Testar ou observar sintomas? Como saber se eu estou com o vírus?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 15 dec 2020 14:32 Data de Atualização: 17 fev 2021 15:20

Quem tem alergias respiratórias já teve ter levado alguns sustos nestes tempos pandêmicos: sintomas como dor de garganta, espirros e tosse, que são sinais de alerta para a Covid-19, também são bem comuns entre portadores de rinite ou asma, por exemplo. Com as temperaturas em alta, ventiladores e aparelhos de ar-condicionado voltam a funcionar nas residências e locais de trabalho, aumentando o risco de as pessoas suscetíveis apresentarem esses sintomas.

Com o quadro da pandemia em agravamento crescente nas últimas semanas – em Santa Catarina, 14 regiões permanecem em nível gravíssimo para o contágio – é bem provável que, se você não foi infectado pelo novo coronavírus, pelo menos conheça alguém que já ficou doente. E em qualquer manifestação de sintomas respiratórios, mesmo que sejam leves, inevitavelmente surge a inquietação: será que fui infectado?

No post de hoje, nós resolvemos retomar informações já abordadas aqui no IFSC Verifica relacionadas a sintomas e diagnóstico. Já estamos convivendo com o Sars-Cov-2 há quase um ano e as informações a respeito dele e da Covid-19 têm ampla circulação. Mas, dada a situação atual, é prudente retomar as orientações sobre cuidados.

Ao longo da leitura, você vai entender:

- O que fazer caso apresente algum sintoma respiratório que possa estar associado com a Covid-19;

- Quando é indicado realizar o teste para fazer o diagnóstico;

- Como funcionam os diferentes tipos de testes e em que situações eles são mais indicados.

Acho que posso estar com Covid-19. O que devo fazer?

Se você está apresentando algum sintoma, o ideal é procurar o serviço de saúde de seu município para receber orientação. A biomédica Mariele Abadia Elias, técnica do laboratório de Biotecnologia do Câmpus Lages, considera que isso deve ser feito mesmo nos casos em que a pessoa esteja saindo de casa muito pouco e observando os cuidados de prevenção (uso de máscara, higiene das mãos, distância física).

“A maioria dos municípios tem algum canal específico para esse atendimento, em que as pessoas ligam, informam os sintomas, e assim o pessoal da Vigilância em Saúde orienta e acompanha esses casos. Além da orientação para o paciente, eles também vão fazer um diagnóstico epidemiológico, vão questionar se a pessoa saiu, com quem conviveu nos últimos dias, se alguma dessas pessoas estava com coronavírus”, afirma. Esse atendimento é que vai definir a necessidade da realização de um teste.

Não é porque sua tosse é leve ou a dor de garganta muito sutil que os sintomas devem ser negligenciados. “Um complicante que nós temos é a subnotificação. Como tem muitas pessoas assintomáticas, a gente não tem o número real de casos. E se uma pessoa sente os sintomas, mesmo leves, e não fala para ninguém, a situação só piora, porque ela não vai entrar nas estatísticas. E, além disso, continua transmitindo o vírus. Então é importante sempre procurar ajuda”, ressalta Mariele, que é especialista em biotecnologia e bioprocessos e iniciou sua formação na área no curso técnico em Biotecnologia do Câmpus Lages.

-> Entenda o que são pacientes pré-sintomáticos, assintomáticos e sintomáticos.

Para cada estágio da doença, um teste

Já explicamos neste post que há diferentes testes que servem para diagnosticar a Covid-19, com basicamente dois métodos: os testes diretos, que buscam encontrar o vírus propriamente dito, e os indiretos, que detectam a presença de anticorpos no organismo – ou seja, indícios de que o vírus está ou já esteve no organismo. De acordo com a biomédica Mariele Abadia Elias, o teste considerado padrão ouro (de referência) é o chamado PCR (polymerase chain reaction). O exame é feito numa amostra de material biológico do paciente, coletada com um “swab” (espécie de haste de algodão, mais longa) pela nasofaringe. “A partir desse material, é procurado o material genético do vírus, que é o RNA. Pelo teste PCR, que usa uma técnica de biologia molecular, eu vou identificar se o vírus está presente ou não no material analisado”, detalha.

Segundo Mariele, o PCR é capaz de detectar o Sars-Cov-2 a partir do segundo ou terceiro dia de início dos sintomas, até o final do ciclo da doença. “Para você detectar o vírus, é preciso que ele esteja presente numa quantidade significativa. Então o PCR, por ir direto no material genético do vírus, acaba sendo o mais indicado”.

A partir do oitavo dia do início dos sintomas, pode-se utilizar os métodos indiretos, que investigam a presença de anticorpos. “Nesses testes eu não estou procurando o vírus, e sim um vestígio de que o vírus está ali ou passou por ali, que são os anticorpos que o nosso corpo produz”, explica. O chamado “teste rápido” pode ser encontrado até mesmo em farmácias e é mais barato que o PCR – porém, costuma dar índice alto de falsos negativos.

Uma peculiaridade do teste rápido (ou sorológico) é que ele é capaz de, com alguma precisão, indicar o estágio da doença. Isso porque ele detecta, no soro (parte líquida do sangue) do paciente, duas imunoglobulinas: IgM e IgG. “O IgM é um anticorpo que geralmente aparece no início das doenças, é a primeira resistência do nosso corpo, digamos assim. Já o IgG aparece no final da doença, e até após. Ele é um anticorpo de memória, o vestígio que o nosso corpo guarda, para o caso de entrar em contato novamente com o vírus e poder lidar com ele”, explica Mariele. “Se a pessoa está com IgM, então ela está numa fase em que provavelmente está transmitindo o vírus, sentindo sintomas. Mas quando ela está apenas com IgG, significa que ela já teve contato antes com o vírus, pode ter sido assintomática, mas já teve algum tipo de contato. Então, o teste rápido é útil nesse sentido, de mostrar quem já teve contato com o vírus”, observa.

Outro tipo de pesquisa indireta é o teste tipo Elisa, que procura identificar, além do anticorpo IgG, o IgA. “O IgA também é uma imunoglobulina que existe nas mucosas e secreções, encontrada em locais onde o novo coronavírus acaba se alojando. Os kits Elisa para teste de Covid-19 vêm com essa possibilidade de dosar o IgA, porque ele tem sido encontrado antes que o IgM em casos de coronavírus”, explica. “Este é um bom exemplo de que quanto mais se conhecem as características do vírus, também podemos chegar a novas formas de testagem”, acrescenta Mariele.

Meu teste deu negativo. Posso relaxar?

O momento é de pandemia e ninguém pode relaxar. O fato de uma pessoa ter resultado negativo não significa que ela seja imune ao vírus – ou seja, deve manter os cuidados de prevenção para evitar o contágio. “Muita gente pensa ‘ah, meu teste deu negativo, posso voltar pra minha vida normal’. E então acaba se contaminando e transmitindo o vírus para outras pessoas”, comenta Mariele. 

E mesmo que alguém teste positivo, desenvolva a doença e se recupere, essa pessoa também não deve fazer planos de “vida normal”. Ainda que, por algum tempo, seu organismo mantenha anticorpos, ela pode transportar o vírus e causar a infecção em outras pessoas. “Às vezes você pode ter desenvolvido uma imunidade, ter IgG suficiente e seu corpo lidar com o vírus. Mas você pode carrear esse vírus para dentro de casa, contaminando superfícies, por exemplo. E assim acaba expondo pessoas que não têm a mesma proteção. Então o vírus acaba sendo transmitido de uma forma indireta, mas que também é um risco”, explica a biomédica.

O ideal seria conseguir testar as pessoas e elas se manterem em isolamento social, tomando todas as precauções que são necessárias. Dessa forma a gente teria uma situação melhor do que a que temos hoje. Frase de Mariele Abadia Elias, biomédica, servidora técnico-administrativa do Câmpus Lages.

A estratégia da testagem em massa pode ser efetiva?

Sim, há experiência de testagens em massa na população que deram resultados positivos na compreensão e na contenção da pandemia. Um estudo publicado no início de dezembro no periódico The Lancet usa o exemplo da Eslováquia, país com cerca de 5,5 milhões de habitantes na Europa Central: em outubro, 3,6 milhões de pessoas (65% da população) foram testadas para a Covid-19, com pouco mais de 38 mil casos positivos identificados.

-> Leia o estudo publicado na The Lancet.

De acordo com o estudo, a testagem em massa permitiu que o país mapeasse a situação da pandemia e redirecionasse estratégias; porém, o texto também enfatiza a necessidade de que os casos identificados efetivamente se mantenham em isolamento para interromper as cadeias de transmissão. Nos Emirados Árabes também houve testagem em massa, com resultados positivos na contenção da pandemia, como mostramos neste post.

A biomédica Mariele Abadia Elias salienta que a testagem em massa – estratégia não adotada no Brasil – somente seria eficaz com a adoção simultânea de medidas preventivas, mantendo os diagnosticados em isolamento e orientando toda a população a tomar os cuidados necessários com distanciamento, higiene e uso de máscaras faciais. “A testagem em massa, sozinha, não consegue resolver a pandemia sem os demais cuidados”, observa.

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