O que já aprendemos sobre a Covid-19?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 22 dec 2020 14:27 Data de Atualização: 17 fev 2021 15:31

Em dezembro de 2019 era descoberto na província de Wuhan, na China, um vírus com grande potencial de disseminação entre os humanos. De lá para cá, o mundo já contabiliza mais de 77 milhões de pessoas infectadas e mais de 1,7 milhões de mortes.

A pandemia sem precedentes de Covid-19, a doença causada pelo vírus Sars-Cov-2, colapsou sistemas de saúde em todo o mundo e colocou cientistas e profissionais de saúde em alerta: como combater um vírus que se dissemina com tanta velocidade e deixa tantas vítimas?

Um ano após os primeiros casos, ainda são muitas as incógnitas, mas a ciência e a prática em saúde já podem dizer que encontraram algumas respostas. Além da vacina, que já está sendo administrada por alguns países, o melhor manejo dos pacientes em estado grave ou com sintomas leves está ajudando a salvar vidas e minimizar as consequências da doença.

Já está comprovado que hábitos de higiene, principalmente a lavagem das mãos, o uso de máscaras e o distanciamento social ainda são os principais meios de prevenção. Além disso, evitar ambientes fechados ou com ventilação precária também reduz os riscos de contaminação.

O que a ciência e profissionais da saúde têm aprendido com a epidemia e que lições vão ficar em termos de aprendizado científico?

No post de hoje, vamos falar sobre algumas lições aprendidas durante a pandemia:

- O que já aprendemos sobre o tratamento de pacientes com sintomas leves

- O que já aprendemos sobre tratamento de pacientes com sintomas graves

- O que aprendemos sobre hábitos de higiene

- O que aprendemos sobre ventilação de ambientes

- O que a ciência e as equipes de saúde aprenderam com a pandemia

- O Brasil aprendeu com os demais países?

Como é o tratamento dos sintomas leves da Covid-19

Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), 40% dos pacientes de Covid-19 apresentam sintomas leves da doença, 40% apresentam a forma moderada, 15% progridem para a doença grave e 5% chegam ao estado crítico. Há a preocupação em tratar doentes em estado grave e crítico, mas também em desenvolver cuidados para quem tem a forma leve ou moderada para não haver agravamento e evitarem-se as sequelas.

-> Saiba o que são sequelas e sintomas prolongados da Covid-19

Sobre o tratamento para sintomas leves ou tratamento precoce (nos primeiros dias dos sintomas), a professora do curso técnico em Enfermagem do Câmpus Joinville do IFSC, Joanara Winters, explica que muitos remédios foram testados para o tratamento da Covid-19, porém, não há comprovação de nenhuma medicação eficaz. “Não existe na literatura nenhum medicamento que trate a Covid-19, mesmo sendo em sintomas leves”, alerta.

Para os pacientes que têm sintomas leves e não precisam de hospitalização, a professora recomenda repouso: “O paciente que está em casa precisa se resguardar, como se fosse uma gripe. Se ele tem algum sintoma gripal, deve ficar em repouso e tomar bastante líquido”. Medicamentos que tratam sintomas específicos são os mais recomendados.

- > Saiba como cuidar de um paciente com Covid-19 em casa

A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) não recomenda tratamento precoce com qualquer medicamento sem comprovação científica (cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, nitazoxanida, corticoide, zinco, vitaminas, anticoagulante, ozônio por via retal e dióxido de cloro). 

O que a SBI recomenda é o monitoramento dos pacientes com sintomas leves e que estão se tratando em casa com a medição periódica do oxigênio no sangue (oximetria) para se evitar a hipóxia (falta de oxigênio no sangue) especialmente em pacientes com fatores de risco. Essa prática tem como objetivo evitar a hipóxia silenciosa, ou seja, quando a pessoa tem falta de oxigênio no sangue mas não sente falta de ar. O risco da hipóxia silenciosa é a pessoa não perceber que está piorando e só procurar ajuda em estado crítico.

-> Leia mais no Comunicado da SBI

-> Saiba mais sobre fatores de risco

-> Leia as informações da OMS sobre mitos no combate à Covid-19 (em inglês)

O que já aprendemos sobre tratamento de pacientes com sintomas graves

Segundo a professora Joanara, no início da pandemia, o que se sabia era que a Covid-19 era uma doença respiratória, que afetava o sistema pulmonar. Assim, houve uma corrida para aquisição de ventiladores pulmonares, equipamentos imprescindíveis para o tratamento de pacientes mais graves. 

-> Entenda como funciona uma UTI para pacientes de Covid-19, o uso de respiradores e seus riscos

Com o passar do tempo, as equipes foram entendendo melhor a forma como a doença evolui. “Vários tratamentos que a gente já utilizava antes, começamos a desenvolver dentro da UTI para melhorar a função pulmonar do paciente”, destaca a professora. Dessa forma, passou-se a perceber que, com o uso de certos medicamentos e procedimentos, foi possível evitar o uso de respiradores em um grande número de casos, diminuindo assim infecções decorrentes da intubação. 

“Vários tratamentos que a gente já utilizava antes, começamos a desenvolver dentro da UTI para melhorar a função pulmonar do paciente”, Joanara Winters, professora do curso técnico em Enfermagem do Câmpus Joinville do IFSC

Um procedimento que ganhou destaque foi o método de pronação, ou seja, deixar o paciente de bruços, com o objetivo de melhorar a capacidade pulmonar. Esse procedimento, aliado à medicação no momento correto, manobras fisioterápicas, entre outros, contribuem para melhores resultados. 

Assim, com o passar dos meses, os profissionais que atuam em UTIs começaram a perceber que a mortalidade dos pacientes internados por Covid-19 passou a diminuir em relação ao início da pandemia.

Veja no vídeo a explicação completa da professora Joanara sobre a evolução do atendimento em UTIs:

Quais são os hábitos de prevenção já consolidados para a prevenção da Covid-19?

Um conhecimento já consolidado sobre a Covid-19 é a adoção de hábitos de higiene e uso da máscara, que segundo cientistas e profissionais da saúde, deve se manter mesmo depois da aplicação da vacina em larga escala. 

Porém, Joanara acredita que nem todas as pessoas vão aderir a esses hábitos. Ela observa que a população ainda não entendeu a seriedade dessas práticas, que previnem a Covid-19 e muitas outras doenças. “Infelizmente, estamos passando, nesse momento, por uma situação extremamente grave, epidemiologicamente falando, e a população está fazendo festa, não está usando máscara, e a gente está vivendo um caos no Sistema Único de Saúde”, alerta. 

A professora faz uma comparação entre a pandemia de Covid-19 no Brasil e o surgimento do vírus HIV nos anos 90. Quando o HIV foi descoberto, houve uma grande conscientização sobre a prevenção. Quando começaram a ser usados os coquetéis de medicamentos, que garantem uma sobrevida aos pacientes, houve um “relaxamento” na prevenção, os jovens passaram a não usar mais camisinha e não há mais tantas campanhas. Com isso, viu-se crescer o índice de HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), como a sífilis. 

“Hoje as pessoas já não usam máscara, já têm uma dificuldade na lavagem das mãos. Então, infelizmente, quando vier a vacina, a população vai relaxar. Acho que não vai ter uma mudança significativa de as pessoas se conscientizarem”, prevê a professora.

-> Veja como realizar a higiene correta das mãos e ambientes

No vídeo, a professora destaca a importância de se continuar com os cuidados de prevenção:

O que aprendemos sobre a ventilação de ambientes

As formas de transmissão foram uma das primeiras preocupações dos cientistas durante a pandemia. Já é consenso que aglomerações de pessoas em lugares fechados e com ventilação precária é uma forma de transmissão significativa. 

O professor Jesué Graciliano da Silva, do curso técnico em Ar-Condicionado e Refrigeração do Câmpus São José do IFSC, aponta que os estudos já demonstraram que a contaminação se dá principalmente pelo contato direto entre pessoas, há pouca comprovação científica de que o ar-condicionado esteja contribuindo para essa contaminação. 

O que se sabe, segundo o professor, é que o mau uso dos aparelhos de condicionamento de ar pode contribuir para a propagação do vírus, principalmente quando não têm a manutenção adequada e não garantem as taxas de renovação de ar exigidas pela legislação. "Sempre há o risco de uma pessoa contaminada espirrar em um ambiente climatizado. O jato de ar de insuflamento pode espalhar as microgotículas decorrentes do espirro. Cada espirro pode liberar milhares de gotículas contaminadas de diâmetro da ordem de um a 10 micrômetros de diâmetro. Boa parte das gotículas maiores acabam caindo por gravidade. Mas as gotículas menores podem ficar em suspensão por horas. Por isso é importante garantir a renovação de ar abrindo janelas se necessário", explica o professor.

O cuidado com o ar-condicionado, limpeza, dimensionamento, fluxo correto de ar, entre outras especificações técnicas tem recebido mais cuidados durante a pandemia. Novas normas não foram criadas, mas Jesué acredita que está havendo mais atenção para o uso correto e fiscalização do uso desses equipamentos em ambientes comerciais e no transporte coletivo. “Não houve expedição de novas normas. O que houve é que as agências, associações, elas emitiram pareceres técnicos, fizeram muitas lives, reuniões, para discutir possibilidades. De tudo o que foi trazido, não houve nenhuma novidade, mas está havendo mais atenção”, afirma.

-> Saiba se é seguro andar de ônibus e avião durante a pandemia

Utilizar aparelhos adequados e na dimensão correta para cada tipo de ambiente, seguir um plano de limpeza periódica e evitar que o estabelecimento atenda além da sua capacidade de lotação são medidas que garantem a segurança do uso da climatização.  

O que a ciência e as equipes de saúde aprenderam com a pandemia

Segundo Joanara, a pandemia trouxe muitos conhecimentos e práticas que serão consolidadas na área da saúde e no ensino. Ela observa um avanço muito grande no que diz respeito à pesquisa na área de saúde. A necessidade de combater a pandemia despertou em vários profissionais o desejo de realizar pesquisas e uma união entre profissionais e cientistas. Além disso, houve uma “quebra de paradigmas” em avanços tecnológicos e na forma de cuidar de pacientes. 

Outra mudança importante foi a intensificação do uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) entre os profissionais da saúde, com o uso mais regrado. Além disso, a lavagem das mãos no ambiente hospitalar está sendo mais rigorosa, tanto para profissionais de saúde quanto para pacientes e familiares. “Várias coisas vieram para ficar, para mudar e talvez melhorar o serviço de saúde de maneira geral”, afirma Joanara. Os respiradores, novos leitos de UTI e todo o investimento realizado na rede hospitalar será um ganho futuro, que ficará mesmo após a pandemia, segundo a professora.

Artigos científicos sendo publicados, pesquisas colaborativas, compartilhamento de informações entre instituições de pesquisa e mesmo entre países geraram “uma explosão de conhecimento”, que tende a se manter mesmo após a pandemia.

O Brasil aprendeu com os demais países?

O Brasil não foi um dos primeiros países a ter casos de Covid-19. A onda de contaminação que começou na China atingiu fortemente a Europa antes de chegar à América do Sul. Porém, isso não foi suficiente, segundo a professora Joanara, para o Brasil se preparar adequadamente para a pandemia. 

Houve um esforço inicial do Ministério da Saúde, mas que não se concretizou em ações mais efetivas. “O nosso Ministério da Saúde deveria ser o órgão máximo que desse as diretrizes para todos os estados e municípios e onde a gente baseia todos os protocolos de saúde. Nós tínhamos isso no início, mas depois se perdeu”, explica a professora. 

Assim, cada estado ou município utilizou seus próprios protocolos de medidas restritivas. “A gente não aprendeu o que a gente viu lá fora. Estamos em um nível de risco altíssimo e não deveríamos estar em um colapso do Sistema Único de Saúde e do Sistema em geral se a gente já passou por isso lá atrás. Deveríamos estar em um momento de tranquilidade, mas não estamos”, alerta.

“A gente não aprendeu o que a gente viu lá fora. Estamos em um nível de risco altíssimo e não deveríamos estar em um colapso do Sistema Único de Saúde e do Sistema em geral se a gente já passou por isso lá atrás. Deveríamos estar em um momento de tranquilidade, mas não estamos”, Joanara Winters, professora do curso técnico em Enfermagem do Campus Joinville do IFSC

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