Como está a segunda onda de Covid-19 pelo mundo?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 16 nov 2020 20:42 Data de Atualização: 17 fev 2021 14:44

Enquanto no Brasil se flexibilizam as medidas de isolamento social e se percebe cada vez mais aglomerações em praias, por exemplo, e realizações de festas, algumas partes do mundo revivem o ápice da pandemia. Diante de uma segunda onda de Covid-19, vários países da Europa decretaram lockdowns e toques de recolher para tentar conter o avanço do vírus. Ruas estão novamente vazias e hospitais lotados. Nos Estados Unidos, algumas regiões também passaram a adotar medidas mais severas.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), desde o primeiro caso registrado na China em 1º de dezembro de 2019, já foram mais de 54 milhões de pessoas detectadas com o Sars-CoV-2 e 1 milhão e 317 mil mortes. E os números não param de crescer, levando a OMS a fazer alertas constantes para que os países não relaxem as medidas para contenção da doença. 

Para explicar a segunda onda, conversamos com a doutora em Saúde Coletiva Bárbara Oliveira. Ela foi professora do IFSC até 2018, foi para Europa no ano passado fazer pós-doutorado, passou por três países durante a pandemia e faz parte de grupos de pesquisas sobre a Covid-19. 

Também conversamos com professores e egressos da instituição que estão em diferentes partes do mundo. Eles contam como estão vivendo a pandemia e que medidas os governos adotaram.

Com isso, neste post buscamos responder:

- Que fatores levam a uma segunda onda?

- Ela é igual em todos os lugares?

- Aqui no Brasil, também vivemos uma segunda onda ou ainda nem saímos da primeira?

- É possível uma terceira ou quarta onda?

- O que tem dado resultado no combate à Covid-19 ao redor do mundo?

Outdoor em Braga, Portugal, com quatro homens com máscaras e a frase "Braga fecha a porta ao vírus."

Outdoor em Braga, Portugal.

Fatores que levaram à segunda onda na Europa

O verão na Europa - entre os meses de junho e setembro - é apontado como um dos fatores para o aumento de casos de Covid-19 no continente. Isso porque depois de um inverno com medidas severas para deslocamento, os europeus viram o número de casos despencar no mês de junho. A pesquisadora em Saúde Coletiva Bárbara Oliveira presenciou esse momento no Reino Unido: "Os europeus normalmente ficam ansiosos pela chegada do verão e esse ano mais ainda. Com a queda na curva de transmissão, medidas foram flexibilizadas e fronteiras foram abertas. Foi todo mundo pra praia."

Ela conta que várias regiões já registravam aumento de casos durante o verão, tanto que alguns governos contrataram pessoas que haviam perdido seus empregos durante a pandemia para fiscalizar os locais de veraneio, principalmente se o distanciamento social estava sendo respeitado. Algumas praias foram até interditadas. Mas o vírus já havia voltado a circular com força.

Outros fatores apontados pela epidemiologista para a segunda onda foram o retorno das aulas em escolas primárias e o relaxamento das medidas de restrição social. Bárbara afirma que principalmente os jovens voltaram a se reunir com frequência: "Um grupo em que é alto o índice de assintomáticos. Sem saberem que estão com o vírus, espalham ainda mais."

O resultado é que em vários países da Europa o número de casos diários do novo coronavírus entre o final de outubro e o mês de novembro tem sido até cinco vezes maior do que no ápice da primeira onda, como mostram as curvas de transmissão da Itália, Portugal e Reino Unido. Os gráficos foram gerados pelo professor do Câmpus Lages, Carlos Andrés Ferrero, que coordena o desenvolvimento de um aplicativo para acompanhar a expansão da pandemia pelo mundo com base em dados, por exemplo, do Centro de Pesquisa do Coronavírus da Johns Hopkins University. 

Com o pior cenário da pandemia de volta às cidades europeias, medidas para isolamento social estão novamente sendo exigidas. Até no Reino Unido, que foi um dos últimos países europeus a adotar medidas mais rígidas na primeira onda, decretou um novo lockdown no início de novembro que deve seguir, pelo menos, até dezembro.

A egressa do IFSC Kaká Nicacio está em Londres e conta como estão as medidas para conter o vírus, entre elas o distanciamento social e as multas pesadas para quem desrespeitá-las.

 

A professora do Câmpus Florianópolis-Continente Mariana Kilp está em Portugal para fazer o doutorado. Ela mora em Almada, na região de Lisboa, e conta que neste momento só é permitido sair de casa para ir ao supermercado, farmácia, médico, deslocamento para trabalho que não possa ser feito de casa e atividades físicas próximas à residência. 

Portugal decretou estado de emergência sanitária no dia 9 de novembro e a maior parte do país terá que respeitar um toque de recolher entre 23h e 5h de segunda a sexta-feira e a partir das 13h nos finais de semana. 

"A maioria tem respeitado e me sinto segura aqui com estas medidas", afirma Mariana, que conta ainda que só no último dia 6 de novembro passou a ser obrigatório o uso de máscaras nas ruas - um indicativo de que as regras estão ainda mais rigorosas.

O mesmo ocorreu em Roma, onde o uso de máscaras só passou a ser obrigatório nas ruas a partir de outubro, como afirma no vídeo o egresso do IFSC Cleber Angelo. Ele tem sofrido com a falta de trabalho em uma cidade em que o turismo é uma das principais forças da economia.

 

 

A relação das escolas com a segunda onda na Europa

O retorno das escolas também levou a uma maior testagem de crianças e adolescentes nos países europeus, o que ajuda a explicar, segundo Bárbara, o aumento no número de casos registrados. "A determinação por aqui é que em caso de qualquer sintoma os pais avisem a escola. A vigilância epidemiológica realiza um rastreamento muito intenso. Com isso muitas crianças e adolescentes fizeram o teste - um grupo que não foi testado no primeiro momento da pandemia."

Ela explica que as escolas de ensino fundamental são vistas pela comunidade europeia como essenciais para a retomada da economia, para que os pais possam voltar a seus trabalhos, principalmente os serviços essenciais. Por isso a opção por fechar bares, restaurantes, parques, mas deixar as escolas abertas, garantindo o rastreamento de casos com a realização de testes.

A professora do Câmpus Florianópolis-Continente do IFSC Daniela Carrelas está em Portugal, morando na cidade de Braga para fazer o doutorado. No áudio abaixo ela conta como foi a experiência de retorno das aulas com a filha Sofia, que teve diagnóstico positivo, apesar de assintomática.

 

Segunda onda é mais fraca que a primeira ou pode piorar?

Olhando as curvas de transmissão da doença nos países europeus é possível perceber que as curvas de letalidade na Itália e no Reino Unido, por exemplo, estão abaixo da registrada na primeira onda, ao contrário da curva de novos contaminados. Bárbara afirma que isso não significa que o vírus está mais "fraco". Comunidades científicas ainda pesquisam as mutações do vírus e os reflexos da circulação de novas cepas na população mundial. "Há muitos casos de reinfecção aqui, pessoas que foram infectadas novamente pelo Covid-19 mas outra cepa. Tem pessoas que têm manifestações mais brandas, mas outras que superaram a primeira infecção, às vezes nem apresentaram sintomas, e na segunda estão até morrendo.”

Ela explica que esses números têm relação com o fato de que nestes últimos meses muitas crianças e jovens foram testados, principalmente em função da reabertura das escolas. E este é um grupo em que os efeitos da doença geralmente não são tão severos e a taxa de letalidade é bem menor. E é neste aspecto que ela aponta um grande risco: nessa segunda onda os jovens "estão dando trabalho". Por isso muitos países europeus, afirma, estão ampliando o policiamento, aplicando multas, encerrando festas e até prendendo pessoas.

Bárbara afirma que, infelizmente, o prognóstico em relação à segunda onda na Europa é "terrível", com aumento no número de mortes. Ela afirma que, apesar do índice de letalidade em alguns países no começo da segunda onda ser menor, a partir do momento que esse jovem leva o vírus para sua família, para pessoas idosas, com comorbidades, o risco aumenta muito, principalmente em regiões com uma população muito idosa. Isso já ocorre em Portugal, onde as curvas de novos casos e de mortes estão bem próximas e bem mais acentuadas do que na primeira onda. "Já esperamos na Europa um pico de mortalidade em janeiro."

-> Veja aqui quais são os fatores de risco.

Na Itália, um dos países mais afetados pela Covid-19, o Instituto Superior de Saúde (ISS) alertou na primeira semana de novembro que o país caminha para uma "rápida piora" da pandemia e que a situação pode se tornar "incontrolável" em breve.

 

E no Brasil, estamos na primeira ou na segunda onda?

Tanto a pesquisadora Bárbara Oliveira como a professora de Enfermagem do Câmpus Joinville Josiane Steil afirmam que o Brasil nem passou da primeira onda. O que caracteriza o fim de um ciclo de transmissão do vírus é a queda consistente e acentuada no número de casos, o que não ocorreu no país como um todo. A curva, como mostra o gráfico abaixo, continua em um patamar alto, com uma média de 500 mortes por dia.

 

“Em Santa Catarina, por exemplo, não ocorreu uma queda expressiva, até houve uma diminuição, mas uma diminuição que não se manteve. A gente voltou a ter regiões com estado gravíssimo”, afirma Josiane.

Bárbara acrescenta que a Covid-19 é uma doença silenciosa, por conta do grande número de pessoas sem sintomas ou sintomas brandos e que não entram nas estatísticas. Ou seja, o número de casos não reflete a realidade de casos - é o que se chama de subnotificação, por isso apenas com a testagem em massa é possível identificar grupos e regiões onde há maior transmissão. Ela alerta ainda que o Brasil testa pouco e testa mal. "O PCR (da mucosa nasal) é o teste padrão ouro - o que mais se faz na Europa e o que menos se faz no Brasil, onde são realizados mais testes rápidos. O teste rápido não é considerado na Epidemiologia como teste diagnóstico", explica. 

O teste com a gotinha de sangue verifica se a pessoa tem o anticorpo imunoglobulina para o novo coronavírus. "O problema é que esse vírus é muito estranho. Acontece que muitas pessoas, principalmente as que não apresentam sintomas, não desenvolvem a imunoglobulina G, que é o anticorpo de longa duração. A pessoa faz o teste e dá negativo.”

-> Neste post explicamos os testes.

 

Segunda onda é igual em todos os lugares?

Aqui no Brasil recebemos muitas notícias sobre a segunda onda na Europa. Mas antes do avanço da doença por lá, já era registrado o aumento de casos em outros continentes. Na Austrália, por exemplo, começou em julho.

Entre os motivos apontados estão a abertura de fronteiras, a maior circulação de turistas e o desrespeito às medidas determinadas pelo governo. O egresso do IFSC Guilherme Wypyszynski Walter mora em Brisbane, na Austrália, e conta que as punições por lá estão sendo rigorosas para quem não respeitar o isolamento, inclusive com prisão para quem descumprir a quarentena ao chegar de determinados destinos. No vídeo, Guilherme mostra um pouco das medidas adotadas, como o rastreamento de infectados. 

 

 

A testagem em massa e o exemplo dos Emirados Árabes

O rastreamento de casos de Covid-19 é tido como central para conter a doença. Em março, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, OMS, Tedros Ghebreyesus, já apelava a todos os países para que realizassem mais testes do novo coronavírus, dizendo que “não se pode conter esta pandemia sem saber quem está infectado" e repetiu muitas vezes: “testem, testem, testem.” 

Alguns países seguiram essa medida, como os Emirados Árabes. Foi um dos que mais testou no mundo. Veja abaixo o comparativo:

 

Testes para detectar a Covid-19 podem ser feitos até em shoppings dos Emirados Árabes, e de graça. E como revelam os números, muitas pessoas fizeram teste mais de uma vez. É o que conta a egressa do IFSC Brenda Salomé, que mora em Fujairah, desenvolvendo novos produtos gastronômicos. Ela afirma que o rastreamento por lá é intenso e as regras de distanciamento social são cumpridas à risca. Morando num país que é exemplo de combate ao vírus, ela diz que ficou preocupada com a situação no Brasil e há três meses levou a mãe para morar lá também.

No vídeo abaixo ela conta como está sendo viver no país árabe e mostra que é possível usar máscara no calor (lembrando que lá é deserto!) e fazer distanciamento. Aí vai um spoiler: no vídeo há imagens da inauguração da fonte de Dubai com centenas de pessoas distantes umas das outras. Confira:

 

 

Fazendo mais testes, o objetivo é isolar estas pessoas infectadas, protegendo principalmente os grupos de risco. E por fazer mais testes, mais casos da doença são registrados. Ao analisar o gráfico de transmissão da doença nos Emirados Árabes percebe-se a diferença acentuada entre as curvas de contaminados e de óbitos após a primeira onda de Covid-19. 

 

No vídeo, a Brenda comenta que a vacina já está sendo aplicada nos Emirados Árabes. É isso mesmo. Em setembro, o governo emitiu uma aprovação de emergência para a vacina experimental da empresa farmacêutica chinesa Sinopharm contra a Covid-19 para profissionais de saúde. E no dia 3 de novembro o primeiro-ministro e vice-presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohammed bin Rashid Al-Maktoum, publicou foto em seu Twitter anunciando que também tomou a vacina experimental.

 

Terceira ou quarta onda podem acontecer?

O Irã por exemplo está enfrentando a terceira onda de Covid-19, desta vez ainda mais letal. Bárbara afirma que enquanto não houver uma vacinação em massa as ondas de transmissão acontecerão. Mas ela lembra que a vacina, quando for aprovada, vai primeiro para profissionais da saúde e grupos prioritários, provavelmente serão duas doses e depois ainda terá que se avaliar quais as cepas que estão circulando. "É como a Influenza, o vírus se adapta. Todo ano se vê qual a cepa que está circulando e produz a vacina específica. Com o Sars-CoV-2 será o mesmo. Isso vai levar muito tempo. A gente não sabe ainda quanto tempo a vacina deixará a gente imune."

Leia mais sobre isso no post Quando tivermos vacina, não teremos mais pandemia?

Bárbara conta que na Europa há universidades trabalhando com a possibilidade de não voltar com aulas presenciais até 2022. "A própria OMS tem focado muito em outras medidas além do confinamento. A gente já sabe que a principal forma de infecção é o contato das mãos no rosto. Por isso o principal é mudança de comportamento. Precisamos aprender a lidar com o vírus, deixar de fazer muitas coisas que gostamos. O distanciamento social tem que ser um pacto coletivo, como as campanhas de vacinação", completa Bárbara.

 

Medidas são diferentes pelo mundo?

As especialistas ouvidas para esse post, assim como as professoras e os egressos, são unânimes em destacar como muito positivas as campanhas de prevenção nos diferentes países, com outdoors nas ruas, cartazes em shoppings e indicações até nas calçadas, com a distância recomendada e o sentido dos pedestres.

Bárbara afirma que na Europa o foco é conscientização: como usar máscara e como higienizar as mãos. "Por todo lado nas ruas tem dispenser de álcool gel". Outros pontos são o distanciamento social, o respeito às normas adotadas pelos países, a punição em caso de desrespeito e o rastreamento, com muitos testes, para assim isolar as pessoas infectadas.

A segunda onda reforça que não é hora de relaxar nas medidas para conter a disseminação do vírus.

 

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