performance é natural e salienta que o uso da máscara facial, além de ser importante para a proteção, não prejudica a saúde. Segundo ela, embora tenha havido boatos de que usar a máscara durante a atividade intensa pudesse comprometer a inalação de oxigênio, isso não é verdade. 

Com a atividade física em locais abertos e em academias liberadas em muitos municípios, a tentação de recorrer a esses espaços é grande. Porém, Andresa enfatiza que, no momento pandêmico, o mais seguro é, ainda, recorrer à atividade física em casa. Se for inevitável sair ou ir à academia, é recomendável tomar várias precauções:

- Sempre utilizar a máscara facial, tanto em atividades ao ar livre quanto em ambientes fechados. Escolher aquela que melhor se adaptar ao rosto e, caso a opção sejam as de tecido, que o material não seja muito fino;
- Trocar a máscara facial sempre que ela ficar úmida. Ao sair para treinar, portanto, não se deve esquecer de levar máscaras limpas para reposição;
- Manusear a máscara adequadamente, apenas pelas alças ou tiras. Não se deve tocar com as mãos a parte da frente do acessório;
- Ao ar livre, deve-se seguir as recomendações dos órgãos públicos e manter a distância recomendada das outras pessoas. Caso haja alguma dúvida, a professora Andresa explica que essa distância segura pode variar, dependendo do tipo de prática e da velocidade que o esportista atinge: 4 metros para caminhada, 10 metros para corrida e 20 metros para ciclismo;
- Para manter a hidratação, beber água antes do treino e, se for preciso hidratar-se durante a atividade, retirar a máscara de forma segura, sem mantê-la no queixo ou em contato com outras superfícies;
- Se possível, priorizar as atividades físicas feitas em casa. Quem já é habituado a exercitar-se pode realizar séries por conta própria, tomando os cuidados necessários para evitar lesões. Sempre que possível, também é recomendada a orientação de um profissional de educação física;
- Se for muito importante recorrer a espaços públicos, pode-se intercalar exercícios físicos nesses locais com atividades em casa, reduzindo as saídas à rua;
- Caso opte por academias, observar se todas as medidas de segurança sanitária exigidas pelos órgãos públicos estão sendo praticadas com rigor (lotação máxima, disponibilidade de álcool em gel nos ambientes coletivos, higienização dos aparelhos) e também tomar os cuidados individuais (higienizar os aparelhos, usar máscara facial e trocá-la sempre que ficar úmida, manter-se afastado dos outros frequentadores). Veja a portaria do Governo de Santa Catarina que normatiza o funcionamento desses locais;
- Levar toalha de uso individual em qualquer exercício físico, para enxugar o suor do rosto e prolongar a vida útil da máscara;
- Em qualquer situação, priorizar a prática de atividades físicas em locais com poucas pessoas, de preferência arejados;
- Ter consciência de que o uso da máscara vai dificultar o desempenho, e, por isso, reduzir o ritmo. No caso de atividades aeróbicas, é importante reconhecer o limite do corpo e jamais remover a máscara total ou parcialmente (deixar só o nariz para fora não vale!). Em atividades como a musculação, pode-se aumentar o tempo de descanso entre as séries, garantindo uma melhor recuperação da respiração;
- Por fim, não precisa ter paranoia: o uso da máscara facial durante o treino não compromete a saúde.

-> Veja o comunicado da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte sobre o uso de máscaras faciais.

-> Consulte também as perguntas e respostas da OMS sobre uso geral de máscaras faciais (em inglês).

-> Leia também informações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Ministério da Saúde sobre o uso de máscaras de proteção.

-> Assista ao vídeo do Curso Técnico em Enfermagem do Câmpus Florianópolis sobre o manuseio correto das máscaras.

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Qual a diferença entre doentes assintomáticos, pré-sintomáticos e sintomáticos?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 21 jul 2020 09:09 Data de Atualização: 21 jul 2020 09:56

Neste exato momento, você pode ter o coronavírus e não saber. E se você acha que não tem problema fazer uma visitinha a algum familiar ou sair com poucos amigos, aí pode piorar ainda mais a situação já que, se você for um pré-sintomático ou um assintomático, pode transmitir o vírus sem nem se dar conta. Ficou preocupado(a)? Sim, a situação é preocupante mesmo e, neste post, vamos explicar:

  • - a diferença entre os pacientes assintomáticos, pré-sintomáticos e sintomáticos
  • - por que mesmo quem já teve Covid-19 precisa se cuidar
  • - o risco de visitar familiares e amigos
  • - a partir de quantas pessoas pode ser considerada uma aglomeração

A curva segue crescendo

Infelizmente, a situação do coronavírus no Brasil continua preocupante. Até o momento desta publicação, 80 mil pessoas já tinham morrido de Covid-19 segundo dados do Ministério da Saúde. Isso representa mais do que toda a população da cidade de Caçador e muito mais do que a maioria dos municípios catarinenses têm em número de habitantes. Quando você ler este texto, com certeza, esses números já serão maiores.

-> Se quiser entender melhor a curva de crescimento, assista a esta live do IFSC sobre “O que os números revelam sobre a pandemia no Brasil?”

Os casos notificados de pessoas infectadas também seguem crescendo e, o mais perigoso, de forma silenciosa. Sim, porque cerca de 45% das transmissões ocorrem quando a pessoa é pré-sintomática, ou seja, ainda não apresentou os sintomas, conforme um estudo publicado pela revista científica Science em maio deste ano.

Gráfico mostrando como funciona a transmissão do coronavírus

Para entender este cenário, é preciso saber a diferença entre as pessoas contaminadas pelo vírus, que podem ser pré-sintomáticas, sintomáticas e assintomáticas. A enfermeira e professora do curso técnico de Enfermagem do Câmpus Florianópolis do IFSC, Ângela Kirchner, nos explicou o que cada termo significa:

Todas as pessoas contaminadas podem transmitir o vírus para outras?

Sim, as pessoas pré-sintomáticas, sintomáticas e assintomáticas transmitem o vírus - o que vai mudar é quando essa transmissão pode ocorrer.  “Essa lacuna é o que realmente torna complicado o controle da pandemia porque a gente não tem como saber se aquela pessoa já está transmitindo”, alerta a professora Ângela, destacando a importância do cuidado com todas as pessoas e a questão do distanciamento social.

No início de junho, houve uma polêmica declaração da epidemiologista Maria van Kerkhove, da Organização Mundial da Saúde (OMS), de que pacientes assintomáticos contaminados pela Covid-19 não poderiam transmitir o vírus a outras pessoas. No entanto, a própria OMS esclareceu posteriormente a fala e reforçou que pessoas assintomáticas podem sim transmitir o novo coronavírus.

-> Assista a este vídeo da OMS sobre a transmissão da doença

Quando há mais risco de contágio?

No momento em que uma pessoa tem contato com o vírus, ele começa a se replicar dentro do organismo. A partir disso, quanto maior a carga viral da pessoa, mais ela vai transmitir. “Considera-se que o período de maior de transmissão é entre o terceiro dia após o contágio até o décimo quarto dia, que é quando a pessoa tem uma grande quantidade de carga viral e o organismo dela ainda não deu conta de mitigar esse vírus”, explica a professora do IFSC.

Mas como saber em qual estágio a pessoa está?

A única forma de saber isso é por meio de teste de anticorpo.

-> Leia o post que fizemos sobre como funcionam os testes que identificam o coronavírus no organismo

Mas, de maneira geral, sem testes em massa, não tem como saber se alguém é assintomático ou pré-sintomático (nesse caso, até aparecerem os sintomas). E metade das transmissões ocorrem por pessoas que se encontram nestes estágios, ou seja, estão transmitindo o vírus muitas vezes sem saber que estão contaminadas.

É por isso que o cuidado deve ser contínuo. “Você pode estar tanto no estágio pré-sintomático e depois desenvolver sintomas, bem como você pode não desenvolver sintomas da doença e ser um transmissor. Daí a importância de todos manterem as precauções de uso de máscara, lavagem contínua das mãos, distanciamento social. Isso é muito importante neste momento”, ressalta Ângela.

Já tive Covid-19. Posso parar de me preocupar?

Tem muita gente achando que o exame positivo de Covid-19 é passaporte para sair por aí e retornar à vida “normal” após se curar da doença. Não é bem assim. Ainda não há clareza sobre por quanto tempo uma pessoa que já teve o vírus fica imune a ele. Além disso, quem já teve Covid-19 pode ser um transmissor do SARS-CoV-2, como destaca a professora do IFSC:

A recomendação, segundo Ângela, é que quem testar positivo para Covid-19, a partir do momento que apresentou os sintomas, permaneça pelo menos 14 dias em isolamento, para evitar a transmissão para outras pessoas - mesmo depois que os sintomas passarem. Quem não apresentou sintomas, mas testou positivo, também deve fazer o isolamento de 14 dias.

Aja como se estivesse contaminado

Justamente por não sabermos quem pode estar com o vírus, é preciso seguir o protocolo de biossegurança e os cuidados para se proteger e proteger os outros.

Frase da professora do IFSC, Ângela: "A partir do momento que eu me considero sempre com potencial de contaminação, eu me cuido mais".

Entre as medidas de cuidado, a professora do IFSC reforça, inclusive, a higiene domiciliar como limpar as maçanetas da porta, reservar um lugar para colocar as roupas usadas na rua e a limpeza das compras. “Isso tudo são cuidados que a gente precisa estabelecer porque a gente ainda não desvencilhou cientificamente todos os meandros dessa pandemia”, diz Ângela.

-> Assista a este vídeo da IFSCTV sobre os cuidados ao chegar em casa
-> Faça sua parte -> Epidemiologista do IFSC destaca o que cada pessoa pode fazer para chegarmos mais rápido ao fim da pandemia

Tem problema visitar familiares ou sair com poucos amigos?

De acordo com a professora do IFSC, esse tipo de comportamento ainda deve ser evitado já que, no Brasil, a doença está em uma curva ascendente, ou seja, a pandemia ainda não está estabilizada. “Enquanto isso não acontecer ou pelo menos até que a gente tenha uma vacina, nós precisamos manter a questão do distanciamento pra gente proteger as pessoas”, afirma.

A partir de quantas pessoas pode ser considerado que há uma aglomeração?

Até pelo tempo que já dura a pandemia - e, por enquanto, não há uma previsão para seu fim -, algumas pessoas estão relaxando os cuidados em relação às medidas de distanciamento social. Encontros entre poucos amigos e contato com familiares acabam sendo feitos por se entender que não são aglomerações. No entanto, a professora Ângela alerta que, neste momento, encontrar com qualquer pessoa que não esteja no seu convívio social cotidiano pode ser considerada uma aglomeração.

Ângela explica que, se todas as medidas fossem seguidas - como se encontrar em um local aberto com todos usando máscaras e mantendo uma distância de dois metros das outras pessoas e sem contato físico -, até não haveria tanto risco, mas alerta que o perigo de afrouxar os protocolos de biossegurança é que nem todos têm o bom senso de fazer isso de maneira adequada. “Entre o veneno e o remédio, o problema está na dose. Como dosar esse convívio sem que a gente extrapole e nos coloquemos em risco e coloquemos outras pessoas no risco de adquirir o vírus?”, enfatiza.

A professora reconhece que o distanciamento social acarreta um sofrimento, mas que por enquanto ainda é necessário. “Ninguém gostaria de ser responsável de transmitir o risco para outras pessoas e seria muito triste se a gente vai conviver com familiar e depois a gente descobre que fomos nós o foco de transmissão”, comenta.

Quero iniciar o distanciamento social com outras pessoas. É só me juntar?

Não. Para que você possa começar um isolamento junto com a alguém da sua família ou amigos que ainda não estão na mesma casa que você, é preciso fazer um isolamento total (lockdown) de 14 dias - tanto você quanto as outras pessoas. “É o período que, se eu tivesse contato hoje com o vírus, durante 14 dias não teria mais possibilidade de transmissão viral a partir dessa data”, explica a professora do IFSC. Mas atenção: é um isolamento total dentro de casa que não deve incluir nem idas a mercado, por exemplo. Ângela recomenda que haja uma logística para que as compras sejam feitas antes como uma forma de permitir esse isolamento total.

O que fazer por enquanto?

A resposta continua sendo a mesma que já demos em outros posts por aqui: aguardar por uma vacina. Em todo mundo, 130 vacinas já estão sendo desenvolvidas segundo Ângela, mas é um processo demorado.

-> Veja neste post por que é tão demorado produzir uma nova vacina

Individualmente, o que cada um deve fazer é seguir mantendo as precauções como uso de máscara, lavagem contínua das mãos, uso de álcool em gel e o distanciamento social. “A partir do momento que todo mundo se cuidar, o vírus não se transmite mais e ele se mitiga e nós podemos ter um afrouxamento e voltar à nossa rotina”, diz Ângela. 

Frase da professora do IFSC. Ângela: "A responsabilidade para que o vírus pare de circular é de todo mundo".

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É possível prevenir o coronavírus por meio da alimentação?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 14 jul 2020 14:58 Data de Atualização: 20 jul 2020 15:38

Alho esmagado com água quente, pimenta, café, bebidas alcoólicas, alimentos alcalinos, vitaminas C e D, até chá de erva-doce: quando o primeiro caso de Covid-19 foi confirmado no Brasil, em 26 de fevereiro de 2020, já circulavam pelas mídias sociais informações falsas ou distorcidas sobre o uso de certos alimentos e nutrientes “milagrosos” que poderiam evitar ou curar a doença. Tanto que, um dia após a confirmação do primeiro caso, em 27 de fevereiro, a página “Saúde sem fake News” do Ministério da Saúde explicava ser falsa a afirmação de que o consumo de vitamina C, fígado bovino, suco de acerola, suco de laranja e chá de erva-doce seriam recomendados para prevenção do contágio.

A explicação é recorrente em todos os desmentidos relacionados a receitas milagrosas: “Até o momento, não há nenhum medicamento, substância, vitamina, alimento específico ou vacina que possa prevenir a infecção pelo coronavírus”. A nutricionista do IFSC Karine Andrea Albiero subscreve o veredito do Ministério da Saúde e complementa: “A gente não tem o alimento vilão, nem o alimento mocinho, e os milagrosos não existem nesse contexto”.

Quer dizer que não há alimentos que contribuam para alimentar a imunidade?

A relação alimentação x imunidade existe, mas é preciso abandonar a ilusão de que o consumo repentino e intenso de determinados alimentos vá provocar uma resposta imunológica suficiente para evitar ou combater o coronavírus – ou qualquer outro patógeno. De acordo com Karine, que é graduada e mestra em Nutrição pela UFSC e atua na Pró-Reitoria de Ensino do IFSC, alimentar-se de forma saudável deve ser uma prática rotineira, adotada ao longo do tempo, e não uma preocupação exclusiva do atual momento de pandemia.

Além disso, a alimentação definida como “promotora de saúde” envolve elementos como a manutenção da hidratação do corpo, com o consumo regular de água; a opção por alimentos in natura, em detrimento dos processados e ultraprocessados; e a redução do consumo diário de sal. Essas e outras recomendações estão no Guia Alimentar para a População Brasileira, material publicado pelo Ministério da Saúde e disponível em acesso livre.
 

 

O consumo de alimentos in natura, em especial de origem vegetal, deve sempre ser priorizado em função da quantidade de fibras e micronutrientes que eles contêm – vitaminas, minerais e antioxidantes – e que são importantes para a microbiota intestinal. Karine explica que esse conjunto de bactérias benéficas funcionam como uma barreira de defesa contra micro-organismos patógenos. Folhosos verde-escuros como rúcula e couve; frutas como laranja, maçã, goiaba, abacate; oleaginosas como as castanhas em geral; e leguminosas como o feijão e a lentilha são exemplos de alimentos extremamente protetores, segundo Karine.

Aliado a isso, o consumo excessivo de sal pode ser controlado com a substituição desse ingrediente por mais temperos naturais no preparo dos alimentos, como salsa, cebolinha, alecrim, coentro, gengibre, manjericão, louro. “É uma ótima escolha que a gente pode fazer diariamente. E esses temperos naturais são ricos em vitaminas, minerais e antioxidades naturais, então a gente qualifica também um pouco mais a nossa alimentação do dia a dia”, ressalta a nutricionista.
 

 

Não tem milagre

Embora haja práticas alimentares saudáveis e a adoção dessas práticas possa contribuir para um melhor funcionamento do sistema imunológico, é preciso ter claro que qualquer resultado de uma mudança na alimentação leva tempo. É muito comum, segundo Karine, que as pessoas esperem resultados rápidos demais. No caso de pacientes que precisam reverter um quadro de sobrepeso ou obesidade, por exemplo, a ansiedade por resultados rápidos costuma ser a regra. “Nós ganhamos peso numa sequência de inúmeros anos, na constância da manutenção de um hábito de vida e de um hábito alimentar ruim. A regressão disso não é algo que vá acontecer em uma semana de suplementação alimentar”, atesta.

E sempre é bom lembrar que, como doença crônica, a obesidade pode favorecer a ocorrência de muitas outras doenças, constituindo-se também fator de risco para o novo coronavírus. No cenário pandêmico, portanto, é preciso ter em mente que a adoção de uma alimentação promotora de saúde é especialmente importante para pessoas que apresentam as chamadas “comorbidades” ou condições clínicas especiais. 


E os chamados superalimentos? Eles têm mesmo alguma coisa especial?

Abacate, coco, aveia, batata-doce, todos esses alimentos “da moda” são saudáveis e devem ter o consumo recomendado, explica Karine – com exceção de casos específicos que devem ser sempre avaliados, criteriosamente, indivíduo por indivíduo, como a necessidade de alguma restrição alimentar associada a patologias, como diabetes, dislipidemias ou hipertensão arterial. Porém, o fato de serem saudáveis não quer dizer que eles sejam milagrosos, curativos ou “super”. Para a nutricionista, a supervalorização desses alimentos é um equívoco e considera-los “super” é uma visão extremamente simplista. 

“Fala-se do alho, da cebola, da pimenta, que tem uma função anti-inflamatória muito importante, açafrão, gengibre, linhaça, gergelim, azeite de oliva. Esses alimentos são ótimos. Mas isso não quer dizer que se eu tomar um litro de azeite de oliva por dia, vou ficar com meu HDL maravilhoso”, brinca Karine. Segundo ela, a lógica da alimentação saudável deve estar harmonizada com outros fatores, como a prática de atividade física e a manutenção da saúde mental.

Em contrapartida, há alimentos que podem ser “super”, mas em sentido negativo: aqueles com excesso de sal ou de açúcar, gorduras saturadas ou trans e pobres em nutrietes. Esses devem, sempre, ser evitados. Margarinas, nuggets, biscoitos recheados, congelados industrializados, sucos de caixinha e refrigerantes são pobres em nutrientes e seu consumo está ligado com o aparecimento de hipertensão arterial, obesidade e diabetes. E com as decorrências da pandemia, como falta de tempo, desmotivação para cozinhar ou stress, pode parecer difícil não recorrer a esse tipo de comida.

Existe alguma forma conhecida de contaminação por coronavírus por meio dos alimentos?

Para além do aspecto nutricional, os alimentos também são centro de atenção na atual pandemia em função da maior atenção que vem sendo dada à higienização dos produtos no momento em que eles entram em casa (há um post sobre esse assunto no Blog do IFSC, além de um episódio do podcast Ciência para Seus Ouvidos). Já está no repertório do “novo normal” a prática de limpar com bastante rigor as compras do supermercado – não só embalagens e invólucros, mas também os alimentos propriamente ditos – com álcool 70% ou solução de hipoclorito de sódio (água sanitária).

De acordo com a Fundação Oswaldo Cruz, é possível a ocorrência de contaminação por alimentos caso o produto tenha tido contato com pessoas doentes, sintomáticas ou não. Isso porque o vírus pode permanecer ativo por diferentes períodos de tempo em vários tipos de superfícies, o que inclui os alimentos. Por isso, é muito importante a adoção das medidas de higiene – que devem permanecer um hábito mesmo após a pandemia, na opinião de Karine Albiero.

“É um hábito que nós deveríamos ter. No supermercado, há manipulação, toque, eu não sei de onde veio esse alimento. Até chegar na prateleira do supermercado, ele passou por inúmeros atravessadores e processos. O coronavírus pode passar dias, horas, dependendo da superfície, e se manter no ambiente em uma determinada temperatura e umidade. Mas a gente sabe que, no processo de higienização e desinfeção, é possível combatê-lo”, considera. A nutricionista ressalta que essa higienização protege não apenas contra o novo coronavírus, mas também elimina outros micro-organismos perigosos, como outros vírus, bactérias e sujidades.

É preciso tomar cuidado especial com alimentos prontos, como os que chegam por delivery, por exemplo?

Karine explica que os alimentos que passaram por cocção têm potenciamente menos risco de contaminação, mas há cuidados que podem e devem ser tomados. “O serviço de delivery pode, sim, ser seguro, mas precisa ter um cuidado redobrado. Além da questão do cuidado do restaurante até chegar na nossa casa, a gente tem o cuidado da nossa casa em diante”, detalha.

Partindo do pressuposto de que, no local onde foi preparado, o alimento tenha recebido todos os devidos cuidados de segurança nutricional, ao receber pratos prontos por delivery é recomendável cuidar, principalmente, de dois aspectos: a embalagem e a temperatura da comida.

Karine recomenda descartar imediatamente a embalagem, de preferência num lugar diferente daquele onde o alimento será consumido. Caso a embalagem seja colocada numa superfície para que a pessoa se sirva, é importante, também, higienizar essa superfície depois.

A nutricionista também sugere que se faça um reaquecimento do alimento antes de consumi-lo, já que submeter o produto a alta temperatura pode minimizar os riscos de contaminação. “Muitos agentes de transmissão e doenças são sensíveis ao calor, e o processo de alta temperatura pode aumentar a segurança no consumo do alimento”, considera.

Aprenda mais sobre hábitos alimentares promotores de saúde

Consulte o Guia Alimentar para a População Brasileira, publicação gratuita do Ministério da Saúde.

Conheça fontes confiáveis de verificação de informações

Conheça a página “Saúde Sem Fake News”, do Ministério da Saúde. Veja os esclarecimentos sobre alho, café, chá de limão com bicarbonato, consumo de bebidas e alimentos quentes, alimentos alcalinos, água morna com sal, entre outros boatos.

Conheça também a página “Caçadores de mitos” da Organização Mundial da Saúde (OMS), na qual se desmente boatos sobre propriedades que teriam a pimenta, o alho e as bebidas alcoólicas na prevenção e tratamento do novo coronavírus (a página está em inglês).

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Preciso andar de ônibus, e agora?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 07 jul 2020 13:30 Data de Atualização: 10 jul 2020 13:19

Estamos há cerca de quatro meses em distanciamento social devido à pandemia de Covid-19. Nesse momento, muitos municípios estão retomando a circulação de ônibus urbanos. Em Florianópolis, por exemplo, os ônibus municipais e intermunicipais já voltaram a circular de segunda a sexta-feira, com várias restrições, como capacidade reduzida a 40% da lotação, uso obrigatório de máscaras e pagamento somente com cartão (veja outras cidades catarinenses que retomaram o transporte coletivo urbano).

O que essa volta representa? A professora dos cursos técnico e superior em Enfermagem do Câmpus Joinville do IFSC, Josiane Steil Siewert, alerta que o transporte público é um fator de risco à transmissão do coronavírus por promover a aglomeração de pessoas e pela dificuldade de se realizar a limpeza do veículo a cada troca de passageiros. No entanto, quem não pode prescindir do transporte público pode tomar alguns cuidados e minimizar os riscos.

Josiane destaca que, havendo necessidade de sair de casa, o transporte público não deve ser a primeira opção. A prioridade deve ser dada ao transporte individual, de carro, bicicleta ou mesmo a pé, que oferecem um risco menor de contaminação. “O transporte público não deve ser a nossa primeira escolha, pois nós podemos tomar todos os cuidados, mas muitas vezes, as pessoas que estão junto com a gente podem não ter toda essa precaução”.

Se realmente for necessário se deslocar de ônibus, alguns cuidados devem ser tomados:

  • - Se possível, escolha um horário alternativo, fora do horário de pico;
  • - Planeje o itinerário, para trocar o menos possível de transporte e fazer um trajeto menor;
  • - Utilize sempre a máscara e tenha uma reserva, para trocar no caso de a máscara ficar úmida e na volta para casa;
  • - Se possível, utilize o protetor facial ou para os olhos, pois os olhos são também passíveis de contaminação;
  • - Evite ao máximo tocar as superfícies do ônibus;
  • - Tente sentar à maior distância possível dos outros passageiros, principalmente evite sentar de frente para outras pessoas;
  • - Utilize álcool em gel após tocar as superfícies do ônibus;
  • - Ao chegar em casa, retire a roupa e os sapatos logo ao entrar e deixe-os em local separado;
  • - Passe as roupas utilizadas na rua e também as máscaras de tecido após lavá-las;
  • - Lembre-se de higienizar o celular ao chegar em casa, de preferência com álcool isopropílico, que não contém água;
  • - Se for necessário levar uma criança no ônibus, segure-a para que ela toque o menos possível nas superfícies e higienize as mãos da criança com álcool em gel.

A orientação de não levar as mãos ao rosto é uma das mais difíceis de cumprir, segundo Josiane. “Alguns estudos verificaram que fazemos esses movimentos pelo menos 20 vezes por minuto, seja para coçar o nariz, mexer no cabelo, todos movimentos inconscientes difíceis de evitar, por isso a importância da utilização do álcool em gel ao se tocar as superfícies do transporte coletivo e utilizar um protetor facial ou para os olhos”, aponta.

Janelas abertas ou fechadas?

Tanto a professora Josiane quanto o professor Jesué Graciliano da Silva, do curso técnico em Ar-Condicionado e Refrigeração do Câmpus São José do IFSC, concordam que deixar as janelas abertas é mais seguro que utilizar o ar-condicionado do ônibus, pois a troca de ar constante evita a disseminação do vírus.

Jesué explica que as empresas de ônibus estão sendo cobradas para que tomem providências para manterem as janelas abertas, o que pode ser um problema, pois em muitas cidades, as frotas foram totalmente climatizadas, como por exemplo Salvador. Em Florianópolis, a Prefeitura ordenou a retirada dos lacres das janelas de ônibus.

Já os fabricantes de ônibus alegam que os veículos seriam mais seguros que ambientes climatizados normais, pois permitem até 20 trocas de ar por hora (troca de todo o volume de ar dentro do veículo), enquanto um escritório climatizado, por exemplo, permite de cinco a 10 trocas de volume de ar a cada hora. Além disso, os ônibus precisam manter um sistema de filtragem de ar conforme determina legislação (NBR 15570-2009). “Do ponto de vista matemático, está dentro da norma. Porém, em um ambiente com ar condicionado, você não fica ‘colado’ nas pessoas. No Brasil, os ônibus saem lotados, e esse é um problema. Uma coisa é eu estar em um ambiente climatizado, onde eu posso ficar a dois metros de distância da pessoa. Outra é eu entrar no ônibus e ele estar lotado”, destaca o professor Jesué.

Outro problema apresentado pelo professor é a falta de fiscalização sobre a manutenção dos sistemas de ar condicionado no que diz respeito à filtragem de ar. “O vírus não tem asinha, então ele precisa pegar carona em pequenas partículas que ficam em suspensão no ar, e são filtradas pelo ar condicionado”, explica o professor. Segundo ele, com as janelas abertas, a diluição das partículas é maior.

Avião é seguro?

A troca de ar no avião é mais rápida que no ônibus ou trem, por exemplo. Além disso, o ar do avião é limpo por um instrumento chamado filtro de ar particulado de alta eficiência (Hepa, na sigla em inglês). Este sistema é capaz de capturar partículas menores do que aquelas que são capturadas pelos sistemas comuns de ar condicionado. 

No entanto, alerta Jesué, o avião também representa um risco por diversos fatores, como por exemplo a proximidade entre os passageiros ou a falta de tempo para higienização completa entre um voo e outro. Assim, o passageiro deve tomar os mesmos cuidados que em qualquer outro transporte coletivo.

Qual o futuro do transporte coletivo?

Maior cuidado com procedimentos de limpeza, com utilização de equipamentos mais modernos, como ultravioleta, deve ser incorporado à rotina das empresas de transporte coletivo, segundo os professores Josiane e Jesué.

Os fabricantes desses veículos também devem trabalhar em novos projetos para aperfeiçoamento dos sistemas de ar condicionado. É preciso lembrar que muitas medidas têm impacto econômico, como por exemplo a revisão da lotação dos veículos em circulação. Além disso, os próprios usuários do transporte devem adquirir os novos hábitos de higiene.

Saiba mais:

Para obter mais informações sobre ar condicionado e a pandemia de Covid-19, acesse o site preparado pelo professor Jesué Graciliano da Silva, com entrevistas com especialistas, estudos diversos e vídeos explicativos.

Confira as orientações da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para passageiros e empresas de transporte coletivo.

Veja também reportagem sobre estudos realizados na China e Estados Unidos. O estudo chinês analisou possível contágio por ar condicionado em um restaurante. Nos Estados Unidos, foram realizados estudos levando em conta as rotas de ônibus interestaduais e incidência do vírus.

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Como funcionam os testes que identificam o coronavírus no organismo?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 30 jun 2020 13:42 Data de Atualização: 30 jun 2020 14:00

Desde o início da pandemia do novo coronavírus, os órgãos de saúde divulgam com muita ênfase os principais sintomas da doença que foi nomeada como “Covid-19”: febre, tosse seca, dor de garganta e sensação de cansaço – além de, com menos frequência, perda do paladar e do olfato, dor de cabeça, erupções cutâneas e embranquecimento das pontas dos dedos. Em geral, a febre é o primeiro sinal de alerta, e a medição da temperatura corporal tornou-se prática corriqueira na entrada de qualquer espaço público, como forma de triagem.

Porém, os sintomas iniciais da infecção pelo novo coronavírus são muito semelhantes aos da gripe comum, dos resfriados tão típicos das estações frias e mesmo de alguns quadros alérgicos que acometem o sistema respiratório. Então, como se certificar de que um paciente com sintomas (ou mesmo assintomático) é portador do SARS-CoV-2?

Diferentes metodologias

A resposta está nos testes desenvolvidos especificamente para pesquisar a presença do novo coronavírus no organismo. No vídeo abaixo, o professor Paulo Henrique Calixto, que atua na área de Biotecnologia no Câmpus Lages e é doutor em Medicina Tropical e Infectologia, explica que o diagnóstico da Covid-19 pode ser feito, basicamente, por dois tipos de testes: os diretos e os indiretos.


No método direto, procura-se o vírus propriamente dito no organismo do paciente. Se o resultado dá positivo, isso significa que a pessoa que foi testada está com o vírus. O teste direto mais comum é o PCR, para o qual se extrai uma amostra da mucosa nasal do paciente, com uso de um “swab” (tipo de haste flexível com ponta de algodão).

O professor enfatiza que, pelo teste PCR, é possível identificar se o paciente está com o vírus no momento do teste. Esse teste não detecta anticorpos, então pelo PCR não é possível saber se eventualmente a pessoa já contraiu o coronavírus e se curou. Esse tipo de pesquisa para anticorpos ocorre com os testes indiretos, que são aqueles que procuram não o vírus propriamente, mas a presença de células de defesa no organismo do paciente.

Os chamados testes rápidos, que em abril tiveram a venda em farmácias e drogarias autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), são do tipo indireto. Em cerca de 30 minutos, eles identificam a presença de anticorpos para o coronavírus no material coletado. O professor Paulo Calixto ressalta que, nesse tipo de teste, não se pesquisa a presença do vírus, mas sim evidências de que o vírus tenha passado pelo organismo do paciente. Caso a pessoa apresente algum anticorpo contra o novo coronavírus, isso quer dizer que ela já teve contato com ele.

Por que existem testes falso-negativos?

Os testes rápidos têm um percentual de 20% a 30% de resultados falso-negativos, já que os anticorpos, em geral, só aparecem no sangue entre 7 e 14 dias depois da infecção. Por isso, o índice de falso-negativos é considerável: “Se, por acaso, eu me infectei hoje ou há sete dias, e se eu fizer uma sorologia, muito provavelmente ela vai dar negativa. Então eu vou receber um resultado negativo para a Covid e vou continuar as minhas atividades, continuar indo ao trabalho, convivendo com as pessoas e ao mesmo tempo transmitindo, porque eu sou portador mesmo não tendo sintoma nenhum. Essa é a grande desvantagem da sorologia”, detalha Paulo.

Em contrapartida, a sorologia é vantajosa para a realização de inquérito sorológico, ou seja, quando se busca saber quantas pessoas já se infectaram pelo vírus.

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Existe uma previsão para o fim da pandemia?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 23 jun 2020 09:59 Data de Atualização: 23 jun 2020 13:11

O anúncio de que se tratava de uma pandemia de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus (Sars-Cov-2), foi feito pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 11 de março de 2020. Desde então, há mais de três meses, o que todos querem saber é quando essa situação irá acabar.

No início deste mês, vimos a Nova Zelândia comemorar o fato de não ter mais casos ativos de coronavírus, tornando-se um dos primeiros países do mundo a voltar à normalidade pré-pandemia, suspendendo todas as restrições impostas para controlar a disseminação do vírus. No entanto, uma semana depois, dois casos voltaram a ser registrados e nos mostraram que a luz no fim do túnel pode não estar tão próxima.

Afinal, podemos falar de um fim da pandemia?

Segundo a epidemiologista e professora do curso de Enfermagem do Câmpus Florianópolis do IFSC, Vanessa Jardim, a resposta é sim, mas isso em termos de pandemia, já que a doença será algo presente nas nossas vidas. “A gente espera que sim, que haja um fim do estado de pandemia. Agora o fim da doença, o fim da disseminação da Covid-19 entre a população, é algo extremamente incerto de se dizer”, afirma a doutora em Enfermagem na área de Indicadores de Saúde.


A professora explica que conviver com a doença será uma realidade, mesmo que uma vacina seja desenvolvida. “Até hoje convivemos com surtos de Influenza, apesar de termos vacina e tratamento específico”, comenta ao relembrar a epidemia da Influenza, que também é uma síndrome aguda respiratória como a Covid-19.

Em que fase estamos no momento?

Nesta segunda-feira (22), a Organização Mundial da Saúde alertou que a pandemia continua acelerando no mundo e que seus efeitos serão sentidos por muitos anos. Mais de 8,8 milhões de casos de pessoas infectadas pelo coronavírus já foram reportados à OMS e mais de 465 mil pessoas morreram por causa da Covid-19 em todo o mundo.

Se você acompanha os noticiários, já deve ter visto diversas reportagens falando do pico da curva da doença. No mês passado, a Secretaria da Saúde de Santa Catarina revisou a data e projetou que o pico da pandemia do coronavírus no Estado deve ocorrer até o fim de junho. Se você está confuso achando que já leu ou ouviu que o pico seria em abril ou maio, a gente explica.

O pico da curva da doença muda, uma vez que ela se comporta de maneira diferente de acordo com as medidas que são tomadas no local para a contenção da circulação do vírus. A professora Vanessa revela que todo ciclo de uma doença infectocontagiosa ocorre em forma de curva ascendente, passando para um período de platô para depois começar a ser descendente. “Se são tomadas medidas para atrasar ou impedir a circulação extrema do vírus, a gente começa a ter um aumento do número de casos mais discreto e pode ser que não haja um pico ou que a gente não veja este pico”, afirma. 

De acordo com a epidemiologista, em Santa Catarina está havendo um comportamento semelhante entre os municípios de forma geral. No gráfico abaixo, extraído de uma aplicação on-line interativa desenvolvida por pesquisadores do Câmpus Lages do IFSC, é possível visualizar os casos confirmados de Covid-19 no estado:

 

Como é possível perceber, ainda estamos subindo na curva. “Não é pra ser alarmante, mas olhando do ponto de vista do ciclo da doença infecciosa e do ciclo epidemiológico, ainda estamos em um período ascendente”, ressalta Vanessa. A professora do IFSC alerta ainda que essa ascensão vem junto com o período de inverno, em que outras síndromes agudas respiratórias normalmente já acometem a população.

Quando chegaremos ao platô da curva?

A gente ainda não chegou ao estágio de platô na curva, que é quando grande parte da população já se contaminou e é possível contar com a resposta imunológica de forma que a doença não siga se espalhando. Mas é aí que está o grande problema da atual pandemia. “A gente ainda não conseguiu definir no padrão populacional qual é a resposta imunitária ao novo coronavírus”, explica Vanessa.

Para entender melhor a questão da curva da doença, assista à live realizada no canal do IFSC do YouTube com o tema “O que os números revelam sobre a pandemia no Brasil”

Como saber que chegamos ao fim?

Diferentemente de quando a OMS declarou que estávamos vivendo uma pandemia, a professora do IFSC afirma  que, provavelmente, não teremos um grande anúncio para avisar que chegamos ao fim desta situação. “Isso só vai acontecer se a gente encontrar uma vacina e aí é um processo bem longo: descobrir a vacina, produzir a vacina, tornar a vacina disponível para a população em escala global e aí podemos falar de um controle global da pandemia”, afirma. Neste post do IFSC Verifica abordamos a questão de por que é tão demorado produzir uma nova vacina.

Enquanto os cientistas não desenvolverem uma vacina para combater o novo coronavírus, o que deve ser feito é tomar medidas que evitem a circulação exacerbada do vírus, a contaminação excessiva da população e um número elevado de mortos.

Olhando para a história, temos exemplos muito diferentes de pandemias para buscarmos algum parâmetro que nos permita estimar um fim para a atual doença. O professor de história do Câmpus Jaraguá do Sul-Centro, Jean Raphael Zimmermann Houllou, elenca a gripe russa, do século XIX, e a gripe espanhola, do século XX, que foram datadas em poucos anos. Já a varíola teve seus primeiros registros inferidos aos faraós do Antigo Egito e assolou a humanidade durante milhares de anos até ser considerada erradicada apenas no final do século XX por meio da vacinação em massa. A cólera, por sua vez,  é uma doença ainda presente.

Se tiver interesse em saber mais sobre pandemias ao longo da história, suas consequências, curiosidade e, especialmente, o que podemos aprender com essa pandemia do coronavírus, escute este episódio do podcast do IFSC Ciência para Seus Ouvidos.

Quais variáveis interferem para chegarmos ao fim da pandemia?

A principal variável que nos permite vencer o coronavírus é a imunidade da população, ou seja, as pessoas estarem biologicamente protegidas do vírus. Segundo a epidemiologista do IFSC, essa imunidade pode ser conseguida pelo contato com o agente infeccioso de forma natural – que significa ser contaminado com a doença e gerar anticorpos – e a outra maneira é a vacina, porque a vacina induz o sistema imunológico a desenvolver uma defesa e, com isso, é possível proteger a população ao seu redor. 

Então por que não expor toda a população ao vírus?

É neste ponto que entra toda a discussão da capacidade do sistema de saúde. "Não dá pra fazer isso porque não temos condições de tratar os doentes e, como há muitos doentes entre os contaminados, isso seria eliminar conscientemente os indivíduos mais vulneráveis, o que não é ético nem tolerável”, destaca Vanessa, lembrando que alguns países pensarem nesse tipo de ação – como o Reino Unido - , mas recuaram porque não funcionou. Segundo a professora, em uma doença como a Covid-19, o único meio seguro para erradicar a doença é a vacina.

O que fazer até que se tenha uma vacina?

As estratégias de distanciamento social, testagem em massa, higienização das mãos e uso de máscaras são essenciais para conter ou diminuir a circulação do vírus enquanto não é possível tratar todos os infectados. “Isso com certeza alarga a curva epidêmica porque estaremos em um período maior sem imunidade ao vírus, mas também estamos contendo o número de doentes e mortos pela nova doença”, afirma Vanessa.

Enquanto cientistas no mundo todo estão atrás de uma vacina, você pode fazer sua parte para que a gente chegue o quanto antes ao fim da pandemia.

 

Em uma entrevista dada em abril, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, reforçou que o relaxamento de medidas de isolamento social ou quarentena não significa o fim da pandemia de Covid-19. "Queremos reforçar que relaxar restrições não é o fim da epidemia em país nenhum. Acabar com a epidemia vai requerer um esforço contínuo por parte de indivíduos, comunidades e governos para continuar a suprimir e controlar o vírus", afirmou.

Já posso visitar minha mãe e sair só com uns poucos amigos?

Esta é uma situação delicada, pois o que a OMS, o Ministério da Saúde e, no nosso caso, o Governo de SC e os municípios têm feito são recomendações de distanciamento social, evitar aglomerações e, se for possível, ficar em casa. Segundo a epidemiologista Vanessa, os estudos científicos têm apontado que a transmissão do coronavírus ocorre, principalmente, quando se está entre pessoas contaminadas (assintomáticas ou não) por um período muito longo. “Não deixa de ser uma escolha pessoal, mas muitas questões precisam ser avaliadas se alguém decide fazer isso, porque para transmissão do vírus é necessário contato”, comenta. 

De acordo com a professora do IFSC, algumas questões que tornam essa situação um pouco mais segura, se for necessário, é evitar o contato e fazer isso em ambientes abertos, evitando o compartilhamento de espaços, uma vez que esse tipo de contato pode gerar a transmissão do vírus. “Vale sempre a reflexão pessoal: se eu sou uma pessoa que preciso me expor constantemente por questões de trabalho ou atividades necessárias que eu realizo, eu vou querer expor meu familiar - membro de grupo de risco - ao meu contato sabendo que talvez eu tenha sido exposto ao vírus mesmo sem apresentar sintomas?”, destaca Vanessa.

Quando a vacina for descoberta, será vida que segue?

Se a descoberta de uma vacina pode representar o fim da pandemia em termos médicos, não podemos nos esquecer do que essa doença tem causado na sociedade como um todo - e não só em quem é contaminado ou atingido direta ou indiretamente pelo coronavírus. De acordo com a professora de Sociologia do Câmpus Criciúma, Sabrina Rosa Paz, as desigualdades sociais que sempre existiram e que estão sendo escancaradas neste momento, além de terem sido agravadas durante a pandemia, serão conservadas. 

Por isso, é difícil falar de um fim da pandemia em termos sociais. “A pandemia teve como efeito o que podemos chamar de uma aceleração de processos que já estavam em curso, como, por exemplo, o desemprego e o crescimento do trabalho informal e o aumento progressivo da educação a distância”, destaca Sabrina.

E o fim dos impactos econômicos?

Se por um lado estamos ansiosos aguardando a descoberta de uma vacina para podermos chegar ao fim da pandemia em termos de saúde, por outro, teremos um longo caminho de recuperação econômica pela frente. O professor da área de Gestão e Negócios do Câmpus São Miguel do Oeste, Felipe Cintra, menciona estudos feitos pelos organismos financeiros internacionais, como o FMI, e pelas agências de análise de riscos, que apontam a volta de um nível de atividade econômica similar ao que se tinha antes da pandemia a partir do primeiro semestre do ano que vem, mas isso em um cenário bem otimista e em termos globais. “Em outros cenários, temos relatos de que a gente pode demorar até 2023 para chegar ao nível de atividade econômica que tínhamos antes da pandemia”, afirma.

Ao analisarmos a situação econômica no Brasil, a previsão é ainda pior. “Quando você tem um ambiente de incerteza, não só do ponto de vista sanitário e global, mas também das regras do próprio funcionamento do país, que é o que acontece no Brasil, dificulta ainda mais responder. Pra cá, o próprio Banco Central vem trabalhando com um cenário de 2022 para 2023”, destaca o professor.

Para Cintra, é muito difícil responder quando vamos conseguir sair dessa pandemia.

Vida pós-pandemia

Muito tem se falado sobre como será a vida pós-pandemia e a certeza de que teremos um “novo normal”. Um hábito que deveria ser incorporado na nossa rotina, segundo a epidemiologista Vanessa, é a etiqueta respiratória:

Enquanto não existir uma vacina para o coronavírus, a professora de Sociologia do IFSC, Sabrina Paz, acredita que haverá uma “nova normalidade” com o estabelecimento de regras e medidas de proteção, especialmente, nos lugares públicos e ambientes de trabalho. A docente espera que, no período pós-pandemia, possamos pensar e agir de forma mais sistêmica.

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Cloroquina e hidroxicloroquina: esses medicamentos têm eficácia contra a Covid-19?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 09 jun 2020 14:23 Data de Atualização: 22 jun 2020 16:38

Um dos assuntos mais polêmicos ao se falar no combate à Covid-19 é o uso dos medicamentos cloroquina e hidroxicloroquina. No início da pandemia no Brasil, em meados do mês de março, foram anunciadas pesquisas com essas drogas no combate à doença, o que gerou uma corrida às farmácias por pessoas que queriam estocar o medicamento em casa, obrigando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a emitir resolução para que a venda dessas drogas fosse feita apenas com receituário médico especial.

Nos meses subsequentes, houve um esforço mundial para a realização de pesquisas com a substância. Como resultado, revistas científicas importantes, bem como a comunidade médica e científica, passaram a desaconselhar o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina para o tratamento da Covid-19 por não apresentarem resultados clínicos relevantes e terem muitos efeitos colaterais.

No Brasil e nos Estados Unidos, principalmente, o uso da droga virou questão política. O governo brasileiro chegou a emitir portaria recomendando o uso da cloroquina e hidroxicloroquina, desde que o paciente assine termo de responsabilidade. Laboratórios do Exército Brasileiro também passaram a produzir esses medicamentos.

Já no início da pandemia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou o Solidarity, um esforço conjunto mundial de pesquisa que busca acelerar a identificação de alguma droga que possa ajudar no tratamento da Covid-19, entre eles a cloroquina e a hidroxicoloroquina. No início de junho, a OMS afirmou que novas pesquisas serão feitas com a cloroquina e a hidroxicloroquina, inclusive a revisão de um artigo importante publicado na revista científica The Lancet. Porém, não há recomendação do seu uso no momento.

Para esclarecer esse assunto, conversamos com o médico Diego Vinícius de Magalhães, do Subsistema Integrado de Atenção à Saúde do Servidor (SIASS) do IFSC. Ele é reumatologista e tem experiência em receitar esses medicamentos, muito utilizados no tratamento de doenças imunomediadas, como artrite reumatoide e lúpus, e também no tratamento da malária. 

Diego reafirma a posição da comunidade médica, de que essas drogas não apresentam efeitos comprovados contra a Covid-19, e ainda alerta para o perigo da automedicação com substâncias que podem ter efeitos colaterais graves.

Veja em vídeo os principais trechos da entrevista.

Qual a diferença entre cloroquina e hidroxicloroquina?

Esses dois medicamentos foram desenvolvidos para o tratamento e prevenção da malária. A diferença entre eles está na química orgânica, sendo a cloroquina o medicamento mais antigo. As duas substâncias têm ação no sistema imunológico e por isso também são utilizadas no tratamento de doenças imunomediadas, ou seja, quando o sistema imunológico ataca o próprio organismo, como lúpus, artrite reumatoide, Síndrome de Sjögren, entre outras.

Outra diferença entre as duas drogas está na sua farmacodinâmica, como o tempo de excreção renal. A cloroquina tem mais chance de se depositar na mácula (estrutura do fundo do olho), principalmente para pessoas com problemas nos rins ou fígado e no uso prolongado do medicamento. 

Como essas drogas começaram a ser testadas para combater a Covid-19?

Os coronavírus, como uma “família” de vírus, são conhecidos desde a década de 1950. Em dezembro de 2019, foi descoberto na China o vírus Sars-Cov-2, que causa a doença Covid-19. Esse vírus, em pessoas que têm predisposição a desenvolver a forma mais grave, causa uma “tempestade de citocinas”, ou seja, uma resposta inflamatória do organismo, que resulta em disfunção de vários órgãos, como pulmão, rins e intestino. Em muitos pacientes, a doença evolui para uma pneumonia, e o paciente precisa ficar entubado.

Como a cloroquina e a hidroxicloroquina têm ação sobre o sistema imunológico, começaram a ser realizadas pesquisas com o vírus Sars-Cov-2. Observou-se em experimentos in vitro (em laboratório) que esses medicamentos diminuíram a capacidade do vírus de entrar em células humanas, dificultando a ação do vírus nessas células. Porém, quando foram realizados testes em pessoas doentes, não houve bons resultados.

Por que não podemos dizer que a cloroquina e a hidroxicloroquina são a cura para esse novo coronavírus? Como foram realizados os estudos com esses medicamentos?

Para afirmarmos que um medicamento tem uma ação comprovada no tratamento de uma doença precisamos realizar estudos controlados, randomizados, duplo-cego, com grupo controle, com uma metodologia bem trabalhada e com resultados positivos. Para cada tipo de medicamento existe um padrão de pesquisa e um tempo variado para o desenvolvimento. No caso da cloroquina e hidroxicloroquina, são medicamentos que já existem. O que se tentou foi observar se havia efeito sobre o Sars-Cov-2. No caso, os estudos que apontaram algum resultado foram estudos observacionais apenas, não houve um estudo de peso estatístico. 

Então, cientificamente, não existe um estudo sério, organizado e sem viés confirmando dados positivos tanto da hidroxicloroquina quanto da cloroquina. Observou-se, em estudos mais completos, (como o publicado no The New England Journal of Medicine) efeitos colaterais graves com o uso da hidroxicloroquina em altas doses, como arritmia cardíaca. Porém, não se observou diferença significativa na melhora dos pacientes. Então, no momento, não se tem evidência científica de que a hidroxicloroquina e a cloroquina curam ou tratam Covid-19. Há mais uma questão política que científica sobre o medicamento. Quando o Ministério da Saúde lançou um protocolo para uso da hidroxicloroquina, as sociedades médicas emitiram documentos dizendo que não há evidência científica. 

E assim como não há comprovação da eficácia do uso desses medicamentos no tratamento da Covid-19, também não se encontrou, até o momento, nenhum outro medicamento que possa ser utilizado. Entre todos os medicamentos que foram testados, um medicamento chamado Remdesivir, liberado nos Estados Unidos, foi o que apresentou melhor resposta, porém não conseguiu controlar as formas graves da doença.

Qual o perigo da automedicação com a cloroquina e a hidroxicloroquina?

Nós nunca devemos tomar um medicamento por conta própria. O medicamento deve ser prescrito após uma avaliação médica, porque um medicamento que faz bem para mim pode não fazer bem para outra pessoa. 

Assim como a definição da dosagem, os efeitos colaterais dependem da dose do medicamento e do peso da pessoa. Quando usado em dose alta ou associado a algum antibiótico, pode causar arritmia cardíaca grave. Os efeitos mais a longo prazo podem ser deposição na mácula do olho e diminuição da capacidade visual. Quem tem disfunção renal, mesmo tomando uma dose pequena, tem mais risco de ter uma arritmia. Quando esses medicamentos são utilizados por quem precisa, em uma dose correta, os efeitos colaterais são raros. 

Além disso, pode haver reações alérgicas ao medicamento, como fechamento da glote e lesão de pele, que é uma reação a um medicamento que a pessoa não está acostumada a tomar. Não só para Covid-19, mas para qualquer doença, a automedicação não é recomendada.

Quando surgiu a notícia de que a cloroquina e a hidroxicloroquina poderiam ter algum efeito positivo em relação à Covid-19, houve uma corrida às farmácias, com excesso de prescrição, já que esses medicamentos não exigiam receituário de controle para ser adquirido. Essa busca exagerada casou outro problema grave, já que muitas pessoas que utilizavam esse medicamento para outras doenças (como lúpus e artrite) acabaram ficando sem medicação.

Como é o tratamento contra a Covid-19, em casos leves e graves?

Em relação à Covid-19, 85% dos infectados não vão ter sintomas, ou vão ter sintomas leves, como tosse seca, coriza, falta de ar leve, indisposição, febre, dor no corpo, parecido com uma gripe. Porém, assim como a gripe, não há medicamento que combata o vírus, ao contrário das infecções bacterianas, tratadas com antibiótico.

Nos sintomas leves, é orientado que a pessoa faça repouso, se mantenha em isolamento por 14 dias, faça hidratação e tome remédio para febre. Nos casos mais graves, que exige hospitalização e até mesmo ventilação mecânica, há cuidados intensivos de UTI, mas não há um medicamento eficaz para ser utilizado nesse caso.

Existe algum alimento ou bebida que possa ser usado na prevenção da Covid-19? Há boatos que a água tônica, um refrigerante à base de quinino, possa ter esse efeito.

Não há nenhum estudo que diga que tomar água tônica ou qualquer outro alimento com quinino em sua composição vá prevenir ou curar a Covid-19. O que se orienta, e que há comprovação de eficácia, é a prevenção: isso inclui a etiqueta de tosse e espirro, utilizar máscara quando sair à rua, lavar as mãos corretamente com água e sabão ou utilizar o álcool em gel e, é claro, manter o distanciamento social sempre que possível.

Outra medida que você pode tomar é ter uma alimentação saudável, com alimentos mais naturais, fortalecendo o organismo como um todo. Porém, não existe um único alimento que vá prevenir ou curar a Covid-19. É importante sempre que buscar informações, procure fontes confiáveis, como seu médico ou canais oficiais de órgãos de saúde.

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IFSC VERIFICA

Por que é tão demorado produzir uma nova vacina?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 02 jun 2020 13:33 Data de Atualização: 02 jun 2020 14:15

Você já deve ter ouvido que prevenir é melhor do que remediar, certo? Pois saiba que esse ditado não é apenas sabedoria popular. É fato: no caso das doenças transmitidas por vírus e bactérias, evitar sua incidência por meio das vacinas é considerado mais indicado do que o tratamento por meio de medicamentos. Ou seja, é melhor prevenir o aparecimento da doença – com uma vacina – do que ter que tratar os doentes com remédios.

Desde que os primeiros casos de Covid-19 surgiram, no final de 2019, o rápido alastramento da doença viral altamente contagiosa desencadeou uma corrida pelo desenvolvimento de uma vacina que proporcione imunização contra o vírus SARS-CoV-2. Em abril, a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou um programa de pesquisa e desenvolvimento que une 20 países no esforço pela disponibilização da vacina contra o novo coronavírus o mais rapidamente possível, de modo a conter a pandemia (leia, em inglês, o pronunciamento público do grupo). 

Mas se já existem vacinas contra outros tipos de vírus, não deveria ser mais simples produzir uma vacina nova?

A gente fez essa pergunta para a professora Rosane Schenkel de Aquino, que é farmacêutica bioquímica e dá aulas de disciplinas como Microbiologia, Imunologia e Toxicologia no Câmpus Lages. Ela explica que não há “receita” pronta, já que para se produzir uma vacina é preciso, primeiro, conhecer as especificidades do vírus para o qual se está buscando a imunização. 

“Cada vírus tem uma característica diferente. Ele pode ser da mesma família de um outro, mas ter uma forma de ligação diferente, produzir uma proteína, um gene diferente, e isso pode deixá-lo mais agressivo ou menos agressivo”, exemplifica. Isso ocorre mesmo dentro de vírus de uma mesma família, como é o caso dos vários coronavírus. 

Quais são os passos para o desenvolvimento de uma vacina?

De acordo com Rosane, conhecer o vírus permite que se entendam os mecanismos pelos quais ele funciona – por exemplo, identificar, por meio do DNA ou do RNA, que componentes induzem o sistema imunológico do organismo infectado e produzem uma quantidade suficiente de anticorpos para gerar a imunização. É preciso também identificar, nesse estágio inicial, quais as células que o vírus infecta no ser humano e, além disso, os tipos de ligação que ele faz com essas células. No caso do SARS-CoV-2, ele infecta células pulmonares; já o HIV, por exemplo, infecta as células do sistema imunológico. São mecanismos de ação diferentes.

Os testes iniciais, explica Rosane, geralmente são feitos em células de cultivo – que são produzidas a partir de tecidos vivos especialmente para experiências de laboratório. A partir desse estágio parte-se para os testes em animais, que ainda são controvertidos, e somente depois para os testes em seres humanos. De acordo com a OMS, já estão em estágio de avaliação clínica – ou seja, em estudos com seres humanos – dez candidatas a vacinas contra o novo coronavírus. Outros 115 estudos encontram-se no estágio de avaliações pré-clínicas (a lista completa, em inglês, pode ser consultada no site da OMS).

Quando devemos ter uma vacina contra o novo coronavírus?

Desde o início da pandemia, as autoridades de saúde têm repetido que não haveria perspectiva de vacina contra o causador da Covid-19 em menos de dois anos. Contudo, com a divulgação de resultados positivos nos primeiros testes realizados em seres humanos por uma empresa norte-americana, em maio, alguns veículos de comunicação já falaram na possibilidade de uma vacina no final de 2020 ou início de 2021. 

A professora Rosane Schenkel de Aquino considera que é muito difícil fazer essa estimativa com precisão. Segundo ela, algumas vacinas das que temos hoje disponíveis exigiram décadas de pesquisa entre a descoberta do patógeno e a oferta de imunização para a população. Um aspecto que toma muito tempo das pesquisas, explica, é o processo de avaliação da segurança da substância. “Para que se tenha certeza de que a vacina é segura, isso envolve acompanhar os pacientes testados por mais tempo, para saber se houve efeito colateral, se o paciente adoeceu ou apresentou algum sintoma diferente”, ressalta.

Além disso, após a “descoberta” da vacina propriamente dita, no caso de uma pandemia em curso como a que vivemos hoje, há a necessidade de garantir que ela chegue ao maior número de pessoas possível, de forma rápida. Ou seja, é preciso que a fabricação entre em escala industrial na produção e na distribuição.

Qual o papel do Brasil nas pesquisas em torno de uma vacina para a Covid-19?

O Brasil não compõe o grupo de 20 países que integram a cooperação internacional capitaneada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em busca da vacina contra o novo coronavírus – o único representante da América do Sul na iniciativa é a Argentina.

Porém, há uma vacina contra o SARS-CoV-2 em desenvolvimento na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), centenária instituição de ciência e tecnologia em saúde vinculada ao governo federal e sediada no Rio de Janeiro. Isso é relevante, segundo Rosane, porque as características do vírus podem sofrer algum tipo de mudança entre um lugar e outro. “Isso não quer dizer que uma vacina produzida na Europa não vá funcionar no Brasil. Mas ter uma produção de vacina local, que considere as características do vírus circulante, teoricamente é mais eficiente”, detalha. 

As vacinas são capazes de erradicar doenças?

Sim. Isso já aconteceu com a poliomielite ou paralisia infantil, que é considerada erradicada no Brasil desde 1989. Em nível global, a varíola também foi uma doença viral que a OMS considerou erradicada em 1979 (leia, em inglês, sobre a comemoração dos 40 anos desse feito). O Brasil já chegou a receber certificação de erradicação do sarampo, mas a baixa procura pela vacinação abriu a brecha para o surgimento de um surto da doença em 2018. Hoje a vacinação contra o sarampo é recomendada tanto para crianças quanto para adultos.

Em muitos casos, o fato de uma doença “desaparecer” pode gerar a falsa impressão de que não é mais necessário se vacinar. Notícias falsas difundidas sobre supostos efeitos colaterais da imunização, não apenas no Brasil, também são apontadas como responsáveis pela queda na procura pela vacinação e a reincidência de doenças controladas, como é o caso do sarampo.

Esse foi um dos assuntos discutidos numa recente live do projeto “O cuidar em evidência”, coordenado por professoras dos cursos de Enfermagem dos câmpus Florianópolis e Joinville (a gravação está disponível no canal IFSC Enfermagem).

Na conversa conduzida pela coordenadora do bacharelado em Enfermagem do Câmpus Joinville, professora Betina Barbedo, a enfermeira Sandrine Teuber e a infectologista Magali Chaves Luiz lamentaram o grande prejuízo que as notícias falsas sobre as vacinas provocam na sociedade e ressaltaram a importância de que todas as pessoas busquem imunização junto à rede pública de saúde. Até porque o Programa Nacional de Imunização brasileiro, que foi implantado nos anos 1960, é reconhecido como um dos mais eficientes do mundo.

E enquanto não tem vacina para a Covid-19?

Até que surja uma imunização eficiente, segura e acessível a todos, as recomendações para evitar o contágio pelo novo coronavírus são aquelas que não custa repetir: manter as mãos sempre muito bem higienizadas, com água e sabão ou álcool 70; evitar aglomerações; usar máscara de tecido em ambientes coletivos; manter distância de segurança das outras pessoas; respeitar o distanciamento social dentro das normas de seu município; e, sempre que possível, ficar em casa.

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IFSC VERIFICA

Como a informação pode ajudar a conter uma pandemia?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 26 mai 2020 08:53 Data de Atualização: 26 mai 2020 10:21

Olá! Estamos felizes por apresentar a você o IFSC Verifica, uma ação de extensão que pretende contribuir para o esclarecimento sobre questões relacionadas à pandemia de Covid-19. 

Até dezembro, nossa equipe irá identificar as principais dúvidas dos nossos públicos sobre os mais variados aspectos da pandemia, buscando as respostas junto aos pesquisadores aqui mesmo do IFSC. A ideia é reconhecer, valorizar e aproveitar os saberes dos nossos docentes e técnicos, dando visibilidade ao conhecimento científico produzido pelos servidores da instituição. 

As questões que surgem quando se fala na pandemia de uma doença viral, como é o caso da Covid-19, num primeiro momento podem conduzir automaticamente à área da saúde. Mas muitas outras áreas do conhecimento podem ser acionadas para compreender a grande variedade de aspectos da pandemia, como a psicologia, a nutrição, a tecnologia da informação, a pedagogia, a química, a comunicação, as muitas engenharias, a biotecnologia, a estatística. É um imenso número de saberes contemplados no universo de formação dos nossos pesquisadores.
 


Como participar?

Semanalmente, iremos escolher uma questão enviada pelos nossos públicos por meio das mídias sociais oficiais do IFSC ou pelo e-mail do projeto (verifica@ifsc.edu.br). Não iremos identificar o autor da pergunta, até porque imaginamos que várias pessoas possam fazer encaminhamentos semelhantes – o que, inclusive, vai nos ajudar a perceber a relevância de cada tema.

Com a pergunta formulada, vamos acionar as fontes do IFSC dentro das especialidades necessárias para buscar uma resposta qualificada e clara. Essa resposta será publicada na página do IFSC Verifica, compondo um banco de informações que poderá ser consultado a qualquer momento, na medida em que as postagens se sucederem. 

Que tipos de questões serão respondidas?

Aqui no IFSC Verifica nossa expectativa não é apenas desmentir boatos ou denunciar conteúdo malicioso disseminado com intenção de tumultuar e confundir. Queremos também esclarecer questões que talvez pareçam simples, pueris, ou mesmo retomar aqueles temas que já podem ter sido abordados com bastante frequência, mas ainda despertam algum tipo de dúvida.

Perguntar sempre é válido!

Uso de máscaras, efetividade do álcool em gel, hábitos de higiene e limpeza, formas de contágio, orientações para o dia a dia; ou mesmo dúvidas mais técnicas sobre a forma como o vírus age no organismo, funcionamento de equipamentos hospitalares, fabricação de medicamentos; ou, ainda, questões amplas como os riscos do sentimento de solidão durante o isolamento social. 

Nós sempre vamos procurar diretrizes para responder às muitas questões sobre a pandemia de forma qualificada. Quando, eventualmente, não encontrarmos respostas dentro do IFSC, vamos recorrer a outras fontes, como universidades, institutos federais, instituições de pesquisa e organismos oficiais. O objetivo é encontrar informação qualificada, que parta de fontes confiáveis e devidamente identificadas.

Você já ouviu falar em fact-checking?

Nossa inspiração para o projeto IFSC Verifica vem da prática jornalística conhecida como fact-checking, ou checagem de fatos, que não é propriamente nova, mas vem ganhando visibilidade nos últimos anos.

O site independente FactCheck.org é reconhecido como a primeira iniciativa de fact-checking, lançado em 2003 pelo jornalista norte-americano Brooks Jackson. Com a escalada da desinformação e suas diversas manifestações – como as conhecidas “fake news” -, muitas outras organizações passaram a atuar com fact-checking, seja verificando a precisão das declarações de pessoas públicas (como chefes de estado, candidatos a cargos eletivos e lideranças políticas), seja desmentindo boatos e lendas urbanas que se disseminam pela internet.

No Brasil, algumas dessas iniciativas são o projeto Truco, a Agência Lupa, a Aos Fatos e o projeto Comprova. No âmbito global e voltada especificamente para o cenário da Covid-19, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou há alguns dias o projeto Verified, que vai atuar especificamente no combate à desinformação sobre a pandemia de coronavírus, por meio de newsletter para assinantes.

São duas pandemias para combater, então vamos lá

Convidamos você a compartilhar conosco suas inquietações e nos comprometemos a buscar respostas confiáveis, qualificadas e o mais precisas possível. A informação é uma das armas para acabar com essa pandemia – e de quebra vamos contribuir também para enfrentar outra pandemia grave e desafiadora, que é a da desinformação. Venha conosco!

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